
A transgressao fala dentro do coracao: como o Salmo 36 descreve o mal
O que significa dizer que a transgressao ‘fala’ dentro do coracao do impio no Salmo 36?
A transgressão do perverso diz ao meu coração que não há temor a Deus perante seus olhos. Porque ele é tão orgulhoso diante de seus olhos que não achar nem odiar sua própria maldade. As palavras da boca dele são malícia e falsidade; ele deixou de fazer o que é sábio e bom. Ele planeja maldade em sua cama; fica no caminho que não é bom; não rejeita o mal.
Resposta curta
O Salmo 36 abre personificando a transgressao como uma voz que fala dentro do coracao do impio: ‘nao ha temor de Deus diante dos seus olhos’ (v.1), porque ele mesmo se lisonjeia e se convence de que suas iniquidades nao serao descobertas nem punidas (v.2). Nao e a descricao de um pecado isolado, mas de um processo psicologico de autoenganacao instalado, em que a propria pessoa constroi, internamente, justificativas para praticar o mal sem culpa perceptivel. O verso 1 e citado quase literalmente por Paulo em , no fecho de uma cadeia de citacoes que argumenta pela corrupcao moral universal da humanidade. A imagem funciona como retrato preciso de como a consciencia pode ser progressivamente calada, nao por um unico ato, mas por habito continuo de autojustificacao que se repete a cada nova transgressao cometida sem freio.
Como isso aponta para Jesus
Trajetória do textoPaulo encerra sua cadeia de citacoes sobre a corrupcao moral universal em justamente com o verso 1 deste salmo: nao ha temor de Deus diante dos seus olhos. Esse diagnostico sombrio sobre a autoenganacao humana e o pano de fundo necessario para a apresentacao, no restante do capitulo, da justica oferecida gratuitamente por meio da fe em Cristo a quem nao tem como calar essa voz interna de transgressao por conta propria.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
O Salmo 36 descreve o pecado quase como uma voz que fala dentro do coracao da pessoa, convencendo-a de que suas maldades nunca serao descobertas nem terao consequencias. Nao e um pecado isolado, mas um habito de se convencer repetidamente de que tudo esta bem. Paulo cita esse mesmo verso em para dizer que essa condicao nao e exclusiva de algumas pessoas especialmente ruins, mas descreve algo presente em toda a humanidade sem a graca de Deus atuando.
Contexto histórico
O Salmo 36 tem estrutura marcadamente dividida em duas partes contrastantes: os primeiros quatro versos descrevem, em tom quase de oraculo profetico, a psicologia interna do impio, enquanto o restante do salmo, a partir do verso 5, muda abruptamente para um hino de louvor a fidelidade e a bondade de Deus, comparadas a extensao dos ceus e a profundidade dos abismos mais distantes conhecidos pela imaginacao humana da epoca. Essa mudanca brusca de tom e um recurso literario deliberado: o contraste entre a pequenez moral do impio, fechado em sua propria autoenganacao interior, e a grandeza incomensuravel da fidelidade divina, aberta a todos que se refugiam sob suas alas protetoras, reforca visualmente o argumento teologico do salmo inteiro sem necessidade de explicacao adicional. Os versos iniciais usam o formato de oraculo, introduzido pela expressao hebraica que normalmente anuncia uma palavra vinda diretamente de Deus, mas aqui aplicada, de forma ironica e deliberada, a transgressao personificada como se fosse ela mesma quem falasse diretamente ao coracao do impio, substituindo a voz legitima de Deus por uma voz interna falsa e autoindulgente que a pessoa passa a ouvir e obedecer no lugar da verdadeira revelacao divina que deveria orientar sua consciencia e conduta moral cotidiana. O verso 4 completa o quadro descrevendo esse impio planejando maldade ate mesmo enquanto esta deitado, recusando-se a abandonar o mau caminho mesmo durante o repouso noturno, uma imagem que sugere premeditacao continua e deliberada, nao impulso momentaneo isolado nem fraqueza passageira facilmente perdoavel por circunstancias atenuantes especificas do momento vivido, mas padrao estabelecido de conduta que a propria pessoa cultiva e protege deliberadamente ao longo do tempo. O salmo se encaixa, dessa forma, na categoria mais ampla de composicoes que combinam elementos de lamento, sabedoria e hino num unico texto, um formato hibrido que reflete a versatilidade poetica caracteristica de boa parte do Salterio hebraico, capaz de tratar temas teologicos complexos e psicologicamente profundos dentro de um espaco textual relativamente breve e cuidadosamente estruturado pelo compositor original do texto sagrado.
