Simão, o leproso
Quem foi Simão, o leproso, na Bíblia?
Ficha do personagem
Betânia, ministério de Jesus, início do séc. I d.C.
Relações
- anfitrião de Jesus Cristo
- recebeu em sua casa a mulher que ungiu Jesus com perfume
Resposta curta
Simão é conhecido apenas por um apelido: "o leproso". Aparece em Mateus e Marcos como dono da casa em Betânia onde Jesus foi recebido dias antes de sua morte. Durante a refeição, uma mulher se aproximou com um vidro de perfume caro e derramou o conteúdo sobre a cabeça de Jesus. Alguns reclamaram, chamando aquilo de desperdício, já que o perfume valia quase um ano de salário e poderia ter sido vendido em favor dos pobres. Jesus defendeu a mulher, dizendo que ela havia preparado seu corpo para o sepultamento.
Sobre o próprio Simão, o relato não registra nenhuma fala nem reação. Pela lei judaica, quem tinha lepra ativa não podia receber visitas em casa, o que sugere que ele já havia sido curado quando o jantar aconteceu, e o apelido ficou como forma de identificação, prática comum na época.
Onde ele aparece
O nome
Simão — Aquele que ouve / Deus ouviu — do hebraico shama, "ouvir"
Significado, origem e variantes →Em palavras simples
Simão era um morador de Betânia que ficou conhecido só por um apelido: "o leproso". Provavelmente já tinha sido curado dessa doença, porque a lei da época não deixava uma pessoa doente receber gente em casa. Na casa dele, Jesus foi recebido para jantar pouco antes de morrer, e uma mulher derramou um perfume muito caro na cabeça dele. Alguns acharam um desperdício, mas Jesus disse que aquilo era uma forma de se preparar para o próprio enterro. Sobre Simão em si, a Bíblia não conta mais nada.
O mundo dele
A cena se passa em Betânia, uma pequena vila a cerca de três quilômetros de Jerusalém, na encosta do Monte das Oliveiras, durante a última semana da vida terrena de Jesus. Mateus e Marcos situam o jantar dois dias antes da Páscoa (Mc 14:1), momento em que as autoridades religiosas já tramavam prender Jesus — os dois evangelhos intercalam essa trama política com a cena da unção, um recurso literário que contrasta a hostilidade dos líderes com a devoção da mulher que ungiu Jesus.
Simão é chamado apenas de "o leproso", identificação que carrega peso social forte. Segundo a lei descrita em e 14, uma pessoa com lepra ativa era considerada ritualmente impura e ficava excluída do convívio comunitário — não poderia morar entre outros nem, muito menos, receber convidados para uma refeição. Por isso, comentaristas como Matthew Henry entendem que o apelido remanesceu de uma condição já superada, provavelmente por cura atribuída a Jesus, embora o texto bíblico não narre esse episódio de forma explícita.
Essa mesma refeição, ou uma muito parecida, aparece com variações nos quatro evangelhos. Mateus e Marcos concordam em localizá-la na casa de Simão, com a mulher derramando o perfume sobre a cabeça de Jesus. narra uma cena semelhante seis dias antes da Páscoa, numa casa em Betânia associada a Lázaro, Marta e Maria, com Maria ungindo os pés de Jesus e Judas Iscariotes como o principal descontente. , por sua vez, registra um episódio distinto, ocorrido mais cedo, na Galileia, na casa de um fariseu também chamado Simão, com uma mulher pecadora anônima. Comentaristas como D. A. Carson observam que Mateus, Marcos e João provavelmente descrevem o mesmo evento em Betânia sob ângulos diferentes, enquanto o episódio de Lucas é geralmente tratado como um acontecimento à parte, apesar do nome coincidente — um dos mais comuns entre os judeus do primeiro século.
A história
O relato da unção na casa de Simão funciona, nos evangelhos de Mateus e Marcos, como um contraste deliberado. Logo antes, os dois textos narram a decisão dos principais sacerdotes de prender Jesus "com dolo" e matá-lo (Mt 26:3-5; Mc 14:1-2); logo depois, narram a traição de Judas, que vai aos sacerdotes negociar a entrega de Jesus por dinheiro (Mt 26:14-16; Mc 14:10-11). No meio dessas duas cenas de cálculo e traição está o gesto de generosidade extrema da mulher: um perfume de nardo puro, avaliado em e em mais de trezentos denários — próximo do salário anual de um trabalhador braçal da época — derramado de uma só vez, sem economia.
A reação dos presentes é de indignação. Mateus atribui a reclamação aos discípulos como grupo (Mt 26:8); Marcos fala em "alguns" (Mc 14:4); João, ao narrar a cena paralela na casa ligada a Lázaro, identifica Judas Iscariotes como quem levanta a objeção, e acrescenta que ele geria a bolsa comum do grupo e costumava desviar recursos (Jo 12:4-6) — um detalhe que muda o tom da crítica, de zelo genuíno pelos pobres para interesse pessoal disfarçado.
A resposta de Jesus eleva o gesto a um patamar duradouro: "ela fez o que podia; antecipou-se a ungir o meu corpo para a sepultura" (Mc 14:8), e conclui que, onde quer que o evangelho fosse pregado no mundo inteiro, o que ela fez seria contado em sua memória (Mt 26:13) — uma promessa de permanência que Jesus não faz a respeito de nenhum outro ato humano registrado nos evangelhos, exceto o dele mesmo.
