
Quem foi a filha de Faraó que criou Moisés, segundo Êxodo 2:5-10?
Quem era a filha de Faraó que encontrou Moisés no rio, e por que a Bíblia não diz o nome dela?
E a filha de Faraó desceu a lavar-se ao rio, e passeando suas virgens pela beira do rio, viu ela a cesta entre os juncos, e enviou uma criada sua a que a tomasse. E quando a abriu, viu ao menino; e eis que o menino chorava. E tendo compaixão dele, disse: Dos meninos dos hebreus é este. Então sua irmã disse à filha de Faraó: Irei a chamar-te uma ama das hebreias, para que te crie este menino? E a filha de Faraó respondeu: Vai. Então foi a virgem, e chamou à mãe do menino; À qual disse a filha de Faraó: Leva este menino, e cria-o para mim, e eu te o pagarei. E a mulher tomou ao menino, e o criou. E quando cresceu o menino, ela o trouxe à filha de Faraó, a qual o adotou, e pôs-lhe por nome Moisés, dizendo: Porque das águas o tirei.
Resposta curta
Em , um bebê hebreu escondido numa arca de junco é encontrado por uma princesa egípcia que desceu ao rio para se banhar. O texto a chama apenas de filha de Faraó, sem dar nome nem idade. Ela vê o menino chorando, reconhece que é um dos filhos dos hebreus e, em vez de cumprir a ordem do pai de lançar os meninos ao rio, sente compaixão. A irmã do bebê oferece buscar uma ama hebreia, e a própria mãe de Moisés acaba contratada, com salário, para criar o filho. A ironia é nítida: o futuro libertador cresce no palácio do opressor e é pago pelo Egito para ser cuidado pela mãe. A Bíblia não identifica a princesa, e as tentativas de dar-lhe um nome vêm de tradições posteriores.
Como isso aponta para Jesus
Trajetória do textoMoisés, salvo da morte decretada contra os meninos hebreus, será o libertador de Israel. O Novo Testamento retoma essa figura: Estêvão fala em do homem que Deus enviou como libertador, e compara a fidelidade de Moisés com a de Cristo. O episódio faz parte da trajetória em que Deus prepara, no meio da ameaça, aquele que conduz o povo, preparando o leitor para o libertador maior.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
A filha de Faraó foi ao rio, viu um bebê hebreu numa cesta e teve pena dele, mesmo sabendo que seu pai mandara matar esses meninos. Ela o adotou e deu a ele o nome de Moisés. A irmã do menino levou a própria mãe para cuidar dele, e a princesa pagou por isso. A Bíblia não diz como ela se chamava.
Contexto histórico
descreve um Egito que passou a temer o crescimento dos hebreus. Depois de impor trabalhos forçados, o Faraó tenta primeiro que as parteiras matem os meninos recém-nascidos e, diante da recusa delas, ordena que todo filho homem hebreu seja lançado ao rio (1:22). O rio Nilo, símbolo de vida do Egito, torna-se instrumento de morte para os hebreus.
É nesse cenário que o capítulo 2 apresenta uma família da tribo de Levi. Um homem e uma mulher têm um filho, a mulher o esconde por três meses e, quando já não pode, o coloca numa arca de juncos calafetada com betume e piche, entre os juncos da margem do rio. A irmã do menino fica à distância para ver o que acontece. O texto não dá nomes a esses personagens no capítulo 2; os pais, Anrão e Joquebede, serão nomeados em , e a irmã é tradicionalmente identificada com Miriã, mencionada em .
A filha de Faraó desce ao rio para se banhar, acompanhada de suas servas. Ela vê a arca entre os juncos e manda buscá-la. Abre-a e encontra o menino chorando. A sequência é rápida e carregada de significado: a mulher que pertence à casa mais poderosa do Egito se comove diante de uma criança indefesa, e o texto registra suas palavras: “Este é um dos filhos dos hebreus”. Ela sabe exatamente de quem se trata e sabe o que a lei de seu pai determina. O gesto de poupar o bebê, portanto, é deliberado e arriscado, pois contraria uma determinação de sua própria família. Também chama a atenção que o texto atribua a ela um sentimento, a compaixão, antes de qualquer cálculo político ou religioso.
Há registros de que cortes egípcias educavam jovens estrangeiros para servir ao Estado, o que torna plausível que um menino adotado por uma princesa recebesse formação completa. O relato ocupa poucos versículos, mas desempenha uma função decisiva: explica como alguém nascido sob condenação chegou a ser educado na corte e, ao mesmo tempo, se manteve ligado ao seu povo.
Aprofundamento
A primeira pergunta é: quem era ela? A resposta honesta é que o texto de Êxodo não diz. Não sabemos o nome da princesa, nem qual Faraó era seu pai, e os estudiosos divergem sobre a época do Êxodo, o que impede identificações históricas seguras. Em aparece uma “Bitia, filha de Faraó”, casada com Merede, da tribo de Judá. Uma tradição rabínica posterior, presente em midrashim, identifica essa Bitia com a mulher que salvou Moisés. Trata-se de uma tradição de interpretação, não de informação do texto bíblico. O historiador Flávio Josefo, por sua vez, chama a princesa de Thermuthis em suas Antiguidades Judaicas, mas também aí estamos diante de uma tradição posterior e não de dados verificáveis.
