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Significado Bíblico
Costumes da épocaintermediária
Ilustração da categoria Costumes da época

Noemi reconhece Boaz como parente remidor

o que significa parente remidor na bíblia rute e boaz

E disse-lhe sua sogra: Onde tiraste espigas hoje? e onde trabalhaste? Bendito seja o que te reconheceu. E ela declarou à sua sogra o que lhe havia acontecido com aquele, e disse: O nome do homem com quem hoje trabalhei é Boaz. E disse Noemi à sua nora: Seja ele bendito do SENHOR, pois que não recusou aos vivos a benevolência que teve para com os finados. Disse-lhe depois Noemi: Nosso parente é aquele homem, e de nossos remidores é. E Rute moabita disse: a mais disto me disse: Junta-te com meus criados, até que tenham acabado toda minha colheita. E Noemi respondeu a Rute sua nora: Melhor é, filha minha, que saias com suas criadas, que não que te encontrem em outro campo. Esteve, pois, junto com as moças de Boaz tirando espigas, até que a colheita das cevadas e a dos trigos foi acabada; mas com sua sogra habitou.

· Bíblia Livre (Textus Receptus)

Resposta curta

Rute volta do campo com a colheita do dia e conta a Noemi tudo o que aconteceu, revelando por fim o nome do dono do campo: Boaz. Ao ouvir isso, Noemi muda de tom — abençoa o homem no nome do SENHOR e explica à nora o que Rute ainda não sabia: Boaz é parente próximo da família, um dos possíveis "remidores", homens com o dever de socorrer parentes em necessidade extrema.

A conversa se torna prática. Rute conta que Boaz a convidou a ficar com os empregados dele até o fim da colheita, e Noemi aprova, dizendo ser mais seguro ficar nesse campo do que arriscar-se em outro. Rute colhe com as moças de Boaz até o fim da colheita de cevada e trigo, morando com a sogra — período que prepara o pedido de resgate do capítulo seguinte.

Como isso aponta para Jesus

Trajetória do texto

O papel do go'el — o parente com o dever legal de resgatar quem não pode se resgatar sozinho — é uma das figuras que atravessam toda a Escritura e desembocam, no Novo Testamento, em linguagem de redenção. O Novo Testamento usa vocabulário de resgate para descrever o que Cristo faz por quem estava preso ao pecado (; ) — alguém que se torna próximo, da mesma família humana, precisamente para ter o direito e a capacidade de resgatar (compare ). O próprio Boaz, o parente que Noemi identifica neste texto, é depois incluído por nome na genealogia de Jesus em , o que ancora essa trajetória de resgate não como alegoria solta, mas como parte da mesma linha de família que o Novo Testamento reivindica para Cristo. Isso não significa que seja, em si, uma profecia sobre Jesus — o texto descreve um costume legal concreto do Israel antigo — mas o padrão que ele revela, alguém de dentro da família, movido por chesed, que se dispõe a agir pelo resgate, é o mesmo padrão que o Novo Testamento aplica a Cristo em escala maior.

Respaldo no Novo Testamento: ;

Em palavras simples

Rute chega em casa contando pra sogra como foi o dia de trabalho, e menciona o nome do dono do campo: Boaz. Assim que ouve isso, Noemi muda de ânimo — ela conhece Boaz e sabe que ele é parente da família, alguém que pode ajudar as duas a saírem da situação difícil em que estão. Noemi aconselha Rute a continuar trabalhando só nesse campo, porque é mais seguro. Rute segue colhendo até o fim da safra, sempre voltando pra casa da sogra à noite.

Contexto histórico

se passa durante a colheita de cevada e trigo em Belém, num período identificado no início do livro como "os dias em que os juízes governavam" (), uma época de instabilidade social bem antes da monarquia. A lei israelita determinava que os donos de campo deixassem para trás parte da colheita — os cantos do campo e as espigas caídas — para que estrangeiros, órfãos e viúvas pudessem colher e sobreviver (; ). Foi seguindo esse direito que Rute, viúva moabita, foi ao campo colher espigas e, sem saber de antemão, acabou no campo de Boaz.

