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Significado Bíblico
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O que significa "trevas" (skotos) na Bíblia?

O que significa a palavra trevas na Bíblia?

A palavra no original

σκότος

skotos · Strong G4655

escuridão, ausência de luz

Tudo isto ao mesmo tempo

  • escuridão física, ausência de luz (sentido literal e mais básico)
  • ignorância espiritual, falta de conhecimento de Deus
  • domínio moral do pecado e da conduta que rejeita a luz
  • esfera ou poder espiritual hostil, oposto ao Reino de Deus
  • juízo escatológico, exclusão da presença de Deus ('trevas exteriores')

Resposta curta

A palavra grega skotos (σκότος) aparece dezenas de vezes no Novo Testamento e significa, no sentido mais simples, escuridão ou ausência de luz. Mas a tradução "trevas" carrega bem mais do que isso: nos evangelhos e nas cartas apostólicas, o termo descreve também a ignorância espiritual de quem não conhece a Deus, o domínio moral do pecado e até poderes espirituais que se opõem ao Reino de Deus.

Por isso a Bíblia fala em sair "das trevas para a luz" (; ) não como uma mudança de iluminação, mas como uma virada de vida inteira - de ignorância para conhecimento, de escravidão ao pecado para liberdade, de separação de Deus para comunhão com ele. Entender skotos ajuda a perceber que, para os primeiros leitores do Novo Testamento, luz e trevas eram categorias morais, não apenas físicas.

Onde a palavra aparece

Como isso aponta para Jesus

Trajetória do texto

O contraste entre luz e trevas atravessa toda a Escritura - desde a separação da luz e das trevas em até a promessa profética de um povo que andava em trevas e veria grande luz (). O Novo Testamento lê essa trajetória como cumprida na pessoa de Jesus: ele se apresenta como a luz do mundo (), e Paulo descreve a criação da fé no coração humano como um ato análogo à criação original, afirmando que o mesmo Deus que disse à luz que resplandecesse das trevas é quem resplandeceu no coração dos crentes (). Por isso, quando descreve os cristãos como chamados das trevas para a maravilhosa luz de Deus, o texto não inventa uma metáfora nova, mas aplica a Cristo o ponto de chegada de um tema que já vinha se desenvolvendo desde a criação e os profetas: a luz que vence as trevas é, no fim, a própria pessoa de Jesus.

Respaldo no Novo Testamento: ;

De onde vem a palavra

A palavra σκότος (skotos) é um substantivo comum do grego antigo, usado muito antes do Novo Testamento para designar simplesmente a escuridão - a falta de luz durante a noite, dentro de uma caverna, ou em qualquer lugar sem iluminação. Escritores gregos clássicos já usavam a oposição luz/trevas como metáfora de conhecimento e ignorância; Platão, por exemplo, construiu toda a alegoria da caverna em torno dessa mesma imagem: sair da escuridão para a luz do sol representa a passagem da ignorância ao verdadeiro conhecimento. Esse uso figurado, portanto, não nasceu com os autores bíblicos - já circulava na cultura grega mais ampla.

O que muda de forma decisiva é a Septuaginta, a tradução grega do Antigo Testamento usada pelos judeus de língua grega e, depois, pela igreja primitiva. Os tradutores da Septuaginta escolheram skotos para verter o hebraico choshek (חֹשֶׁךְ), a palavra que abre a Bíblia em , descrevendo as trevas sobre a face do abismo antes da criação da luz. Com isso, skotos herdou também a carga teológica do hebraico: trevas como o estado anterior à ordem criada por Deus, imagem do caos, do juízo e, em textos proféticos, do dia do Senhor.

Quando os autores do Novo Testamento usam skotos, eles operam sobre essa base dupla - a metáfora grega comum de ignorância e a carga hebraica de caos e juízo - mas acrescentam um elemento novo e mais pessoal: trevas como domínio ativo, quase um território, sob autoridade hostil a Deus (; ). Não é mais apenas uma condição impessoal de escuridão, mas uma esfera à qual pessoas pertencem ou da qual são resgatadas. Esse deslocamento - de metáfora filosófica e de fenômeno cósmico para condição existencial e moral de uma pessoa diante de Deus - é o que torna o uso bíblico de skotos distinto tanto do grego pagão quanto, em parte, da tradição hebraica que o antecede.

