Boaz
Quem foi Boaz na Bíblia e por que ele casou com Rute?
Ficha do personagem
período dos juízes
Resposta curta
Boaz foi um proprietário de terras rico e respeitado, de Belém de Judá, que viveu no período dos juízes, quando fome, mortes e migração haviam reduzido a família de Elimeleque a duas viúvas sem sustento: Noemi e sua nora moabita, Rute. Como parente de Elimeleque, Boaz era um dos possíveis "resgatadores" (goel) previstos na lei israelita para restaurar terra e descendência a famílias que haviam perdido tudo.
O livro de Rute mostra Boaz permitindo que Rute colhesse em seu campo, protegendo-a de assédio e dando-lhe mais do que a lei exigia. Quando Noemi propõe que Rute peça formalmente o resgate, Boaz aceita o papel diante dos anciãos da cidade, casa-se com ela e se torna bisavô do rei Davi — e, segundo o evangelho de Mateus, um dos ancestrais de Jesus.
Onde ele aparece
O nome
Boaz — Nele há força (de bo, "nele", e oz, "força"); também traduzido de forma mais livre como "forte".
Significado, origem e variantes →Como isso aponta para Jesus
TipologiaA genealogia de lista Boaz — filho de Raabe, marido de Rute — entre os ancestrais diretos de Jesus, ligando explicitamente essa história de resgate familiar à linhagem davídica messiânica. Além do dado genealógico, boa parte da tradição cristã, sobretudo em leituras homiléticas protestantes e evangélicas, também enxerga em Boaz uma figura do goel — o parente-redentor — como antecipação do papel de Cristo como redentor que assume voluntariamente, e com custo próprio, a causa de quem não tinha como se salvar sozinho. Essa leitura tipológica não é uma doutrina unânime nem está declarada como tal em nenhum texto do Novo Testamento; é uma inferência teológica construída sobre a semelhança estrutural entre as duas figuras, e por isso deve ser tratada como interpretação, não como afirmação histórica sobre as intenções do autor de Rute.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
Boaz foi um fazendeiro rico de Belém que viveu na época dos juízes de Israel. Ele conheceu Rute, uma viúva estrangeira, quando ela catava restos de trigo em seu campo para sustentar a si e à sogra, Noemi. Impressionado com a lealdade de Rute, Boaz a protegeu, tratou-a com generosidade e, mais tarde, casou-se com ela seguindo os costumes legais da época. O casal teve um filho, avô do rei Davi.
O mundo dele
A história de Boaz está registrada no pequeno livro de Rute, ambientado "nos dias em que os juízes governavam" (), um período marcado por instabilidade política, fome recorrente e ausência de liderança central em Israel, conforme descrito no próprio livro de Juízes. Nesse cenário, uma família de Belém — Elimeleque, Noemi e os dois filhos — havia emigrado para Moabe fugindo da fome. Lá, os filhos se casaram com moabitas, entre elas Rute, mas Elimeleque e os dois filhos morreram, deixando Noemi e as noras viúvas e sem proteção econômica.
Boaz aparece na narrativa como um homem estabelecido em Belém, dono de terras e de trabalhadores, e identificado como parente de Elimeleque. Essa condição de parentesco é o que ativa, mais adiante, a instituição do goel — o "resgatador" previsto na lei de Israel (; ), cuja função incluía recomprar terras vendidas por necessidade, garantir descendência ao falecido por meio de casamento com a viúva e, de modo geral, preservar o nome e a herança da família dentro da comunidade.
O livro de Rute é, no cânone hebraico, um dos cinco Megilot (rolos) lidos em festas judaicas — tradicionalmente associado à festa de Shavuot (Pentecostes) por seu cenário de colheita. Comentaristas como Keil e Delitzsch destacam que a genealogia final do livro (), que liga Boaz a Davi, é o ponto para o qual toda a narrativa converge: um relato doméstico sobre fidelidade e resgate que a tradição bíblica lê como preparação para a monarquia davídica, mostrando que a linhagem real de Israel nasce de um gesto concreto de hospitalidade a uma estrangeira. O evangelho de Mateus (1:5) retoma essa mesma linhagem ao listar Boaz — e sua mãe Raabe, também de origem gentia — entre os ancestrais de Jesus, reforçando a leitura de que a inclusão de estrangeiras na linhagem davídica não era acidental para os primeiros leitores cristãos.
A história
O que torna Boaz notável na narrativa não é apenas cumprir a lei do goel, mas ultrapassar repetidamente o mínimo que ela exigia. Quando Rute vai catar espigas — um direito garantido a pobres e estrangeiros por e 23:22 — Boaz já a trata com atenção incomum: instrui os empregados a deixar cair feixes inteiros de propósito (), oferece-lhe pão e vinagre à sua própria mesa, e ordena que os rapazes não a molestem, um detalhe que sinaliza o risco real de assédio que mulheres estrangeiras e viúvas enfrentavam sozinhas nos campos (). Nada disso era obrigação legal; era generosidade deliberada para com alguém fora do círculo natural de proteção — uma moabita, povo que mantinha excluído da assembleia de Israel por gerações.
