
Jeremias 23:23-24: Deus de perto e de longe
Jeremias 23:23-24: Deus é Deus só de perto, e não também de longe?
Por acaso sou eu Deus apenas de perto,diz o SENHOR, e não também Deus de longe? Pode alguém se esconder num esconderijo,diz o SENHOR, que eu não o veja? Por acaso não sou eu, diz o SENHOR, que encho os céus e a terra?
Resposta curta
traz uma sequência de julgamentos: primeiro contra os reis de Judá, comparados a pastores que dispersaram o rebanho, e depois contra os profetas que inventavam mensagens em nome do Senhor. Esses profetas prometiam paz a um povo que caminhava para o exílio, agindo como se seus planos e mentiras pudessem passar despercebidos por Deus, como se ele fosse uma divindade de alcance limitado.
É nesse cenário que vem a pergunta retórica dos versículos 23 e 24: "Por acaso sou eu Deus apenas de perto... e não também Deus de longe?" Deus rejeita ser uma divindade presa a um lugar ou a um raio de alcance curto. Ninguém se esconde em esconderijo que ele não veja, porque ele enche os céus e a terra — afirmação da onipresença que expõe a fraude dos falsos profetas.
Como isso aponta para Jesus
Trajetória do textoA afirmação de que Deus enche os céus e a terra antecipa uma trajetória que atravessa toda a Escritura: da glória que enche o templo na dedicação de Salomão () e da visão de Isaías ("toda a terra está cheia da sua glória", Is 6:3) até a plenitude que, segundo o Novo Testamento, habita corporalmente em Cristo (Cl 2:9) e o enche todas as coisas (Ef 4:10). O Deus que nenhum esconderijo evade também se torna, em Jesus, presença acessível e concreta em meio ao seu povo (Jo 1:14) — não anulando a transcendência afirmada em Jeremias, mas mostrando como ela se une à proximidade sem perder nem uma coisa nem outra.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
Neste trecho, Deus está corrigindo profetas que mentiam em seu nome, achando que conseguiam esconder suas invenções dele. Para desmontar essa ideia, ele pergunta se é um Deus que só enxerga de perto, sem alcançar o que está longe. A resposta é não: ele enche os céus e a terra, então ninguém consegue se esconder dele em lugar nenhum. Não é um texto sobre geografia, mas sobre o fato de que nada escapa do conhecimento de Deus, nem mesmo os planos mais escondidos.
Contexto histórico
Jeremias profetizou em Judá entre o final do século sete e o início do século seis antes de Cristo, nos anos que antecederam e atravessaram a conquista babilônica de Jerusalém. O capítulo 23 abre com uma denúncia contra os "pastores" — os reis e líderes de Judá — que dispersaram o rebanho de Deus em vez de cuidar dele (v. 1-4), seguida da promessa de um Renovo justo que reinará com sabedoria e fará justiça na terra (v. 5-6). A partir do versículo 9, o alvo muda para os profetas: homens que, segundo o texto, praticavam adultério, andavam na mentira, fortaleciam as mãos dos que faziam o mal e anunciavam visões do próprio coração, não uma palavra vinda da boca do Senhor. Eles diziam ter sonhos reveladores ("Sonhei, sonhei", v. 25) e prometiam paz a um povo que, na realidade, caminhava para o desastre do cerco e do exílio.
É nesse contexto de acusação que aparecem os versículos 23 e 24. Esses profetas agiam como se suas invenções pudessem escapar da percepção de Deus — como se ele fosse comparável às divindades do antigo Oriente Próximo, frequentemente associadas a um território, um monte ou um templo específico, com alcance limitado fora dali, suposição que aparece, por exemplo, no raciocínio dos arameus em sobre os "deuses dos montes" de Israel. A pergunta retórica de Deus nega essa premissa: ele não é um deus "de perto" apenas, restrito a um ponto, nem um deus "de longe", distante e alheio — ele preenche céus e terra ao mesmo tempo, sem intervalo. Essa afirmação prepara o terreno para a acusação seguinte (v. 25-32): os falsos profetas roubam palavras uns dos outros e falam "diz o Senhor" sem terem sido enviados, mas nenhuma dessas manobras passa despercebida diante de um Deus que tudo alcança.
