Pular para o conteúdo
Significado Bíblico
Costumes da épocaintermediária
Ilustração da categoria Costumes da época

Por que Jesus se indignou quando os discípulos afastaram as crianças?

Por que Jesus ficou indignado com os discípulos em Marcos 10 e o que significa receber o Reino como uma criança?

E lhe traziam crianças para que ele as tocasse, mas os discípulos repreendiam aos que as traziam. Porém Jesus, vendo, indignou-se, e lhe disse: Deixai vir as crianças a mim, e não as impeçais; porque delas é o Reino de Deus. Em verdade vos digo, que qualquer um que não receber o Reino de Deus como criança, em maneira nenhuma nele entrará. Então, tomando-as entre seus braços, e pondo as mãos sobre elas, ele as abençoou.

· Bíblia Livre (Textus Receptus)

Resposta curta

é a única versão do episódio que diz que Jesus "se indignou" com os discípulos que repreendiam quem trazia crianças até ele. A reação mostra que a cena não é um idílio simples: Jesus enfrenta, com palavras duras, a atitude de quem trata os pequenos como estorvo. Sua explicação, "dos tais é o Reino de Deus", e a frase seguinte, "quem não receber o Reino como uma criança de modo nenhum entrará nele", são muito citadas e muitas vezes lidas como elogio à inocência infantil. O contexto, porém, sugere outra coisa: a criança, no mundo antigo, não tinha status, méritos nem poder, e recebe o que lhe dão. O Reino é presente, não conquista, e é isso que o texto pede ao discípulo.

Como isso aponta para Jesus

Ligação indireta

Jesus se revela aqui como quem acolhe, abraça e abençoa os que não têm status nem méritos. Ele é o rei do Reino que se recebe, e o seu gesto, tomar as crianças nos braços, antecipa o que Marcos mostrará na cruz: o poder que serve e se entrega. Essa leitura se liga ao ensino anterior, em que acolher uma criança é acolher o próprio Jesus.

Respaldo no Novo Testamento:

Em palavras simples

Os discípulos acharam que as crianças atrapalhavam Jesus, e ele ficou indignado. Marcos é o único que registra essa reação forte. Depois, Jesus disse que o Reino de Deus pertence a gente como elas e que ninguém entra nele sem recebê-lo como uma criança. Em outras palavras, o Reino não é prêmio para quem merece, é presente que se recebe de mãos abertas.

Contexto histórico

O episódio está no centro de uma seção de Marcos sobre o discipulado, entre os capítulos 8 e 10, que corre ao longo do caminho até Jerusalém. Os discípulos acabam de discutir, no caminho, quem seria o maior (9:33-34), e Jesus colocou uma criança no meio deles, abraçou-a e disse que quem recebe uma criança em seu nome recebe a ele (9:36-37). Pouco antes da cena das crianças, Jesus ensinou sobre o divórcio (10:1-12). Imediatamente depois, vem o encontro com o homem rico que pergunta o que deve fazer para herdar a vida eterna (10:17-22), e então a conversa sobre a dificuldade de os ricos entrarem no Reino. Entre o ensino sobre casamento e a conversa sobre riqueza, a cena das crianças tem função de dobradiça: ela explica como alguém entra no Reino. Os que trazem as crianças não são identificados; podem ser pais ou outros familiares. O verbo grego é simples: queriam que ele "as tocasse", gesto de bênção comum na tradição judaica. Os discípulos, porém, repreendem os que as levam. Marcos usa o verbo epitimao, o mesmo empregado nos exorcismos, o que mostra que a reação foi dura. Na sociedade greco-romana e judaica, a criança tinha pouco valor social: não possuía direitos, dependia inteiramente dos adultos e era vista, em muitos meios, como alguém ainda sem importância. O tempo de um rabi era considerado precioso, e levar crianças a ele poderia parecer ingenuidade ou interrupção. É nesse cenário que Marcos acrescenta um detalhe que Mateus e Lucas omitem: Jesus "se indignou". A indignação aparece dirigida aos próprios discípulos, depois de eles terem acabado de ouvir o ensino sobre acolher os pequenos, o que torna a repreensão ainda mais carregada. Marcos não suaviza: os doze, que seguem Jesus de perto, aparecem aqui como obstáculo, e é o mestre quem corrige o rumo. A cena preserva, assim, a memória de que o primeiro grupo de discípulos também precisou aprender, com erro e correção, o que é o Reino.