O ponto central do livro se desloca então da sobrevivência para o resgate formal. Na cena do terreiro de debulha (), Noemi orienta Rute a se apresentar a Boaz à noite e pedir que ele "estenda a manta" sobre ela — uma expressão idiomática de pedido de proteção matrimonial, ligada ao papel de goel. Boaz não se aproveita da situação, elogia a lealdade de Rute por não ter procurado um pretendente mais jovem e reconhece publicamente, no dia seguinte, que há um parente mais próximo com direito de resgate anterior ao seu (). Esse detalhe é importante: Boaz segue o procedimento legal correto, à porta da cidade, diante de testemunhas (), em vez de simplesmente reivindicar Rute para si.
Quando o parente mais próximo recusa o resgate — temendo prejudicar sua própria herança ao assumir a terra e o dever de gerar descendência em nome do falecido () —, Boaz assume o compromisso integralmente: compra a propriedade de Elimeleque e toma Rute como esposa, "para suscitar o nome do falecido sobre a sua herança" (). O texto não esconde que essa decisão tinha custo real para Boaz, tanto financeiro quanto social, ao vincular seu nome e sua linhagem a uma mulher moabita. A narrativa termina com o nascimento de Obede, que os vizinhos declaram "nascido a Noemi" () — e a genealogia final revela que essa criança seria avô de Davi. O procedimento à porta da cidade inclui ainda um detalhe cultural registrado pelo próprio narrador como já arcaico em sua época: a troca da sandália entre os dois parentes para selar publicamente a transferência do direito de resgate (), um costume que comentaristas como Matthew Henry associam a formas mais antigas de confirmação legal em Israel. Léxicos hebraicos como o BDB associam o nome Boaz a uma possível raiz relacionada a força ("nele há força"), embora a etimologia precisa permaneça discutida entre os comentaristas.
O que costumam dizer errado2
Dizem que:Boaz era um homem idoso apaixonado por uma jovem Rute.
O texto bíblico não informa a idade de nenhum dos dois. A ideia de que Boaz era muito mais velho vem de tradições populares e adaptações, não do relato de Rute, que apenas registra Boaz elogiando Rute por não ter buscado 'rapazes', uma observação social e não necessariamente etária.
Dizem que:O casamento de Boaz e Rute foi puramente romântico, sem nenhuma dimensão legal.
A narrativa dedica um capítulo inteiro () ao processo formal de resgate diante dos anciãos da cidade, deixando claro que o casamento estava amarrado a uma transação legal de terras e descendência, não apenas a um sentimento pessoal.
Como diferentes tradições cristãs leem4
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Tradição protestante evangélica
Vê em Boaz um tipo do parente-redentor que prefigura Cristo, destacando sua disposição de assumir voluntariamente, com custo pessoal, a restauração de quem não podia se salvar sozinho.
Tradição católica
Reconhece Boaz sobretudo como elo da genealogia davídica de Jesus e como exemplo de justiça e caridade (hesed) para com o próximo, situando a tipologia de redenção em um plano secundário à leitura moral e genealógica direta do texto.
Tradição ortodoxa oriental
Enfatiza Rute e Boaz na liturgia e na iconografia da linhagem de Cristo, lendo o livro inteiro como parte da economia da salvação que culmina na encarnação, sem necessariamente isolar Boaz como tipo individual de Cristo.
Tradição reformada
Lê a hesed (lealdade fiel) de Boaz como reflexo do caráter da aliança de Deus com seu povo, situando o personagem menos como tipo pessoal de Cristo e mais como ilustração narrativa de como a providência divina opera por meio de escolhas humanas de fidelidade.
O que fazer com isso
A história de Boaz mostra que fidelidade à lei e generosidade pessoal não são a mesma coisa: ele cumpriu o que a lei do resgate exigia, mas o texto valoriza justamente o que ele fez além disso — atenção concreta a uma pessoa vulnerável e estrangeira. Sua conduta é lembrada como exemplo de integridade em posições de poder e de acolhimento a quem está fora do círculo social esperado.
Passagens relacionadas6
Fontes consultadas4
- Keil, Carl Friedrich; Delitzsch, Franz. Commentary on the Old Testament (comentário sobre Rute), 1866.
- Henry, Matthew. Matthew Henry's Commentary on the Whole Bible (comentário sobre Rute), 1710.
- Brown, Francis; Driver, S. R.; Briggs, Charles A.. The Brown-Driver-Briggs Hebrew and English Lexicon (BDB), 1906.
- Strong, James. Strong's Exhaustive Concordance of the Bible, 1890.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Boaz era obrigado por lei a se casar com Rute?
Não exatamente. A lei do goel (; ) previa o resgate de terras e, em certos casos, a geração de descendência para o falecido, mas o texto de Rute mostra Boaz assumindo voluntariamente um compromisso mais amplo do que a obrigação mínima, inclusive diante da recusa de um parente com direito anterior ao seu.
Boaz é o mesmo Boaz citado na genealogia de Jesus?
Sim. lista Boaz, filho de Salmom e Raabe, marido de Rute e pai de Obede, na linhagem que leva a Davi e, mais adiante, a Jesus.
Por que era chocante Boaz se casar com uma moabita?
restringia moabitas da assembleia de Israel por gerações, refletindo hostilidade histórica entre os dois povos. O livro de Rute não discute essa lei diretamente, mas a inclusão de Rute na família de Boaz, e depois na linhagem davídica, é lida por comentaristas como um contraponto notável a essa exclusão.
Boaz e Rute tiveram outros filhos além de Obede?
O texto bíblico menciona apenas Obede como filho do casal, através de quem a genealogia segue até Davi.