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Significado Bíblico
Costumes da épocaintermediária
Ilustração da categoria Costumes da época

Os pobres sempre os tendes convosco: Jesus desprezou os pobres em Marcos 14?

Quando Jesus diz que os pobres sempre estarão conosco, ele está dizendo que não vale a pena ajudar os pobres?

E estando ele em Betânia, na casa de Simão o Leproso, sentado à mesa, veio uma mulher, que tinha um vaso de alabastro, de óleo perfumado de nardo puro, de muito preço, e quebrando o vaso de alabastro, derramou-o sobre a cabeça dele. E houve alguns que em si mesmos se indignaram, e disseram: “Para que foi feito este desperdício do óleo perfumado? Porque isto podia ter sido vendido por mais de trezentos denários, e seria dado aos pobres.” E reclamavam contra ela. Porém Jesus disse: “Deixai-a; por que a incomodais? Ela me fez boa obra. Porque pobres sempre tendes convosco; e quando quiserdes, podeis lhes fazer bem; porém a mim, nem sempre me tendes. Esta fez o que podia; adiantou-se para ungir o meu corpo, para a sepultura. Em verdade vos digo, que onde quer que em todo o mundo este Evangelho for pregado, também o que esta fez será dito em sua memória.”

· Bíblia Livre (Textus Receptus)

Resposta curta

Em , uma mulher quebra um vaso de alabastro com nardo puro e derrama o perfume na cabeça de Jesus, em Betânia. Alguns presentes reclamam do desperdício: o perfume valia mais de trezentos denários e poderia ajudar os pobres. Jesus responde que a mulher fez uma boa obra, que os pobres sempre estarão com eles, mas que ele não estará sempre, e que ela se antecipou a ungir seu corpo para o sepultamento. A frase sobre os pobres costuma ser usada para justificar desinteresse social, mas Jesus alude a , que manda abrir a mão ao necessitado. O gesto é lido como unção fúnebre e, ao mesmo tempo, como reconhecimento do Messias, o Ungido.

Como isso aponta para Jesus

Trajetória do texto

Cristo significa Ungido. O gesto da mulher une duas linhas: a unção de reis e sacerdotes no Antigo Testamento e a unção fúnebre. Jesus lê o ato como preparação para a sepultura, de modo que o Messias é ungido para morrer. A trajetória da unção real converge para a cruz.

Respaldo no Novo Testamento:

Em palavras simples

Uma mulher derrama perfume muito caro na cabeça de Jesus. Alguns reclamam que o dinheiro devia ir para os pobres. Jesus defende a mulher e diz que os pobres sempre estarão ali e que os discípulos podem ajudá-los quando quiserem, mas que ele estaria com eles por pouco tempo. Ele chama o gesto de preparação do seu corpo para o sepultamento. Ele não despreza os pobres, e a frase vem de uma ordem do Antigo Testamento para ajudá-los.

Contexto histórico

abre a narrativa da paixão. Os principais sacerdotes e escribas procuram prender Jesus com astúcia e matá-lo, mas não durante a festa, para não haver tumulto. A Páscoa está a dois dias, em 14:1. É nesse clima que Marcos coloca a cena de Betânia, aldeia perto de Jerusalém, na casa de Simão, o leproso. Logo depois, no versículo 10, Judas vai aos sacerdotes e combina trair Jesus. A cena da mulher fica, assim, entre dois episódios de conspiração. Marcos usa essa técnica de encaixe para contrastar a devoção custosa da mulher com a traição. Estavam à mesa, e a mulher entra com um vaso de alabastro de unguento de nardo puro, de grande preço. O alabastro era uma pedra macia, usada para frascos de perfume de gargalo estreito. Quebrar o gargalo significava gastar tudo de uma vez. O nardo vinha de uma planta da região do Himalaia, e era importado, o que o tornava caro. Marcos não dá o nome da mulher. identifica Maria, irmã de Lázaro, e situa a cena seis dias antes da Páscoa, com unção dos pés. é muito próximo de Marcos. conta uma cena parecida na casa de Simão, o fariseu, na Galileia, com uma mulher pecadora, que a maioria dos estudiosos trata como episódio distinto. Em Marcos, a reação dos presentes é de indignação: o perfume podia ser vendido por mais de trezentos denários. Como um denário era o salário de um dia de trabalho, o valor correspondia a cerca de um ano de salário de um trabalhador. Convém lembrar que, na casa de um anfitrião, ungir a cabeça de um convidado com óleo perfumado era sinal de honra, como no Salmo 23:5. O que causa estranheza em Marcos é a quantidade e o valor: não se trata de algumas gotas, mas do conteúdo inteiro de um frasco caro, derramado de uma vez. Isso explica a reação dos presentes. O texto diz que murmuravam contra ela, e o verbo grego sugere uma reprovação áspera. A reação de Jesus, ao contrário, é de proteção: manda deixá-la em paz. A cena se passa, ainda, depois da entrada em Jerusalém e do ensino no templo, quando a tensão com as autoridades já estava no auge.