Aprofundamento

O verbo que Marcos usa para a reação de Jesus, aganakteo, expressa irritação, desagrado forte, e é pouco frequente no Novo Testamento, onde designa o desagrado de quem se ofende com algo que considera inaceitável. Dizer que o Jesus de Marcos "se indignou" mostra que ele tem sentimentos intensos e que não trata como detalhe a exclusão dos pequenos. Quase todos os comentaristas chamam a atenção para o fato de que Mateus e Lucas, ao narrarem a mesma cena, omitem o termo, talvez por considerá-lo forte demais; Marcos mantém a memória mais crua. A fala de Jesus tem duas partes. Na primeira, ele ordena: "Deixai vir a mim os pequeninos e não os impeçais, porque dos tais é o Reino de Deus". O "dos tais" não diz que apenas crianças pertencem ao Reino, mas que o Reino é de gente como elas, isto é, de quem não tem nada a oferecer. Na segunda, vem a frase mais debatida: "Quem não receber o Reino de Deus como uma criança de modo nenhum entrará nele". Há duas leituras. Uma entende "como uma criança" como receber o Reino à maneira como a criança recebe algo: de mãos abertas, sem merecimento. Outra entende como receber o Reino com as qualidades que se atribuem à criança, como humildade, confiança ou ausência de pretensões. A primeira tem a vantagem de combinar com o contexto imediato: logo depois, o homem rico quer "fazer" algo para herdar a vida eterna, e Jesus o desafia a abrir mão do que tem. A criança nada conquista, só recebe. Estudiosos como Judith Gundry-Volf destacam que, na cultura antiga, a criança era símbolo de dependência e vulnerabilidade, e não de inocência romântica. O gesto final reforça isso: Jesus "tomou-as nos braços e as abençoou, impondo as mãos sobre elas". Marcos usa um verbo carregado de afeto e acolhimento, e o gesto aponta que o Reino não é conquistado, e sim concedido. Ao mesmo tempo, a passagem não deve ser usada para idealizar a criança, nem como argumento direto sobre batismo infantil, tema que divide tradições cristãs e que o texto não aborda diretamente. Seu foco é o discípulo adulto, que precisa aprender com o gesto de Jesus que o Reino se recebe como presente e que os pequenos, longe de serem obstáculos, estão no centro dele. Nada na cena sugere que a criança tenha feito algo para merecer o toque; ela foi levada, e Jesus a recebeu. É esse movimento de graça que o discípulo é chamado a imitar.

O que costumam dizer errado2 afirmações
  • Dizem que:Jesus pediu que fôssemos inocentes como as crianças, porque elas são puras e sem pecado.

    O texto não afirma pureza moral da criança. O contraste de fundo é com o homem rico que quer merecer a vida eterna: a criança representa quem recebe sem nada oferecer, não alguém sem pecado.

  • Dizem que:Esta passagem prova que as crianças devem ser batizadas.

    O texto fala de bênção e de acolhimento, e não menciona batismo. Tradições cristãs divergem sobre o batismo infantil, mas apelar a como prova direta vai além do que a passagem afirma.

Como diferentes tradições cristãs leem2 leituras

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • Leitura da dependência

    Receber o Reino "como uma criança" significa recebê-lo como dádiva, sem mérito nem status, como faz quem nada tem a oferecer.

  • Leitura das qualidades infantis

    Algumas tradições entendem a expressão como humildade, confiança e abertura, qualidades associadas à criança. Mesmo assim, o contexto recomenda cuidado com a ideia de inocência romântica.

No original2 termos
  • ἀγανακτέωaganakteoG23

    indignar-se, irritar-se; expressa forte desagrado, aqui dirigido por Jesus aos próprios discípulos.

  • παιδίονpaidionG3813

    criança pequena, menino ou menina; termo usado para quem ainda depende por completo dos adultos.

O que fazer com isso

A passagem pede duas atitudes. A primeira é cuidar para que o ambiente da fé, igrejas, famílias, ministérios, não trate os pequenos como estorvo, adiando sua presença para quando houver tempo. A segunda é rever a própria postura diante de Deus: quem acredita merecer o Reino ainda não aprendeu a recebê-lo. Aproximar-se de Jesus de mãos vazias não humilha ninguém, é o modo de entrar.

Passagens relacionadas5

Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.

Fontes consultadas4 obras
  • R. T. France. The Gospel of Mark (NIGTC), 2002.
  • Joel Marcus. Mark 8-16 (Anchor Yale Bible), 2009.
  • Judith M. Gundry-Volf. The Least and the Greatest: Children in the New Testament, in The Child in the Bible, 2008.
  • William L. Lane. The Gospel According to Mark (NICNT), 1974.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

Quais evangelhos registram a indignação de Jesus?

Apenas Marcos (10:14). e contam a mesma cena sem mencionar a indignação.

O que quer dizer receber o Reino como uma criança?

A leitura mais bem apoiada pelo contexto é receber o Reino como dom, sem mérito, como faz uma criança com um presente. O homem rico que vem em seguida mostra o contraste.

