Pular para o conteúdo
Significado Bíblico
Dicionário bíblicohebraicointermediária

Qara (Chamar, Proclamar)

O que significa qara na Bíblia hebraica?

A palavra no original

קָרָא

qara' · Strong H7121

Chamar; dizer em voz alta o nome de alguém ou algo, dirigindo-se a essa pessoa ou coisa.

Tudo isto ao mesmo tempo

  • chamar / dirigir a voz a alguém
  • nomear / atribuir identidade
  • convocar / reunir uma assembleia
  • invocar o nome de alguém em oração
  • proclamar / ler em voz alta um texto

Resposta curta

Qara (קָרָא) é o verbo hebraico que reúne, numa só palavra, os atos de chamar, nomear, convocar e proclamar. É o termo usado em quando Deus "chama" a luz de Dia e as trevas de Noite: nomear ali não é só identificar, é exercer domínio sobre aquilo que se nomeia. O mesmo verbo volta quando Adão "chama" os animais pelos nomes (), estendendo essa autoridade de nomear à criatura feita à imagem de Deus.

Qara também cobre "convocar" uma assembleia, "invocar" o nome do SENHOR () e "ler em voz alta" — pois na cultura hebraica ler era proclamar um texto para outros ouvirem (). Por isso a mesma raiz aparece no chamado vocacional de pessoas: Deus diz que "chamou" seu filho do Egito (Oséias 11:1) e chamou Ciro, o persa, pelo nome ().

Onde a palavra aparece

Como isso aponta para Jesus

Tipologia

Em Oséias 11:1, Deus diz "qarati livni" — "chamei meu filho" — referindo-se a Israel chamado para fora do Egito no Êxodo. cita explicitamente essa linha ("Do Egito chamei meu filho") e a aplica ao retorno do menino Jesus, depois de sua família fugir para o Egito e voltar. Mateus não afirma que Oséias previu literalmente essa viagem; ele lê a história de Jesus como recapitulação da história de Israel — o verdadeiro Filho que passa pelo mesmo caminho do povo, mas de forma fiel onde Israel falhou. É a mesma palavra qara, usada primeiro para o chamado da nação, relida pelo evangelista como figura do chamado do Filho.

Respaldo no Novo Testamento:

Em palavras simples

Qara é a palavra hebraica para "chamar". Aparece logo em , quando Deus chama a luz de "Dia" e as trevas de "Noite" — dar nome, ali, é um jeito de mostrar quem manda sobre a coisa nomeada. A mesma palavra serve para "convocar" alguém, "proclamar" algo em voz alta e até "ler" um texto, porque na Bíblia ler era ler em voz alta para os outros ouvirem. É também o verbo usado quando Deus chama pessoas para uma missão, como Abraão ou o profeta Samuel.

De onde vem a palavra

Qara (קָרָא) é um dos verbos mais frequentes do hebraico bíblico, com mais de setecentas ocorrências no Antigo Testamento. Léxicos padrão como o BDB (Brown-Driver-Briggs) e o HALOT registram para ele um leque de sentidos que, em português, precisam de vários verbos diferentes: chamar, nomear, convocar, invocar, gritar, proclamar e ler em voz alta. O fio que une todos esses usos é a ideia de um som dirigido a alguém — uma voz que estabelece uma relação, seja entre pessoa e pessoa, entre Deus e uma pessoa, ou entre quem nomeia e a coisa nomeada.

O uso mais citado está em , na narrativa da criação. Por seis vezes o texto usa qara para os atos em que Deus "chama" elementos do cosmos pelo nome: a luz é chamada Dia, as trevas, Noite; o firmamento é chamado Céus; a terra seca, Terra; as águas reunidas, Mares (:8, 1:10). Comentaristas como Keil e Delitzsch observam que, no pensamento hebraico antigo, nomear não era um ato neutro de catalogação: era um exercício de autoridade sobre aquilo que se nomeia. Essa mesma lógica explica por que, logo em seguida, é o próprio Adão quem "chama" os animais pelos nomes () — um sinal do domínio que Deus lhe delegara sobre a criação ().

Fora do relato da criação, qara aparece também no vocabulário do culto e da vocação. "Invocar o nome do SENHOR" () usa o mesmo verbo para o ato de orar publicamente. Deus "chama" Moisés da sarça () e "chama" Samuel no templo (), inaugurando cada um em sua missão. Profetas usam qara para descrever como Deus chamou indivíduos pelo nome antes mesmo de eles existirem ou agirem — é o caso de Ciro, o persa (), e de Israel, chamado "filho" desde o Egito (Oséias 11:1). O mesmo verbo, ainda, descreve o ato de ler um documento em voz alta para uma assembleia (; ), o que explica por que a palavra hebraica para "Escritura" — Miqra — vem dessa mesma raiz: aquilo que é lido e proclamado.

