
Por que Ester termina com dezenas de milhares de mortos?
Por que os judeus mataram 75 mil pessoas em Ester 9?
Assim os judeus feriram a todos os seus inimigos com golpes de espada, matança, e destruição; e fizeram o que quiseram daqueles que os odiavam. E na fortaleza de Susã os judeus mataram e destruíram quinhentos homens, Inclusive a Parsandata, Dalfom, Aspata, Porata, Adalia, Aridata, Farmasta, Arisai, Aridai, e a Vaisata, Os dez filhos de Hamã filho de Hamedata, inimigo dos judeus; porém não puseram suas mãos no despojo. No mesmo dia veio diante do rei a contagem dos mortos na fortaleza de Susã. E o rei disse à rainha Ester: Na fortaleza de Susã, os judeus mataram e destruíram a quinhentos homens, e aos dez filhos de Hamã; nas demais províncias do rei, o que teriam feito? Qual pois é tua petição, para que te seja concedida? Ou qual mais é teu pedido, para que te seja feito? Então Ester disse: Se for do agrado do rei, conceda-se também amanhã aos judeus em Susã, que façam conforme a lei de hoje; e que enforquem na forca os dez filhos de Hamã. Então o rei disse que assim se fizesse; e deu-se a ordem em Susã, e enforcaram aos dez filhos de Hamã. E os judeus que estavam em Susã se ajuntaram também no dia catorze do mês de Adar, e mataram trezentos homens em Susã; porém não puseram suas mãos no despojo. Também os demais judeus que estavam nas províncias do rei se ajuntaram e para se porem em defesa de sua vida, e terem repouso de seus inimigos; e mataram a setenta e cinco mil daqueles que os odiavam; porém não puseram suas mãos no despojo.
Resposta curta
Depois que o rei Assuero autorizou os judeus a se defenderem do decreto de extermínio arquitetado por Hamã, chegou o dia marcado para o confronto. Na fortaleza de Susã os judeus mataram quinhentos homens e os dez filhos de Hamã, mas por três vezes o texto registra que não tocaram no despojo dos mortos. Informado do resultado, o rei perguntou a Ester o que mais ela desejava, e ela pediu mais um dia de combate em Susã e que os corpos dos dez filhos de Hamã fossem pendurados em exposição pública.
No dia seguinte morreram mais trezentos homens em Susã. Nas demais províncias do império, os judeus mataram setenta e cinco mil pessoas identificadas como agressoras, de novo sem tocar nos bens. É a cena mais violenta do livro e quase sempre desaparece das versões resumidas ou infantis da história.
Contexto histórico
O pano de fundo é o decreto que Hamã conseguiu do rei Assuero no capítulo 3: extermínio de todos os judeus do império persa em um único dia, 13 de adar, com autorização explícita para saquear seus bens (). Quando a trama de Hamã é descoberta e ele é executado, a lei persa — que não podia ser revogada — permanece em vigor. A única saída jurídica que Mordecai encontra é um segundo decreto (), permitindo que os judeus se reunissem e se defendessem, matando quem os atacasse. narra a execução desse segundo decreto: não uma perseguição ofensiva, mas o confronto entre quem tinha ordem de matar e quem tinha ordem de se defender.
Susã era a capital administrativa de inverno do império aquemênida, sede do palácio onde toda a história se passa. A "fortaleza" (ou cidadela) mencionada nos versículos 6, 11 e 15 era o complexo fortificado do palácio real, distinto da cidade baixa — por isso o texto separa os números de mortos ali dos números nas províncias.
Três vezes o texto repete que os judeus "não puseram suas mãos no despojo" (v. 10, 15, 16), um detalhe que os comentaristas destacam como deliberado: contrasta com a permissão explícita de saque que constava no decreto original de Hamã (3:13). O pedido de Ester para pendurar os corpos dos dez filhos de Hamã (v. 13-14) não descreve um enforcamento de vivos — eles já haviam morrido em combate no primeiro dia (v. 6-10) — mas a exposição pública dos cadáveres, prática de humilhação e advertência conhecida em outros textos do Antigo Oriente Próximo e também em Israel (comparar com o tratamento dado aos corpos em e ).
