
“Ausentes do corpo, presentes com o Senhor”: o que acontece com quem morre?
Segundo Paulo, quem morre vai imediatamente para a presença de Cristo? Isso contradiz a ressurreição?
Por isso sempre temos confiança, e sabemos que, enquanto habitarmos no corpo, estamos ausentes do Senhor. (Pois andamos pela fé, e não pela vista). Temos, porém, confiança, e queremos mais deixar o corpo, e habitar com o Senhor;
Resposta curta
Em Paulo diz que, enquanto estamos no corpo, estamos ausentes do Senhor, e que prefere estar ausente do corpo e presente com o Senhor. O texto é central no debate sobre o estado intermediário, o tempo entre a morte e a ressurreição final. Para a maior parte da tradição cristã, ele indica que quem morre em Cristo está de imediato com ele, de forma consciente; outros defendem um descanso sem consciência até a ressurreição. Paulo não descreve o que se passa nesse intervalo e continua apontando para o corpo ressuscitado como esperança final. O contraste entre andar por fé e andar por vista dá o tom: a coragem do apóstolo vem de uma certeza que ainda não vê.
Como isso aponta para Jesus
Ligação indiretaCristo é o centro da esperança da passagem: o que torna a morte preferível é estar com o Senhor. A ligação não é tipológica nem profética, mas relacional. O texto coloca a morte do cristão sob a promessa de uma presença, e o corpo ressuscitado de Cristo, mencionado em outros trechos, é a garantia da ressurreição futura.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
Paulo diz que, enquanto vivemos no corpo, estamos longe do Senhor porque andamos por fé, e que prefere sair do corpo e estar com Cristo. Os cristãos discutem o que isso significa para quem morre. A maioria entende que a pessoa fica logo com Cristo, mas outros pensam em um descanso até a ressurreição. Paulo não detalha. Ele aponta que a esperança é estar com Cristo e, no fim, receber um corpo novo.
Contexto histórico
Segunda Coríntios é a carta mais pessoal de Paulo, escrita a uma igreja que contestava sua autoridade e via nos seus sofrimentos um sinal de fraqueza. Em 4:7-18 ele responde dizendo que carrega o tesouro do evangelho em vasos de barro, que o homem exterior se desgasta e o interior se renova a cada dia, e que a aflição leve e momentânea produz um peso eterno de glória. O capítulo 5 continua com a imagem de que a casa terrestre, a tenda em que moramos, será desfeita, e de que temos de Deus uma habitação eterna nos céus. Paulo diz que geme nessa tenda e deseja ser revestido do corpo celestial, para que a mortalidade seja absorvida pela vida. No versículo 3, ele usa a palavra “nus” e expressa o desconforto de existir sem corpo. Em 5:6-8 vem o ponto que nos interessa. Ele afirma que está sempre confiante e sabe que, enquanto habita no corpo, está ausente do Senhor, porque andamos por fé, e não por vista. Em seguida acrescenta que está confiante e prefere ausentar-se do corpo e habitar com o Senhor. Os verbos centrais são endemeo, estar em casa, e ekdemeo, estar fora de casa, estar longe da pátria. Eles formam um jogo de palavras: estar em casa no corpo significa estar longe de casa em relação ao Senhor, e o inverso. Em 5:9-10 Paulo conclui que, estando em casa ou fora dela, o objetivo é agradar ao Senhor, diante de cujo tribunal todos comparecerão. Em , escrito em outra prisão, ele diz que tem desejo de partir e estar com Cristo, o que é muito melhor. Os dois textos são lidos em conjunto, e a expressão “partir” de Filipenses completa a ideia de ausentar-se do corpo. Paulo escreve, além disso, depois de uma experiência recente de quase morte, relatada em 1:8-10, quando se sentiu sobrecarregado acima de suas forças, o que dá peso pessoal às suas palavras sobre a morte.
