
Israel sacrificou os próprios filhos a demônios?
salmos 106:37 sacrificaram filhos demonios significado
Além disso, sacrificaram seus filhos e suas filhas a demônios, E derramaram sangue inocente, o sangue de seus filhos e de suas filhas, os quais eles sacrificaram aos ídolos de Canaã; e a terra foi profanada com este sangue.
Resposta curta
faz parte de uma longa confissão nacional que percorre a história de Israel desde o Egito até a ocupação de Canaã, listando suas repetidas rebeliões contra Deus. Nestes dois versículos, a confissão chega a um dos pontos mais graves: o povo passou a sacrificar os próprios filhos e filhas, oferecendo-os a divindades cananeias, aqui chamadas de "demônios", e derramando sangue inocente que, segundo o texto, profanou a própria terra.
Esse relato não descreve uma prática fundamental do culto israelita original, mas uma corrupção adotada depois que o povo não expulsou as nações de Canaã como havia sido ordenado e passou a imitar seus costumes religiosos mais extremos. O salmo nomeia esse pecado sem suavizá-lo, como parte de uma confissão honesta que explica por que o juízo relatado na sequência do texto aconteceu.
Como isso aponta para Jesus
ContrasteO salmo expõe o ápice da idolatria de Israel: sacrificar os próprios filhos a divindades falsas, na esperança vã de agradá-las ou aplacá-las. É a inversão mais extrema do sacrifício — entregar a vida de um filho inocente a poderes que nada podem salvar. O evangelho aponta para o movimento oposto: não é o povo que oferece seu filho a Deus, mas o próprio Deus que entrega seu Filho por seu povo, oferecendo de graça o que a idolatria cananeia tentava comprar com sangue derramado. Onde o culto pagão destruiu vidas inocentes para tentar controlar poderes hostis, a cruz mostra um Deus que dá sua própria vida para restaurar quem se afastou dele.
Respaldo no Novo Testamento:
Contexto histórico
O Salmo 106 pertence ao grupo dos salmos históricos, que revisam o passado de Israel não para celebrá-lo, mas para confessá-lo diante de Deus. Ele forma um par com o Salmo 105: enquanto aquele narra a fidelidade do SENHOR à sua aliança, este narra a infidelidade repetida do povo, do Egito até a terra prometida. O apelo final, "ajunta-nos dentre as nações" (v.47), sugere que o salmo foi composto ou usado como confissão comunitária depois de alguma dispersão, provavelmente ligada ao exílio.
Os versículos 34 a 39 formam o ponto mais grave dessa confissão. O texto começa lembrando que Israel não expulsou os povos de Canaã como havia sido ordenado (comparar e 20:16-18); em vez disso, o povo se misturou com essas nações, aprendeu suas práticas religiosas (v.35) e passou a servir seus ídolos (v.36). Os versículos 37-38 descrevem o ápice dessa assimilação: sacrificar os próprios filhos e filhas.
Essa prática está associada, em outras passagens do Antigo Testamento, ao culto a Moloque, uma divindade cananeia cujo ritual de sacrifício infantil é proibido explicitamente, com pena de morte, em e 20:2-5, e denunciado por profetas posteriores (; ; ). O termo hebraico traduzido por "demônios" no versículo 37 é shedim, palavra que ocorre em apenas outro lugar da Bíblia hebraica: , onde Moisés já havia advertido que servir a deuses estrangeiros era, na prática, servir a shedim. O salmista de 106 parece citar essa passagem de propósito, mostrando que via na apostasia de Israel a realização exata do que a própria Torá havia previsto. O relato não apresenta o sacrifício infantil como parte do culto mosaico original, mas como uma corrupção posterior, adotada por imitação dos costumes das nações vizinhas que a lei havia mandado evitar desde o início da ocupação da terra. A denúncia funciona, dentro do salmo, como explicação teológica: é essa mistura religiosa, e não um acaso qualquer, que o texto aponta como causa direta do juízo que Israel sofreria mais adiante em sua história.
Aprofundamento
O Salmo 106 é um salmo histórico, provavelmente composto ou reunido após o exílio babilônico, dado o apelo final por reunião "dentre as nações" (v.47). Ele serve a uma comunidade que precisa entender por que sua história terminou em dispersão, e por isso revisa o passado sem filtrar seus momentos mais graves. Os versículos 34-39 formam o clímax dessa confissão: o povo não expulsou as nações de Canaã como Deus havia ordenado (comparar e 20:16-18), e o resultado foi uma assimilação religiosa progressiva — primeiro servir aos ídolos (v.36), depois reproduzir seus ritos mais extremos (v.37-38).
O verbo hebraico traduzido por "sacrificaram" (zabach) é o mesmo usado para os sacrifícios legítimos oferecidos ao SENHOR no restante do Antigo Testamento. O salmista escolhe deliberadamente essa palavra para expor a inversão: o culto que deveria ser dirigido a Deus foi entregue a "demônios" (shedim). Esse termo hebraico aparece apenas duas vezes em toda a Bíblia hebraica: aqui e em , onde Moisés já advertira que servir a deuses estrangeiros era, na prática, servir a shedim — "deuses que não conheciam, novos, que vieram há pouco, aos quais vossos pais não temeram". O salmista de 106 cita essa passagem quase literalmente, deixando claro que via na apostasia de Israel o cumprimento exato do que a Torá já havia previsto.
