Aquis, rei de Gate
Quem foi Aquis, o rei filisteu que acolheu Davi?
Ficha do personagem
Cerca de 1015-1000 a.C.; Gate, Filístia
Resposta curta
Aquis foi o rei filisteu de Gate, cidade de onde veio Golias, e o homem a quem Davi recorreu duas vezes quando fugia de Saul. Na primeira, Davi chegou sozinho e, ao perceber que fora reconhecido como o vencedor do gigante, fingiu-se de louco para ser deixado em paz. Na segunda, já com seiscentos homens e suas famílias, foi recebido como vassalo e ganhou a cidade de Ziclague, de onde fazia incursões que contava a Aquis como ataques contra Judá. Aquis acreditou nele e o quis ao seu lado contra Israel, mas os chefes filisteus não aceitaram e Davi foi dispensado antes da batalha em Gilboa. A relação entre os dois é ambígua e deixa em aberto o que Davi faria se tivesse entrado na luta.
Onde ele aparece
Em palavras simples
Aquis era o rei filisteu de Gate, a cidade do gigante Golias. Quando Davi fugiu do rei Saul, foi pedir refúgio a Aquis. Na primeira vez, fingiu ser louco e foi mandado embora. Na segunda, já com seiscentos homens, foi bem recebido e ganhou a cidade de Ziclague. Davi dizia a Aquis que atacava Judá, mas na verdade atacava outros povos do sul. Aquis acreditou e quis levá-lo para a guerra contra Israel, mas os outros chefes filisteus não aceitaram, e Davi foi mandado de volta antes da batalha.
O mundo dele
Gate era uma das cinco cidades principais dos filisteus, ao lado de Asdode, Asquelom, Ecrom e Gaza (), localizada na planície a oeste de Judá. Era a cidade de Golias (), o que torna a presença de Davi ali mais tensa: ele chega com a espada do gigante (). Aquis, em hebraico Akish, é chamado "filho de Maoque" () e apresenta-se como rei de Gate, num sistema em que cada cidade filisteia tinha seu governante, chamado "senhor" (seren) nos textos. Em aparece um rei de Gate com o mesmo nome, filho de Maacá, na época de Salomão. O texto não afirma que seja o mesmo homem, e a identidade permanece incerta.
A primeira visita de Davi ocorre em , logo depois de sua passagem por Nobe. Os servos de Aquis o reconhecem e citam o canto das mulheres de Israel sobre os milhares de Saul e as dezenas de milhares de Davi, o mesmo que despertara a ira de Saul (). Davi, com medo, finge loucura, e Aquis o dispensa com ironia. Os cabeçalhos dos e 56 relacionam suas composições a esse episódio, mas o Salmo 34 fala de "Abimeleque", nome que costuma ser lido como título ou variante de Aquis; o texto não explica a diferença.
A segunda ocorre em . Davi, convencido de que Saul acabaria por matá-lo, passa ao território filisteu com seiscentos homens e suas famílias, e permanece "um ano e quatro meses" (27:7). Aquis lhe concede Ziclague, cidade que, segundo o narrador, "pertence aos reis de Judá até hoje" (27:6), um comentário feito em época posterior.
Há, portanto, uma diferença de contexto entre os dois momentos. Na primeira vez, Davi era um fugitivo isolado e vulnerável; na segunda, era chefe de um bando armado que Aquis podia usar como força de fronteira ao sul. Para um rei filisteu, ter junto de si o homem que Saul perseguia e que os israelitas cantavam como herói era uma vantagem política e militar, o que ajuda a explicar a generosidade de Aquis, embora o texto não detalhe os motivos dele.
A história
O que torna o relato incômodo é que Davi vive numa situação de dupla lealdade aparente. Segundo , ele atacava gesuritas, gerzitas e amalequitas, povos do sul que já eram hostis a Israel, mas dizia a Aquis que as incursões atingiam o Neguebe de Judá. Para que a versão não fosse desmentida, matava todos, "homem e mulher", sem deixar sobreviventes que contassem. Aquis passou a confiar nele: pensava que Davi havia se tornado "odioso" ao seu povo e seria seu servo para sempre. O narrador apresenta isso sem aprovar nem condenar de modo explícito, e os comentaristas se dividem sobre se o episódio mostra astúcia, engano moralmente duvidoso ou ambos.
A tensão chega ao máximo em e 29. Aquis reúne seu exército para lutar contra Israel e diz a Davi que ele irá com eles. Davi responde de modo ambíguo: "Saberás o que o teu servo fará". Aquis, satisfeito, o nomeia guarda de sua cabeça, uma posição de grande confiança. No acampamento em Afeque, porém, os chefes filisteus protestam: não é este o Davi do canto? Poderia reconciliar-se com Saul com as cabeças dos soldados filisteus? Aquis o defende, jura "vive o Senhor" e diz que não achou nele culpa desde que chegou, comparando-o a um "anjo de Deus" (29:6-9). O uso do nome do Deus de Israel por um rei filisteu é notado pelos comentaristas, que o veem ora como linguagem de cortesia, ora como estilo do narrador. Os chefes insistem e Davi é mandado de volta.