Aprofundamento
A questão central é saber se Paulo ensina que a pessoa que morre vai imediatamente à presença de Cristo, de forma consciente, antes da ressurreição. A leitura majoritária da tradição cristã, católica, ortodoxa e protestante, responde que sim. Os argumentos principais são o paralelismo entre estar no corpo e estar ausente do Senhor, de um lado, e estar ausente do corpo e presente com o Senhor, de outro, sem nenhum intervalo mencionado, e a afirmação de de que partir é estar com Cristo, o que é muito melhor. Murray Harris, em seus estudos, defende que Paulo conta com uma presença imediata, ainda que o estado seja provisório e não plenamente satisfatório. Há, porém, vozes que questionam essa leitura. Oscar Cullmann sustentou que a Bíblia pensa em termos de ressurreição, e não de imortalidade natural da alma, e que os mortos em Cristo estão em um descanso que a linguagem do sono descreve. Tradições como a adventista e as das Testemunhas de Jeová defendem a inconsciência dos mortos até a ressurreição, e alguns de seus defensores argumentam que, da perspectiva de quem morre, o tempo passa de modo imperceptível, de forma que a morte e a volta de Cristo seriam vividas como contínuas. N. T. Wright, por sua vez, vê nos textos de Paulo uma esperança de ressurreição corporal como alvo e entende que “estar com Cristo” descreve um estado intermediário de repouso e segurança, mas não o destino final. A leitura mais cuidadosa evita dois erros. O primeiro é transformar o texto num ensinamento de que o corpo é uma prisão que a alma abandona felizmente, como se Paulo adotasse a filosofia grega. Ele diz o contrário em 5:4: não deseja ser despido, mas revestido por cima, de modo que o corpo vem de novo. O segundo erro é dizer que Paulo não sabia nada sobre o intervalo, quando seu desejo expresso é partir e estar com Cristo. A expressão “andar por fé e não por vista” mostra o sentido da passagem. A vida cristã presente tem uma lacuna: Cristo está invisível, e a certeza vem da confiança, não da experiência. A coragem de Paulo, repetida duas vezes, nasce dessa fé no Senhor que o espera. O que o texto não faz é detalhar o estado dos mortos, como se ele fosse um mapa do além. É honesto dizer que a Bíblia dá poucas informações sobre esse tempo e que as tradições preenchem esse vazio de formas diferentes, algumas com mais cautela do que outras. O que todas afirmam, com Paulo, é que o centro da esperança é estar com Cristo e que o corpo ressuscitado será o cumprimento final.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:Paulo despreza o corpo e deseja que a alma se liberte dele, como na filosofia grega.
Em 5:4 Paulo diz que não quer ser despido, mas revestido por cima, de modo que o mortal seja absorvido pela vida. Ele espera um corpo transformado, e não a fuga do corpo.
Dizem que:O texto prova, sem sombra de dúvida, que os mortos estão conscientes e já no céu.
O texto aponta para estar com o Senhor, mas não descreve o estado dos mortos. Cristãos de várias tradições divergem sobre o que isso implica, e a esperança central de Paulo continua sendo a ressurreição.
Como diferentes tradições cristãs leem3 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Presença consciente imediata (maioria das tradições)
Quem morre em Cristo passa de imediato à presença do Senhor, em estado consciente, à espera da ressurreição corporal. A leitura se apoia em e .
Sono da alma ou inconsciência (adventistas, Testemunhas de Jeová e alguns teólogos)
Os mortos aguardam sem consciência a ressurreição, e a expressão “estar com o Senhor” é vista a partir da perspectiva de quem morre, para quem não há intervalo sentido.
Estado intermediário de repouso (leitura de N. T. Wright)
Há comunhão com Cristo entre a morte e a ressurreição, mas o estado é provisório e não é o destino final. A esperança do cristão está no novo corpo.
No original3 termos
ἐνδημοῦντεςendemountesG1736
Estando em casa, habitando. Aqui indica residir no corpo, e por contraste, estar fora de casa em relação ao Senhor.
ἐκδημοῦμενekdemoumenG1553
Estar fora de casa, ausentar-se da pátria. Paulo o usa para estar longe do Senhor ou longe do corpo, conforme o lado do contraste.
θαρροῦντεςtharrountes
Estando confiantes, de bom ânimo. O particípio aparece duas vezes e marca a coragem de Paulo diante da morte.
O que fazer com isso
Este texto fala a quem tem medo da morte e a quem perdeu alguém. Paulo não esconde que morrer é perda e que gememos nesta tenda, mas afirma que estar com Cristo é melhor. Isso permite chorar sem desespero. Para quem ainda vive, o texto devolve o foco à pergunta de 5:9: como agradar ao Senhor hoje, no corpo que temos?
Passagens relacionadas5
Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.
Fontes consultadas4 obras
- Murray J. Harris. The Second Epistle to the Corinthians (NIGTC), 2005.
- Paul Barnett. The Second Epistle to the Corinthians (NICNT), 1997.
- Oscar Cullmann. Immortality of the Soul or Resurrection of the Dead?, 1958.
- N. T. Wright. The Resurrection of the Son of God, 2003.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Paulo ensina que a alma vai para o céu ao morrer?
Ele diz que prefere estar ausente do corpo e presente com o Senhor, o que a maioria dos cristãos entende como presença imediata. Contudo, a esperança final dele é o corpo ressuscitado, e ele não detalha o estado intermediário.
O que significa andar por fé e não por vista?
Significa viver confiando em Cristo, que ainda não vemos. A certeza de Paulo vem de uma promessa, e não de uma experiência direta da presença de Deus.
Como esse texto se relaciona com Filipenses 1:23?
Os dois textos expressam o mesmo desejo de partir e estar com Cristo, o que é muito melhor. Em conjunto, sustentam a leitura de que há comunhão com o Senhor após a morte.
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