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Significado Bíblico
Ilustração da categoria Textos eticamente difíceis

Por que o Salmo 88 termina sem nenhuma palavra de esperança?

por que o salmo 88 termina em trevas, sem consolo

Por que tu, SENHOR, rejeitas minha alma, e escondes tua face de mim? Tenho sido afligido e estou perto da morte desde a minha juventude; tenho sofrido teus temores, e estou desesperado. Os ardores de tua ira têm passado por mim; teus terrores me destroem. Rodeiam-me como águas o dia todo; cercam-me juntos. Afastaste de mim meu amigo e meu companheiro; meus conhecidos estão em trevas.

· Bíblia Livre (Textus Receptus)

Resposta curta

No fim do Salmo 88, o salmista continua perguntando a Deus por que o rejeita e esconde dele o rosto. Ele descreve uma vida inteira de sofrimento — desde a juventude —, cercado pelo que sente como a ira de Deus, comparada a águas que o envolvem por todos os lados, o dia inteiro. No último verso, até os amigos e conhecidos desaparecem, e ele fica sozinho, cercado de trevas.

O que chama atenção é o que falta: nenhum verso de confiança, nenhuma virada para o louvor, nenhuma promessa cumprida — o salmo termina praticamente onde começou, na dor, sem alívio visível. Entre os cento e cinquenta salmos, este é o único lamento que não resolve nada. Por isso ele importa: mostra que a Bíblia reserva espaço para a oração honesta, mesmo quando o socorro ainda não chegou.

Como isso aponta para Jesus

Trajetória do texto

O Novo Testamento não cita o Salmo 88 diretamente, então a ligação com Cristo aqui é uma leitura teológica da tradição cristã, não algo que o texto hebraico afirme por si. Ainda assim, muitos leitores cristãos, ao longo da história, reconheceram em uma antecipação da experiência mais sombria de Jesus: o abandono sentido na cruz ("Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste", , que cita o Salmo 22, não o 88, mas expressa a mesma sensação de rosto escondido) e o silêncio do túmulo antes da ressurreição. A tradição litúrgica de Semana Santa, sobretudo em torno do Sábado de Aleluia, usa esse tipo de salmo justamente para dar linguagem a esse ponto da narrativa: um sofrimento que ainda não foi respondido. É uma trajetória, não um cumprimento explícito — o tema do justo que sofre em trevas e aparente abandono percorre a Escritura e encontra em Cristo seu ponto mais extremo, mas isso é leitura devocional da tradição, não exegese do próprio salmo.

Contexto histórico

O Salmo 88 traz no título a atribuição a Hemã, o ezraíta, um dos sábios e músicos ligados ao culto do templo (a tradição bíblica cita um Hemã como figura de sabedoria em e como levita cantor em e 25:1-6, embora não haja certeza se se trata da mesma pessoa). O salmo pertence ao gênero lamento individual, comum no Saltério: normalmente essa forma segue um padrão de queixa, pedido e, depois, uma virada para a confiança ou o louvor, como se vê nos , 22 e 42. O que torna o Salmo 88 incomum, e é exatamente o trecho coberto aqui (versículos 14 a 18), é que essa virada nunca acontece — o salmo termina na mesma nota de angústia com que começou.