Aprofundamento
A palavra hebraica pesha, traduzida por transgressao, designa especificamente rebeliao deliberada contra uma autoridade legitima, distinta de termos hebraicos para erro involuntario ou fraqueza moral passageira. Ao personificar essa transgressao como agente que fala, o salmista descreve algo psicologicamente preciso: a rebeliao contra Deus nao permanece um evento isolado no tempo, ela desenvolve, dentro de quem a pratica repetidamente, um discurso interno proprio que racionaliza cada nova transgressao, convencendo a pessoa de que suas acoes nao serao descobertas nem terao consequencias reais a temer no futuro proximo ou distante. Alguns comentaristas notam que a expressao hebraica usada aqui imita deliberadamente a formula introdutoria de oraculos profeticos autenticos, um recurso literario ironico que sugere a substituicao completa da voz legitima de Deus por essa voz falsa interna que a pessoa passa a seguir como se fosse autoridade moral valida em sua propria vida cotidiana. O verso 2 detalha o mecanismo dessa autoenganacao: o impio se lisonjeia a si mesmo, um verbo que sugere bajulacao proposital e continua da propria consciencia, ate que ela pare de emitir qualquer alarme moral genuino diante de acoes objetivamente destrutivas para outras pessoas ao redor. Artur Weiser observa que esse retrato psicologico e um dos mais precisos do Antigo Testamento sobre como a consciencia humana pode ser progressivamente silenciada, nao por um unico grande pecado, mas pelo habito repetido de autojustificacao que se acumula ao longo do tempo, tornando cada nova transgressao um pouco mais facil de cometer e de racionalizar do que a anterior. O uso que Paulo faz do verso 1 em , encerrando sua cadeia de citacoes sobre a corrupcao moral universal da humanidade, amplia esse retrato particular do impio descrito aqui para uma condicao compartilhada por toda a humanidade sem excecao, antes da intervencao transformadora da graca oferecida por meio de Cristo, discutida nos versos imediatamente seguintes da mesma carta aos romanos escrita pelo apostolo. Essa continuidade entre diagnostico e solucao, presente tanto no salmo quanto na carta paulina, sugere que reconhecer honestamente a propria autoenganacao moral e um passo necessario, nao opcional, antes que qualquer mudanca real e duradoura de conduta e de coracao possa comecar a se estabelecer de forma genuina na vida de qualquer pessoa disposta a se examinar com sinceridade e humildade suficientes para reconhecer padroes proprios de autojustificacao continuada, algo que a leitura apressada e superficial do texto facilmente deixa de perceber por completo antes de qualquer analise mais atenta e cuidadosa.
O que costumam dizer errado1 afirmação
Dizem que:O Salmo 36:1-4 descreve apenas pessoas excepcionalmente malvadas, um tipo raro e distante da experiencia moral comum da maioria das pessoas.
Paulo usa exatamente esse verso em para argumentar o contrario: essa condicao de autoenganacao moral e universal, presente em toda a humanidade sem excecao antes da graca transformadora oferecida por Cristo, nao um retrato de excecionalidade moral isolada.
Como diferentes tradições cristãs leem2 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Leitura historico-particular
Le o salmo como descricao concreta de opressores especificos que Davi enfrentava em seu proprio contexto historico e social imediato, um retrato de inimigos reais e identificaveis na sua epoca.
Leitura paulina-universalizante
Amplia o alcance do diagnostico do salmo para toda a condicao humana sem excecao, usando o verso como prova textual da corrupcao moral universal que fundamenta a necessidade da justificacao pela fe em Cristo.
No original1 termo
פֶּשַׁעpesha
transgressao, rebeliao deliberada contra autoridade legitima; termo mais forte do que palavras hebraicas para erro involuntario ou fraqueza moral passageira e ocasional.
O que fazer com isso
O salmo convida a um exame honesto da propria voz interior: sera que alguma racionalizacao recorrente tem funcionado como transgressao disfarcada de bom senso, silenciando gradualmente o temor genuino a Deus? O antidoto sugerido pelo restante do salmo nao e apenas esforco moral isolado, mas contemplar deliberadamente a grandeza da fidelidade de Deus, um contraste que ajuda a reconhecer e desmontar a pequenez das justificativas internas que sustentam qualquer padrao continuo de transgressao pessoal.
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Fontes consultadas2 obras
- Hans-Joachim Kraus. Psalms 1-59: A Commentary, 1988.
- Artur Weiser. The Psalms: A Commentary (Old Testament Library), 1962.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Por que o salmo fala da transgressao como se ela falasse?
E um recurso de personificacao que imita ironicamente a formula de oraculos profeticos, sugerindo que a rebeliao contra Deus assume, dentro de quem a pratica repetidamente, uma voz interna propria que substitui a voz legitima da consciencia moral genuina.
Esse verso e citado no Novo Testamento?
Sim. Paulo cita o verso 1 quase literalmente em , encerrando uma cadeia de citacoes do Antigo Testamento usada para argumentar que toda a humanidade esta sob o mesmo diagnostico de corrupcao moral, sem excecao de grupo.
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