Aprofundamento

O Strong's Concordance cataloga qara sob o número H7121, e o Vine's Expository Dictionary of Old Testament Words resume seu campo semântico em quatro eixos: chamar (dirigir a voz a alguém), nomear (atribuir identidade), convocar (reunir por chamado) e ler/proclamar (tornar público um texto ou mensagem). Esses quatro eixos não são usos aleatórios da mesma palavra: todos giram em torno de uma voz que estabelece ou reconhece uma relação — entre quem chama e quem é chamado, entre quem nomeia e o que é nomeado.

É importante não confundir esse verbo com sua quase-homônima קָרָה (qarah), que significa "encontrar" ou "acontecer" (como em "aconteceu que..."). BDB e HALOT tratam as duas como raízes distintas, ainda que às vezes a diferença só apareça na forma flexionada. Qara ("chamar") é a raiz por trás de substantivos como miqra (מִקְרָא), usado em para as "santas convocações" — as festas em que o povo era reunido pelo chamado divino — e que, mais tarde, passou a designar a própria Escritura Hebraica como "aquilo que é lido/proclamado" (o termo Miqra ainda é usado hoje para o Tanakh).

Em , o padrão gramatical é sempre o mesmo: "Deus chamou [qara] X de Y" — e o efeito narrativo é de soberania. No antigo Oriente Próximo, dar nome a algo era, com frequência, sinal de posse ou autoridade sobre a coisa nomeada; comentaristas como Keil e Delitzsch notam que esse pano de fundo cultural ilumina por que Deus "chama" os elementos da criação (e não apenas os cria) e por que, na sequência, Adão exerce o mesmo verbo sobre os animais () como extensão do domínio que lhe fora dado ().

O verbo também marca o início de vocações específicas. Em , é dito que Deus "chamou" Moisés do meio da sarça; em , o menino Samuel é "chamado" pelo nome, repetidamente, até reconhecer a voz de Deus. Isaías usa o verbo para descrever como o SENHOR chama servos e até um rei estrangeiro — Ciro — pelo nome antes mesmo de eles nascerem ou agirem (; compare ). Essa ideia de um chamado que precede e define a missão de alguém é um dos usos mais discutidos do termo, associado por muitos comentaristas ao tema bíblico mais amplo da "vocação" — mas vale notar que a palavra portuguesa "vocação" traduz esse sentido apenas de forma aproximada; o hebraico qara, sozinho, não carrega necessariamente a noção teológica desenvolvida mais tarde de um "chamado" espiritual permanente, que no Novo Testamento passa a ser expressa por outro vocabulário, em grego (kaleo, klesis).

O que costumam dizer errado2 afirmações
  • Dizem que:Qara significa só 'gritar' ou 'chamar' em tom de urgência ou alarme.

    É um verbo do dia a dia, usado com calma para nomear uma criança, convidar alguém para comer ou ler um texto em voz alta; a ideia de urgência depende só do contexto da frase, não da palavra em si — como mostram os léxicos BDB e HALOT ao listar centenas de usos neutros.

  • Dizem que:Dar nome a algo ou alguém na Bíblia é só uma formalidade descritiva, sem peso real.

    No uso bíblico, nomear frequentemente marca domínio ou uma mudança real de identidade — por isso Deus 'chama' os elementos da criação () e por isso trocas de nome, como Abrão para Abraão, sinalizam uma virada de destino, não um simples apelido novo.

Como diferentes tradições cristãs leem4 leituras

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • Reformada/Calvinista

    Vê no mesmo padrão de 'chamado soberano' de (Deus chama e a coisa passa a ser o que ele chamou) uma imagem do chamado eficaz: quando Deus chama alguém para a salvação ou para uma missão, esse chamado realiza o que anuncia, em harmonia com a doutrina da eleição incondicional.

  • Arminiana/Wesleyana

    Lê os chamados vocacionais do Antigo Testamento (Moisés, Samuel, os profetas) como diálogos reais entre Deus e a pessoa chamada, nos quais a resposta humana permanece livre — um chamado genuíno, mas que pode ser aceito ou recusado, e não uma causa que produz automaticamente seu efeito.

  • Católica

    Entende o 'chamado' bíblico como uma vocação: um convite de Deus que estabelece uma relação, mas que pede uma resposta livre de cooperação — o 'sim' humano, do tipo que a tradição associa à resposta de Maria, completando o que o chamado divino inicia.

  • Ortodoxa

    Enfatiza a sinergia (synergeia) entre o chamado divino e a vontade humana: o chamado de Deus é real e iniciador, mas a resposta da pessoa chamada participa ativamente do processo, em um movimento conjunto rumo à comunhão com Deus.