Aprofundamento
O hebraico de usa duas expressões formadas com a partícula "min" (de/desde): "Elohei miqarov" (Deus de perto) e "Elohei merachoq" (Deus de longe). A estrutura da pergunta — "sou eu apenas... e não também..." — é retórica e espera resposta negativa à primeira parte isolada e afirmativa à combinação das duas: Deus não se limita a nenhum dos extremos sozinho, mas é simultaneamente próximo e transcendente. Comentaristas como Keil e Delitzsch observam que a pergunta responde a uma concepção de divindade limitada geograficamente, familiar no mundo do antigo Oriente Próximo, em que muitos deuses eram entendidos como ligados a um território, monte ou templo específico — daí a suposição, presente em outros textos bíblicos, de que seria possível "sair do alcance" de um deus apenas mudando de lugar ou agindo longe de seu santuário.
O versículo 24 reforça o argumento com um jogo de palavras: a raiz hebraica sathar, usada no verbo "esconder-se" (yissather), é a mesma da palavra "esconderijos" (mistarim) na mesma frase — como se o texto dissesse que nem o esconderijo mais escondido escapa à vista de Deus. A afirmação final, "encho os céus e a terra" (do verbo male, "encher"), ecoa outras passagens que descrevem a presença ou glória de Deus preenchendo o espaço criado, como a visão de ("toda a terra está cheia da sua glória") e a oração de Salomão na dedicação do templo, que já reconhecia que nem "os céus e os céus dos céus" poderiam conter a Deus () — sinal de que a ideia não era nova em Jeremias, mas fazia parte de uma tradição teológica já estabelecida em Israel.
João Calvino, em seu comentário sobre Jeremias, destaca que o erro dos falsos profetas não era apenas moral, mas teológico: eles tratavam a onisciência de Deus como algo distante e inoperante no dia a dia, como se pudessem manipular a religião sem prestar contas a ninguém. A força retórica do texto está em recusar essa separação entre um Deus "de perto" (acessível, mas supostamente limitado) e um Deus "de longe" (grandioso, mas alheio às minúcias humanas): a Escritura afirma as duas coisas ao mesmo tempo, sem contradição, como fundamento direto para a exigência de integridade que ocupa o restante do capítulo. Essa mesma lógica reaparece, com outro vocabulário, no discurso de Paulo em Atenas (), quando ele diz aos ouvintes gregos que Deus "não está longe de nenhum de nós", pois nele "vivemos, nos movemos e existimos" — um eco, em contexto helenístico, da mesma recusa a um deus territorial ou distante que Jeremias já formulava séculos antes diante de Israel.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:O versículo diz que Deus mora fisicamente longe, nos céus, distante dos problemas humanos.
É o oposto: a pergunta retórica nega justamente essa ideia de limitação. O texto afirma que Deus não é 'apenas' de perto nem 'apenas' de longe — ele enche os céus e a terra ao mesmo tempo, sem estar restrito a nenhuma localização.
Dizem que:Jeremias 23:23-24 é uma profecia direta sobre a encarnação de Jesus.
No seu sentido histórico, o texto é uma resposta a profetas mentirosos de Judá que se achavam capazes de esconder suas invenções de Deus. Não há, no próprio texto nem em citação direta do Novo Testamento, indicação de que ele fosse originalmente entendido como previsão da vinda de Cristo.
