
Por que Jesus usou saliva para curar o surdo-mudo?
por que jesus usou cuspe pra curar o surdo mudo
Então Jesus voltou a sair da região de Tiro e de Sidom, e veio para o mar da Galilea, por meio da região de Decápolis. E trouxeram-lhe um surdo que dificilmente falava, e rogaram-lhe que pusesse a mão sobre ele. E tomando-o em separado da multidão, pôs os seus dedos nos ouvidos dele, cuspiu, e tocou-lhe a língua. Depois, levantando os olhos ao céu, suspirou, e disse: Efatá, (isto é, abre-te). Imediatamente os ouvidos dele se abriram, e o que prendia sua língua se soltou, e passou a falar bem. Jesus lhes mandou que a ninguém dissessem; porém, quanto mais lhes mandava, mais divulgavam. E ficavam muito admirados, dizendo: Ele faz tudo bem! Aos surdos faz ouvir, e aos mudos falar.
Resposta curta
Depois de passar por Tiro e Sidom, Jesus atravessa a Decápolis, região majoritariamente pagã, a caminho do mar da Galileia. Ali lhe trazem um homem surdo com dificuldade para falar, pedindo apenas que ele imponha as mãos. Jesus o leva à parte, coloca os dedos em seus ouvidos, cospe, toca sua língua, olha para o céu, suspira e diz: "Efatá" — "abre-te".
No mesmo instante seus ouvidos se abrem e sua língua se solta, e ele passa a falar bem. Jesus pede segredo, mas quanto mais insiste, mais a notícia se espalha. A multidão, maravilhada, resume tudo: "Ele faz tudo bem; até os surdos fazem ouvir, e os mudos, falar" — eco da promessa profética de que, na era do Messias, os surdos ouviriam e os mudos cantariam de alegria.
Como isso aponta para Jesus
Cumprimento diretoA cura do surdo com dificuldade de fala não é apresentada por Marcos com uma fórmula de cumprimento explícita, mas o vocabulário escolhido (o raro termo grego para 'fala com dificuldade', que aparece na versão grega de ) aponta diretamente para a promessa profética de que, na era do Messias, os ouvidos surdos se abririam e a língua dos mudos cantaria. Essa ligação é confirmada pelo próprio Jesus em outro lugar do Novo Testamento: ao responder aos discípulos de João Batista sobre sua identidade, ele cita justamente sinais desse tipo — 'os surdos ouvem' — como prova messiânica. A cena na Decápolis é, portanto, um episódio concreto que realiza aquilo que Jesus depois cita como evidência de que ele é o Messias esperado.
Respaldo no Novo Testamento:
Contexto histórico
O trajeto no início da passagem chama atenção: Jesus sai de Tiro e Sidom, cidades fenícias na costa do Mediterrâneo, e chega ao mar da Galileia passando pela Decápolis, federação de dez cidades helenizadas, majoritariamente gentias, a leste e sudeste do Jordão. É um desvio considerável — o caminho mais direto de Tiro à Galileia não passa por ali. A rota sugere um ministério deliberado em território não-judaico, coerente com outros episódios de Marcos fora de Israel, como a cura da filha da mulher sirofenícia, poucos versículos antes, no mesmo capítulo.
O homem trazido a Jesus é surdo e tem dificuldade de fala — provavelmente alguém que perdeu a audição depois de aprender a falar, o que costuma prejudicar a articulação, já que a pessoa não consegue mais monitorar a própria voz. Pedem que Jesus "ponha a mão" sobre ele, gesto comum de bênção na cultura judaica.
Jesus faz mais que isso. Ele o separa da multidão, padrão em Marcos, que evita espetáculos públicos de cura (compare com e 8:23). Põe os dedos nos ouvidos do homem, cospe e toca sua língua: gestos que, para quem não ouve palavras faladas, comunicam de forma visual e tátil o que está prestes a acontecer. No mundo greco-romano, a saliva também era associada popularmente a propriedades curativas — Plínio, o Velho, registra essa crença em sua época —, mas o texto não atribui a cura à saliva em si; ela vem no instante em que Jesus fala.
"Efatá" é palavra aramaica, língua materna de Jesus, que Marcos preserva foneticamente antes de traduzi-la para seus leitores de língua grega, como fez também com "Talitá cumi" (). Estudiosos veem nesse detalhe um sinal de relato testemunhal direto, tradicionalmente ligado à pregação de Pedro, fonte do evangelho de Marcos segundo o testemunho antigo de Papias de Hierápolis.
Aprofundamento
A palavra grega usada para descrever a fala do homem, mogilalos ("que fala com dificuldade"), é rara: no Novo Testamento aparece só aqui, e na tradução grega do Antigo Testamento (a Septuaginta) ocorre em , no meio de uma das promessas mais conhecidas sobre a era do Messias — "então os olhos dos cegos se abrirão, e os ouvidos dos surdos se destaparão... e a língua dos mudos cantará". Marcos parece escolher esse termo de propósito, sinalizando a seus leitores que aquele momento na Decápolis realiza, diante deles, a cena que Isaías havia anunciado séculos antes.
Essa leitura ganha força quando se olha para outro texto do Novo Testamento: em , quando discípulos de João Batista perguntam se Jesus é mesmo aquele que haveria de vir, ele responde citando exatamente esse tipo de sinal — "os surdos ouvem" está na lista de provas que Jesus dá de sua identidade messiânica, também em alusão a Isaías. O comentarista William L. Lane observa, em seu comentário sobre Marcos, que o evangelista organiza esse relato de modo a evocar deliberadamente a esperança profética de restauração.