Comentaristas como Keil e Delitzsch e Derek Kidner associam esses versículos ao culto a Moloque, prática condenada com pena de morte em e 20:2-5, e denunciada repetidamente pelos profetas (; ; 19:5; 32:35; ; 20:26,31) como algo que persistiu entre parte do povo até os últimos reis de Judá — Manassés é explicitamente acusado disso em . A arqueologia documenta sacrifício infantil ritual em sítios fenício-púnicos como Cartago, o que dá plausibilidade histórica externa a essas denúncias bíblicas contra práticas de origem cananeia; a extensão exata da prática dentro de Israel, porém, segue sendo debatida entre historiadores.
O versículo 38 acrescenta um detalhe teológico importante: "a terra foi profanada com este sangue". No pensamento bíblico, sangue inocente derramado contamina o próprio solo (comparar ; ) — não é apenas um crime contra as vítimas, mas uma ruptura na relação entre o povo e a terra que Deus lhe dera. É essa contaminação, segundo o salmo, que explica o juízo relatado logo depois (v.40-41): a entrega de Israel nas mãos de nações estrangeiras. A confissão não ameniza nem justifica o passado — ela nomeia o pecado em sua forma mais grave como parte do processo de arrependimento nacional.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:O sacrifício infantil era uma prática comum e oficialmente aceita na religião de Israel desde Moisés.
A Torá proíbe explicitamente essa prática desde cedo e prevê pena de morte para quem a praticasse (; 20:2-5). O próprio Salmo 106 descreve isso como uma corrupção posterior, adotada por imitação dos povos cananeus, não como parte do culto mosaico original.
Dizem que:Os "ídolos de Canaã" mencionados no texto eram apenas estátuas sem qualquer relevância espiritual, e a palavra "demônios" é só um exagero poético do salmista.
O termo hebraico shedim, usado também em , indica que a Escritura via realidade espiritual hostil por trás da idolatria, não apenas madeira e pedra sem sentido — tema que reaparece em .
Como diferentes tradições cristãs leem4 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Católica
Segue a leitura patrística, remontando a Agostinho, de que por trás dos ídolos pagãos há realidades demoníacas concretas, não apenas objetos inertes; a passagem é lida à luz de como testemunho da realidade espiritual da idolatria.
Reformada
Enfatiza o texto como demonstração da depravação humana: deixado à própria sorte, o coração humano desliza progressivamente para formas cada vez mais graves de idolatria, culminando no que há de mais monstruoso — o sacrifício dos próprios filhos.
Pentecostal
Lê a menção a shedim como evidência bíblica direta de que forças demoníacas atuam ativamente por trás de sistemas religiosos falsos, aplicando o texto à necessidade de vigilância espiritual e discernimento diante de práticas sincretistas hoje.
Luterana
Prioriza a função da passagem como Lei que expõe a incapacidade humana de permanecer fiel por esforço próprio, apontando para a necessidade universal de graça, mais do que para especulação sobre a natureza exata dos shedim.
No original2 termos
שֵׁדִיםshedimH7700
demônios, poderes espirituais malignos associados aos ídolos pagãos; termo raro, usado no Antigo Testamento apenas aqui e em
זָבַחzabachH2076
sacrificar, degolar em oferenda; o mesmo verbo usado para os sacrifícios legítimos ao SENHOR, aqui aplicado à oferenda idólatra dos filhos
O que fazer com isso
O salmo modela uma forma de confissão que não filtra os detalhes mais duros do passado para deixá-lo mais confortável. Reconhecer plenamente um erro grave, pessoal, familiar ou coletivo, sem minimizar nem culpar apenas os outros, é o primeiro passo para que ele não se repita. A pressão para se adequar aos costumes ao redor, mesmo quando cruzam limites morais claros, continua sendo uma tentação real hoje, não apenas um problema antigo.
Passagens relacionadas13
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Fontes consultadas4 obras
- Keil, C. F. e Delitzsch, F.. Commentary on the Old Testament: Psalms, 1871.
- Kidner, Derek. Psalms 73-150: An Introduction and Commentary (Tyndale Old Testament Commentaries), 1975.
- Koehler, Ludwig e Baumgartner, Walter. The Hebrew and Aramaic Lexicon of the Old Testament (HALOT), 1994.
- Calvin, John. Commentary on the Book of Psalms, 1557.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Israel realmente sacrificava crianças, ou é só uma figura de linguagem?
O texto é direto e histórico, não metafórico. Outras passagens da Torá e dos profetas confirmam que a prática existiu entre parte do povo, ligada sobretudo ao culto a Moloque, embora nunca tenha sido parte da lei mosaica — pelo contrário, era proibida com pena de morte.
Por que a Bíblia chama os deuses cananeus de demônios?
O termo hebraico shedim aparece só aqui e em . A Escritura não afirma que ídolos de madeira ou pedra têm poder próprio, mas que por trás da idolatria existem forças espirituais reais e hostis a Deus, ideia retomada por Paulo em .
Esse pecado ficou sem consequência?
Não. O próprio salmo relata logo depois que a ira de Deus se acendeu contra o povo, que foi entregue nas mãos de nações estrangeiras (v.40-41) como consequência direta dessa corrupção religiosa.
Existe evidência fora da Bíblia de sacrifício infantil nessa época?
Sim, a arqueologia documenta sacrifício ritual de crianças em sítios fenício-púnicos como Cartago. A extensão exata dessa prática dentro de Israel é discutida entre historiadores, mas a origem cananeia do costume é bem estabelecida.
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