
Jeremias 9:23-24: não se glorie o sábio
o que significa não se glorie o sábio na sua sabedoria
Assim diz o SENHOR: Não se orgulhe o sábio em sua sabedoria, nem o valente se orgulhe em sua valentia, nem o rico se orgulhe em suas riquezas. Mas aquele que se orgulhar, orgulhe-se nisto: em me entender e me conhecer, que eu sou o SENHOR, que faço bondade, juízo, e justiça na terra; porque destas coisas eu me agrado,diz o SENHOR.
Resposta curta
traz um oráculo do SENHOR entregue a Judá pouco antes da invasão babilônica. O texto nomeia três fontes comuns de orgulho humano — a sabedoria de quem aconselha, a força de quem vence na guerra e a riqueza de quem acumula bens — e proíbe que qualquer uma delas sirva de motivo de glória pessoal. A estrutura é proposital: três negações preparam uma única afirmação central, que só aparece depois de as outras serem descartadas.
Em lugar dessas três, o texto aponta um único fundamento legítimo de orgulho: entender e conhecer o SENHOR, que age com bondade, juízo e justiça na terra. Esse conhecer não é teórico, mas relacional, ligado à aliança entre Deus e seu povo. Séculos depois, Paulo cita quase literalmente esses versículos em , aplicando-os à cruz de Cristo.
Como isso aponta para Jesus
Trajetória do textoJeremias já deslocava a segurança humana da sabedoria, da força e da riqueza para o conhecimento relacional de Deus como único fundamento estável de glória. O apóstolo Paulo retoma essa mesma linguagem em para descrever a cruz de Cristo: ali nenhum sábio, poderoso ou nobre encontra motivo de orgulho segundo os padrões humanos, porque Cristo se tornou para os crentes sabedoria da parte de Deus — de modo que, como escreve Paulo citando quase literalmente , "aquele que se gloriar, glorie-se no Senhor". A mesma citação reaparece em . O chamado ao conhecimento relacional de Deus dentro da aliança com Israel se torna, no Novo Testamento, um chamado a conhecer a Deus revelado em Cristo crucificado, sem alterar a estrutura original: não há glória legítima fora dessa relação.
Respaldo no Novo Testamento: ;
Em palavras simples
Neste texto, Deus manda o povo de Judá parar de se orgulhar de três coisas que pareciam garantir segurança: ser inteligente, ser forte ou ser rico. Nenhuma dessas coisas, sozinha, sustenta ninguém de verdade quando as coisas desmoronam. O único motivo de orgulho que realmente vale é conhecer a Deus de perto e saber como ele age — com bondade, justiça e retidão. Mais tarde, no Novo Testamento, Paulo usa essa mesma ideia para explicar por que a fé em Cristo muda o que consideramos motivo de orgulho.
Contexto histórico
Jeremias exerceu seu ministério profético em Judá entre aproximadamente 627 e 586 a.C., atravessando os últimos reis do reino e a queda de Jerusalém para os babilônios. O capítulo 9 pertence a uma seção de lamento sobre a corrupção moral e religiosa do povo: mentira, opressão e infidelidade à aliança tinham se tornado comuns (), e o SENHOR anuncia que a terra será devastada por causa disso (9:10-16). É nesse cenário de colapso iminente que o oráculo dos versículos 23-24 aparece, cortando pela raiz as falsas seguranças em que a elite de Judá costumava confiar.
As três categorias citadas não são escolhidas ao acaso. "Sábio" remete à classe de conselheiros e escribas que orientavam decisões políticas e religiosas — grupo que Jeremias, em outro ponto do livro, acusa de lidar com a lei do SENHOR de forma enganosa (). "Valente" (guibor, em hebraico) designa o poder militar, justamente o que faltaria a Judá diante do exército babilônico. "Rico" aponta para quem acumulou bens e terras, segurança que a invasão e o exílio tornariam inúteis da noite para o dia. Ao proibir que essas três fontes sirvam de motivo de orgulho, o texto não as condena em si — sabedoria, força e riqueza não são apresentadas como más — mas nega que alguma delas, isoladamente, sustente a vida de uma pessoa ou de uma nação diante do juízo de Deus.