Simão, o anfitrião, não recebe uma só linha de fala nem de reação nesse relato. Ele existe no texto apenas como referência de localização — "estando Jesus em Betânia, em casa de Simão, o leproso" — o que intriga estudiosos sobre seu vínculo com a família de Lázaro, Marta e Maria, já que os relatos situam episódios semelhantes na mesma vila e talvez na mesma casa ou em casas vizinhas. Alguns comentaristas, como R. T. France, especulam que Simão fosse pai ou parente dessas irmãs, um viúvo já falecido ou ainda vivo àquela altura, mas isso permanece conjectura, sem apoio direto no texto bíblico.
Essa ausência de fala não é incomum entre figuras que aparecem uma única vez nos evangelhos para emprestar um cenário a um episódio maior. O nome de Simão sobrevive só porque sua casa foi o palco escolhido para um gesto que Jesus considerou digno de ser lembrado "em todo o mundo" — uma ironia notável, já que o dono da casa permanece na sombra enquanto a hóspede anônima ganha promessa de memória eterna. Essa assimetria entre anfitrião silencioso e convidada lembrada é um padrão recorrente nos evangelhos, em que personagens de apoio cumprem função narrativa sem que o texto se detenha sobre seu destino pessoal.
O que costumam dizer errado2
Dizem que:Simão ainda estava com lepra ativa quando recebeu Jesus e os convidados em sua casa.
Segundo a lei descrita em e 14, uma pessoa com lepra ativa era ritualmente impura e ficava excluída do convívio social, sem poder receber visitas ou hospedar uma refeição. O mais provável, segundo comentaristas como Matthew Henry, é que o apelido tenha permanecido como identificação de uma condição já curada — prática comum de nomear pessoas por características ou episódios do passado.
Dizem que:Simão, o leproso, é a mesma pessoa que o fariseu Simão de Lucas 7:36-50.
Os dois relatos têm localização, momento do ministério e personagens diferentes: o de Lucas ocorre na Galileia, mais cedo, com uma mulher pecadora anônima; o de Mateus e Marcos ocorre em Betânia, dias antes da crucificação. Comentaristas como D. A. Carson tratam os episódios como distintos; a coincidência de nome se explica porque Simão era um dos nomes mais comuns entre os judeus do primeiro século.
Como diferentes tradições cristãs leem3
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Católica (tradição histórica ocidental)
Desde Gregório Magno, no século VI, uma leitura influente na liturgia ocidental uniu a mulher pecadora de , Maria Madalena e Maria de Betânia numa única figura — leitura que moldou a piedade popular por séculos, embora hoje muitos teólogos católicos a considerem superada em favor de distinguir as três.
Ortodoxa
A tradição bizantina manteve desde cedo as figuras separadas, com veneração distinta para Maria Madalena e para 'a mulher pecadora', celebrada em hinos próprios da Semana Santa, sem identificá-la com a irmã de Lázaro e Marta.
Protestante e evangélica
A leitura histórico-gramatical predominante distingue o episódio de — evento anterior, na Galileia, com mulher anônima — dos relatos de Mateus, Marcos e João, situados em Betânia no fim do ministério, sem identificar a mulher pecadora com Maria Madalena ou com Maria de Betânia.
O que fazer com isso
A história de Simão lembra que muitas pessoas que sustentam momentos importantes da fé permanecem sem holofote — sem fala registrada, sem crédito explícito. Ele abriu sua casa depois de ter sido, aparentemente, restaurado de uma condição que o teria excluído de qualquer convívio social. A hospitalidade discreta dele deu espaço para um dos gestos mais lembrados dos evangelhos, mesmo sem que o texto reconheça isso publicamente.
Passagens relacionadas7
Fontes consultadas4
- Matthew Henry. Commentary on the Whole Bible, 1710.
- Keil, C. F. e Delitzsch, F.. Commentary on the Old Testament (Levítico), 1866.
- Carson, D. A.. The Gospel According to John (Pillar New Testament Commentary), 1991.
- France, R. T.. The Gospel of Mark: A Commentary on the Greek Text, 2002.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Simão o leproso ainda estava doente quando Jesus foi à casa dele?
Não é provável. A lei judaica excluía quem tinha lepra ativa do convívio social, então ele dificilmente poderia receber convidados para um jantar. O apelido mais provavelmente ficou de uma condição já superada, possivelmente uma cura atribuída a Jesus que o texto não narra diretamente.
Simão o leproso é o mesmo Simão fariseu de Lucas 7?
A maioria dos comentaristas os trata como pessoas diferentes. Os relatos têm localização geográfica e personagens distintos, apesar do nome em comum — Simão era um dos nomes mais frequentes entre os judeus do primeiro século.
Quem era a mulher que ungiu Jesus na casa de Simão?
Mateus e Marcos não a identificam pelo nome. João, ao narrar um episódio semelhante em Betânia, chama a mulher de Maria, irmã de Lázaro e Marta, embora estudiosos debatam se os relatos descrevem exatamente a mesma cena.
Por que os discípulos reclamaram do perfume derramado?
Consideraram um desperdício, já que o nardo valia cerca de trezentos denários, próximo de um ano de salário, e poderia ter sido vendido para ajudar os pobres. João atribui especificamente essa objeção a Judas Iscariotes.