O gesto de tocar, cuspir e suspirar não deve ser lido como técnica médica nem como fórmula mágica. Matthew Henry, em seu comentário clássico, destaca o cuidado pessoal de Jesus ao "levar o homem à parte" — um gesto de delicadeza com alguém que, por sua condição, já vivia isolado da comunicação comum. Craig S. Keener observa que gestos como tocar os ouvidos e a língua eram formas naturais de sinalizar uma ação a quem não podia ouvir instruções verbais; a saliva, por sua vez, embora associada na cultura greco-romana a certo poder curativo popular, aqui funciona sobretudo como parte do contato físico, não como agente da cura, que o texto atribui à palavra de Jesus.
O suspiro (ou gemido) de Jesus antes de falar aparece também em , e sugere o peso emocional de encarar, de perto, os efeitos da quebra do mundo — a incapacidade de ouvir e falar bem — antes de restaurá-los. A ordem de silêncio, seguida da desobediência entusiasmada da multidão, repete um padrão característico de Marcos, o chamado "segredo messiânico": Jesus não busca fama pela cura em si, mas o impacto se espalha de qualquer forma. A reação final, "ele faz tudo bem", ecoa ainda a linguagem de , onde Deus via que sua criação era "muito boa" — um sinal, para o leitor atento, de que aquilo que Jesus faz é obra de recriação.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:Jesus usou saliva porque, na medicina da época, ela realmente tinha propriedades curativas comprovadas, e ele estava aplicando esse conhecimento.
A crença de que a saliva curava era superstição popular greco-romana (registrada, por exemplo, por Plínio, o Velho), sem base médica real. O texto bíblico não atribui a cura a uma propriedade da saliva: ela é imediata e completa no momento em que Jesus fala, não fruto de um processo físico gradual.
Dizem que:'Efatá' é uma fórmula mágica de cura que Jesus usava sempre e que pode ser repetida como encantamento.
'Efatá' é simplesmente a palavra aramaica para 'abre-te', a língua que Jesus falava no dia a dia. Ela aparece uma única vez nos evangelhos associada a uma cura; Marcos a registra e traduz para o leitor grego, não como ritual repetível, mas como detalhe do relato de uma testemunha.
Como diferentes tradições cristãs leem4 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
católica
Vê valor no gesto físico de Jesus: o toque, a saliva e a palavra 'Efatá' prefiguram o antigo 'rito do Effeta', ainda presente na liturgia batismal católica, em que o celebrante toca ouvidos e boca do batizando repetindo a mesma palavra — sinal de que a matéria criada pode ser veículo da graça.
reformada/luterana
Entende os gestos como acomodação pedagógica: como o homem não podia ouvir uma ordem falada, Jesus comunica por sinais o que está para fazer. A ênfase recai sobre a autoridade da palavra de Cristo ('Efatá'), não sobre qualquer poder inerente ao toque ou à saliva.
pentecostal/carismática
Lê o episódio como modelo para o ministério de cura hoje: o contato físico, a oração com suspiro (associado à intercessão do Espírito) e a palavra de fé formam um padrão que a igreja pode reproduzir ao orar por enfermos.
ortodoxa
Destaca a dimensão da encarnação: Cristo, verdadeiramente humano, usa o próprio corpo — dedos, saliva, respiração — para curar, mostrando que a matéria criada, tocada pelo Verbo encarnado, está sendo restaurada, antecipando a redenção de toda a criação.
No original3 termos
μογιλάλοςmogilalosG3424
que fala com dificuldade, gago; palavra rara, usada só aqui no Novo Testamento e presente na versão grega de
κωφόςkōphosG2974
surdo (também pode significar mudo, conforme o contexto); usado em e 7:37
ἐφφαθάephphathaG2188
transliteração grega de uma palavra aramaica que significa 'abre-te'; a ordem de cura dada por Jesus
O que fazer com isso
O texto não elogia a saliva ou o gesto em si, mas o cuidado de Jesus ao se aproximar de alguém isolado por sua limitação e se comunicar do jeito que essa pessoa conseguia entender. Antes de qualquer palavra de poder, houve atenção e um gesto que fazia sentido para quem não ouvia. Vale pensar em como lidamos com quem tem dificuldade de comunicação: raramente basta boa vontade à distância — é preciso se aproximar e adaptar a forma de agir.
Passagens relacionadas6
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Fontes consultadas4 obras
- Matthew Henry. Commentary on the Whole Bible, 1710.
- William L. Lane. The Gospel of Mark (New International Commentary on the New Testament), 1974.
- Craig S. Keener. The IVP Bible Background Commentary: New Testament, 1993.
- Walter Bauer, Frederick W. Danker, William F. Arndt, F. Wilbur Gingrich. A Greek-English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature (BDAG), 2000.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Jesus precisava da saliva para curar o homem?
Não. Em outros episódios ele cura só com a palavra. Aqui os gestos com os dedos e a saliva parecem comunicar ao homem surdo, de forma visual e tátil, o que estava para acontecer. A cura em si vem no instante em que Jesus diz 'Efatá'.
'Efatá' é uma palavra de poder que posso repetir para curar alguém?
Não. É apenas a palavra aramaica para 'abre-te', preservada por Marcos porque era a língua que Jesus falava naquele momento. O texto não a apresenta como fórmula ritual a ser repetida, mas como parte do relato histórico do evento.
Por que Jesus mandou não contar, se a notícia se espalhou de qualquer jeito?
Esse pedido de silêncio aparece várias vezes em Marcos e é conhecido como 'segredo messiânico': Jesus evitava alarde público prematuro sobre quem ele era, ainda que sua fama continuasse crescendo apesar disso.
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