
"O ímpio toma emprestado e não paga; mas o justo se compadece e dá"
O que significa Salmos 37:21, sobre o ímpio que toma emprestado e não paga?
O perverso toma emprestado, e paga de volta; mas o justo se compadece e dá.
Resposta curta
é um versículo curto que amarra caráter moral a comportamento financeiro concreto: "o ímpio toma emprestado e não paga; mas o justo se compadece e dá". O texto não está descrevendo dois acidentes de sorte — alguém que por infelicidade não conseguiu pagar uma dívida, ao lado de alguém que por acaso teve dinheiro sobrando para doar. Está descrevendo dois padrões de vida, dois tipos de pessoa: quem trata compromissos financeiros como descartáveis quando convém, e quem, generosamente, dá além do que é estritamente devido. É um salmo sapiencial sobre a aparente prosperidade dos ímpios, e esse versículo específico usa dinheiro e dívida como teste prático de caráter, não como julgamento sobre quem é rico ou pobre em si.
Como isso aponta para Jesus
Ligação indiretaA ligação com Cristo aqui é genuinamente indireta: o salmo não é citado como profecia messiânica no Novo Testamento. O padrão de generosidade compassiva descrito no justo, porém, encontra eco amplo no ensino e na prática de Jesus, que consistentemente associa justiça a compaixão concreta com necessidades materiais dos outros.
Em palavras simples
Este versículo compara dois tipos de pessoa através do jeito como lidam com dinheiro: uma pega empréstimo e simplesmente não paga de volta, e a outra tem compaixão e dá generosamente aos outros. Não é sobre um acidente isolado — é sobre um padrão de vida que se repete. A ideia central é que a forma como alguém trata compromissos financeiros costuma mostrar, na prática, que tipo de caráter essa pessoa realmente tem.
Contexto histórico
O Salmo 37 é um salmo acróstico — cada estrofe começa, no hebraico original, com a letra seguinte do alfabeto — gênero que favorece reflexão sapiencial organizada e memorização oral, próximo em tom e tema ao livro de Provérbios e a Jó. O tema central do salmo é a tensão entre a aparente prosperidade dos ímpios e a situação, às vezes precária, dos justos: o salmista repetidamente exorta o leitor a não se irritar nem invejar quem pratica maldade e ainda assim floresce (37:1, 7, 8), afirmando que essa prosperidade é passageira e que o desfecho final favorecerá os justos.
O versículo 21 está numa sequência (versículos 16-22) que contrasta diretamente o pouco do justo com o muito dos ímpios: "melhor é o pouco do justo do que a abundância de muitos pecadores" (v.16), e segue descrevendo o braço dos ímpios sendo quebrado enquanto o Senhor sustenta os justos. Dentro dessa moldura, o comportamento com dívidas funciona como evidência concreta e observável de caráter — algo que a comunidade podia de fato verificar no dia a dia, não uma afirmação abstrata sobre moralidade interior inacessível.
No direito e costume do antigo Oriente Próximo, empréstimos entre vizinhos, especialmente a pessoas necessitadas, eram regulados por leis que proibiam cobrança de juros entre israelitas (, ) e esperavam generosidade sem retorno garantido — o empréstimo funcionava, em muitos casos, quase como ajuda social informal. Nesse contexto, não pagar uma dívida não era apenas inconveniente financeiro para o credor: era quebra de um sistema de confiança comunitária que sustentava os mais vulneráveis, e o salmo trata essa quebra como sintoma moral, não episódio isolado.
O salmo é tradicionalmente atribuído a Davi, e sua estrutura acróstica sugere composição cuidadosa, destinada à instrução e memorização, não a um desabafo espontâneo — o que reforça a leitura de que cada estrofe, incluindo o versículo 21, foi deliberadamente organizada para funcionar como ensino prático de discernimento moral diante da prosperidade aparente dos ímpios.
Aprofundamento
O verbo hebraico usado para o comportamento do ímpio é לֹוֶה (loveh, particípio de lavah, "tomar emprestado") combinado com וְלֹא יְשַׁלֵּם (velo yeshallem, "e não paga/restitui"), forma verbal que no hebraico indica uma ação habitual, um padrão repetido, não um deslize pontual. Do outro lado, o justo é descrito com חוֹנֵן וְנוֹתֵן (chonen venoten, "se compadece e dá"), particípios que também indicam disposição contínua de caráter, não gestos isolados de generosidade.
