
Deus rejeitou Israel na parábola dos lavradores?
O que significa a parábola dos lavradores maus?
Ouvi outra parábola. Havia um homem, dono de uma propriedade. Ele plantou uma vinha, cercou-a, fundou nela uma prensa de uvas, e construiu uma torre. Depois a arrendou a uns lavradores, e partiu-se para um lugar distante. Quando chegou o tempo dos frutos, enviou seus servos aos lavradores, para receberem os frutos que a ele pertenciam. Mas os lavradores tomaram os seus servos, e feriram um, mataram outro, e apedrejaram outro. Outra vez enviou outros servos, em maior número que os primeiros, mas fizeram-lhes o mesmo. E por último lhes enviou o seu filho, dizendo: “Respeitarão ao meu filho”. Mas quando os lavradores viram o filho, disseram entre si: “Este é o herdeiro. Venhamos matá-lo, e tomemos a sua herança”. Então o agarraram, lançaram-no para fora da vinha, e o mataram.
Resposta curta
A abertura da parábola é uma citação. Plantou uma vinha, cercou-a, fez nela uma prensa e construiu uma torre — são os mesmos quatro elementos, na mesma ordem, do cântico da vinha de .
Quem ouviu reconheceu na hora, e sabia o que a vinha significava lá: a casa de Israel, dito com todas as letras no versículo 7.
Mas Jesus muda uma coisa, e é nela que está tudo. Em Isaías, a vinha é que dá uvas bravas e a vinha é que é julgada. Aqui a vinha não tem defeito nenhum — o problema são os arrendatários.
A parábola não troca o povo. Troca quem administra.
Como isso aponta para Jesus
Cumprimento diretoA parábola narra a morte do próprio narrador diante de quem a executaria dias depois: o filho é enviado por último, lançado fora da vinha e morto — e registra que Jesus padeceu fora da porta. O fecho cita o Salmo 118:22, e e aplicam essa pedra rejeitada a ele. É a parábola mais explicitamente autobiográfica dos evangelhos.
Respaldo no Novo Testamento: ; ;
Em palavras simples
A parábola começa citando quase palavra por palavra um poema antigo em que a vinha representa Israel — quem ouvia reconheceu na hora. Mas há uma mudança decisiva: naquele poema, a própria vinha dava frutos ruins e era julgada; aqui, a vinha produz normalmente, e quem falha são os arrendatários que se recusam a entregar o que devem.
Isso muda o sentido: não é sobre Deus trocar um povo por outro — dentro da imagem, o que muda de mãos é a administração, não a propriedade. E a parábola conta o próprio destino de quem a contava: o filho do dono é morto fora da vinha, dias antes de Jesus ser morto fora da cidade, diante das mesmas pessoas que ouviram a história.
Contexto histórico
É a segunda das três parábolas ditas no templo aos principais sacerdotes e anciãos, na última semana.
O cenário econômico é o da Galileia do primeiro século e está bem documentado: grandes propriedades de donos ausentes, arrendadas a lavradores que pagavam com parte da colheita. Papiros do período registram disputas exatamente desse tipo.
Enviar servos para receber a parte devida era procedimento normal. A violência contra eles não era normal, mas tampouco era inimaginável num contexto de tensão entre proprietários estrangeiros e trabalhadores locais.
O detalhe do herdeiro tem lógica jurídica discutida. Havia disposições segundo as quais terra sem herdeiro reconhecido podia ser reivindicada por quem a ocupava, o que daria sentido ao cálculo dos lavradores no versículo 38 — "matemo-lo, e tomemos a sua herança".
A reação registrada em 21:45 mostra que a mensagem chegou: eles entenderam que falava deles.
Aprofundamento
A relação com é o eixo da leitura, e a diferença entre os dois textos é o que costuma ser perdido.
Em Isaías, o dono faz tudo certo e a vinha produz uvas imprestáveis. O julgamento cai sobre a vinha: o dono tira a cerca, e ela é pisada. O versículo 7 identifica: a vinha do SENHOR dos exércitos é a casa de Israel.
Na parábola, a vinha não é acusada de nada. Ela produz. O que falha é a entrega — e quem falha são os arrendatários.
Essa mudança tem consequência direta sobre a leitura mais difundida do texto, segundo a qual a parábola anunciaria a substituição de Israel pela igreja. O que o versículo 41 diz é que a vinha será arrendada a outros lavradores que deem os frutos a seu tempo. A vinha continua sendo a mesma, e continua sendo do mesmo dono.
É preciso dizer que a leitura substitutiva é antiga e tem defensores, e que ela se apoia sobretudo no versículo 43, onde Jesus diz que o Reino será tirado e dado a um povo que produza os frutos dele. A discussão é séria e não se resolve num verbete.
