Merodaque-Baladã
Quem foi Merodaque-Baladã, o rei da Babilônia que visitou Ezequias?
Ficha do personagem
Final do séc. VIII a.C.; Babilônia e Jerusalém
Aparece em
Relações
- contemporâneo de Ezequias
- contemporâneo de Isaías
- adversário de Senaqueribe
- filho de Baladã
Resposta curta
Merodaque-Baladã é o rei da Babilônia que, segundo e , enviou cartas e um presente a Ezequias depois de saber que o rei de Judá estivera doente e se recuperara. Os enviados foram recebidos com orgulho: Ezequias lhes mostrou o tesouro, o arsenal e tudo o que havia em seu palácio. O profeta Isaías o repreendeu e anunciou que tudo seria levado um dia à Babilônia, e que alguns descendentes do rei serviriam como eunucos no palácio babilônico. Ezequias respondeu que a palavra era boa, pois haveria paz em seus dias. Fontes mesopotâmicas identificam o rei com Marduque-apla-iddina II, caldeu que reinou em Babilônia e resistiu à Assíria. O episódio liga o final do século VIII a.C. ao exílio do século VI a.C.
Onde ele aparece
Como isso aponta para Jesus
Ligação indiretaO episódio não aponta diretamente para Cristo. Seu valor está em anunciar o exílio babilônico, que será um dos grandes momentos de espera pela restauração de Israel. O Novo Testamento abre sua genealogia lembrando 'a deportação para a Babilônia' como um marco na história que leva a Jesus (). A conexão é de contexto histórico, e não de tipologia.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
Merodaque-Baladã era o rei da Babilônia no tempo do rei Ezequias, de Judá. Ao saber que Ezequias adoecera e se recuperara, mandou cartas e um presente. Ezequias recebeu os enviados e mostrou todo o seu tesouro e suas armas. O profeta Isaías disse que um dia tudo isso seria levado à Babilônia. Séculos depois, foi o que aconteceu. Os documentos antigos da Mesopotâmia confirmam que esse rei existiu e que lutou contra a Assíria.
O mundo dele
Merodaque-Baladã aparece em e como 'filho de Baladã, rei da Babilônia'. A grafia varia entre os textos: 2 Reis traz 'Berodaque-Baladã' no texto hebraico tradicional, e Isaías traz 'Merodaque-Baladã'. Documentos assírios e babilônicos permitem identificá-lo com Marduque-apla-iddina II, líder do clã caldeu de Bit-Iakin, que tomou o trono da Babilônia em 721 a.C., quando Sargão II assumiu a Assíria, e o manteve até ser expulso em 710. Ele voltou a reinar por cerca de nove meses em 703 a.C. e foi derrotado por Senaqueribe, segundo os anais assírios. O nome acadiano significa, em geral, 'Marduque deu um herdeiro', e Marduque era o deus principal de Babilônia.
Esse rei era, portanto, um adversário recorrente da Assíria, a potência que ameaçava Judá. Isso ajuda a entender o interesse por Ezequias: em 701 a.C. ou pouco antes, o reino de Judá preparava resistência a Senaqueribe, e uma aliança com a Babilônia seria vantajosa para ambos os lados. Os textos bíblicos não dizem isso abertamente; falam de cartas e um presente por causa da doença do rei. acrescenta que os embaixadores foram enviados para se informar sobre 'o prodígio que acontecera na terra', provavelmente o sinal da sombra que recuou no relógio de Acaz (), e que Deus deixou Ezequias, 'para prová-lo e saber tudo o que havia em seu coração'.
A cronologia do episódio é debatida. diz 'naquele tempo', ligando a visita à doença de Ezequias, que a narrativa coloca nos anos da campanha de Senaqueribe em 701 a.C. Mas Merodaque-Baladã reinou na Babilônia em dois períodos, e os comentaristas discutem se a visita ocorreu antes de 710 ou em 703. Também a ordem em que os capítulos aparecem não precisa seguir a cronologia dos fatos: tanto Reis quanto Isaías colocam a doença e a visita depois do relato da campanha de Senaqueribe, mas o próprio texto liga os dois momentos por expressões vagas, como 'naquele tempo', que não fixam uma data exata. Por isso, qualquer data proposta para a visita é uma reconstrução.
A história
O relato é curto e foi preservado em dois livros com pequenas diferenças. Em e , os mensageiros chegam com cartas e um presente, e Ezequias 'alegrou-se com eles' e mostrou toda a sua casa de tesouros, a prata, o ouro, as especiarias, o óleo precioso, o arsenal e tudo o que se achava em seus depósitos. Isaías então pergunta quem eram os homens, de onde vieram e o que viram. Ezequias responde sem reservas que vieram de uma terra distante, a Babilônia, e que viram tudo. O profeta pronuncia a sentença: 'Dias virão em que tudo o que há em tua casa será levado para a Babilônia; nada ficará'. Alguns dos filhos de Ezequias serão levados para servir no palácio do rei babilônico ().
O que torna o texto difícil é a resposta de Ezequias: 'A palavra do Senhor que disseste é boa', pois 'haverá paz e segurança em meus dias' (). Os leitores dividem-se. Alguns veem aí uma humildade que aceita o juízo; outros, egoísmo de quem se contenta com o próprio tempo; outros, ainda, a constatação aliviada de que a sentença seria adiada. O texto não decide, e Crônicas, em lugar de citar essa fala, observa que 'Ezequias não correspondeu ao benefício que recebera, porque o seu coração se exaltou' (), mas depois 'se humilhou' (32:26).
