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Significado Bíblico
Costumes da épocaintermediária
Ilustração da categoria Costumes da época

Salmos 120:1-2 e os Cânticos de Grau

O que são os Cânticos de Grau dos Salmos?

Em minha angústia clamei ao SENHOR, e ele me respondeu. Ó SENHOR, livra minha alma dos lábios mentirosos, da língua enganadora.

· Bíblia Livre (Textus Receptus)

Resposta curta

abre uma coleção de quinze poemas chamados "Cânticos de Grau" ( a 134), hinário associado à subida a Jerusalém, provavelmente entoado por peregrinos nas festas anuais (). A coleção não começa com louvor, mas com lamento: "Em minha angústia clamei ao SENHOR, e ele me respondeu. Ó SENHOR, livra minha alma dos lábios mentirosos, da língua enganadora" (). O autor, sem nome no texto hebraico, relata ter sido alvo de calúnia.

Esse tom de aflição contrasta com a confiança que cresce nos salmos seguintes, como "Levantarei os meus olhos para os montes" (Salmo 121). A jornada a Jerusalém, lida também como figura da vida de fé, começa em meio à injustiça da palavra alheia — e só avança para a serenidade à medida que a coleção se desenrola.

Como isso aponta para Jesus

Trajetória do texto

Os Cânticos de Grau retratam a peregrinação a Jerusalém como movimento de um lugar de conflito e mentira rumo à presença de Deus em Sião — um tema de subida e acesso ao santuário que atravessa toda a Escritura (o êxodo, a entrada na terra, o templo). O Novo Testamento retoma essa imagem para descrever o que os cristãos já alcançaram em Cristo: não mais uma subida geográfica repetida a cada festa, mas acesso permanente ao 'monte Sião... à Jerusalém celestial' (). Lido nessa trajetória mais ampla, o lamento do Salmo 120 é o ponto de partida — a experiência de injustiça e distância — que a obra de Cristo resolve ao dar acesso definitivo à cidade de Deus, sem que seja preciso 'subir' de novo.

Respaldo no Novo Testamento:

Em palavras simples

O Salmo 120 abre um grupo de quinze salmos (120 a 134) que os israelitas cantavam subindo a Jerusalém para as grandes festas religiosas, por isso são chamados de "Cânticos de Grau" ou "de Romagem". Aqui, logo no início, o autor conta que gritou a Deus porque estava sofrendo com mentiras e calúnias espalhadas contra ele, e que Deus o escutou e respondeu. Chama atenção que essa "viagem" de fé comece com dor e injustiça, não com festa: a confiança e a paz só vêm nos salmos seguintes da mesma coleção.

Contexto histórico

"Cânticos de Grau" traduz o hebraico "shir hama'alot", título que abre cada um dos a 134. A palavra "ma'alot" significa literalmente "subidas" ou "degraus", e os estudiosos discutem sua origem sem unanimidade. A leitura mais aceita liga o título à peregrinação: três vezes ao ano, todo israelita adulto devia "subir" a Jerusalém para as festas de Páscoa, Pentecostes e Tabernáculos () — e Jerusalém, situada em terreno elevado, era literalmente "subida" a partir de quase qualquer direção. Comentaristas como Keil e Delitzsch e Derek Kidner tratam esses quinze poemas como um pequeno hinário de romagem, reunido para uso litúrgico dos peregrinos na estrada ou já dentro do templo. Uma segunda teoria, apoiada em uma tradição registrada na Mishná (tratado Middot 2:5), associa os quinze cânticos aos quinze degraus que ligavam o pátio das mulheres ao pátio de Israel no templo, onde os levitas teriam cantado. Uma terceira leitura, de natureza literária, nota que vários desses salmos repetem, no início de um verso, uma palavra do verso anterior — um padrão em "degraus" (mais visível, por exemplo, em ) que pode explicar o nome independentemente de qualquer cenário histórico.