O que fazer com isso

Entender qara muda como se lê o próprio ato de nomear na Bíblia: quando alguém recebe um nome novo — Abrão vira Abraão, Jacó vira Israel —, isso marca uma virada real na identidade e na missão daquela pessoa, não um mero apelido. Também ajuda a perceber que "ler as Escrituras", historicamente, era um ato comunitário e sonoro, feito para ser proclamado e ouvido, não apenas decifrado em silêncio — algo que ainda hoje enriquece a leitura bíblica em voz alta, sozinho ou em grupo.

Passagens relacionadas10

Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.

Fontes consultadas5 obras
  • Francis Brown, S. R. Driver e Charles A. Briggs. A Hebrew and English Lexicon of the Old Testament (BDB), 1907.
  • Ludwig Koehler e Walter Baumgartner. The Hebrew and Aramaic Lexicon of the Old Testament (HALOT), 1994.
  • James Strong. Strong's Exhaustive Concordance of the Bible, 1890.
  • W. E. Vine, Merrill F. Unger e William White Jr.. Vine's Expository Dictionary of Old Testament Words, 1985.
  • Carl Friedrich Keil e Franz Delitzsch. Commentary on the Old Testament: The Pentateuch (Gênesis), 1866.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

Qara é a mesma palavra hebraica usada para 'ler' um texto?

Sim. Na cultura hebraica antiga, ler um documento normalmente significava lê-lo em voz alta para outros ouvirem, e por isso o mesmo verbo qara serve tanto para 'chamar' quanto para 'ler/proclamar' (; ). É dessa raiz que vem a palavra miqra, um dos nomes hebraicos para a própria Bíblia.

Por que Deus 'chama' a luz de Dia em vez de simplesmente criá-la e seguir em frente?

No pensamento hebraico antigo, dar nome a algo não era apenas descrevê-lo — era um sinal de autoridade sobre aquilo que se nomeia. Ao 'chamar' a luz de Dia (), o texto sublinha o domínio de Deus sobre a criação, o mesmo domínio que depois é estendido a Adão, que chama os animais pelos nomes ().

Qara aparece no relato do chamado de Abraão?

Não no episódio de , que usa outra expressão hebraica ('lech-lecha', 'vai-te'). Mas o profeta Isaías, ao olhar para trás, usa justamente qara para descrever esse episódio: 'eu o chamei' (), tratando o chamado de Abraão como um qara divino.

Todo uso de qara na Bíblia é um 'chamado' religioso ou vocacional?

Não. A grande maioria das mais de setecentas ocorrências do verbo é bem comum — chamar alguém pelo nome, convidar para uma refeição, ler uma carta em voz alta. Só em contextos específicos, como o chamado de Moisés ou de Samuel, o verbo carrega o peso de uma missão divina.

Palavras próximas

Temas

  • No hebraico
  • #qara
  • #dicionario-biblico
  • #chamado
  • #nomear
  • #genesis

Publicado em 09/09/2026

Construído sobre fontes em domínio público, listadas acima. Como produzimos. Encontrou um erro? Escreva para a redação.

O que foi conferido

  • קָרָא (qara') em hebraico, Strong H7121
  • 5 obras citadas, com autor e ano
  • 2 afirmações populares checadas e refutadas
  • 4 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

Uma explicação nova por semana

Sem devocional, sem corrente e sem promoção. Só o verbete da semana, com o contexto que normalmente fica de fora. Todo e-mail leva um link para sair, e sair é imediato.

Esta palavra nas passagens explicadas

Gênesis 1 e 2 têm ordens de criação diferentes?

Em Gênesis 1, Deus cria as plantas no terceiro dia, os animais no sexto dia, e só então forma o ser humano, homem e mulher. Em Gênesis 2 a ordem parece outra: primeiro forma o homem do pó (2:7), planta um jardim, e só em 2:19 diz que "formou, pois, o SENHOR Deus da terra todo animal do campo, e toda ave dos céus, e trouxe-os a Adão". Lida como segunda cronologia, essa sequência colocaria os animais depois do homem — o inverso de Gênesis 1.

Ler explicação →

A serpente do Éden era Satanás?

Gênesis não diz. O texto chama a criatura de "serpente", classifica-a entre "os animais do campo que o SENHOR Deus havia feito" e não menciona Satanás em lugar nenhum — nem aqui nem no resto do livro.

Ler explicação →
Números simbólicosGênesis 10:1-5

A tábua das nações e o número que reaparece pelo cânon inteiro

Gênesis 10 lista os descendentes de Sem, Cam e Jafé depois do dilúvio, organizando os povos conhecidos do mundo antigo numa única árvore genealógica comum. A tradição rabínica, seguida por boa parte da leitura patrística cristã, conta setenta nomes nessa lista — e é esse número, não setenta e um nem sessenta e nove, que depois ecoa noutros textos: as setenta pessoas da casa de Jacó que descem ao Egito, os setenta anciãos que dividem o Espírito com Moisés, os setenta discípulos enviados por Jesus em Lucas 10.

Ler explicação →