O que dá peso à cena de é o vocabulário jurídico que Noemi usa ao ouvir o nome de Boaz. Ela o chama de parente e de um dos "remidores" (em hebraico, go'el) da família — termo técnico da lei israelita para o parente mais próximo que tinha o dever de socorrer um membro da família em apuros: recomprar terras vendidas por necessidade (), resgatar um parente escravizado por dívida () ou, em certos casos ligados a essa mesma rede de obrigações familiares, garantir descendência a um parente falecido sem filhos por meio do chamado casamento por levirato (). O livro de Rute vai entrelaçar essas duas instituições — resgate de propriedade e continuidade da linhagem — nos capítulos seguintes, mas aqui, ainda no capítulo 2, o texto apenas identifica Boaz como candidato a esse papel, sem detalhar como o resgate vai acontecer.

Essa identificação muda o tom da narrativa. No capítulo 1, Noemi havia pedido para ser chamada de "Mara" (amarga), convencida de que o SENHOR a tinha esvaziado (). Em 2:20, ela abençoa o SENHOR por não ter abandonado "os vivos" nem "os finados" — reconhecendo, pela primeira vez no livro, um sinal concreto de que a sorte da família pode mudar.

Aprofundamento

O ponto de virada de não é uma coincidência dramática, mas o resultado de um detalhe jurídico que o texto hebraico deixa claro por meio de duas palavras: qarob ("próximo", "parente") e go'el ("remidor"). Comentaristas como Keil e Delitzsch, no clássico Commentary on the Old Testament, notam que o hebraico de usa a expressão "um de nossos goalim" (plural de go'el) — ou seja, Boaz não era o único parente com esse dever, apenas um entre vários candidatos possíveis, o que os capítulos seguintes vão explorar quando um parente ainda mais próximo aparece ().

O termo go'el descreve, na lei israelita, o parente que tinha a responsabilidade de agir em nome de um membro da família incapaz de se defender sozinho — recomprando uma propriedade vendida por necessidade (), resgatando um parente vendido como escravo () ou, no caso de homicídio, executando a justiça contra o assassino (, onde o termo aparece como "vingador do sangue"). Não era, originalmente, um termo ligado ao casamento; a conexão entre o dever do go'el e o casamento por levirato aparece de forma mais explícita só em , quando Boaz negocia publicamente os dois direitos juntos. Aqui, em 2:20, o texto apenas estabelece a base legal que tornará essa negociação possível.

O outro termo central é chesed, que a tradução usada neste verbete traz como "benevolência". Léxicos padrão do hebraico bíblico, como o HALOT, definem chesed como uma lealdade que vai além da obrigação estrita — um cuidado fiel dentro de uma relação, geralmente familiar ou de aliança. Noemi usa a palavra de forma entrelaçada em 2:20: reconhece o chesed de Boaz, por ter tratado bem Rute, e ao mesmo tempo atribui esse mesmo chesed ao SENHOR, que "não recusou aos vivos" a lealdade "que teve para com os finados". Matthew Henry, em seu comentário sobre este capítulo, observa que Noemi enxerga na bondade humana de Boaz um sinal da bondade divina — ela não separa as duas coisas.

Narrativamente, esse é o momento em que o livro muda de registro. Os capítulos 1 e 2, até aqui, documentam perda, deslocamento e sobrevivência precária; a partir de 2:20, a trama ganha um objetivo concreto — o resgate por meio de Boaz — que vai ocupar os capítulos 3 e 4. A instrução final de Noemi em 2:22-23, para que Rute permaneça só no campo de Boaz, também tem lógica prática: campos de colheita, com trabalhadores sazonais, eram lugares de risco real para uma mulher estrangeira e viúva, como o próprio Boaz já havia insinuado ao ordenar que seus empregados não a maltratassem ().

O que costumam dizer errado2 afirmações
  • Dizem que:'Remidor' (go'el) era, na lei de Israel, sinônimo automático de 'futuro marido' — todo parente próximo tinha o dever de se casar com a viúva.

    O dever do go'el, na lei israelita, cobria principalmente resgate de terras () e de parentes escravizados por dívida (), além da vingança de sangue (). O casamento por levirato era uma instituição relacionada, mas distinta, aplicada de forma mais restrita a cunhados (). A combinação dos dois direitos no caso de Boaz é uma solução negociada, que o próprio livro de Rute só detalha no capítulo 4, não a definição padrão de go'el.

  • Dizem que:Rute foi parar no campo de Boaz porque Noemi já havia planejado tudo desde o início.

    O texto do capítulo anterior () descreve Rute indo colher espigas por conta própria e 'aconteceu por acaso' de o campo pertencer a Boaz; só depois, ao ouvir o relato de Rute em 2:19, Noemi reconhece quem é o dono do campo. Não há indicação de que ela tenha orquestrado esse encontro específico.