Willem VanGemeren, em seu comentário sobre os Salmos na série Expositor's Bible Commentary, observa que o Salmo 37 pertence à tradição sapiencial que lida com a chamada teodiceia prática — não a pergunta abstrata sobre por que o mal existe, mas a pergunta concreta e cotidiana sobre por que os maus parecem prosperar enquanto os justos sofrem, e nota que o versículo 21 escolhe deliberadamente uma situação financeira ordinária, reconhecível por qualquer ouvinte, para tornar tangível uma afirmação teológica que poderia facilmente permanecer abstrata.
Derek Kidner, em seu comentário sobre os Salmos, destaca que o contraste não é entre rico e pobre, mas entre dois usos do dinheiro: o ímpio trata recursos, inclusive os que pertencem a outros, como instrumento de vantagem própria sem responsabilidade; o justo trata os próprios recursos como algo a ser compartilhado, mesmo que isso signifique dar mais do que o estritamente exigido. Kidner nota ainda que o verbo "compadecer-se" (חָנַן, chanan) é o mesmo usado repetidamente para descrever a graça e a compaixão de Deus para com Israel — sugerindo que a generosidade do justo replica, em escala humana, um atributo divino.
É um versículo genuinamente difícil de aplicar com cuidado: ele não está descrevendo toda situação de inadimplência como sinal de impiedade — dívidas podem ficar sem pagamento por doença, desemprego, catástrofe, sem que isso revele caráter algum. O salmo está falando de padrão deliberado e habitual, não de infortúnio pontual, e por isso comentaristas alertam contra o uso pastoral apressado desse texto para julgar moralmente quem, por circunstância real, não conseguiu honrar um compromisso financeiro. A distinção importa pastoralmente: discernir padrão deliberado exige conhecer a história da pessoa, não apenas o saldo pendente de uma dívida.
Referências cruzadas relevantes incluem , que repete quase a mesma estrutura ("o homem bom se compadece e empresta"), e , sobre o devedor como servo de quem empresta, além de , que ordena generosidade concreta com os pobres da terra — o mesmo eixo ético de responsabilidade financeira aparece de forma consistente em diferentes gêneros da literatura bíblica.
O que costumam dizer errado1 afirmação
Dizem que:O versículo ensina que toda pessoa endividada ou inadimplente é, por definição, ímpia.
O texto descreve um padrão deliberado e habitual de não honrar compromissos, não infortúnios pontuais como doença, desemprego ou catástrofe, que podem impedir alguém de pagar uma dívida sem que isso revele caráter algum.
Como diferentes tradições cristãs leem1 leitura
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Ética judaica rabínica sobre tzedakah
Tradições rabínicas frequentemente leem esse versículo ao lado do princípio de tzedakah (justiça/caridade), entendendo generosidade não como opção supererrogatória, mas como obrigação de justiça inerente à identidade de quem segue a aliança.
No original2 termos
לֹוֶהlovehH3867
particípio "o que toma emprestado"; a forma verbal sugere hábito recorrente, reforçando que o texto descreve um padrão de caráter, não um episódio isolado de inadimplência.
חוֹנֵןchonenH2603
particípio de "compadecer-se" (חָנַן), mesma raiz usada para a compaixão e graça de Deus por Israel; aplicado ao justo, sugere que sua generosidade reflete um atributo divino.
O que fazer com isso
O versículo pede um exame de caráter através de algo concreto e verificável: como alguém trata compromissos financeiros revela, com frequência, mais sobre seu caráter do que discursos sobre valores. Isso não autoriza julgar quem enfrenta dificuldade real para pagar dívidas por circunstâncias fora de seu controle — o alvo é o padrão deliberado de quem trata obrigações como descartáveis, contrastado com quem dá generosamente mesmo sem ser estritamente obrigado.
Passagens relacionadas5
Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.
Fontes consultadas2 obras
- Derek Kidner. Psalms 1-72 (Tyndale Old Testament Commentaries), 1973.
- Willem A. VanGemeren. Psalms (Expositor's Bible Commentary), 2008.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Salmos 37:21 condena quem não conseguiu pagar uma dívida por dificuldade financeira?
Não diretamente. O texto descreve um padrão deliberado e repetido de não honrar compromissos como traço de caráter, não uma situação pontual causada por infortúnio, doença ou desemprego, que exige discernimento pastoral cuidadoso.