No hebraico, o verbo traduzido por "rejeitas" no versículo 14 (zanach) é o mesmo usado em outros lugares para descrever Deus "lançando fora" ou "repudiando" seu povo em contextos de juízo (; 60:1). "Escondes tua face" traduz um idiomatismo hebraico recorrente nos salmos de lamento — a sensação de que Deus retirou sua atenção e favor, não necessariamente uma afirmação teológica sobre a ausência real de Deus (compare ; 27:9; 30:7). O versículo 15 fala de sofrimento "desde a minha juventude", sugerindo uma aflição prolongada, possivelmente uma enfermidade crônica, o que se conecta às imagens anteriores do salmo sobre isolamento social (versículos 8 e 9). Os versículos 16 e 17 usam linguagem de tempestade e enchente — "ardores de tua ira", águas que cercam — recurso comum para descrever aflição avassaladora (compare ; 69:1-2). O versículo 18 fecha o salmo com a palavra hebraica para "trevas" (machshak) como última palavra do texto original, um detalhe estrutural notado por comentaristas como Derek Kidner, que reforça a ausência de qualquer resolução. Walter Brueggemann, em sua classificação dos salmos, chama textos como este de "salmos de desorientação": composições que verbalizam a experiência de caos e perda sem forçar uma reorientação prematura. Entender esse pano de fundo evita duas leituras erradas: tratar o salmo como falta de fé, ou tentar "consertar" seu final com um otimismo que o próprio texto não oferece.

Aprofundamento

A maior parte dos salmos de lamento segue uma lógica reconhecível: o sofredor desabafa, pede socorro e, antes do fim, encontra algum apoio — lembra do caráter de Deus, renova a confiança, promete louvor. O Salmo 22 é o exemplo clássico: começa com "Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?" e termina em adoração e testemunho público. O Salmo 88 quebra esse padrão de propósito. Os versículos 14 a 18, que fecham o salmo, não trazem nenhuma dessas âncoras. Termina com "meus conhecidos estão em trevas" — sem "mas eu confio", sem "ainda assim louvarei". Estudiosos do Saltério, como Gerald Wilson, notam que essa ausência de resolução não é acidente de composição, mas parte de como o livro dos Salmos foi organizado: o Salmo 88 está no fim do Livro III (), uma seção marcada por crise nacional e perguntas teológicas difíceis, que termina no Salmo 89 com outro questionamento pesado sobre a fidelidade de Deus à aliança davídica.

Isso tem peso teológico. A Escritura não exige que toda oração termine bem para ser legítima. O salmista continua falando com Deus do início ao fim — o próprio primeiro versículo do salmo o chama de "Deus de minha salvação" — mas a experiência dele, no momento em que escreve, é de escuridão sem alívio percebido. Isso distingue duas coisas que às vezes se confundem: a ausência real de Deus e a sensação de abandono. O salmo registra a segunda sem resolver se ela corresponde à primeira, e essa recusa em amenizar o sofrimento é parte do que faz o texto valioso.

Por isso o Salmo 88 ocupa um lugar único na tradição de leitura da Bíblia como livro de oração: é o texto ao qual se recorre quando a dor não passa e a fé não sente alívio, sem que isso signifique incredulidade. C.S. Lewis, ao comentar os salmos de lamento em geral, observa que a honestidade dessas queixas — em vez de embelezá-las — é parte do que torna o Saltério confiável como retrato da experiência humana diante de Deus. O Salmo 88 leva essa honestidade ao limite: não finge uma virada que não aconteceu. Ele fica ao lado de quem sofre sem prometer que a dor vai embora em determinado prazo, e isso, paradoxalmente, é uma forma de conforto — a de saber que esse tipo de oração já esteve na Bíblia antes, validada como palavra dirigida a Deus, mesmo sem resposta visível registrada no texto.

O que costumam dizer errado2 afirmações
  • Dizem que:O Salmo 88 termina em trevas porque o salmista perdeu a fé em Deus.

    O próprio salmo mostra o contrário: do primeiro ao último versículo, o autor continua se dirigindo diretamente a Deus, chamando-o de "Deus de minha salvação" logo no versículo 1. Falar com Deus em meio ao desespero, sem desistir da oração, é o oposto de perda de fé — é insistência nela mesmo sem sentir resposta.

  • Dizem que:Um salmo sem final feliz é uma falha ou incoerência na Bíblia.

    O Salmo 88 é uma entre muitas vozes que compõem o livro dos Salmos, que inclui lamento, louvor, dúvida e confiança lado a lado. Sua presença no cânon, sem final resolvido, mostra que a tradição de fé bíblica sempre reservou espaço para a dor não resolvida, e não uma contradição com os salmos que terminam em louvor.