Historicamente, a ameaça não vinha da Babilônia no tempo de Ezequias. A profecia de reaparece como ponto de virada do livro: o capítulo 39 encerra a parte inicial de Isaías, centrada na Assíria, e o capítulo 40 abre com 'Consolai, consolai o meu povo'. Entre uma e outra, o horizonte passa da Assíria à Babilônia. O cumprimento histórico aparece em –25, com as deportações de 597 e 586 a.C. sob Nabucodonosor, quando objetos do templo e do palácio foram levados (), e em , que fala de jovens da família real servindo na corte babilônica.
O quadro mesopotâmico é igualmente importante: a ascensão e a queda de Marduque-apla-iddina mostram a Babilônia como foco de resistência à Assíria. A Babilônia só viria a dominar Judá mais de cem anos depois, com uma dinastia diferente, a de Nabopolassar e Nabucodonosor, de modo que o rei do relato não é antepassado direto dos reis do exílio. O que une os dois momentos, na narrativa bíblica, não é uma linhagem, mas o lugar: a Babilônia, que Isaías apresenta como destino final do que Ezequias exibiu. Quanto a Merodaque-Baladã, a Bíblia não conta o que fez depois da visita, e as fontes mesopotâmicas apresentam um fim agitado, com fuga para o Elão após a derrota diante de Senaqueribe.
O que costumam dizer errado3
Dizem que:Merodaque-Baladã foi o rei que destruiu Jerusalém e levou Judá para o exílio.
Quem destruiu Jerusalém foi Nabucodonosor II, mais de cem anos depois, em 586 a.C. Merodaque-Baladã reinou no final do século VIII a.C., e sua visita a Ezequias é apenas ocasião para a profecia de Isaías sobre o futuro exílio.
Dizem que:Merodaque-Baladã é um personagem lendário que só aparece na Bíblia.
Ele é conhecido por fontes assírias e babilônicas, como os anais de Sargão II e de Senaqueribe e listas de reis, sob o nome Marduque-apla-iddina II. A Bíblia usa uma forma do nome em hebraico.
Dizem que:Isaías condenou Ezequias por receber estrangeiros em geral.
O texto não critica a hospitalidade, e sim o fato de Ezequias ter mostrado toda a riqueza e os armamentos sem consultar o profeta e sem reservas. Crônicas descreve a situação como uma prova em que Deus o deixou, para saber o que havia em seu coração ().
Como diferentes tradições cristãs leem4
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Judaica
A tradição rabínica discute o orgulho de Ezequias e a resposta ao profeta. Comentaristas rabínicos antigos e medievais discutem a visita e o sentido de 'paz e segurança em meus dias'. Em geral, veem nela uma advertência contra a vaidade de quem ostenta o que recebeu.
Católica
A leitura tradicional destaca o contraste entre a confiança de Ezequias diante de Senaqueribe e sua vaidade diante dos babilônios, e vê no episódio um exemplo de que as virtudes podem ser comprometidas em momentos de êxito. O texto serve também como ponte para a profecia do exílio.
Protestante
Muitos comentaristas protestantes enfatizam a soberania de Deus sobre a história, lendo como anúncio que prepara a mensagem de consolo de . Também observam que a resposta de Ezequias revela uma limitação humana, sem negar sua fidelidade em outras partes do reinado.
Crítica histórica
Muitos estudiosos veem na visita um reflexo de aproximações diplomáticas anti-assírias por volta de 704-703 a.C., e discutem se a profecia do exílio recebeu sua forma final depois dos acontecimentos de 586 a.C. A questão continua aberta, e o texto não fornece meios para decidi-la.
O que fazer com isso
O episódio mostra como a prosperidade e o elogio de estrangeiros podem levar à exposição imprudente do que se tem. Ezequias, que acabara de ser curado e confiara em Deus diante da Assíria, falhou em um momento aparentemente cordial. O texto não moraliza: registra o fato, a advertência e a resposta ambígua do rei, e deixa ao leitor perceber como o poder se perde em gestos pequenos de vaidade.
Passagens relacionadas8
Fontes consultadas4
- Mordechai Cogan e Hayim Tadmor. II Kings: A New Translation with Introduction and Commentary (Anchor Bible), 1988.
- John A. Brinkman. Prelude to Empire: Babylonian Society and Politics, 747-626 B.C., 1984.
- Brevard S. Childs. Isaiah (Old Testament Library), 2001.
- Albert Kirk Grayson. Assyrian and Babylonian Chronicles, 1975.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Merodaque-Baladã é o mesmo que Marduque-apla-iddina?
É a identificação aceita pelos estudiosos. Marduque-apla-iddina II foi rei da Babilônia e adversário da Assíria no mesmo período, e a forma bíblica corresponde ao seu nome acadiano com adaptações ao hebraico.
Por que ele enviou cartas a Ezequias?
O texto diz que foi porque soube que Ezequias adoecera e se recuperara (). Crônicas fala também do prodígio ocorrido na terra (). Muitos estudiosos acrescentam o interesse de uma aliança contra a Assíria, hipótese que a Bíblia não afirma.
O que Isaías disse a Ezequias depois da visita?
Anunciou que tudo o que havia no palácio seria levado à Babilônia, e que alguns filhos de Ezequias seriam eunucos no palácio do rei babilônico (; ).
Essa profecia se cumpriu?
A tradição cristã e judaica leem seu cumprimento nas deportações do final do século VII e do VI a.C. sob Nabucodonosor, quando objetos do templo e membros da família real foram levados à Babilônia (; ).