O que se pode afirmar com segurança é mais estreito: dentro da imagem da parábola, o que muda de mãos é a administração, e não a vinha. Quem quiser sustentar mais do que isso terá de fazê-lo com outros textos, e a 11 é onde essa discussão de fato acontece.
O fecho da parábola cita o Salmo 118:22 — a pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a principal de esquina. É citação de um salmo cantado nas festas de peregrinação, e portanto conhecido de todos os presentes.
Há um detalhe da sequência dos servos que costuma passar. Eles vêm em ondas, e a segunda leva é maior que a primeira. É o padrão que os profetas descrevem: os enviados aumentam, e o tratamento piora.
Sobre o filho, a parábola faz algo que nenhuma das outras faz: ela narra o próprio destino do narrador, dias antes de ele acontecer, diante das pessoas que o executariam.
O que costumam dizer errado3 afirmações
Dizem que:A parábola ensina que Deus rejeitou Israel e o trocou pela igreja.
Dentro da imagem, a vinha não é acusada de nada e continua do mesmo dono — o que muda de mãos é a administração. A leitura substitutiva é antiga e se apoia sobretudo no versículo 43, mas essa discussão se trava em a 11, não aqui.
Dizem que:A imagem da vinha é criação da parábola.
Os quatro elementos da abertura — plantar, cercar, fazer prensa, construir torre — são os de , na mesma ordem. Quem ouviu reconheceu a citação e sabia o que a vinha significava ali.
Dizem que:A violência dos lavradores é exagero narrativo.
Grandes propriedades de donos ausentes, arrendadas a lavradores locais, eram comuns na Galileia, e papiros do período registram disputas do mesmo tipo. A cena era plausível para quem ouvia.
Como diferentes tradições cristãs leem2 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Juízo sobre a liderança religiosa
Lê os lavradores como os líderes a quem a parábola foi dita, conforme a reação registrada em 21:45. Dentro da imagem, é a administração da vinha que é transferida.
Transferência do Reino a outro povo
Apoia-se no versículo 43 e na tradição interpretativa que vê ali substituição. É leitura antiga e com defensores, e a discussão que ela abre pertence a a 11.
No original3 termos
ἀμπελώνampelon
Vinha. Em a vinha é identificada como a casa de Israel, e é essa identificação que a audiência traz para dentro da parábola.
γεωργοίgeorgoi
Lavradores, arrendatários. Não são donos: pagam com parte da colheita, e é essa relação que a parábola põe em julgamento.
κληρονομίαkleronomia
"Herança", no cálculo dos lavradores. Havia disposições segundo as quais terra sem herdeiro reconhecido podia ser reivindicada por quem a ocupava.
O que fazer com isso
A parábola é sobre responsabilidade delegada, e o alvo original eram administradores religiosos.
Esse endereço não envelheceu. Quem administra alguma coisa que não é sua — uma comunidade, um ensino, um patrimônio — está na posição dos arrendatários, e a acusação da história não é de improdutividade, é de retenção. A vinha produziu; eles não entregaram.
Há também um teste de leitura embutido. A parábola foi contada a pessoas que se identificaram nela e reagiram querendo prendê-lo. Uma leitura que a use para acusar outros grupos inverte exatamente o movimento que ela fez no dia em que foi dita.
E a paciência do dono é o dado mais estranho da história. Ele manda servos, manda mais servos, e manda o filho. Do ponto de vista administrativo, é insensatez — o que a parábola descreve não é gestão prudente.
Passagens relacionadas6
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Fontes consultadas4 obras
- Richard Chenevix Trench. Notes on the Parables of Our Lord, 1841.
- Alfred Edersheim. The Life and Times of Jesus the Messiah, 1883.
- Henry Alford. The Greek Testament, 1863.
- Robert Jamieson, A. R. Fausset e David Brown. Commentary Critical and Explanatory, 1871.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Qual a diferença entre esta parábola e Isaías 5?
Em Isaías a vinha produz uvas imprestáveis e é ela que é julgada. Aqui a vinha produz normalmente, e o julgamento cai sobre quem deveria entregar o fruto.
Os líderes entenderam que falava deles?
Sim. registra que os principais sacerdotes e fariseus entenderam que falava a respeito deles, e que quiseram prendê-lo mas temeram a multidão.
Por que o dono manda o filho depois de os servos serem mortos?
Do ponto de vista administrativo é insensatez, e a parábola não a explica. O que ela descreve é uma paciência que ultrapassa o razoável, e é esse excesso que a história quer que se note.
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