
Um cego em Jericó, ou dois? E ele entrava ou saía da cidade?
Marcos e Lucas falam de um cego curado em Jericó; Mateus fala de dois. Qual está certo?
E vieram a Jericó. E saindo ele, e seus discípulos, e uma grande multidão de Jericó, estava Bartimeu, um cego, filho de Timeu, sentado junto ao caminho. E ouvindo que era Jesus o nazareno, começou a clamar, e a dizer: Jesus, Filho de Davi! Tem misericórdia de mim! E muitos o repreendiam, para que se calasse; mas ele clamava ainda mais: Filho de Davi! Tem misericórdia de mim! Jesus parou, e disse que o chamassem. Então chamaram ao cego, dizendo-lhe: Tem bom ânimo, levanta-te, ele está te chamando. Então ele lançou sua capa, levantou-se, e veio a Jesus. Jesus, lhe perguntou: Que queres que eu te faça? E o cego lhe disse: Mestre, que eu veja. Jesus lhe disse: Vai; a tua fé te salvou. E logo consegiu ver. Então seguiu Jesus pelo caminho.
Resposta curta
nomeia o cego curado por Jesus em Jericó — Bartimeu, filho de Timeu — e narra o episódio com Jesus "saindo" da cidade. narra a mesma cura, sem nome, com Jesus "chegando perto" de Jericó — ou seja, entrando. fala de "dois cegos", sem nome, também com Jesus saindo da cidade.
O caso reúne dois problemas menores que costumam ser tratados juntos: o número de cegos (um ou dois, o mesmo padrão do episódio dos endemoninhados gadarenos) e a direção do movimento de Jesus (entrando ou saindo de Jericó). Os dois se resolvem por caminhos diferentes, e vale mostrar por quê.
Como isso aponta para Jesus
Ligação indiretaO clamor "Filho de Davi, tem misericórdia de mim" — presente nos três relatos, com o(s) cego(s) repetindo o título mesmo depois de repreendidos pela multidão — é uma das confissões messiânicas mais diretas dos evangelhos vindas de fora do círculo dos discípulos, pouco antes da entrada de Jesus em Jerusalém. A insistência do(s) cego(s) apesar da multidão que tentava silenciá-lo(s) é lida, nos três relatos, como sinal de fé reconhecida por Jesus mesmo — "tua fé te salvou" —, antecipando o padrão de reconhecimento público que se intensifica na semana seguinte.
Respaldo no Novo Testamento: ;
Contexto histórico
Os três relatos concordam na essência: perto de Jericó, um ou mais cegos mendigos, sentados à beira do caminho, ouvem a multidão e descobrem que é Jesus quem passa; clamam "Filho de Davi, tem misericórdia de mim/nós"; a multidão tenta calá-los; eles insistem; Jesus para, chama, pergunta o que querem, e devolve a visão, com menção à fé de quem pediu.
situa a cena assim: "vieram a Jericó. E saindo ele [Jesus], e seus discípulos, e uma grande multidão de Jericó, estava Bartimeu, um cego, filho de Timeu, sentado junto ao caminho" — o único dos três relatos a dar nome ao cego, com patronímico incluído. A cena acontece com Jesus saindo da cidade.
introduz a cena de forma diferente: "aconteceu que ele, chegando perto de Jericó, estava um cego sentado junto ao caminho, mendigando" — Jesus está se aproximando da cidade, não saindo dela. O cego não é nomeado.
situa a cena, como Marcos, na saída: "quando eles saíram de Jericó, uma grande multidão o seguiu. E eis que dois cegos assentados junto ao caminho... clamaram". Nenhum dos dois é nomeado.
Aprofundamento
**O número de cegos.** O padrão é idêntico ao do episódio dos endemoninhados gadarenos, tratado noutro verbete deste lote, e a explicação predominante é a mesma: Marcos e Lucas concentram a narrativa num único protagonista — o que Marcos identifica pelo nome, provavelmente porque Bartimeu era pessoa conhecida da comunidade cristã primitiva a que Marcos escrevia, talvez até presente entre eles como testemunha viva do próprio milagre. Mateus, mais compacto, registra que havia dois. Nenhum dos três nega o que os outros afirmam: Marcos e Lucas não dizem "só havia um"; simplesmente não desenvolvem a figura do segundo. É a mesma lógica que explica por que só Marcos registra dois cantos do galo, e por que só Mateus registra dois endemoninhados em Gadara — em cada caso, um evangelista desenvolve o que os outros resumem, sem que a diferença de ênfase constitua contradição de fato.
O detalhe do nome próprio em Marcos reforça essa leitura: é incomum que um evangelho nomeie uma figura menor de um milagre de cura sem razão narrativa específica, e a explicação mais aceita é que Bartimeu se tornou, depois da cura, discípulo conhecido — o texto de diz que ele, curado, "seguiu Jesus pelo caminho", sugerindo continuidade de relação além do episódio pontual da cura. Um segundo homem, presente mas sem essa continuidade posterior conhecida pela comunidade de Marcos, permanece sem nome e sem desenvolvimento nos relatos mais detalhados.
**A direção: entrando ou saindo de Jericó.** Este é o ponto mais discutido do episódio, e ele não se resolve pelo mesmo raciocínio de foco narrativo — é uma questão de fato geográfico simples (Jesus estava indo em que direção?), não de quantas pessoas apareciam na cena.