Aprofundamento

A fala de Jesus tem três partes. A primeira defende a mulher: deixai-a, por que a molestais, ela fez boa obra. A palavra grega kalon indica algo belo e adequado, e não apenas útil. A segunda é a frase sobre os pobres: sempre os tendes convosco, e quando quiserdes podeis fazer-lhes bem, mas a mim nem sempre me tendes. A frase alude a , que diz que nunca faltarão pobres na terra e por isso ordena abrir a mão ao irmão necessitado. Jesus, portanto, não declara a pobreza inevitável nem dispensa a caridade. Ele pressupõe que os discípulos podem e devem continuar a ajudar os pobres, e diz que podem fazê-lo quando quiserem. O que a cena marca é o momento único: a presença de Jesus está prestes a terminar, e a hora da morte exige um gesto que não se repete. O próprio ministério de Jesus foi voltado aos pobres, em , e ele mandou o homem rico vender tudo e dar aos pobres, em . A terceira parte é a interpretação do gesto: antecipou-se a ungir meu corpo para a sepultura. Os mortos eram ungidos com aromas, como se vê nas mulheres que vão ao túmulo em e em José de Arimateia e Nicodemos, em . A mulher faz antes o que não se faria depois. Na tradição judaica, ungir a cabeça era também gesto de reis e sacerdotes, como em , e a palavra Cristo significa Ungido. A cena, portanto, sugere uma unção messiânica que se cumpre pela morte. Textos rabínicos posteriores colocam os atos de bondade para com os mortos acima da esmola, o que ajuda a entender que os ouvintes poderiam reconhecer o valor de um ato assim. Marcos termina com a promessa de que o que ela fez será contado onde quer que o evangelho seja pregado, uma ironia, porque nem seu nome é registrado. O uso da frase fora de contexto, como se Jesus desculpasse a omissão, contradiz o próprio texto. Há uma tensão que o leitor honesto deve notar: o argumento dos presentes não era absurdo. Dar aos pobres era uma das práticas centrais da piedade judaica, e a esmola era especialmente esperada na época da Páscoa. A indignação partia de um valor real. Em Marcos, Jesus não a trata como hipocrisia, ao contrário de , que atribui a Judas um motivo ruim. O que ele faz é situar o ato num tempo diferente: há ocasiões que não voltam. A comparação com o que acontece depois ajuda. As mulheres foram ao túmulo com aromas, em , mas encontraram o sepulcro vazio, de modo que a unção antecipada de Betânia ganha um peso que o próprio relato da ressurreição ressalta.

O que costumam dizer errado2 afirmações
  • Dizem que:Jesus disse que os pobres sempre existirão para dispensar a obrigação de ajudá-los.

    A frase alude a , que ordena abrir a mão ao pobre justamente porque eles não deixarão de existir. Jesus acrescenta que os discípulos podem fazer-lhes bem quando quiserem, o que mantém o dever da generosidade.

  • Dizem que:A mulher gastou dinheiro que deveria ter ido para os pobres, e Jesus aprovou o desperdício.

    Jesus não chama o gesto de desperdício, e sim de boa obra, e o interpreta em relação à sua morte iminente. O texto não estabelece que a adoração substitui a ajuda aos pobres, e o restante dos Evangelhos mostra que Jesus exigiu os dois.

Como diferentes tradições cristãs leem3 leituras

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • Unção para o sepultamento

    A mulher, talvez sem saber, prepara o corpo de Jesus para a morte. Jesus aceita e interpreta assim o gesto, no sentido mais comum entre os comentaristas.

  • Unção messiânica

    Como Cristo significa Ungido e a cabeça foi ungida, o gesto reconhece Jesus como Messias, mesmo que o Messias seja um rei que sofre e morre.

  • Leitura social

    Alguns destacam que a frase sobre os pobres exige continuidade da justiça social e que Jesus apenas indica um momento excepcional, sem diminuir a prioridade dos pobres.

No original3 termos
  • ἀλάβαστρονalabastronG211

    Frasco de alabastro, pedra macia usada para guardar perfumes; seu gargalo estreito era quebrado para derramar tudo.

  • ἐνταφιασμόςentaphiasmosG1780

    Preparação para o sepultamento; a palavra explica o sentido que Jesus dá à unção.

  • καλὸν ἔργονkalon ergon

    Boa obra, obra bela; Jesus qualifica o gesto da mulher como algo belo e adequado, e não como desperdício.

O que fazer com isso

A passagem protege contra dois erros: usar a frase de Jesus para justificar a indiferença com os pobres e tratar a devoção como desperdício. Jesus pressupõe que ajudar os pobres continua sendo urgente e que há também momentos em que a adoração custosa tem lugar próprio. O texto pede discernimento e generosidade, sem opor um ao outro. Em tempos de urgência social, a generosidade permanente e o gesto único de devoção podem coexistir.

Passagens relacionadas5

Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.

Fontes consultadas4 obras
  • R. T. France. The Gospel of Mark (New International Greek Testament Commentary), 2002.
  • Joel Marcus. Mark 8-16 (Anchor Yale Bible), 2009.
  • Craig A. Evans. Mark 8:27-16:20 (Word Biblical Commentary), 2001.
  • James R. Edwards. The Gospel According to Mark (Pillar New Testament Commentary), 2002.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

Quanto valiam trezentos denários?

O denário era o pagamento de um dia de trabalho, como em . Trezentos denários equivaliam a cerca de um ano de salário de um trabalhador comum.

A mulher de Marcos 14 é a mesma de Lucas 7?

A maioria dos estudiosos vê episódios distintos. se passa na Galileia, na casa de um fariseu, com uma mulher pecadora, e a unção é nos pés. Marcos e Mateus ocorrem em Betânia, na casa de Simão, o leproso, e a unção é na cabeça.

Temas

  • #marcos
  • #betania
  • #alabastro
  • #nardo
  • #pobres
  • #uncao
  • #sepultamento

Publicado em 01/11/2026

Construído sobre fontes em domínio público, listadas acima. Como produzimos. Encontrou um erro? Escreva para a redação.

O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 4 obras citadas, com autor e ano
  • 2 afirmações populares checadas e refutadas
  • 3 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

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