O Salmo 120 abre essa série sem indicação de autor no cabeçalho hebraico, diferente de outros da coleção atribuídos a Davi (122, 124, 131, 133) ou a Salomão (127). Os versículos 1 e 2 apresentam a queixa que motiva todo o poema: alguém espalhou mentiras contra o salmista, e ele clama a Deus por socorro. Os versículos seguintes (3-7) explicam o quadro — o sofrimento de viver cercado por vizinhos hostis, longe de casa, em meio a gente que ama a guerra e despreza a paz. Colocado como pórtico da coleção, esse lamento estabelece o ponto de partida real da vida de fé: não a chegada triunfante ao templo, mas a experiência concreta da injustiça e da mentira, que só depois cede lugar à confiança crescente dos cânticos seguintes.

Aprofundamento

A queixa de é mais precisa do que parece à primeira leitura. O salmista não diz apenas que sofreu injúria qualquer: ele pede para ser livrado de "lábios mentirosos" e "língua enganadora" — termos hebraicos (sheqer, "falsidade", e remiyyah, "engano, traição") que no Antigo Testamento descrevem sobretudo o falso testemunho, não a fofoca comum. A Lei tratava isso como crime grave: o nono mandamento proíbe testemunhar falsamente contra o próximo (), e prescreve que a falsa testemunha sofra a mesma pena que pretendia impor à vítima. Comentaristas como Matthew Henry leem o Salmo 120 nessa chave — não um desabafo genérico contra fofoqueiros, mas o clamor de alguém exposto à injustiça formal de uma acusação mentirosa, um mal que a lei bíblica considerava tão sério quanto o roubo ou a violência.

É esse pano de fundo que dá peso ao papel do Salmo 120 como abertura da coleção de Cânticos de Grau. Se a leitura de peregrinação estiver certa, esses quinze poemas eram cantados por pessoas que deixavam para trás vilarejos, disputas de terra, dívidas e desavenças de vizinhança para subir a Jerusalém — e é significativo que a jornada comece reconhecendo, sem disfarce, que o mundo de onde se parte é marcado por mentira e violência verbal. O salmo seguinte já muda de tom: "Levantarei os meus olhos para os montes, de onde vem o meu socorro" () parte de uma confiança que o Salmo 120 ainda não tem — ali o socorro já chegou uma vez ("clamei... e ele me respondeu"), mas o conflito com os caluniadores continua sem solução até o fim do poema. Essa progressão, do lamento cru ao repouso final descrito em salmos como o 133 e o 134, é provavelmente proposital: a coleção retrata uma trajetória espiritual, não apenas geográfica, que vai da experiência da injustiça à experiência da presença de Deus em Sião.

Vale notar que o verbo traduzido "livra" (v. 2) é um imperativo urgente, não uma afirmação de que a livração já ocorreu — o salmista já foi ouvido uma vez (v. 1, no passado), mas ainda pede socorro contra um mal que persiste (v. 2, no presente). Essa tensão entre a oração já respondida e a súplica ainda pendente é comum nos salmos de lamento e evita a leitura simplista de que basta orar uma vez para o problema desaparecer.

Essa estrutura também explica por que os quinze Cânticos de Grau funcionam bem como sequência de leitura, e não apenas como peças avulsas reunidas por acaso. Lidos em ordem, eles não repetem o mesmo estado de espírito: avançam de um ponto de partida hostil e inseguro para uma chegada marcada por bênção, comunidade e repouso, como em e 134. O Salmo 120, justamente por vir primeiro, tem a função literária de nomear com honestidade o problema que torna a peregrinação necessária — sem esse ponto de partida, o movimento de confiança dos salmos seguintes perderia parte do seu sentido.

O que costumam dizer errado1 afirmação
  • Dizem que:Os quinze 'Cânticos de Grau' correspondem, com certeza histórica, aos quinze degraus do templo de Jerusalém, cada salmo cantado em um degrau específico pelos levitas.

    Essa é apenas uma das teorias sobre a origem do título, apoiada numa tradição tardia registrada na Mishná (Middot 2:5). Não há como comprovar uma correspondência exata entre cada um dos quinze salmos e um degrau específico; a maioria dos comentaristas trata isso como hipótese entre outras (peregrinação festiva, padrão poético de repetição em 'degraus'), não como fato estabelecido.