A proposta mais aceita entre os comentaristas explora um dado arqueológico e histórico bem documentado: no tempo de Jesus, existiam duas Jericós próximas uma da outra — a Jericó do Antigo Testamento, então em ruínas ou parcialmente habitada, e a Jericó nova, construída por Herodes o Grande a pouca distância, como residência de inverno e centro administrativo. Sob essa leitura, Jesus estaria saindo da Jericó antiga (como Marcos e Mateus descrevem) e entrando na Jericó nova de Herodes (como Lucas descreve) — as duas descrições seriam, então, geograficamente compatíveis, referindo-se a pontos diferentes de uma travessia entre as duas cidades vizinhas.
Essa proposta tem apoio arqueológico real — a existência das duas Jericós é fato bem estabelecido, não hipótese ad hoc criada só para resolver este texto — mas precisa ser reconhecida pelo que é: uma reconstrução geográfica plausível, não uma afirmação que nenhum dos três evangelhos faça explicitamente. Nenhum texto diz "saindo da Jericó velha, entrando na nova". É preciso também notar que essa explicação, ainda que satisfatória, depende de um dado extratextual — a arqueologia da região — que o leitor do primeiro século, sem acesso a mapas modernos, dificilmente teria em mente ao ouvir os três relatos lado a lado; a harmonização, portanto, é mais uma prova de que o problema é resolúvel do que uma leitura que o texto force sozinho.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:Mateus contradiz Marcos e Lucas sobre o número de cegos.
O mesmo padrão do episódio dos endemoninhados gadarenos: Marcos e Lucas não negam a presença de um segundo cego, apenas concentram a narrativa em torno de Bartimeu, cujo nome sugere relevância continuada para a comunidade a que Marcos escrevia.
Dizem que:Entrando e saindo de Jericó é uma contradição sem solução possível.
Existe explicação com apoio arqueológico real: havia duas Jericós próximas no tempo de Jesus, a antiga e a nova, construída por Herodes. É reconstrução plausível, não certeza textual, mas não é reconstrução sem fundamento histórico.
Como diferentes tradições cristãs leem2 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Foco narrativo: Bartimeu desenvolvido por nome, o segundo cego presente mas não destacado
Leitura predominante para a divergência de número. Apoia-se no padrão simétrico observável noutros episódios paralelos dos evangelhos e no fato de nenhum dos três textos negar a presença de uma segunda pessoa.
Duas Jericós vizinhas: saída da antiga, entrada na nova de Herodes
Leitura predominante para a divergência de direção. Apoia-se em dado arqueológico bem documentado sobre a existência de duas cidades próximas no período. Não é afirmação textual explícita, mas reconstrução histórica plausível.
No original2 termos
ΒαρτιμαῖοςBartimaios
"Bartimeu", literalmente "filho de Timeu" (bar = filho, em aramaico). Único nome próprio dado a um cego curado nos evangelhos, presente apenas em .
ἐκπορευομένουekporeuomenou
"Saindo". Particípio usado por e refletido em para descrever o movimento de Jesus na cena — em contraste com o "chegando perto" (ἐγγίζειν) de .
O que fazer com isso
Este verbete é útil como par do episódio dos endemoninhados gadarenos porque mostra que nem toda divergência dentro do mesmo episódio se resolve pelo mesmo mecanismo. O número de cegos se resolve por foco narrativo, o mesmo padrão observado noutros episódios. A direção do movimento de Jesus exige um dado histórico externo — a existência de duas Jericós vizinhas — que não decorre da simples lógica de "quem menciona mais, quem menciona menos".
Isso é uma lição de método importante: harmonizar bem exige, às vezes, conhecimento histórico e geográfico do mundo antigo, não apenas ginástica literária sobre o texto em si. Quando esse conhecimento existe e é sólido — como no caso das duas Jericós, bem documentado arqueologicamente —, ele deve ser usado; quando não existe, a honestidade exige dizer que a tensão fica sem solução plenamente demonstrada, como no caso da cronologia da Páscoa tratado noutro verbete deste lote.
Passagens relacionadas4
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Fontes consultadas4 obras
- Henry Alford. The Greek Testament, 1863.
- Robert Jamieson, A. R. Fausset e David Brown. A Commentary, Critical and Explanatory, on the Whole Bible, 1871.
- Adam Clarke. Commentary on the Bible, 1810.
- Alfred Edersheim. The Life and Times of Jesus the Messiah, 1883.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Os três relatos concordam sobre o essencial da cura?
Sim: o local (Jericó), o clamor "Filho de Davi", a tentativa da multidão de silenciar o(s) cego(s), a pergunta de Jesus sobre o que desejam, e a cura ligada à fé demonstrada. A divergência é de número de pessoas e de direção do movimento.
Por que só Marcos nomeia o cego?
A explicação mais aceita é que Bartimeu era conhecido da comunidade a que Marcos escrevia, possivelmente como discípulo posterior — o próprio texto registra que, curado, ele "seguiu Jesus pelo caminho".
A explicação das duas Jericós é aceita por consenso?
É a leitura predominante entre os comentaristas e tem apoio arqueológico sólido sobre a existência de duas cidades vizinhas no período, mas continua sendo reconstrução histórica, não uma afirmação que qualquer dos três evangelhos faça explicitamente.
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