
Salmos 138: "o Senhor fará por completo" mesmo na angústia?
o senhor aperfeicoara o que me concerne salmos 138 significado
Louvarei a ti com todo o meu coração; na presença dos deuses cantarei louvores a ti. Eu me prostrarei ao teu santo templo, e louvarei o teu nome por tua bondade e por tua verdade; porque engrandeceste tua palavra e teu nome acima de tudo. No dia em que clamei, tu me respondeste; e me fortaleceste com força em minha alma. Todos os reis da terra louvarão a ti, SENHOR, quando ouvirem as palavras de tua boca. E cantarão sobre os caminhos do SENHOR, pois grande é a glória do SENHOR. Porque mesmo sendo SENHOR elevado, ele presta atenção ao humilde; porém ele reconhece o arrogante de longe. Enquanto ando no meio da angústia, tu me vivificas; tu estendes tua mão contra a ira de meus inimigos; e tua mão direita me salva. O SENHOR fará por completo o que ele tem para mim; ó SENHOR, tua bondade dura para sempre; não abandones as obras de tuas mãos.
Resposta curta
é um salmo de gratidão que a tradição hebraica atribui a Davi, parte do pequeno bloco "de Davi" que fecha o Saltério (138 a 145). Ele abre louvando a fidelidade de Deus e o peso de sua palavra (v. 1-3), amplia a cena para os reis da terra, que também hão de reconhecer o SENHOR (v. 4-5), e resume a teologia central: um Deus "elevado" que, ainda assim, atende ao humilde (v. 6).
O fechamento resolve a tensão do título: o salmista escreve "no meio da angústia" (v. 7) — o problema não passou. Por isso "o SENHOR fará por completo o que ele tem para mim" (v. 8) não é promessa de sucesso, mas a extensão, para o futuro, de uma bondade já vivida — reforçada pelo pedido final: "não abandones as obras de tuas mãos".
Como isso aponta para Jesus
Trajetória do textoA tradição cristã lê o fechamento do salmo — a confiança de que "o SENHOR fará por completo o que ele tem para mim" — como eco de um tema maior que atravessa toda a Escritura: o Deus que termina o que começa. Esse tema não é citado diretamente pelo Novo Testamento a partir deste salmo, mas encontra ressonância explícita em , onde Paulo afirma que "aquele que começou boa obra em vós a aperfeiçoará até o dia de Jesus Cristo". A confiança pessoal do salmista, em meio a uma angústia ainda não resolvida, prefigura a confiança maior que o Novo Testamento oferece a partir da obra concluída de Cristo — cuja última palavra na cruz foi, segundo , "está consumado". É uma leitura teológica de trajetória, apoiada em ressonância temática, e não uma interpretação exegética direta do texto hebraico original.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
é uma oração de agradecimento tradicionalmente ligada a Davi. Ele agradece porque Deus já respondeu quando ele clamou, e diz que até os reis da terra vão reconhecer o SENHOR. O ponto interessante é que, no verso 7, o autor admite que ainda está "no meio da angústia" — o problema não passou. Mesmo assim, ele termina confiante: "o SENHOR fará por completo o que ele tem para mim". Ou seja, a confiança não nasce de tudo estar resolvido, mas de lembrar que Deus já ajudou antes, e por isso vai continuar ajudando.
Contexto histórico
abre a última pequena coleção davídica do Saltério: os cabeçalhos hebraicos atribuem a Davi os salmos 138 a 145, um bloco de oito salmos posicionado perto do fim do livro, antes da sequência final de louvor (). Comentaristas como Derek Kidner, em seu comentário sobre os , observam que esse posicionamento tardio não impede autoria davídica antiga — o Saltério foi organizado em etapas, e coleções mais antigas podem aparecer em blocos posteriores da compilação final.
O salmo segue um padrão comum de ação de graças individual: lembrança de uma oração respondida (v. 1-3), expansão do louvor para um público maior — aqui, "todos os reis da terra" (v. 4-5) — e uma reflexão teológica que sustenta tudo isso: o SENHOR é ao mesmo tempo transcendente ("elevado") e próximo do humilde (v. 6). Esse mesmo padrão — Deus grande, mas atento ao pequeno — aparece em outros salmos de louvor, como o Salmo 113.