O capítulo termina estabelecendo a instituição da festa de Purim, celebrada até hoje por comunidades judaicas em memória dessa reviravolta. É importante notar que o livro de Ester, no texto hebraico usado aqui, não menciona o nome de Deus nenhuma vez — um traço estilístico do livro inteiro, que narra a providência de forma oculta, por meio de "coincidências" e decisões humanas, e não por intervenção divina explícita.
Aprofundamento
A dificuldade desta passagem não deve ser amenizada: é um relato de dezenas de milhares de mortos, narrado sem lamento aparente, e por isso muitas edições ilustradas ou resumidas do livro de Ester param no capítulo 8, quando o perigo é revertido, e pulam direto para a celebração de Purim. Mas o texto hebraico segue contando o que aconteceu no dia da batalha, e vale entender o que ele afirma — e o que não afirma.
O decreto de Mordecai (8:11) não autorizou uma caçada geral a qualquer pessoa não judia do império. Ele deu aos judeus permissão para se reunir e se defender, matando "toda força armada de qualquer povo ou província que os atacasse". O texto de 9:5-16 descreve o resultado desse confronto armado, não uma perseguição unilateral: os que morreram são chamados repetidamente de "inimigos" e "os que os odiavam" (v. 1, 5, 16), isto é, aqueles que se mobilizaram para cumprir o decreto original de extermínio. Isso não resolve toda a tensão ética — o número de setenta e cinco mil mortos nas províncias é alto mesmo dentro dessa leitura —, mas muda o quadro de "massacre de inocentes ao acaso" para "resultado de um confronto armado autorizado defensivamente diante de uma ameaça de genocídio real".
Um segundo ponto que os comentaristas destacam (Carey Moore, Jon Levenson) é a recusa reiterada ao despojo. Guerra e saque andavam juntos no mundo antigo — o próprio decreto de Hamã oferecia os bens dos judeus como incentivo (3:13). Ao recusar o saque três vezes seguidas, o texto marca que a ação dos judeus não foi movida por ganância nem por oportunismo, mas por sobrevivência diante de uma lei que os condenava à morte.
Vale notar também a divergência textual no número de mortos nas províncias: o Texto Massorético hebraico (usado nesta tradução) registra 75.000, enquanto a Septuaginta grega, em alguns manuscritos, traz um número bem menor, algo em torno de 15.000. Estudiosos como Carey Moore observam essa diferença sem conseguir determinar com segurança qual número é mais próximo do original; é um bom lembrete de que os números em textos antigos de guerra nem sempre têm a precisão estatística que se espera hoje, e de que a tradição manuscrita do livro de Ester é conhecidamente variada.
Por fim, o pedido de Ester por mais um dia de combate em Susã (v. 13) é o detalhe que mais incomoda leitores modernos. O texto não explica o motivo dela, e os comentaristas divergem: pode refletir informação de que ainda havia hostilidade organizada na capital, ou pode ser um sinal de que a violência, uma vez autorizada, ganha lógica própria e ultrapassa o estritamente necessário. O texto bíblico não elogia nem condena explicitamente esse pedido — apenas relata.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:Os judeus mataram e saquearam os bens dos inimigos, enriquecendo com a matança.
O texto registra três vezes, de forma deliberada, que eles não tocaram no despojo (v.10, 15, 16), embora o decreto de Hamã original oferecesse explicitamente os bens dos judeus como despojo (). A recusa reiterada é o próprio texto marcando que a ação não foi motivada por ganância.
Dizem que:Ester pediu que os dez filhos de Hamã fossem enforcados vivos, num ato de crueldade extra.
