
Paulo era contra o casamento?
O que significa "melhor é casar do que abrasar"?
Mas se não podem se conter, casem-se; porque é melhor se casar do que se inflamar.
Resposta curta
A frase soa como concessão a contragosto, e boa parte da impressão vem de o versículo 1 ser lido como opinião de Paulo: "é bom para o homem não tocar em mulher".
Muitos comentaristas entendem que essa frase é uma citação — Paulo está repetindo um slogan dos coríntios para respondê-lo. A carta responde a perguntas escritas por eles, e o versículo 1 abre com "quanto às coisas que me escrevestes".
Se for citação, o capítulo inteiro muda de tom: Paulo estaria corrigindo um ascetismo local, e não recomendando um.
Como isso aponta para Jesus
Trajetória do textoPaulo trata casamento e celibato como dons distintos, e Jesus faz o mesmo em , ao falar dos que "se fizeram eunucos por causa do reino" e concluir "quem pode aceitar isto, aceite". leva o casamento à comparação mais alta possível — a relação de Cristo com a igreja —, o que impede tratá-lo como concessão menor.
Respaldo no Novo Testamento: ; ;
Em palavras simples
Essa frase parece uma concessão feita a contragosto, como se casar fosse plano B. Mas o começo do capítulo, "é bom ao homem não tocar em mulher", provavelmente não é a opinião do autor — é uma frase que a igreja para quem ele escrevia havia enviado por carta, e que ele está respondendo e corrigindo.
Logo depois ele diz que cada um tem um dom diferente: alguns recebem a capacidade de viver sem casar, outros não, e não há problema nenhum em casar por não ter esse dom específico. Em outras cartas, o mesmo autor fala do casamento nos termos mais altos possíveis, comparando-o ao amor de Cristo pela igreja. Não é desprezo pelo casamento; é reconhecer que as pessoas são diferentes.
Contexto histórico
responde a perguntas enviadas pela igreja. O capítulo trata de casamento, celibato, casamentos mistos, divórcio e virgens.
O contexto de Corinto tinha extremos nos dois lados: o capítulo 5 trata de um caso de imoralidade grave, e o 6 discute prostituição — e agora o 7 parece responder a um grupo que defendia abstinência sexual inclusive dentro do casamento.
Os versículos 3 a 5 apontam nessa direção. Paulo manda que os cônjuges não se privem um do outro, "salvo por consentimento mútuo por algum tempo", e que voltem a se juntar.
É uma instrução notavelmente igualitária para a época: "a mulher não tem poder sobre o seu próprio corpo, mas o marido; e também o marido não tem poder sobre o seu próprio corpo, mas a mulher".
E Paulo declara a razão da preferência dele pelo celibato no versículo 26: "por causa da instante necessidade" — algo específico da situação daquela igreja.
Aprofundamento
O verbo traduzido por "abrasar" é *pyrousthai*, "queimar". As leituras se dividem entre queimar de desejo e queimar no juízo, e a primeira é largamente majoritária pelo contexto.
O ponto mais importante do capítulo, para desfazer a impressão de que Paulo desprezava o casamento, é o versículo 7: "quereria que todos os homens fossem como eu mesmo; mas cada um tem o seu próprio dom de Deus".
Ele chama o celibato de dom — *charisma*, a mesma palavra usada para os dons espirituais. E na mesma frase reconhece que nem todos o têm.
Além disso, Paulo escreve em outras cartas sobre casamento em termos elevadíssimos. compara a relação conjugal à de Cristo com a igreja. classifica como "doutrina de demônios" a proibição do casamento. E pressupõe bispos casados.
A razão declarada da preferência dele está no versículo 26 e é situacional: "a instante necessidade". Comentaristas discutem se se referia a perseguição, fome ou à expectativa iminente do fim.
A outra razão está nos versículos 32 a 35, e é prática: quem é casado se preocupa com as coisas do mundo e com agradar ao cônjuge. Paulo apresenta isso como fato, não como acusação, e conclui: "digo isto para proveito vosso, não para vos enlaçar".
Historicamente, a leitura ascética deste capítulo teve enorme influência, e ela depende de tomar o versículo 1 como afirmação de Paulo. A hipótese da citação foi proposta há muito tempo e ganhou espaço com estudos sobre a estrutura da carta.
O que costumam dizer errado3 afirmações
Dizem que:Paulo considerava o casamento inferior.
Ele o chama de dom em 7:7, compara a relação conjugal à de Cristo e a igreja em , e classifica a proibição do casamento como "doutrina de demônios" em .
Dizem que:"É bom não tocar em mulher" é a opinião de Paulo.
A frase abre a resposta a uma carta dos coríntios, e muitos comentaristas a entendem como citação de um slogan local que ele responde. Os versículos 3 a 5 apontam nessa direção.
Dizem que:"Abrasar" significa queimar no inferno.
A leitura existe e é minoritária. O contexto do parágrafo é domínio próprio e desejo, e a esmagadora maioria dos comentaristas lê o verbo nesse sentido.
Como diferentes tradições cristãs leem2 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Versículo 1 como citação
Paulo responde a um ascetismo dos coríntios, corrigindo-o. Sustentada pela abertura "quanto às coisas que me escrevestes" e pelo teor dos versículos 3 a 5. Ganhou muito espaço.
Versículo 1 como opinião de Paulo
Ele expressa preferência pessoal pelo celibato, atenuada pelo reconhecimento do dom no versículo 7. Leitura tradicional, e a base histórica da valorização ascética do capítulo.
No original3 termos
πυροῦσθαιpyrousthai
"Queimar, arder". Presente médio-passivo; a leitura majoritária é queimar de desejo, pelo contexto de domínio próprio.
χάρισμαcharisma
"Dom, presente da graça". A palavra que Paulo aplica ao celibato em 7:7 — a mesma usada para os dons espirituais em .
ἀνάγκηanagke
"Necessidade, aperto". Em 7:26, "a instante necessidade" — a razão situacional declarada da preferência dele.
O que fazer com isso
A frase mais útil do capítulo é a do versículo 7: cada um tem o próprio dom.
Paulo não estabelece um estado superior. Ele descreve dois caminhos com vantagens diferentes, e diz que a escolha depende de algo dado, e não de mérito.
A aplicação prática que ele tira é notavelmente sóbria. Se você não consegue viver bem sem casar, case — e isso não é apresentado como fracasso espiritual, e sim como reconhecimento de como a pessoa foi feita.
É um conselho que dispensa heroísmo, e num capítulo dirigido a uma igreja que estava tentando ser heroica no assunto errado.
Passagens relacionadas6
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Fontes consultadas3 obras
- Matthew Henry. Commentary on the Whole Bible, 1710.
- Henry Alford. The Greek Testament, 1863.
- Albert Barnes. Notes on the Bible, 1834.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Paulo era casado?
O texto não diz. Ele se apresenta como não casado no capítulo 7, e alguns supõem viuvez, dada a possibilidade de membros do sinédrio serem casados. É especulação.
Qual é a "instante necessidade" do versículo 26?
Paulo não especifica. As hipóteses são perseguição, escassez de alimentos em Corinto e a expectativa do fim iminente. Nenhuma é conclusiva, e a expressão marca o conselho como situacional.
O capítulo apoia o celibato obrigatório?
Não. Paulo o chama de dom que nem todos têm, e pressupõe bispos casados. A discussão histórica sobre celibato clerical se apoia em tradição eclesiástica, e não neste capítulo.