Como diferentes tradições cristãs leem4 leituras

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • reformada

    Enfatiza a providência soberana de Deus por trás do que o texto chama de 'acaso' (): o campo em que Rute termina colhendo não é sorte cega, mas o governo detalhado de Deus preparando o encontro que vai reverter a situação da família.

  • luterana

    Lê a cena como Deus agindo 'sob máscaras' (larvae Dei) — por meio de instituições humanas comuns, como a lei da colheita e o parentesco, sem necessidade de um milagre visível para que sua bondade alcance Noemi e Rute.

  • católica

    Destaca o chesed de Boaz como exemplo concreto da virtude da caridade e da solidariedade familiar, um cuidado com o próximo que cumpre, em ato, a exigência de amor ao parente em necessidade.

  • pentecostal

    Vê na virada de ânimo de Noemi, de amargura para esperança, um exemplo do modo como uma palavra de boa notícia pode reacender a fé de alguém que estava espiritualmente abatido, preparando-a para agir de novo.

No original3 termos
  • חֶסֶדchesedH2617

    lealdade ou bondade que cumpre uma obrigação de relação ou aliança, mesmo quando não é estritamente exigida; traduzido aqui como 'benevolência'.

  • גֹּאֵלgo'elH1350

    'remidor' ou 'resgatador' — parente próximo com o dever legal, na lei israelita, de resgatar terras, libertar parente escravizado por dívida ou agir em nome de um membro da família incapaz de se defender sozinho.

  • קָרוֹבqarob

    'próximo' ou 'parente' — usado para descrever o grau de parentesco de Boaz com a família de Elimeleque.

O que fazer com isso

A virada de Noemi não nasce de um sentimento vago, mas de uma informação concreta — o nome de uma pessoa real, com um papel real dentro da família. Isso é um lembrete simples: esperança que resiste costuma vir de prestar atenção aos detalhes da própria vida, não apenas de esperar por um sinal grandioso. Buscar, dentro da própria rede de relações, quem já demonstrou lealdade — o chesed que Noemi reconhece em Boaz — costuma ser o primeiro passo prático diante de uma situação difícil.

Passagens relacionadas6

Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.

Fontes consultadas3 obras
  • Carl Friedrich Keil e Franz Delitzsch. Commentary on the Old Testament: Joshua, Judges, Ruth, 1866.
  • Matthew Henry. Commentary on the Whole Bible, 1706.
  • Ludwig Koehler e Walter Baumgartner. The Hebrew and Aramaic Lexicon of the Old Testament (HALOT), 1994.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

O que significa 'remidor' em Rute 2:20?

É a tradução do termo hebraico go'el, que na lei israelita designava o parente mais próximo com o dever de socorrer um membro da família em situação de necessidade extrema — recomprando terras vendidas, resgatando um parente escravizado por dívida ou, em casos ligados a essa mesma obrigação, garantindo descendência a um parente falecido. Noemi usa a palavra para dizer que Boaz é um dos parentes que poderiam exercer esse papel pela família dela.

Boaz era parente de sangue de Rute?

Não diretamente. Boaz era parente da família de Elimeleque, o falecido sogro de Rute (marido de Noemi), e por isso tinha o dever de go'el em relação a essa família por afinidade, não por sangue com Rute.

Por que Noemi muda de humor tão de repente nesse capítulo?

Porque o nome de Boaz não é apenas um nome qualquer: Noemi sabe que ele é parente próximo da família, com obrigação legal de ajudar. A mudança de tom não é emocional sem base — é a reação a uma informação jurídica concreta que reabre uma possibilidade real de socorro para as duas viúvas.

Noemi já estava planejando o casamento de Rute com Boaz nesse ponto da história?

O texto não indica isso ainda. Em 2:19-23 Noemi apenas identifica Boaz como parente remidor e aconselha Rute a continuar colhendo com segurança no campo dele; o plano mais elaborado só aparece no capítulo seguinte.

Temas

  • Graça
  • #rute
  • #antigo-testamento
  • #boaz
  • #noemi
  • #hesed
  • #goel
  • #genealogia-de-jesus

Publicado em 01/09/2026

Construído sobre fontes em domínio público, listadas acima. Como produzimos. Encontrou um erro? Escreva para a redação.

O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 3 obras citadas, com autor e ano
  • 2 afirmações populares checadas e refutadas
  • 4 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

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