
Aliança ou testamento? A palavra grega diatheke em Hebreus 9:15-17
Em Hebreus 9:15-17, diatheke deve ser traduzida como aliança ou como testamento?
E por isso ele é o Mediador de um Novo Testamento, a fim de que, com a ocorrência de uma morte para redenção das transgressões sob o primeiro Testamento, os que foram chamados recebam a promessa da herança eterna. Pois onde há um testamento, é necessário que ocorra a morte do testador; porque um testamento se confirma nos mortos, visto que não é válido enquanto o testador vive.
Resposta curta
Em , o autor afirma que Cristo é mediador de uma nova diatheke, e que, para que os chamados recebam a herança prometida, houve uma morte. Nos versículos 16 e 17, diz que, onde há diatheke, é necessário que ocorra a morte de quem a fez, pois ela só tem força depois da morte. A palavra grega significa 'aliança' (o hebraico berit do Antigo Testamento) e, no uso comum do grego, 'testamento' (disposição de bens para depois da morte). Muitas traduções usam 'aliança' ou 'pacto' no versículo 15 e 'testamento' nos versículos 16 e 17; outras mantêm 'aliança' em todos eles. A discussão não é só de palavra: ela mostra como o autor usa o sentido jurídico de testamento para ilustrar por que a morte de Cristo era indispensável, sem deixar de falar da aliança divina.
Como isso aponta para Jesus
Cumprimento diretoCristo é apresentado como mediador da nova aliança profetizada em . Na última ceia, ele mesmo chamou o cálice de 'nova aliança no meu sangue'. A morte dele inaugura o que o Antigo Testamento prometia, e é isso que o autor defende ao usar tanto a linguagem da aliança como a do testamento.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
A palavra grega diatheke pode ser traduzida como 'aliança' ou 'testamento'. Em , o autor fala de uma nova aliança e depois diz que um testamento só vale depois da morte de quem o fez. Alguns acham que ele muda o sentido da palavra de propósito; outros, que ele mantém 'aliança' em todo o trecho. Nos dois casos, a ideia central é que a morte de Cristo foi necessária para que os chamados recebessem a herança prometida.
Contexto histórico
a 10 apresenta Cristo como sumo sacerdote de uma aliança melhor, fundada em promessas melhores (8:6). O autor cita extensamente a profecia de sobre a nova aliança, em que Deus promete escrever a lei no coração do seu povo e perdoar seus pecados (8:8-12). Em seguida, no capítulo 9, descreve o culto da primeira aliança, com o tabernáculo, seus utensílios, os sacrifícios e o Dia da Expiação, para mostrar que esse sistema apontava para algo além de si mesmo. O versículo 14, imediatamente anterior ao nosso trecho, afirma que o sangue de Cristo purifica a consciência das obras mortas, de modo que o argumento dos versículos seguintes continua a explicar por que a morte dele tem esse alcance.
O versículo 15 resume o ponto: 'Por isso ele é mediador de uma nova aliança, para que, intervindo a morte para remissão das transgressões cometidas sob a primeira aliança, os chamados recebam a promessa da herança eterna'. Aqui aparecem os termos-chave: mediação, morte, remissão e herança. A palavra herança (kleronomia) já sugere o campo de significados que levará ao vocabulário do testamento.
Os versículos 16 e 17 dizem, em tradução literal: 'Pois onde há uma diatheke, é necessário que se apresente a morte do que a fez. Porque uma diatheke só é firme sobre mortos, uma vez que de modo algum tem força enquanto vive o que a fez'. Os versículos 18 a 22 voltam à ideia de aliança e lembram que a primeira também não foi inaugurada sem sangue, citando , quando Moisés asperge o povo com sangue e diz: 'Este é o sangue da aliança que Deus ordenou para vós'.
O problema de tradução é, portanto, onde, dentro dessa sequência, o sentido passa de aliança para testamento, se passa, ou se o autor mantém o mesmo sentido do começo ao fim. Essa pergunta não é nova, e os comentaristas continuam divididos.
Aprofundamento
A palavra diatheke ocupa uma posição singular. Na Septuaginta, a tradução grega do Antigo Testamento, ela é a escolha praticamente constante para traduzir o hebraico berit, 'aliança'. Fora da tradição bíblica, porém, o uso mais comum de diatheke era 'disposição de última vontade', isto é, testamento. A palavra comum para pacto entre iguais era 'syntheke'. A escolha da Septuaginta por diatheke sublinha que a aliança de Deus é iniciativa soberana, não negociação entre partes iguais.
São três as principais soluções para . A primeira entende que o autor muda o sentido da palavra: no versículo 15 é aliança, nos versículos 16-17 é testamento, e nos versículos 18 em diante volta a ser aliança. A mudança seria feita por meio de um jogo de palavras consciente, porque o grego permitia as duas leituras. A vantagem é que o argumento jurídico é claro: um testamento só tem validade com a morte de quem o fez. A desvantagem é que alguns estudiosos consideram abrupta a mudança de sentido no meio de uma discussão sobre aliança.