Vale notar que, na numeração hebraica tradicional do texto massorético, este oráculo é contado um versículo antes da numeração usada nas Bíblias em português, detalhe registrado por comentaristas ao anotar o capítulo. O verbo hebraico traduzido por "se orgulhar" (halal, em sua forma reflexiva) é o mesmo verbo usado para "louvar", o que reforça a ideia de que o texto trata de onde uma pessoa coloca sua admiração e seu valor supremo — não apenas de uma vaidade passageira, mas de um culto ao próprio talento, à própria força ou à própria conta bancária.
Aprofundamento
A estrutura literária de é o que torna o texto memorável: três negações paralelas — "não se orgulhe o sábio", "nem o valente", "nem o rico" — seguidas de uma única afirmação positiva, introduzida por um forte contraste ("mas aquele que se orgulhar..."). Essa construção retórica não está isolada; ecoa um padrão comum na literatura sapiencial do Antigo Oriente Próximo, em que se listam fontes convencionais de status social antes de se apontar para algo maior que as relativiza. O efeito é cortar, uma a uma, as bases em que uma pessoa ou uma nação costuma apoiar sua identidade.
O verbo central do versículo 24, traduzido por "conhecer" (yada, em hebraico), não descreve conhecimento de informações sobre Deus, mas um vínculo relacional e experiencial, o mesmo tipo de conhecimento usado em Oséias 6:6 ("misericórdia quero, e não sacrifício; e o conhecimento de Deus, mais do que holocaustos") e em , quando Moisés pede para conhecer os caminhos do SENHOR. Conhecer a Deus, no vocabulário profético, é reconhecer e viver de acordo com seu caráter — descrito aqui por três palavras que também formam um trio comum em outros textos proféticos: bondade (hesed), juízo (mishpat) e justiça (tsedaqah). Essas três palavras resumem o modo como Deus governa: com lealdade fiel, com decisões corretas e com retidão que defende o fraco. O texto propõe, portanto, que a única glória estável para um ser humano é participar, por meio do conhecimento de Deus, desse mesmo caráter.
É importante não ler esse texto como uma condenação da sabedoria, da força ou da riqueza em si — o próprio livro de Provérbios elogia a sabedoria, e outros textos do Antigo Testamento tratam riqueza e força como bênçãos possíveis. O alvo da crítica é fazer dessas coisas o fundamento último da identidade e da segurança de alguém, esquecendo que todas elas podem desaparecer num dia de julgamento, como estava prestes a acontecer com Judá diante da invasão babilônica.
O Novo Testamento retoma essa mesma lógica de forma direta. Em , Paulo argumenta que Deus escolheu o que é fraco e desprezado no mundo para envergonhar os sábios e os poderosos, de modo que "ninguém se glorie diante dele" — e conclui citando quase literalmente : "aquele que se gloriar, glorie-se no Senhor". Para Paulo, Cristo crucificado ocupa o lugar do "conhecer o SENHOR": nele estão sabedoria, poder e justiça que nenhuma credencial humana pode produzir. A mesma citação reaparece em , reforçando que esse princípio de Jeremias se tornou, para os primeiros cristãos, uma lente permanente para entender onde repousa a verdadeira honra.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:O texto ensina que ser inteligente, forte ou rico é pecaminoso.
O oráculo não condena essas qualidades em si, mas o uso delas como fundamento último de identidade e segurança. O próprio Antigo Testamento, em livros como Provérbios, valoriza a sabedoria e trata riqueza e força como bênçãos possíveis quando bem administradas.
Dizem que:'Sábio' aqui se refere apenas a quem tem muito conhecimento acadêmico.
No contexto de Jeremias, 'sábio' designa principalmente a classe de conselheiros e escribas responsáveis por orientar decisões políticas e religiosas em Judá, não um conceito genérico de erudição.
