
Paulo desejaria ser anátema por seus irmãos: o que ele quis dizer em Romanos 9:3?
Paulo realmente queria ser amaldiçoado e separado de Cristo pelo seu povo em Romanos 9:3?
Digo a verdade em Cristo, não minto, e minha consciência dá testemunho comigo pelo Espírito Santo, de que tenho grande tristeza e contínuo tormento em meu coração. Porque desejaria eu mesmo ser separado de Cristo em proveito dos meus irmãos, que são meus parentes segundo a carne;
Resposta curta
Em , Paulo jura dizer a verdade em Cristo e declara ter grande tristeza e dor contínua no coração, porque desejava ser anátema, separado de Cristo, por amor de seus irmãos, os israelitas. Trata-se de um dos textos mais fortes da carta, e levanta duas dúvidas: o que significa 'anátema' e que tipo de desejo é esse, expresso por um verbo grego no imperfeito. A maior parte dos comentaristas entende o trecho como hipérbole sincera, na linha do pedido de Moisés em : expressão de amor que não calcula o custo, sem pretensão de que a troca fosse possível. Outros insistem no sentido literal do desejo, ainda que reconhecendo sua impossibilidade. Em ambos os casos, o texto abre os capítulos 9 a 11 mostrando que a discussão sobre Israel nasce de dor pastoral, e não de frieza doutrinária.
Como isso aponta para Jesus
ContrastePaulo gostaria de ser anátema por seus irmãos, mas não pode: só Cristo, de fato, 'foi feito maldição' em lugar de outros. O contraste entre o desejo impossível do apóstolo e o ato real de Cristo mostra a singularidade da cruz. O desejo de Paulo aponta, por oposição, para aquele que realmente carregou a maldição.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
Paulo está muito triste porque muitos do seu próprio povo, os judeus, não reconheceram Jesus. Ele diz que desejaria ser separado de Cristo, se isso os salvasse. A maioria dos estudiosos entende que isso é um exagero sincero, parecido com o pedido de Moisés em , para mostrar o tamanho do amor dele, e não um plano real, porque Paulo sabe que a troca é impossível.
Contexto histórico
inicia uma nova etapa da carta. Os capítulos 1 a 8 apresentam o evangelho, a justificação pela fé e a vida no Espírito, e terminam com uma afirmação de segurança: nada poderá nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus (8:38-39). Imediatamente depois, Paulo muda de tom e declara a sua tristeza por Israel.
O início do capítulo 9 tem um aspecto notável: Paulo reforça por três vezes que fala a verdade. Diz 'em Cristo', afirma 'não minto' e invoca o testemunho da sua consciência 'no Espírito Santo'. Uma razão provável é que o que ele vai dizer, que gostaria de ser anátema por seu povo, poderia soar exagerado ou até suspeito, e, além disso, havia na época quem o acusava de ter abandonado Israel ao pregar aos gentios.
Quem são os 'irmãos' e 'parentes segundo a carne'? São os judeus, o povo a que Paulo pertencia. Os versículos 4 e 5 listam os privilégios de Israel: a adoção, a glória, as alianças, a lei, o culto, as promessas, os patriarcas e, deles, segundo a carne, o Cristo. O drama é que esse povo, em grande parte, não reconheceu o Messias. A dor de Paulo vem dessa distância entre privilégio e resposta.
Os capítulos 9 a 11 formam uma unidade que trata da fidelidade de Deus à sua palavra apesar da incredulidade de Israel, e respondem a uma pergunta que atravessa toda a carta: se a maior parte de Israel não creu, a promessa de Deus fracassou? Paulo discute eleição, misericórdia, o remanescente fiel e a esperança de que 'todo o Israel será salvo' (11:26). A declaração inicial de 9:1-3 dá o tom: o assunto não é uma curiosidade teológica, mas uma ferida pessoal. O raciocínio que vem a seguir, incluindo os trechos mais debatidos sobre eleição, precisa ser lido com essa dor em mente, e não como um tratado frio sobre o destino alheio.
Aprofundamento
A palavra 'anátema' (anathema) tem uso técnico no Novo Testamento. Em designa o destino de quem não ama o Senhor, e em o de quem pregar outro evangelho. Na versão grega do Antigo Testamento, traduz o hebraico 'herem', algo devotado à destruição. Em , Paulo diz 'anátema da parte de Cristo' (apo tou Christou), isto é, separado de Cristo. A ideia é de condenação e rompimento de comunhão.
O verbo é 'euchomen', imperfeito de euchomai ('desejar, orar'), e é sobre ele que repousa a maior parte do debate. O imperfeito pode ser entendido de várias maneiras. Pode indicar um desejo contínuo e atual, pode ser entendido como desejo irreal ('eu poderia desejar, se fosse possível') ou, para alguns, como um desejo que Paulo chegou a sentir com força. As traduções em português costumam optar por 'desejava' ou 'desejaria', e esta segunda forma dá ao verbo um tom irreal. É essa a interpretação adotada por muitos comentaristas: Paulo exprime o limite do seu amor, sabendo que a troca é impossível.
