
"O dinheiro é a raiz de todos os males"?
O que 1 Timóteo 6:10 realmente diz?
Pois o amor ao dinheiro é raiz de todos os tipos de males. Alguns o cobiçam, e então se desviaram da fé, e perfuraram a si mesmos com muitas dores.
Resposta curta
A citação popular corta duas palavras e inverte o sentido. O texto não diz que o dinheiro é a raiz de todos os males — diz que o **amor ao** dinheiro é.
A palavra grega é *philargyria*, literalmente "amor à prata", e ela nomeia uma disposição, não um objeto.
E há uma segunda imprecisão comum. O grego não traz artigo definido: é "raiz de todos os tipos de males", e não "a raiz". O texto não afirma que toda maldade vem daí.
Como isso aponta para Jesus
ContrasteJesus resume a alternativa em : "não podeis servir a Deus e a Mamom" — e a palavra que ele usa personifica a riqueza como senhor rival. Paulo aplica a mesma lógica: o problema não é possuir, é servir. E dá o modelo — "sendo rico, por amor de vós se fez pobre".
Respaldo no Novo Testamento: ; ;
Em palavras simples
A frase popular "o dinheiro é a raiz de todos os males" corta duas palavras importantes do texto original: o que causa dano é o amor ao dinheiro, não o dinheiro em si. E o texto nem diz "a raiz" de forma definitiva — a formulação original é mais parecida com "uma raiz de vários tipos de mal".
O mesmo capítulo não manda ninguém se livrar da riqueza: dá instruções para quem já é rico, mandando não colocar a esperança nela e ser generoso, e lembra que Deus dá as coisas "para delas gozarmos". O alerta é sobre uma direção da vida, "os que querem ficar ricos", e alcança tanto quem tem pouco quanto quem tem muito: o problema é para onde o coração aponta, não o valor na conta.
Contexto histórico
O capítulo 6 trata de falsos mestres que viam a religião como fonte de lucro — "supondo que a piedade seja fonte de ganho".
Paulo responde com um jogo de palavras: "a piedade com contentamento é grande ganho".
O argumento continua: nada trouxemos ao mundo e nada podemos levar; tendo sustento e com que nos cobrir, estejamos contentes.
E então vem o alerta sobre os que "querem ser ricos", que "caem em tentação, e em laço, e em muitas concupiscências loucas e nocivas".
O texto sobre o amor ao dinheiro fecha esse parágrafo. E o capítulo não termina ali: nos versículos 17 a 19, Paulo dá instruções aos que já são ricos — e não manda que deixem de sê-lo.
Aprofundamento
A instrução aos ricos, no fim do capítulo, é o contrapeso que a citação popular apaga.
Paulo manda que "não sejam altivos, nem ponham a esperança na incerteza das riquezas, mas em Deus, que abundantemente nos dá todas as coisas para delas gozarmos".
A expressão "para delas gozarmos" é notável, e vem no mesmo capítulo do alerta.
E a instrução continua: "que façam o bem, enriqueçam em boas obras, repartam de boa mente, sejam comunicáveis".
Não há ordem de renúncia. Há ordem de reposicionamento da esperança e de generosidade concreta.
Sobre a estrutura do versículo 10, o grego é *riza panton ton kakon*, sem artigo antes de "raiz". Traduções que trazem "a raiz" acrescentam uma definição que o original não tem, e a Bíblia Livre reflete isso com "raiz de todos os tipos de males".
A imagem do versículo é forte e vale notar: "perfuraram a si mesmos com muitas dores". O verbo grego, *peripeiro*, descreve empalar ou espetar completamente. O dano descrito é autoinfligido.
O restante do Novo Testamento é consistente. Jesus tem muitos ensinos sobre riqueza, e Lucas em particular é duro com ela — mas José de Arimateia é rico, Lídia é comerciante de púrpura, e as mulheres que sustentavam o grupo tinham recursos.
O que a Bíblia trata como perigoso é a posição do dinheiro na vida de alguém, e não a existência dele.
O que costumam dizer errado3 afirmações
Dizem que:A Bíblia diz que o dinheiro é a raiz de todos os males.
O texto diz "o amor ao dinheiro", e o grego não traz artigo definido antes de "raiz". Duas palavras cortadas invertem a frase.
Dizem que:A Bíblia condena ser rico.
O mesmo capítulo dá instruções aos ricos e não manda que deixem de sê-lo — manda que não ponham a esperança nas riquezas e que sejam generosos. E fala de Deus dar "todas as coisas para delas gozarmos".
Dizem que:Pobreza é sinal de espiritualidade.
O alerta é sobre "os que querem ser ricos", verbo de intenção. Alguém com pouco pode ter a vida organizada em torno de conseguir mais — e o texto alcança essa pessoa.
Como diferentes tradições cristãs leem2 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Disposição interior como alvo
O texto mira o amor ao dinheiro, e não a posse dele. Sustentada pela palavra *philargyria* e pelas instruções aos ricos no fim do capítulo. É a leitura consensual.
Alerta a falsos mestres
O contexto imediato é sobre quem via a piedade como fonte de lucro. Explica a colocação do versículo e o alvo primário da advertência.
No original3 termos
φιλαργυρίαphilargyria
"Amor à prata". Nomeia uma disposição, não um objeto. A palavra oposta, *aphilargyros*, é usada em e em .
ῥίζαriza
"Raiz". No grego aparece sem artigo definido — "raiz de todos os tipos de males", e não "a raiz de todo o mal".
περιπείρωperipeiro
"Traspassar, empalar". O verbo de "perfuraram a si mesmos" — o dano descrito é autoinfligido.
O que fazer com isso
A frase central do parágrafo, e a menos citada, é: "tendo sustento e com que nos cobrir, estejamos com isso contentes".
É um padrão baixo, e deliberadamente.
O diagnóstico que Paulo dá do problema é sobre direção, não sobre quantidade: "os que querem ser ricos". O verbo é de intenção — descreve para onde a vida está apontada, e não quanto alguém tem.
Por isso o alerta alcança tanto quem tem pouco quanto quem tem muito. Alguém com pouco pode ter a vida inteira organizada em torno de conseguir mais, e alguém com muito pode não ter.
E formula a alternativa: "sejam vossos costumes sem avareza, contentando-vos com o que tendes; porque ele disse: não te deixarei, nem te desampararei".
Passagens relacionadas6
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Fontes consultadas3 obras
- Matthew Henry. Commentary on the Whole Bible, 1710.
- Henry Alford. The Greek Testament, 1863.
- Albert Barnes. Notes on the Bible, 1834.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Então cristãos podem ser ricos?
O Novo Testamento registra crentes com recursos — José de Arimateia, Lídia, as mulheres que sustentavam o grupo. As instruções dirigidas a eles são sobre esperança e generosidade, não sobre renúncia obrigatória.
O que é "Mamom"?
Palavra aramaica para riqueza, usada por Jesus em como se fosse um senhor rival. A personificação é o ponto: o dinheiro é apresentado como algo que reivindica serviço.
Qual é o padrão de suficiência do capítulo?
"Tendo sustento e com que nos cobrir, estejamos com isso contentes" — comida e roupa. O padrão é deliberadamente baixo, e é a frase menos citada do parágrafo.
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