Temas

  • Discipulado
  • #marcos
  • #criancas
  • #reino-de-deus
  • #indignacao
  • #bencao
  • #humildade

Publicado em 03/11/2026

Construído sobre fontes em domínio público, listadas acima. Como produzimos. Encontrou um erro? Escreva para a redação.

O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 4 obras citadas, com autor e ano
  • 2 afirmações populares checadas e refutadas
  • 2 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

Continue por aqui

Costumes da épocaMarcos 10:35-40

Sentar à direita e à esquerda: o pedido de poder que Tiago e João fizeram

O pedido de Tiago e João soa, ao ouvido moderno, como capricho infantil — "quero sentar do seu lado". No mundo antigo, era pedido de poder concreto: os lugares imediatamente à direita e à esquerda do rei ou do mestre eram as posições de maior honra e autoridade delegada em qualquer corte, publicamente reconhecidas por todos os presentes.

Ler explicação →
Teologia densaMarcos 10:29-30

"Cem vezes mais": a promessa de Jesus que tem uma cláusula que a prosperidade corta

Pedro tinha acabado de dizer a Jesus: "Eis que nós deixamos tudo, e te seguimos" (Marcos 10:28). Jesus responde com uma promessa generosa: quem deixar casa, irmãos, pai, mãe, esposa, filhos ou campos por causa dele e do evangelho vai receber "cem vezes tanto" — casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e campos — ainda nesta vida, além da vida eterna no tempo que virá.

Ler explicação →
Costumes da épocaMarcos 14:3-9

Os pobres sempre os tendes convosco: Jesus desprezou os pobres em Marcos 14?

Em Marcos 14:3-9, uma mulher quebra um vaso de alabastro com nardo puro e derrama o perfume na cabeça de Jesus, em Betânia. Alguns presentes reclamam do desperdício: o perfume valia mais de trezentos denários e poderia ajudar os pobres. Jesus responde que a mulher fez uma boa obra, que os pobres sempre estarão com eles, mas que ele não estará sempre, e que ela se antecipou a ungir seu corpo para o sepultamento. A frase sobre os pobres costuma ser usada para justificar desinteresse social, mas Jesus alude a Deuteronômio 15:11, que manda abrir a mão ao necessitado. O gesto é lido como unção fúnebre e, ao mesmo tempo, como reconhecimento do Messias, o Ungido.

Ler explicação →
Costumes da épocaMarcos 5:25-26

A mulher que gastou tudo com médicos

Marcos 5:25-26 descreve uma mulher que sofria de um fluxo de sangue contínuo havia doze anos. O texto diz que ela "tinha sofrido muito por meio de muitos médicos, e gastado tudo quanto possuía, e nada havia lhe dado bom resultado; ao invés disso, piorava". É um retrato duro: doença crônica, recursos esgotados e nenhuma melhora após anos de tratamento.

Ler explicação →

O que realmente contamina uma pessoa?

A frase encerra uma discussão que não era sobre higiene nem sobre dieta. Os discípulos foram criticados por comer sem a lavagem ritual das mãos — prática da tradição oral, não da Torá escrita.

Ler explicação →
Costumes da épocaMarcos 7:31-37

Por que Jesus usou saliva para curar o surdo-mudo?

Depois de passar por Tiro e Sidom, Jesus atravessa a Decápolis, região majoritariamente pagã, a caminho do mar da Galileia. Ali lhe trazem um homem surdo com dificuldade para falar, pedindo apenas que ele imponha as mãos. Jesus o leva à parte, coloca os dedos em seus ouvidos, cospe, toca sua língua, olha para o céu, suspira e diz: "Efatá" — "abre-te".

Ler explicação →
Personagens obscurosMarcos 10:21-22

'Jesus o amou': o detalhe que só Marcos acrescenta na história do jovem rico

No relato do homem que pergunta a Jesus o que fazer para herdar a vida eterna, Marcos insere um detalhe ausente em Mateus e Lucas: "e Jesus, olhando para ele, o amou". A frase chega bem no meio da cena, entre a lista de mandamentos que o homem afirma já cumprir e a exigência final de vender tudo o que possui para segui-lo, exigência que o próprio homem recusa, indo embora triste. Esse pequeno acréscimo muda o tom de toda a passagem: não é um confronto frio testando a sinceridade de alguém, mas um convite feito com afeto genuíno a uma pessoa que, mesmo amada, escolhe não seguir, revelando que a compaixão de Jesus não garante, por si só, a resposta positiva de quem a recebe.

Ler explicação →

Uma explicação nova por semana

Sem devocional, sem corrente e sem promoção. Só o verbete da semana, com o contexto que normalmente fica de fora. Todo e-mail leva um link para sair, e sair é imediato.