Os dez filhos de Hamã já haviam morrido em combate no primeiro dia (v.6-10). O pedido de Ester (v.13) foi para pendurar os corpos já mortos em exposição pública no dia seguinte — uma prática de humilhação e advertência pública comum no mundo antigo, não um segundo ato de execução.
Como diferentes tradições cristãs leem4 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Reformada
Lê o episódio dentro da providência oculta que estrutura todo o livro: Deus não é citado, mas age por trás dos eventos para preservar seu povo de um genocídio real. A violência é entendida como defesa legítima diante de uma ameaça de extermínio, dentro do quadro de justiça retributiva do Antigo Testamento.
Católica
O cânon católico inclui adições gregas ao livro de Ester (como a oração de Ester antes de ir ao rei) que explicitam a invocação a Deus ausente do texto hebraico. Essas adições emolduram o confronto armado como parte de uma súplica e libertação divinas, dando ao episódio um contexto devocional mais explícito do que o texto hebraico isolado oferece.
Anabatista
Tende a ler o episódio como descritivo, não prescritivo: o texto relata o que aconteceu sob a lógica de retribuição do mundo persa, sem apresentá-lo como modelo de conduta. A ética do Sermão do Monte, no Novo Testamento, é vista como um avanço que não anula a historicidade do relato, mas não o toma como exemplo a imitar.
Pentecostal
Enfatiza a reviravolta (de ameaça de morte para vitória) como sinal do poder de Deus agindo em favor do seu povo mesmo quando oculto, lendo o episódio como parte da celebração de libertação que fundamenta a festa de Purim, com ênfase na fidelidade divina mais do que nos detalhes da violência em si.
No original3 termos
בִּזָּהbizzahH961
despojo, saque — os bens dos mortos em combate; o texto repete três vezes que os judeus não puseram a mão nele.
תָּלָהtalahH8518
pendurar, expor — usado para a exposição pública dos corpos dos dez filhos de Hamã, não para um enforcamento de pessoas vivas.
שׂנֵאsaneH8130
odiar — usado para descrever os "que os odiavam", os inimigos mortos no confronto.
O que fazer com isso
Esta passagem não é um modelo de conduta a imitar, e o próprio texto não a apresenta como exemplo a seguir — é um relato histórico de sobrevivência sob ameaça real de extermínio. O detalhe que vale carregar é a recusa ao despojo, repetida três vezes: mesmo em meio à violência autorizada, houve limite deliberado ao que se tomou. Diante de textos bíblicos que chocam, a atitude mais honesta é perguntar o que o texto realmente afirma antes de reagir ao que ele parece afirmar.
Passagens relacionadas4
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Fontes consultadas4 obras
- Carey A. Moore. Esther (Anchor Bible), 1971.
- Jon D. Levenson. Esther: A Commentary (Old Testament Library), 1997.
- Joyce G. Baldwin. Esther: An Introduction and Commentary (Tyndale Old Testament Commentaries), 1984.
- Michael V. Fox. Character and Ideology in the Book of Esther, 1991.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Por que Deus não é mencionado nem uma vez no livro de Ester?
É um traço estilístico do livro inteiro, não só deste capítulo. A narrativa mostra a providência agindo por trás de decisões humanas e coincidências, sem intervenção sobrenatural explícita — um recurso literário deliberado, segundo comentaristas como Jon Levenson.
Os judeus mataram gente inocente só porque podiam?
O decreto de Mordecai (8:11) autorizou apenas a matar quem os atacasse, não qualquer pessoa. O texto chama os mortos de "inimigos" e "os que os odiavam", indicando que eram os que se mobilizaram para cumprir o decreto de extermínio de Hamã, não uma população neutra ao acaso.
O número de 75 mil mortos é confiável?
É o número do Texto Massorético hebraico, mas a Septuaginta grega traz uma cifra bem menor. Estudiosos como Carey Moore não conseguem determinar com segurança qual é mais próxima do original — é uma divergência textual conhecida, não uma dúvida sobre o evento em si.
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