A segunda solução mantém 'aliança' em todos os versículos. Nessa leitura, a morte é a do animal ou do sacrifício que ratifica a aliança, como nas cerimônias antigas de aliança em que animais eram cortados (; ) e como em . Para quem defende isso, o texto diz que, onde há aliança, deve ser trazida a morte (de uma vítima) que a representa. A força dessa leitura está na coerência do contexto. A dificuldade é que 'o que a fez' (ho diathemenos) é, em geral, uma pessoa, e ele aparece como quem morre.
A terceira solução aponta o duplo sentido como recurso retórico deliberado. O autor tem a palavra com dois sentidos e usa o mais próximo da experiência de seus leitores: ninguém recebe uma herança enquanto o testador está vivo. Cristo, ao mesmo tempo, é o mediador da aliança e aquele cuja morte põe em vigor os benefícios dela. Paulo usa diatheke em sentido de testamento humano em , e a palavra tem esse tipo de elasticidade.
Em qualquer dessas leituras, a conclusão teológica é a mesma: a nova aliança traz perdão e herança, e isso só ocorre por meio da morte de Cristo, cujo sangue é mencionado com clareza no versículo 14 e nos versículos 18-22. Um alerta histórico ajuda: o título 'Novo Testamento' vem do latim testamentum, usado pela Vulgata para traduzir diatheke, e isso não significa que a coleção de livros seja um testamento no sentido jurídico, mas uma nova aliança.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:A palavra diatheke sempre significa 'aliança', e traduzi-la por 'testamento' é erro.
No grego geral da época, diatheke era o termo comum para testamento, e Paulo usa essa acepção em . A Septuaginta é que a empregou para traduzir berit, 'aliança'. pode estar jogando com os dois sentidos, razão pela qual muitas traduções optam por 'testamento' nesses versículos.
Dizem que:O nome 'Novo Testamento' significa que Deus deixou uma herança em testamento quando morreu.
O nome vem do latim testamentum, que traduziu diatheke. Em sentido bíblico, refere-se à nova aliança, e não a um documento de última vontade de Deus. O que diz é que a morte de Cristo, o mediador, põe em vigor os benefícios da aliança.
Como diferentes tradições cristãs leem3 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Jogo de palavras (aliança no v. 15, testamento nos vv. 16-17)
O autor explora a ambiguidade de diatheke. O leitor entende que a nova aliança, como um testamento, só entra em vigor com a morte de quem a estabeleceu. É a leitura de muitas traduções modernas e de vários comentaristas.
Aliança em todo o trecho
A morte referida é a que ratifica uma aliança, em linha com os ritos antigos e com . Mantém a coerência do termo nos versículos 15 a 22, mas precisa explicar a menção a 'testador'.
Leitura teológica abrangente
Aliança e testamento são aspectos de uma mesma realidade: Deus se compromete com o seu povo (aliança) e deixa uma herança que só se recebe por causa de uma morte (testamento). Cristo é mediador e vítima ao mesmo tempo.
No original3 termos
διαθήκηdiathekeG1242
'Aliança, pacto' (equivalente ao hebraico berit na Septuaginta) e também 'testamento, última vontade'. É o centro do debate de .
μεσίτηςmesitesG3316
'Mediador, intermediário'. Em Hebreus designa Cristo como aquele que estabelece e garante a nova aliança.
κληρονομίαkleronomiaG2817
'Herança'. Termo que, junto com a ideia de morte, aproxima o texto do vocabulário de testamento.
O que fazer com isso
A discussão de vocabulário não deve ofuscar a mensagem: a herança prometida a quem foi chamado chega por meio da morte de Cristo, e não por mérito próprio. Ler com atenção as palavras do texto ajuda a perceber que a fé cristã descreve algo ao mesmo tempo relacional, como uma aliança, e gratuito, como uma herança deixada por quem morreu, e que foi concedida a quem não a merecia.
Passagens relacionadas5
Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.
Fontes consultadas5 obras
- William L. Lane. Hebrews 9-13 (Word Biblical Commentary), 1991.
- Harold W. Attridge. The Epistle to the Hebrews (Hermeneia), 1989.
- Paul Ellingworth. The Epistle to the Hebrews (NIGTC), 1993.
- F. F. Bruce. The Epistle to the Hebrews (NICNT), 1990.
- Craig R. Koester. Hebrews (Anchor Bible), 2001.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Por que as Bíblias em português diferem nesses versículos?
Porque o tradutor precisa escolher entre manter 'aliança' em todo o trecho ou usar 'testamento' nos versículos 16-17. Algumas versões fazem a mudança e outras mantêm uma só palavra, com nota explicativa. Comparar duas ou três versões ajuda a ver a ambiguidade.
O que essa discussão muda na doutrina?
Muda pouco no resultado, pois nas duas leituras a morte de Cristo é necessária para a nova aliança e para a herança dos chamados. A diferença está em como o autor constrói o argumento e em qual imagem ele escolhe para tornar clara essa necessidade.
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