Como diferentes tradições cristãs leem4 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
católica
A doutrina clássica da onipresença divina — Deus presente em toda parte por essência, presença e potência, como sistematizado por Tomás de Aquino — é aplicada ao texto como afirmação da providência vigilante de Deus sobre a hipocrisia dos falsos profetas: nada escapa ao olhar de quem sustenta toda a criação.
reformada
João Calvino enfatiza a onisciência de Deus como fundamento da denúncia da hipocrisia: os falsos profetas se enganavam supondo que, por tratarem Deus como uma realidade distante e abstrata, suas invenções passariam despercebidas diante dele.
pentecostal
O texto é lido como base para testar manifestações proféticas hoje: palavras que nascem da imaginação humana, e não do Espírito, tentam se disfarçar de mensagem divina, mas não escapam do exame de um Deus que enche todas as coisas.
luterana
O texto funciona como Lei que expõe a impossibilidade de esconder o pecado e a mentira de Deus, preparando o terreno para reconhecer a necessidade da graça já anunciada poucos versículos antes, no anúncio do Renovo justo (Jr 23:5-6).
No original5 termos
אֱלֹהִיםElohimH430
Palavra genérica para 'Deus' ou 'deus'; aqui aparece na forma construta ('Deus de perto... Deus de longe') dentro da pergunta retórica sobre a natureza divina.
קָרוֹבqarovH7138
'Perto', 'próximo'; usado para formular a ideia hipotética de um deus cujo alcance ou percepção estaria limitado à proximidade.
רָחוֹקrachoqH7350
'Longe', 'distante'; usado em contraste com qarov para negar qualquer limite espacial ao conhecimento e à presença de Deus.
סתרsathar (forma yissather)H5641
'Esconder-se'; descreve a tentativa hipotética de alguém se ocultar de Deus, que o texto declara impossível.
מָלֵאmaleH4390
'Encher', 'estar cheio'; usado na afirmação final de que Deus enche os céus e a terra, base textual da ideia de onipresença.
O que fazer com isso
Isso muda a forma como a gente pensa em integridade: não existe compartimento da vida fora do alcance de Deus, nem mesmo pensamentos e intenções guardados em segredo. Antes de tratar isso como ameaça, vale ler como convite à coerência — falar e agir sem duas versões de si mesmo, uma pública e outra escondida, porque a distinção entre "perto" e "longe" simplesmente não existe para quem já é visto por inteiro, em qualquer situação.
Passagens relacionadas9
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Fontes consultadas4 obras
- Matthew Henry. Comentário Bíblico Matthew Henry - Antigo Testamento (Jeremias), 1710.
- John Calvin. Commentaries on the Book of the Prophet Jeremiah, 1563.
- C. F. Keil e F. Delitzsch. Commentary on the Old Testament: Jeremiah, 1880.
- Ludwig Koehler e Walter Baumgartner. The Hebrew and Aramaic Lexicon of the Old Testament (HALOT), 2000.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Jeremias 23:23-24 fala sobre onisciência ou onipresença de Deus?
Fala principalmente de onipresença — a ideia de que Deus preenche todo lugar, sem limite de distância. Como consequência direta disso, o texto também implica onisciência: se Deus está em todo lugar, nada escapa ao seu conhecimento, nem mesmo planos guardados em segredo.
Por que Deus faz essa pergunta logo depois de falar de falsos profetas?
Porque esses profetas agiam como se pudessem esconder de Deus que suas mensagens eram inventadas, não recebidas por revelação real. A pergunta retórica desmonta essa suposição: não existe esconderijo fora do alcance de Deus.
O que significa 'esconderijo' no versículo 24?
A palavra hebraica usada indica lugares ocultos ou secretos, no sentido mais amplo — não apenas um esconderijo físico, mas qualquer tentativa de disfarçar intenções ou mentiras. O texto afirma que nenhum desses esconderijos escapa da vista de Deus.
Esse texto tem alguma ligação com o Novo Testamento?
Não há uma citação direta, mas o tema de Deus 'encher' tudo reaparece em , sobre Cristo enchendo todas as coisas, e em , sobre a plenitude da divindade habitando nele corporalmente.
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