Como diferentes tradições cristãs leem3 leituras

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • católica e patrística (leitura de Agostinho)

    Nas 'Enarrationes in Psalmos', Agostinho lê os Cânticos de Grau de modo alegórico: a subida a Jerusalém figura a jornada da alma cristã, que clama em meio ao exílio da vida presente e avança, degrau a degrau, rumo à Jerusalém celestial.

  • reformada (leitura de Calvino)

    Calvino enfatiza o sentido histórico e moral do salmo: um lamento real de alguém perseguido por calúnia, que serve de modelo de oração para os fiéis que sofrem injustiça verbal dentro da própria comunidade.

  • evangélica devocional contemporânea

    Lê a coleção como retrato da vida cristã como peregrinação progressiva: o crente começa a caminhada em meio a conflitos e acusações injustas, e avança gradualmente para maior confiança e paz à medida que amadurece na fé, sem que isso implique uma leitura alegórica de cada detalhe do texto.

No original6 termos
  • מַעֲלוֹתma'alotH4609

    subidas, degraus — dá nome à coleção 'Cânticos de Grau' no cabeçalho do salmo

  • צָרָהtsarahH6869

    angústia, aperto, aflição

  • נֶפֶשׁnepheshH5315

    alma, vida, o ser inteiro da pessoa

  • שֶׁקֶרsheqerH8267

    mentira, falsidade — associado ao falso testemunho

  • רְמִיָּהremiyyahH7423

    engano, traição, fraude

  • לָשׁוֹןlashonH3956

    língua, no sentido de fala ou discurso

O que fazer com isso

Diante de calúnia ou mentira que atinge sua reputação, o texto não sugere revidar no mesmo tom nem se calar resignado: sugere clamar a Deus primeiro, como quem reconhece que a injustiça da palavra alheia é real e merece ser levada a sério. O salmista já viveu essa resposta uma vez ("clamei... e ele me respondeu") e ainda assim volta a pedir, porque o problema não se resolveu de vez — o que ensina a manter o pedido de socorro mesmo quando a situação se arrasta sem solução visível.

Passagens relacionadas8

Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.

Fontes consultadas5 obras
  • Carl Friedrich Keil e Franz Delitzsch. Commentary on the Old Testament: Psalms, 1871.
  • Matthew Henry. Commentary on the Whole Bible (Salmos), 1710.
  • Derek Kidner. Psalms 73-150 (Tyndale Old Testament Commentaries), 1975.
  • João Calvino. Commentary on the Book of Psalms, 1557.
  • Agostinho de Hipona. Enarrationes in Psalmos, 420.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

O que são os 'Cânticos de Grau'?

É o nome tradicional dos a 134, quinze poemas que trazem no cabeçalho hebraico o título 'shir hama'alot' ('cântico das subidas'). A explicação mais aceita liga o título à peregrinação a Jerusalém nas festas anuais, embora existam outras teorias sobre sua origem.

Por que a coleção de peregrinação começa com um lamento, e não com alegria?

Porque o Salmo 120 retrata o ponto de partida real de quem viaja à cidade santa: uma vida ainda marcada por calúnia e conflito. A confiança e a paz aparecem de forma crescente só nos salmos seguintes da série, como um percurso, não como ponto de chegada imediato.

Quem escreveu o Salmo 120?

O texto hebraico não traz nome de autor para este salmo, ao contrário de outros da mesma coleção atribuídos a Davi (122, 124, 131 e 133) ou a Salomão (127). Por isso os comentaristas evitam afirmar autoria com certeza.

O que significa exatamente 'língua enganadora' no versículo 2?

As palavras hebraicas usadas (sheqer e remiyyah) apontam para falsidade e traição, sentido próximo do que hoje chamaríamos de falso testemunho ou calúnia formal, não apenas fofoca — um mal que a lei do Antigo Testamento tratava com seriedade ().

Temas

  • Justiça
  • #salmos
  • #canticos-de-grau
  • #peregrinacao
  • #antigo-testamento
  • #calunia
  • #liturgia

Publicado em 08/09/2026

Construído sobre fontes em domínio público, listadas acima. Como produzimos. Encontrou um erro? Escreva para a redação.

O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 5 obras citadas, com autor e ano
  • 1 afirmação popular checada e refutadas
  • 3 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

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