O que significa ekklēsia, a palavra grega para "igreja"
o que significa ekklesia na bíblia
A palavra no original
ἐκκλησία
ekklēsia · Strong G1577
assembleia, reunião de pessoas convocadas
Tudo isto ao mesmo tempo
- assembleia cívica e política do mundo grego, sem sentido religioso
- congregação de Israel reunida diante de Deus, traduzindo o hebraico qahal na Septuaginta
- comunidade local de crentes reunida num mesmo lugar
- conjunto universal de todos os que estão unidos a Cristo
- povo convocado por um chamado, nunca um edifício
Resposta curta
A palavra grega ekklēsia (ἐκκλησία), traduzida no Novo Testamento como "igreja", não designava originalmente nem um prédio nem uma denominação religiosa. Na Grécia clássica era o termo comum para a assembleia de cidadãos convocada para decidir os assuntos públicos da cidade — usada, inclusive, no livro de Atos para descrever a multidão reunida contra Paulo em Éfeso, um episódio sem nenhuma conotação religiosa.
Quando os tradutores do Antigo Testamento para o grego, na Septuaginta, precisaram verter a palavra hebraica qahal — a congregação de Israel reunida diante de Deus no deserto e nas festas — escolheram justamente ekklēsia. Foi esse sentido que os primeiros cristãos herdaram para descrever a si mesmos: um povo convocado por Deus, não um endereço ou uma instituição com CNPJ.
Onde a palavra aparece
Como isso aponta para Jesus
Trajetória do textoA palavra ekklēsia carrega uma trajetória que atravessa toda a Escritura: o qahal de Israel, reunido diante de Deus no deserto e nas festas, é o mesmo povo convocado que Jesus diz estar reconstituindo quando afirma 'edificarei a minha ekklēsia' (). O Novo Testamento não inventa um conceito novo de comunidade religiosa; retoma o tema bíblico do povo chamado por Deus e o centraliza em Cristo, que se torna o ponto de reunião. Paulo leva essa trajetória adiante ao descrever a ekklēsia como corpo de Cristo () — a assembleia convocada por Deus ao longo do Antigo Testamento encontra em Cristo aquele que a reúne e a sustenta.
Respaldo no Novo Testamento: ;
De onde vem a palavra
Ekklēsia é uma palavra grega comum, usada séculos antes do Novo Testamento, formada a partir da ideia de convocar ou chamar para fora — daí seu uso mais antigo e mais frequente no mundo grego: a assembleia legislativa de uma cidade-estado, reunida por um arauto para votar leis e decidir assuntos públicos. Era um termo político, não religioso. Atenas clássica tinha sua ekklēsia; qualquer cidade grega organizada nos moldes da polis também. O livro de Atos preserva justamente esse sentido secular: em Éfeso, quando uma multidão se reúne em tumulto contra Paulo, Lucas chama essa reunião de ekklēsia () — a mesma palavra, sem qualquer peso teológico, para descrever gente amotinada num teatro.
O que muda a trajetória da palavra é a Septuaginta, a tradução grega do Antigo Testamento feita por judeus alexandrinos a partir do século III a.C. Os tradutores precisavam verter para o grego o termo hebraico qahal, que designava a congregação de Israel reunida diante de Deus — no Sinai, nas festas, nas assembleias solenes do povo (; 9:10; 18:16). Entre as opções disponíveis, escolheram ekklēsia. A partir daí, o termo carrega dois registros ao mesmo tempo: o uso civil grego e o uso religioso judaico de povo convocado por Deus.
Os escritores do Novo Testamento, formados na linguagem da Septuaginta, herdam esse segundo registro. Jesus emprega a palavra para descrever a comunidade que está fundando (), e Paulo a usa tanto para congregações locais quanto para o conjunto de todos os que estão em Cristo. Quando o termo chega ao latim como ecclesia e depois ao português como "igreja", o sentido se estreita: no uso cotidiano brasileiro, "igreja" evoca prédio, denominação, instituição — exatamente o que a palavra grega original não significava. Ekklēsia nunca foi um lugar; era sempre gente reunida por um chamado.
Aprofundamento
Um detalhe costuma escapar de quem lê a Bíblia só em português: nos evangelhos, Jesus usa a palavra ekklēsia apenas duas vezes, ambas em Mateus (16:18 e 18:17). Isso não significa que o tema da "igreja" seja marginal no ensino de Jesus — significa que os evangelhos, escritos décadas depois, registram em grego uma palavra que Jesus, falando aramaico, provavelmente expressou com um termo equivalente a qahal. Mateus, escrevendo para leitores familiarizados com a Septuaginta, escolhe ekklēsia de propósito: está dizendo que a comunidade que Jesus funda é a continuação do povo convocado por Deus no Antigo Testamento, não uma novidade sem raiz histórica.
Essa continuidade aparece de forma explícita em , quando Estêvão, relembrando a história de Israel, chama de ekklēsia a congregação reunida no deserto ao redor de Moisés — a mesma palavra que o Novo Testamento usa para os cristãos reunidos ao redor de Cristo. O elo não é forçado pelos leitores modernos; está no próprio vocabulário que os autores bíblicos escolheram.