Aprofundamento

No Novo Testamento, skotos funciona em pelo menos quatro registros que se sobrepõem, e é importante não reduzir a palavra a um único sentido.

O primeiro é o mais concreto: escuridão física ou temporal. Em , as trevas que cobrem a terra durante a crucificação são um fenômeno visível, associado a juízo divino sobre o momento da morte de Jesus - um sinal cósmico, não uma qualidade moral do próprio evento.

O segundo registro é epistemológico: trevas como ignorância de Deus. aplica a ao ministério de Jesus na Galileia, descrevendo um povo que vivia em trevas e viu grande luz - aqui trevas qualifica um povo sem conhecimento revelado, não pecadores especialmente maus. É o mesmo sentido que retoma ao descrever a missão de Paulo como abrir os olhos dos gentios, convertendo-os das trevas à luz.

O terceiro registro é moral: trevas como domínio do pecado e da conduta que rejeita a luz. pede que os cristãos rejeitem as obras das trevas - aqui a palavra qualifica ações concretas (embriaguez, disputas, inveja, conforme o restante do capítulo), não apenas um estado cognitivo.

O quarto registro é o mais carregado teologicamente: trevas como domínio ou poder quase pessoal. fala do poder das trevas do qual os crentes foram resgatados para o Reino do Filho amado de Deus; fala dos dominadores destas trevas junto com principados e potestades. Aqui skotos não é mais apenas uma condição do indivíduo, mas uma estrutura espiritual mais ampla à qual a pessoa pertencia antes da conversão.

Há ainda um uso técnico digno de nota: a expressão "trevas exteriores" (skotos to exōteron), que aparece três vezes em Mateus (8:12; 22:13; 25:30), sempre em parábolas de juízo, descrevendo o destino de quem é excluído do banquete messiânico. É uma imagem de exclusão da alegria e da presença, mais do que uma descrição geográfica ou física de um lugar.

O que une esses quatro registros não é uma definição única, mas um padrão de contraste: em quase todo uso neotestamentário, skotos aparece ao lado - explícita ou implicitamente - de phos (luz), formando um par que estrutura a ética e a soteriologia do Novo Testamento. Ser filho das trevas ou filho da luz () não é questão de temperamento, mas de pertencimento: a que domínio, a que conhecimento, a que autoridade a pessoa está ligada. Compreender essa amplitude evita dois erros comuns: reduzir trevas só a uma força mística externa, ignorando sua dimensão ética, ou reduzi-la só a metáfora de mau comportamento, ignorando a dimensão de poder e domínio que os textos também afirmam.

O que costumam dizer errado3 afirmações
  • Dizem que:Trevas na Bíblia é só uma forma poética de falar da noite ou da escuridão física.

    Na maior parte das ocorrências no Novo Testamento, skotos qualifica uma condição moral e espiritual - ignorância de Deus, domínio do pecado, poder hostil - e não apenas a ausência de luz solar; textos como e tratam de conduta e conhecimento, não de iluminação.

  • Dizem que:'Trevas exteriores' em Mateus é uma descrição geográfica de um lugar específico fora de Jerusalém ou do templo.

    A expressão aparece só em parábolas de juízo (; 22:13; 25:30) e comentaristas do evangelho, como D. A. Carson, a leem como imagem de exclusão do banquete messiânico e da presença de Deus, não como referência a uma localização física conhecida.

  • Dizem que:'Poder das trevas' é o nome bíblico de Satanás, como se fosse um título pessoal dele.

    Nos textos onde aparece (; ), a expressão designa um domínio ou esfera de autoridade à qual pessoas pertencem ou de que são resgatadas, não um nome próprio; a Bíblia não usa skotos como título para uma figura espiritual específica.