Como diferentes tradições cristãs leem4 leituras

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • reformada

    Enfatiza que o Salmo 88 legitima o lamento cru como forma válida de oração dentro da soberania de Deus — o texto foi incluído no cânon justamente para dar linguagem a períodos em que a fé não sente alívio, sem que isso enfraqueça a confiança na providência divina.

  • luterana

    Lê o salmo à luz da teologia da cruz (theologia crucis): Deus se revela também escondido no sofrimento (Deus absconditus), e o Salmo 88 é um texto exemplar dessa experiência de um Deus presente mesmo quando sentido como ausente.

  • católica

    Historicamente usado na liturgia da Semana Santa, sobretudo ligado ao silêncio do Sábado Santo, o salmo é lido como voz que acompanha a espera entre a cruz e a ressurreição, um momento de fé exercitada sem sinal visível de resposta.

  • pentecostal

    Tende a destacar a persistência do salmista em orar apesar da ausência de avanço perceptível, tomando o texto como modelo de perseverança na oração mesmo quando não há manifestação imediata de socorro.

No original4 termos
  • זָנַחzanachH2186

    rejeitar, lançar fora, repudiar — usado para descrever Deus "lançando fora" seu povo em contextos de juízo ou lamento (também em e 60:1).

  • סָתַרsatarH5641

    esconder, ocultar — na expressão "esconder o rosto", idiomatismo hebraico para a sensação de retirada do favor e da atenção de Deus.

  • מַחְשָׁךְmachshak

    escuridão, lugar escuro — palavra que fecha o salmo no hebraico original, reforçando a ausência de resolução.

  • רֵעַreaH7453

    companheiro, amigo, próximo — termo comum para relação de proximidade social, aqui descrevendo quem se afastou do salmista.

O que fazer com isso

Esse trecho dá permissão para orar sem precisar fechar a fala com um final animador. Quem atravessa luto, depressão ou doença prolongada muitas vezes sente que precisa "terminar bem" a oração, como se a dor persistente fosse falha espiritual. O Salmo 88 mostra que não é assim: dá para continuar falando com Deus mesmo sem sentir alívio, e isso já é oração válida. Vale usar as próprias palavras do salmo quando faltar vocabulário para descrever o que se sente.

Passagens relacionadas8

Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.

Fontes consultadas4 obras
  • Derek Kidner. Psalms 73-150 (Tyndale Old Testament Commentaries), 1975.
  • Walter Brueggemann. The Message of the Psalms: A Theological Commentary, 1984.
  • Gerald H. Wilson. The Editing of the Hebrew Psalter, 1985.
  • C.S. Lewis. Reflections on the Psalms, 1958.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

O Salmo 88 é mesmo o único salmo que não termina em esperança?

É amplamente citado por comentaristas como o mais consistentemente sombrio entre os 150 salmos, por não conter nenhuma virada para confiança ou louvor antes do fim. Outros salmos de lamento também são pesados, mas costumam incluir ao menos um verso de esperança renovada.

Esse salmo pode ser usado em oração hoje?

Sim. É frequentemente citado como recurso para momentos de depressão, luto ou doença prolongada, justamente por dar palavras a uma experiência de dor sem fingir uma resolução que ainda não chegou.

Por que a Bíblia incluiria um texto tão sem esperança?

Porque o cânon bíblico reflete a gama completa da experiência humana diante de Deus, não apenas os momentos resolvidos. Sua presença mostra que a fé bíblica não exige otimismo forçado para ser considerada autêntica.

Temas

  • Sofrimento
  • #Salmos
  • #lamento
  • #oração
  • #Antigo Testamento
  • #depressão

Publicado em 22/08/2026

Construído sobre fontes em domínio público, listadas acima. Como produzimos. Encontrou um erro? Escreva para a redação.

O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 4 obras citadas, com autor e ano
  • 2 afirmações populares checadas e refutadas
  • 4 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

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