Comentaristas como F. F. Bruce observam ainda que o pano de fundo político da palavra não desaparece simplesmente porque ela passa a designar cristãos. Numa cidade como Éfeso ou Corinto, ekklēsia continuava sendo, para qualquer ouvinte pagão, o nome da assembleia cívica que deliberava sobre os negócios da polis. Ao chamar sua comunidade de ekklēsia, os primeiros cristãos não escolheram uma palavra neutra de nicho religioso: escolheram um termo com ressonância pública, o nome de uma reunião que decide coisas — só que agora reunida em torno de outro chamado, o de Cristo.
Paulo explora essa dupla dimensão da palavra: ora fala da ekklēsia que se reúne numa casa específica (), ora do conjunto de todos os que estão unidos a Cristo, "a igreja, que é o seu corpo" (). O mesmo termo grego serve tanto para a reunião concreta de um domingo quanto para essa realidade maior — e é essa flexibilidade, mais do que uma definição fechada, que marca o uso do Novo Testamento.
Vale notar também o que a palavra não carrega: nenhum indício, no uso grego comum ou na Septuaginta, de que ekklēsia significasse originalmente separação do mundo ou pureza moral do grupo. Era, antes de tudo, uma palavra sobre reunião e convocação — o conteúdo teológico de quem convoca e para quê é algo que o Novo Testamento acrescenta, não algo já embutido nas sílabas da palavra.
O que costumam dizer errado1 afirmação
Dizem que:Ekklēsia significa literalmente 'os chamados para fora do mundo', formada por 'ek' (para fora) mais 'kaleō' (chamar) — por isso os cristãos usariam esse nome para se distinguir do mundo ao seu redor.
Essa leitura comete o que os linguistas chamam de falácia etimológica: o sentido de uma palavra é definido pelo seu uso, não pela soma mecânica das partes que a compõem. No grego comum, ekklēsia era simplesmente 'assembleia' — e o próprio livro de Atos usa a palavra para a multidão amotinada contra Paulo em Éfeso (), um ajuntamento que não tinha nenhuma separação espiritual do mundo. Se a etimologia determinasse o sentido, essa mesma multidão hostil seria 'chamada para fora do mundo', o que mostra o problema do argumento.
Como diferentes tradições cristãs leem4 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
católica
Ekklēsia designa primariamente a Igreja única e visível fundada por Cristo sobre os apóstolos, que continua historicamente através da sucessão apostólica e da comunhão com os bispos e o papa.
reformada
Distingue-se a igreja visível — a comunidade que professa a fé e participa dos sacramentos — da igreja invisível, o conjunto verdadeiro dos eleitos, conhecido só por Deus; a igreja local se organiza sob o governo de presbíteros.
batista/congregacional
Ekklēsia se refere sobretudo à congregação local de crentes regenerados, reunida voluntariamente e autônoma em seu governo, sem hierarquia externa acima dela.
luterana
A igreja é definida pela Confissão de Augsburgo como a comunhão dos santos onde o evangelho é pregado corretamente e os sacramentos são administrados segundo sua instituição, mais do que por uma estrutura organizacional específica.
O que fazer com isso
Saber que ekklēsia significava "assembleia convocada", não prédio, muda a forma de olhar para a própria experiência de fé. Um grupo pequeno reunido numa sala de casa, sem placa na porta nem estrutura formal, é tão ekklēsia quanto um templo grande — porque o que define a palavra é o chamado que reúne as pessoas, não o tamanho do espaço ou o nome na fachada. Isso ajuda a avaliar com mais clareza onde a vida em comunidade realmente acontece.
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Fontes consultadas3 obras
- F. F. Bruce. The Book of the Acts (New International Commentary on the New Testament), 1988.
- Walter Bauer, Frederick W. Danker, William F. Arndt, F. Wilbur Gingrich. A Greek-English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature (BDAG), 2000.
- Henry George Liddell, Robert Scott. A Greek-English Lexicon (LSJ), 1940.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Ekklēsia significava igreja como prédio?
Não. A palavra sempre se referiu a pessoas reunidas, nunca a um edifício. O uso de 'igreja' para designar construções religiosas surgiu séculos depois, já em contextos de língua latina e depois portuguesa.
Por que Jesus usa a palavra ekklēsia só duas vezes nos evangelhos?
Jesus falava aramaico, e os evangelhos foram escritos em grego décadas depois. Mateus escolhe ekklēsia nesses dois momentos (16:18 e 18:17) para conectar o ensino de Jesus ao vocabulário da Septuaginta sobre o povo de Deus reunido, mesmo que Jesus tenha usado originalmente um termo aramaico equivalente.
Ekklēsia e sinagoga (synagōgē) são a mesma coisa?
Na Septuaginta, os dois termos chegaram a ser usados de forma próxima para traduzir palavras hebraicas de assembleia. Com o tempo, os primeiros cristãos passaram a preferir ekklēsia para suas próprias reuniões, enquanto synagōgē ficou associada à assembleia e ao local de culto judaico.
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