Como diferentes tradições cristãs leem4 leituras

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • Católica

    Trevas é lida como privação do bem, não como uma substância própria do mal, seguindo a leitura agostiniana clássica; a treva moral é ausência da graça, vencida pela luz de Cristo mediada pela vida sacramental da Igreja.

  • Reformada

    Trevas descreve o estado de depravação total do ser humano caído, incapaz por si mesmo de buscar a luz; a passagem das trevas à luz () é lida como obra soberana de Deus na regeneração, não como decisão humana anterior.

  • Pentecostal

    'Poder das trevas' e expressões correlatas (; ) são lidas como referência a hierarquias espirituais reais e ativas, contra as quais o crente resiste em oração e no exercício de autoridade espiritual.

  • Luterana

    Trevas é lida como escravidão da vontade ao pecado: o ser humano não caminha das trevas à luz por esforço próprio, mas somente pela proclamação da Palavra, que gera fé onde antes havia apenas escuridão espiritual.

O que fazer com isso

Perceber que a Bíblia usa "trevas" para descrever mais que falta de luz ajuda a reler frases como "andar em trevas" sem reduzi-las a moralismo. Antes de cobrar comportamento de alguém, vale perguntar o que essa pessoa ainda não viu ou não conhece sobre Deus - porque no Novo Testamento a saída das trevas normalmente começa por conhecimento, não por esforço. Isso muda como se conversa sobre fé com alguém que ainda está no escuro: menos correção, mais explicação paciente do que a luz realmente mostra.

Passagens relacionadas5

Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.

Fontes consultadas4 obras
  • Bauer, W.; Danker, F. W.; Arndt, W. F.; Gingrich, F. W.. A Greek-English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature (BDAG), 2000.
  • F. F. Bruce. The Epistles to the Colossians, to Philemon, and to the Ephesians (NICNT), 1984.
  • D. A. Carson. Matthew, in The Expositor's Bible Commentary, vol. 8, 1984.
  • Louw, J. P.; Nida, E. A.. Greek-English Lexicon of the New Testament Based on Semantic Domains, 1988.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

Trevas na Bíblia é sempre uma referência a Satanás?

Não diretamente. Skotos descreve principalmente uma condição - ignorância de Deus, domínio do pecado, ausência de luz - não um nome próprio. Em textos como a palavra aparece associada a poderes espirituais hostis, mas seu sentido central é de esfera ou estado, não de uma pessoa específica.

Qual a diferença entre skotos e skotia, a palavra que aparece em João?

São da mesma família de palavras, mas João e as cartas de João preferem skotia, usada principalmente para a escuridão que cerca ou envolve algo. Skotos é a forma mais comum no restante do Novo Testamento e na Septuaginta, aplicada tanto à condição cósmica quanto à moral.

'Trevas exteriores' é uma descrição literal do inferno?

É uma expressão de julgamento usada por Jesus em parábolas, indicando exclusão da presença e da alegria do banquete messiânico. Tradições cristãs divergem sobre até que ponto ela deve ser lida como descrição literal de um lugar futuro distinto de outras imagens de juízo no Novo Testamento.

Se Deus criou a luz, ele também criou as trevas?

Essa pergunta costuma remeter a , que usa uma palavra hebraica diferente, não o grego skotos tratado aqui. No uso do Novo Testamento, skotos aparece sobretudo como condição da qual as pessoas são resgatadas, não como algo que os textos descrevem Deus criando com essa palavra específica.

Palavras próximas

Temas

  • #trevas
  • #luz e trevas
  • #skotos
  • #grego bíblico
  • #vocabulário do Novo Testamento

Publicado em 23/08/2026

Construído sobre fontes em domínio público, listadas acima. Como produzimos. Encontrou um erro? Escreva para a redação.

O que foi conferido

  • σκότος (skotos) em grego, Strong G4655
  • 4 obras citadas, com autor e ano
  • 3 afirmações populares checadas e refutadas
  • 4 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

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