Um paralelo importante é o de Moisés. Em , depois do pecado do bezerro de ouro, Moisés pede que Deus perdoe o povo e, se não, que o risque do livro que Deus escreveu. A semelhança é evidente, e o gesto de Paulo parece segui-lo: um mediador disposto a se oferecer pelo povo. A diferença é que nem Moisés nem Paulo podem de fato assumir a condenação dos outros.
A leitura de hipérbole é reforçada por , que acabou de afirmar que nada separa o crente de Cristo. Seria incoerente que Paulo, no capítulo seguinte, afirmasse sinceramente que desejava uma separação que acabou de declarar impossível. Por isso a leitura mais comum é que o desejo é real quanto à intensidade do amor, mas não quanto à possibilidade. Hipérbole aqui não é exagero retórico vazio. É a forma de dizer que, se amor pudesse pagar o preço, ele pagaria.
A leitura estritamente literal, ainda que minoritária, observa que Paulo realmente deseja a salvação deles a ponto de pensar em se sacrificar, e que o verbo no imperfeito expressa um impulso verdadeiro. O melhor é reconhecer a tensão: o texto fala de um desejo real, não de um plano. Quem lê o trecho como prova de que se pode trocar de lugar com outro na salvação desconsidera que só Cristo foi feito maldição () e que o próprio Paulo reconhece o limite.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:Paulo estava disposto a perder a própria salvação para salvar os judeus.
Em ele acabou de afirmar que nada pode separar o crente do amor de Cristo. O texto de 9:3 expressa a intensidade do amor e uma troca impossível, pois ninguém pode assumir a condenação de outro. Só Cristo foi feito maldição por nós ().
Dizem que:O imperfeito 'desejava' prova que Paulo já havia feito esse desejo no passado, quando perseguia a igreja.
Esse tipo de imperfeito não aponta para uma fase anterior da vida. O contexto trata da tristeza presente de Paulo (9:2), e a maioria dos comentaristas entende o verbo como expressão de desejo irreal ou contínuo, e não como memória de um episódio passado.
Como diferentes tradições cristãs leem3 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Hipérbole de amor (mais comum)
Paulo expressa a intensidade do seu amor com uma frase que ele sabe ser impossível de cumprir. A ideia é: se eu pudesse, eu o faria. É a posição de comentaristas como Moo, Cranfield e Schreiner.
Desejo irreal e contrafactual
O imperfeito deve ser entendido como 'eu poderia desejar', isto é, um desejo que não se concretiza por ser impossível. A ênfase está na gramática, e a conclusão é semelhante à da hipérbole.
Paralelo com a intercessão de Moisés
Paulo se coloca no papel de mediador, como Moisés em , disposto a se oferecer pelo povo. O texto, assim, une pastor, profeta e intercessor, sem afirmar que a oferta seja viável.
No original3 termos
ἀνάθεμαanathema
'Maldito, devotado à destruição, separado'. Na versão grega do Antigo Testamento traduz o hebraico herem; no Novo Testamento indica condenação e exclusão da comunhão com Deus.
ηὐχόμηνeuchomenG2172
Imperfeito de euchomai, 'desejar, orar, fazer um voto'. O tempo verbal permite as leituras de desejo contínuo, de tentativa ou de desejo irreal, e é o centro do debate.
ἀπὸ τοῦ Χριστοῦapo tou Christou
'Da parte de Cristo' ou 'separado de Cristo'. Expressa a separação de quem seria anátema em relação ao Messias.
O que fazer com isso
O texto não pede que alguém ofereça a própria salvação por outros, algo que a Bíblia diz ser impossível. Mostra, porém, que a convicção doutrinária e o amor pelas pessoas não são rivais. Quem trata de temas difíceis, como a incredulidade de familiares ou de um povo, pode fazê-lo com seriedade, mas sem frieza, deixando que a oração e a compaixão acompanhem a argumentação.
Passagens relacionadas5
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Fontes consultadas4 obras
- Douglas J. Moo. The Epistle to the Romans (NICNT), 1996.
- C. E. B. Cranfield. A Critical and Exegetical Commentary on the Epistle to the Romans (ICC), 1979.
- Thomas R. Schreiner. Romans (BECNT), 1998.
- James D. G. Dunn. Romans 9-16 (Word Biblical Commentary), 1988.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Moisés também fez um pedido parecido?
Sim. Em ele pede a Deus que perdoe o povo e, caso contrário, que o risque do livro que Deus escreveu. O paralelo com é frequentemente citado, mas ambos os textos expressam intercessão extrema, sem que a oferta seja aceita.
Esse texto contradiz Romanos 8:38-39?
Não, se for lido como hipérbole de amor ou desejo irreal. Paulo sabe que nada pode separá-lo de Cristo e, justamente por isso, a frase de 9:3 mostra o limite do seu amor: ele estaria disposto a pagar o preço, se isso fosse possível.