Um detalhe que chama atenção é o verso 1: "na presença dos deuses cantarei louvores a ti". A palavra hebraica por trás de "deuses" é elohim, o mesmo termo usado para o Deus de Israel, mas também para juízes humanos (como em ) e para seres celestiais. Comentaristas como Keil & Delitzsch discutem essa ambiguidade sem resolvê-la de forma definitiva: pode ser referência a anjos, a divindades das nações vizinhas (mencionadas de forma retórica, sem afirmar que elas existam como o SENHOR existe) ou a autoridades humanas. A Septuaginta grega, por exemplo, traduziu por "anjos".
O eixo do salmo, porém, é a confissão do verso 7: o autor escreve enquanto ainda "anda no meio da angústia" — não depois que o problema passou. É esse detalhe que dá peso à confiança final do verso 8: ela não depende de tudo já estar resolvido, mas da memória de que Deus já respondeu antes (v. 3) e do apelo de que ele não abandone "as obras de tuas mãos", expressão que evoca tanto a origem do salmista quanto o propósito que Deus tem para sua vida.
Aprofundamento
O verso mais discutido do Salmo 138 é o oitavo: "O SENHOR fará por completo o que ele tem para mim". O verbo hebraico por trás de "fará por completo" é gamar, que significa concluir, levar a termo, terminar algo que já estava em andamento — não começar algo novo. O mesmo verbo aparece em , onde o salmista clama "ao Deus Altíssimo, ao Deus que tudo faz por mim" (ou "que cumpre seu propósito para mim"). A ideia não é de um Deus que promete resultados ilimitados, mas de um Deus que termina o que começou — um tema que a tradição cristã, mais tarde, vai reconhecer como familiar.
O que torna esse verso pastoralmente delicado é o contraste com o verso anterior. No verso 7, o salmista não diz "eu andava" no meio da angústia, mas "ando" — no presente. A confiança do verso 8 não é relatada depois que a tempestade passou; ela é declarada em pleno meio dela. Isso muda o sentido da promessa: não é "Deus vai remover todo problema", mas "a mesma bondade (hesed, no v. 2) que já me sustentou vai continuar agindo até o fim do que ele começou". Matthew Henry, em seu comentário sobre os Salmos, lê esse verso como expressão de confiança na providência contínua de Deus, e não como uma garantia de circunstâncias fáceis.
Vale notar também que o próprio salmista não trata essa confiança como automática: o salmo termina com um pedido, não com uma afirmação fechada — "não abandones as obras de tuas mãos" (v. 8b). Ou seja, o salmista ora pedindo que a obra continue, ao mesmo tempo em que confessa fé de que ela continuará. Essa combinação de confiança e súplica é comum na piedade dos salmos: a fé não elimina o pedido, ela o sustenta.
A estrutura maior do salmo também ajuda a entender o verso 8. Ele começa com gratidão por uma oração já respondida (v. 1-3), passa pela expectativa de que até "os reis da terra" reconheçam o SENHOR (v. 4-5), afirma que Deus atende ao humilde mesmo sendo "elevado" (v. 6), e só então chega à confiança pessoal em meio à angústia presente (v. 7-8). A ordem importa: a confiança do salmista não nasce de otimismo genérico, mas de uma teologia específica sobre quem Deus é — alguém cuja bondade (hesed) "dura para sempre" (v. 8b) e que, historicamente, atende quem clama (v. 3). É esse fundamento, e não uma promessa de resultados garantidos, que sustenta a esperança do verso final.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:Salmos 138:8 ("o SENHOR fará por completo o que ele tem para mim") é uma promessa de que todo problema da vida será resolvido a favor de quem cita o versículo.
O próprio salmista escreve esse verso enquanto ainda está "no meio da angústia" (v. 7) — o problema não desapareceu. O texto não promete a remoção de toda dificuldade, mas confiança de que a bondade de Deus, já experimentada no passado (v. 3), continuará agindo. O verso termina, inclusive, com um pedido — "não abandones as obras de tuas mãos" — e não com uma garantia fechada e incondicional.
Dizem que:A expressão "na presença dos deuses" (v. 1) mostra que o salmista acreditava em vários deuses reais, como um politeísta.