Como diferentes tradições cristãs leem4 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
reformada
Enfatiza que 'conhecer' a Deus está ancorado na revelação proposicional de seu caráter — bondade, juízo e justiça — como descrito nas Escrituras, sendo esse conhecimento doutrinal a base da humildade e da confiança do crente.
católica
Lê o conhecimento de Deus como algo que amadurece dentro da vida de graça e da comunhão eclesial, transformando o crente ao longo do tempo para refletir, em obras de misericórdia e justiça, o próprio caráter de Deus descrito no texto.
pentecostal
Destaca a dimensão relacional e experiencial do verbo 'conhecer' (yada), entendendo o texto como um convite a um encontro pessoal e vivo com Deus, não apenas a uma aceitação intelectual de verdades sobre ele.
ortodoxa
Associa o conhecimento de Deus descrito por Jeremias a uma participação real no caráter divino — um processo de comunhão progressiva com as energias de Deus manifestas em seus atos de bondade e justiça, mais do que informação sobre ele.
No original8 termos
חָכָםchakamH2450
sábio; designa tanto o dom pessoal quanto a classe de conselheiros e escribas de Judá
גִּבּוֹרgibborH1368
valente, poderoso; usado sobretudo para descrever força e proeza militar
עָשִׁירashirH6223
rico; quem acumulou bens, terras ou riqueza
הָלַלhalal (forma hitpael)H1984
orgulhar-se, gloriar-se; a mesma raiz usada para 'louvar', indicando onde alguém coloca sua admiração maior
יָדַעyadaH3045
conhecer; conhecimento relacional e experiencial, não apenas informação teórica
חֶסֶדchesedH2617
bondade, lealdade fiel; atributo do caráter de Deus na aliança
מִשְׁפָּטmishpatH4941
juízo, justiça processual; as decisões corretas que Deus exerce
צְדָקָהtsedaqahH6666
justiça, retidão; a conduta reta de Deus que defende o fraco
O que fazer com isso
Hoje, as três fontes de orgulho de Jeremias têm equivalentes fáceis de reconhecer: diplomas e currículos, capacidade física ou posição de poder, e estabilidade financeira. Nenhuma dessas conquistas é errada, mas o texto convida a notar quando elas se tornam a base secreta da própria segurança e do próprio valor. Um exercício simples é perguntar, diante de uma perda real ou hipotética nessas áreas, o que sobraria da própria identidade — e deixar essa pergunta apontar para um fundamento que não depende de desempenho.
Passagens relacionadas6
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Fontes consultadas4 obras
- Matthew Henry. Commentary on the Whole Bible (comentário sobre Jeremias), 1710.
- C. F. Keil e F. Delitzsch. Commentary on the Old Testament: Jeremiah, 1873.
- J. A. Thompson. The Book of Jeremiah (New International Commentary on the Old Testament), 1980.
- Ludwig Koehler e Walter Baumgartner. The Hebrew and Aramaic Lexicon of the Old Testament (HALOT), 1994.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Jeremias 9:23-24 ensina que é errado ser sábio, forte ou rico?
Não. O texto não condena essas qualidades em si — outros textos bíblicos, como Provérbios, elogiam a sabedoria. O que é rejeitado é usar qualquer uma delas como fundamento último da própria identidade ou segurança.
Por que o apóstolo Paulo cita esse texto em 1 Coríntios?
Paulo usa a linguagem de para explicar a cruz de Cristo: diante dela, nenhuma credencial humana — sabedoria, poder ou status — dá motivo de orgulho, e o único fundamento de glória passa a ser conhecer a Deus revelado em Cristo.
O que significa 'conhecer' o SENHOR nesse contexto?
O verbo hebraico yada indica um conhecimento relacional e experiencial, não apenas informação teórica. Conhecer a Deus, para o profeta, é reconhecer seu caráter — bondade, juízo e justiça — e viver de acordo com ele.
Esse texto tem alguma ligação com a situação política de Judá na época?
Sim. Jeremias falava a uma nação prestes a ser invadida pela Babilônia, cujas elites confiavam em conselheiros, exército e riqueza acumulada. O oráculo mostra que nenhuma dessas seguranças resistiria ao julgamento que se aproximava.
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