A segunda pergunta é por que o autor a deixa anônima. O anonimato parece parte do desenho do relato. Em e 2, quase todos os que agem em favor da vida são mulheres: as parteiras, a mãe, a irmã, a princesa. Elas desobedecem, cada uma a seu modo, a uma ordem injusta. O Faraó, nomeado apenas por seu cargo, é o poder que mata; sua filha, também nomeada apenas por seu vínculo com ele, é quem salva. A própria família do tirano gera quem frustra seus planos.
Há ainda a ironia do nome. A princesa dá ao menino o nome de Moisés, e o texto explica: “Porque das águas o tirei”. O verbo hebraico usado é mashah, “tirar”. O nome, por sua vez, tem som semelhante ao egípcio, onde mose significa “filho”, como em Tutmés. Alguns estudiosos veem aí uma pista de que o nome foi dado por uma egípcia, e o narrador faz um jogo de palavras em hebraico para o leitor israelita. O texto, porém, não resolve a questão, e é prudente tratá-la como hipótese.
O capítulo também mostra uma contradição aparente que se resolve na narrativa: a mãe de Moisés recebe pagamento do Egito para criar o próprio filho. O sistema opressor financia, sem saber, a preservação do libertador. Estêvão, em , resume o episódio dizendo que a filha de Faraó o adotou e o criou, e que Moisés foi instruído em toda a sabedoria dos egípcios. acrescenta que, quando adulto, ele recusou ser chamado filho da filha de Faraó. A mulher é, assim, coadjuvante, mas essencial: sem a adoção, não haveria acesso de Moisés à educação, ao palácio e, mais tarde, à própria fuga para Midiã, descrita logo a seguir no mesmo capítulo.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:A Bíblia diz que a filha de Faraó se chamava Bitia, e que ela se converteu ao Deus de Israel.
não nomeia a princesa. Bitia aparece em como filha de um Faraó casada com Merede, e a ligação com a mulher que salvou Moisés vem de tradições judaicas posteriores. Nenhum texto bíblico diz que ela se converteu.
Dizem que:A filha de Faraó sabia que o menino seria o libertador de Israel.
O texto mostra apenas compaixão diante de uma criança em perigo. Ela reconhece que é hebreu, mas não há indício de que conhecesse o futuro dele. O significado maior do gesto é percebido pelo leitor, não pela personagem.
Como diferentes tradições cristãs leem3 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Leitura literária das mulheres desobedientes
O relato destaca parteiras, mãe, irmã e princesa, que desobedecem a uma ordem injusta. A princesa é a que menos precisaria agir, o que realça a grandeza do gesto.
Tradição rabínica de Bitia
Os midrashim identificam a salvadora com Bitia, mencionada em , e a descrevem como alguém que se aproximou do povo de Deus. A identificação é tradição posterior, não dado bíblico.
Leitura da providência divina
Deus preserva o futuro libertador no coração do poder opressor, e faz do dinheiro e do palácio do Egito instrumentos de sua preservação, sem nomear sua ação no texto.
No original3 termos
תֵּבָהtevahH8392
Arca, caixa. Palavra usada somente para a arca de Noé e para o cesto de junco de Moisés, ligando os dois relatos de livramento pelas águas.
מָשָׁהmashah
Tirar, retirar da água. É o verbo em que o texto se apoia para explicar o nome de Moisés.
מֹשֶׁהMosheh
Moisés. O texto o liga ao verbo hebraico “tirar”, embora haja quem lembre a raiz egípcia mose, “filho”.
O que fazer com isso
O texto lembra que quem salva pode estar do lado de dentro do sistema que oprime. A princesa não é herói famoso nem tem nome registrado, mas sua compaixão altera a história de um povo. A passagem convida a valorizar gestos discretos de misericórdia, mesmo quando partem de quem tem pouca razão para arriscar-se, e a reconhecer que Deus conduz a história por meios inesperados.
Passagens relacionadas5
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Fontes consultadas4 obras
- Nahum M. Sarna. Exodus (JPS Torah Commentary), 1991.
- Umberto Cassuto. A Commentary on the Book of Exodus.
- Douglas K. Stuart. Exodus (New American Commentary), 2006.
- Flávio Josefo. Antiguidades Judaicas.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
A filha de Faraó tem nome na Bíblia?
Não em . Em há uma Bitia, filha de Faraó, mas a Bíblia não afirma que seja a mesma mulher. Josefo usa o nome Thermuthis, outra tradição posterior.
Por que o nome Moisés é explicado por um verbo hebraico se a princesa era egípcia?
O narrador faz um jogo de palavras em hebraico para o leitor israelita. Muitos estudiosos notam que o nome também lembra a palavra egípcia mose, “filho”, e consideram essa possibilidade.
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