A palavra hebraica elohim tem usos variados no Antigo Testamento — pode indicar o Deus de Israel, seres celestiais (anjos) ou até autoridades humanas, como juízes (). Comentaristas como Keil & Delitzsch observam que o versículo não afirma a existência de outros deuses no mesmo sentido em que Israel confessava o SENHOR; a Septuaginta, aliás, traduziu o termo por "anjos". O ponto do salmo é a supremacia do SENHOR, não a validação de outras divindades.
Como diferentes tradições cristãs leem4 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
reformada
Lê o verso 8 em diálogo com a doutrina da perseverança dos santos, aproximando-o de ("aquele que começou boa obra em vós a aperfeiçoará") — a confiança do salmista prefigura a garantia de que Deus completa a obra de salvação que iniciou em quem lhe pertence.
católica
Entende a confiança do salmo como expressão da providência divina contínua, que sustenta o crente ao longo da vida, mas que caminha lado a lado com a cooperação e a perseverança pessoal na graça recebida — o texto convida à confiança, não à passividade.
luterana
Coloca o peso da promessa não em qualquer mérito ou constância do salmista, mas na palavra e na bondade (hesed) de Deus mencionadas no verso 2 — a certeza do verso 8 repousa inteiramente na fidelidade de quem promete, não na força de quem crê.
pentecostal
Lê o verso 8 de forma mais imediata e existencial: Deus completará propósitos concretos na vida presente do crente, não apenas no horizonte da salvação eterna — leitura que aplica a confiança do salmista a situações específicas de espera e aflição hoje.
No original4 termos
ידהyadahH3034
louvar, agradecer publicamente — a raiz por trás de "louvarei" no verso 1.
אֱלֹהִיםelohimH430
termo que pode indicar Deus, seres celestiais ou autoridades humanas, dependendo do contexto — traduzido aqui como "deuses" no verso 1.
חֶסֶדchesedH2617
bondade leal e constante, ligada à fidelidade da aliança — traduzido como "bondade" nos versos 2 e 8.
גָּמַרgamarH1584
completar, concluir, levar a termo algo já em andamento — verbo por trás de "fará por completo" no verso 8.
O que fazer com isso
não é uma fórmula para garantir que tudo vai dar certo — o próprio salmista escreve essa confiança "no meio da angústia" (v. 7), não depois que ela passou. O texto convida a olhar para trás, para um momento concreto em que a oração foi respondida (v. 3), e usar essa memória como base para confiar que o mesmo Deus continua trabalhando, mesmo quando a situação atual ainda não mudou. Não é otimismo vago; é confiança amarrada a uma história real com Deus.
Passagens relacionadas6
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Fontes consultadas4 obras
- Derek Kidner. Salmos 73-150: Introdução e Comentário, 1975.
- Carl Friedrich Keil e Franz Delitzsch. Commentary on the Old Testament (volume sobre os Salmos), 1871.
- Matthew Henry. Comentário Bíblico de Matthew Henry (volume sobre os Salmos), 1710.
- Ludwig Koehler e Walter Baumgartner. The Hebrew and Aramaic Lexicon of the Old Testament (HALOT), 2000.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Salmos 138 é mesmo de Davi?
O cabeçalho hebraico tradicional atribui a Davi os salmos 138 a 145, um pequeno bloco davídico posicionado perto do final do Saltério. Isso não significa que o salmo tenha sido escrito por último — coleções antigas podem ter sido incorporadas em etapas tardias da organização final do livro.
O que significa "na presença dos deuses" no verso 1?
A palavra hebraica elohim pode se referir a Deus, a seres celestiais ou a autoridades humanas, dependendo do contexto. Aqui, a maioria dos comentaristas entende como referência a anjos ou a outras divindades citadas de forma retórica, para destacar que o SENHOR está acima delas — não como afirmação de que essas divindades existem no mesmo sentido em que Deus existe.
Salmos 138:8 garante que tudo vai dar certo na minha vida?
Não. O próprio salmista escreve esse verso "no meio da angústia" (v. 7), ou seja, antes de o problema ter passado. A promessa é de que a bondade de Deus, já demonstrada no passado, continuará agindo — não de que todo obstáculo desaparecerá.
Por que o salmista fala de angústia se o salmo é de gratidão?
Porque a gratidão do salmo não depende de o problema já ter acabado. O salmista agradece por uma oração respondida no passado (v. 3) e, com base nisso, mantém confiança mesmo enquanto ainda enfrenta dificuldade no presente (v. 7).