O texto deixa em aberto o que Davi teria feito. Quando protesta que gostaria de lutar "contra os inimigos de meu senhor, o rei" (29:8), ele pode estar dissimulando, mantendo o papel de vassalo, ou realmente disposto a lutar. A narrativa evita decidir, e o resultado é que Davi não participa da batalha em que Saul e Jônatas morrem (). Ao voltar a Ziclague, ele a encontra incendiada pelos amalequitas (). Aquis não aparece mais no relato de Samuel.
O retrato de Aquis é o de um rei que julga Davi pelo que vê e pelo que ouve, trata-o com generosidade e acaba enganado. O texto não o apresenta como vilão. Ele aparece como alguém que confia em quem não merecia essa confiança, e a ironia do relato recai sobre o leitor, que sabe mais do que ele.
Vale lembrar, por fim, que a ambiguidade não é só moral, mas também teológica: a mesma narrativa que mostra Davi mentindo a um rei estrangeiro é a que, no capítulo seguinte, o mostra consultando o Senhor em Ziclague ().
O que costumam dizer errado2
Dizem que:Davi lutou ao lado dos filisteus contra Israel na batalha de Gilboa.
Aquis queria levá-lo à batalha, mas os chefes filisteus não aceitaram e Davi foi mandado de volta (). Quando Saul e Jônatas morreram em Gilboa (), Davi estava em Ziclague, ocupado com a perseguição aos amalequitas que haviam saqueado a cidade ().
Dizem que:Aquis e Abimeleque do Salmo 34 são certamente a mesma pessoa.
O cabeçalho do Salmo 34 fala em Abimeleque, e fala em Aquis. Muitos comentaristas entendem Abimeleque como título dinástico de reis filisteus, mas o texto não faz essa identificação, e há quem proponha outras explicações, como um erro de transmissão.
Como diferentes tradições cristãs leem4
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Protestante (comentário clássico)
Comentaristas como Keil e Delitzsch veem o período em Gate e Ziclague como uma fase de fraqueza espiritual de Davi, que busca refúgio em terra inimiga em vez de confiar apenas em Deus, mas que é preservado apesar de sua falha, de modo que o texto ensina a fidelidade divina em meio à fragilidade humana.
Católica
Costuma ler o episódio como exemplo de prudência diante de perseguição injusta, sem justificar o engano em si, e vê em Davi um homem cuja culpa ou acerto o texto deixa ao julgamento de Deus. A tradição que usa o Salmo 34 na liturgia associa o texto a uma oração de gratidão pelo livramento.
Judaica
Leituras judaicas dos Salmos costumam ligar o Salmo 34 ao episódio de Gate, como o cabeçalho indica, e tendem a ver no fingimento de loucura um ato de preservação da vida, e não uma falta. O tema do livramento de quem confia em Deus é o centro dessa leitura.
Crítica histórica
Estudiosos como P. Kyle McCarter Jr. veem no episódio o testemunho de que Davi foi, por um período, um líder de bando a serviço dos filisteus, o que o texto procura apresentar de modo favorável. A hipótese é que o relato foi composto também para responder a críticas à ligação de Davi com os inimigos de Israel.
O que fazer com isso
A história de Aquis não oferece um modelo de conduta, e sim um retrato de ambiguidade. Davi sobrevive entre os inimigos de seu povo e, para isso, recorre ao engano; o texto registra o que ele fez sem aprová-lo de forma explícita. O rei filisteu, por sua vez, age com generosidade e confiança, mas se engana. A leitura mais honesta evita enxergar nele um simples vilão ou em Davi um simples exemplo.
Passagens relacionadas8
Fontes consultadas4
- Carl Friedrich Keil e Franz Delitzsch. Commentary on the Old Testament (1 e 2 Samuel), 1878.
- P. Kyle McCarter Jr.. I Samuel: A New Translation with Introduction and Commentary (Anchor Bible), 1980.
- Ralph W. Klein. 1 Samuel (Word Biblical Commentary), 1983.
- Robert Alter. The David Story: A Translation with Commentary of 1 and 2 Samuel, 1999.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Por que Davi fingiu loucura diante de Aquis?
Porque os servos de Aquis o reconheceram como o homem de quem se cantava a vitória sobre os filisteus, e ele temeu pela vida (). Ao fingir loucura, passou a parecer inofensivo, e Aquis o dispensou sem lhe fazer mal.
Aquis sabia que Davi o enganava em Ziclague?
Segundo o texto, não. Davi não deixava sobreviventes em suas incursões, para que ninguém contasse a verdade, e Aquis concluiu que ele havia se tornado odioso a Israel (). O narrador não comenta se isso foi moralmente aceitável.
Por que os chefes filisteus não aceitaram Davi na batalha?
Temiam que, no meio do combate, ele se voltasse contra eles para reconciliar-se com Saul, e lembraram o canto das mulheres israelitas (). Aquis insistiu na inocência de Davi, mas cedeu à pressão.
O Aquis de Gate no tempo de Salomão é o mesmo?
Não se sabe. Em aparece um Aquis, filho de Maacá, rei de Gate, décadas depois. O texto não o identifica com o de Davi, e podem ser pessoas diferentes ou um herdeiro com o mesmo nome.