O Sermão do Monte: o que Jesus ensinou em Mateus 5 a 7
o que jesus ensinou no sermão do monte
Resposta curta
O Sermão do Monte é o primeiro dos cinco grandes blocos de ensino do evangelho de Mateus e ocupa os capítulos 5 a 7. Nele Jesus declara bem-aventurados os que o mundo não chamaria de bem-sucedidos, afirma que não veio abolir a Lei e os Profetas, aprofunda os mandamentos sobre ira, desejo, juramento, vingança e inimigos, trata de esmola, oração, jejum e ansiedade, proíbe o julgamento hipócrita e termina com a imagem de duas casas. Este estudo percorre o texto em seis partes, do cenário ao debate, mostra o paralelo de e apresenta, sem escolher lado, as principais maneiras como as tradições cristãs leram um ensino que ninguém consegue ler com indiferença.
Em palavras simples
O Sermão do Monte reúne os capítulos 5 a 7 de Mateus. Jesus sobe a um monte e ensina a seus seguidores como é a vida de quem pertence ao reino de Deus. Começa dizendo quem é feliz aos olhos de Deus, depois aprofunda os mandamentos antigos, fala de segredo, oração, dinheiro e preocupação, e termina com duas casas, uma na rocha e outra na areia. Os cristãos concordam que o ensino é central. Discordam sobre se ele pode ser vivido por inteiro, se vale só para o futuro ou se deve ser tomado ao pé da letra.
Antes de começar
Mateus organiza seu evangelho em torno de cinco discursos, e cada um termina com uma fórmula parecida: "quando Jesus acabou estas palavras" (7:28; 11:1; 13:53; 19:1; 26:1). O primeiro é o de 5:1 a 7:29. Isso sugere que o texto é uma composição, e não a transcrição de uma tarde. Mateus reuniu, sob um mesmo cenário, ensinos que Lucas distribui em outros lugares, e a pergunta sobre como isso aconteceu continua aberta entre os estudiosos.
O cenário vem de 4:23-25: Jesus percorre a Galileia ensinando e curando, e multidões chegam de regiões diversas. Em 5:1 ele sobe ao monte, senta-se, e os discípulos se aproximam. O texto não nomeia o monte; a localização tradicional, perto do mar da Galileia, é tradição posterior. O gesto de subir e ensinar lembra Moisés no Sinai, e vários comentaristas veem nisso uma intenção de Mateus, enquanto outros consideram o eco possível, mas não declarado.
Dois fatos de contexto pesam na leitura. O primeiro é que o ensino pressupõe a Lei de Moisés como terreno comum: quase tudo ali dialoga com ela, seja para aprofundá-la, seja para corrigir o modo como era aplicada. O segundo é a reação final, em 7:28-29: as multidões se admiram porque ele ensina "como quem tem autoridade, e não como os escribas". Os escribas citavam mestres anteriores; Jesus diz "eu, porém, vos digo". A pergunta que atravessa o discurso é se alguém que fala assim está interpretando a Lei ou se colocando acima dela.
Há ainda o paralelo de , chamado Sermão da Planície, bem mais curto e com ênfases próprias. Comparar os dois ajuda a distinguir o que é comum, o que cada evangelista escolheu destacar e o quanto a forma final deve à organização de quem escreveu. Vale lembrar, por fim, que o sermão fala a leitores que já conhecem as Escrituras de Israel, e boa parte da sua força depende desse pano de fundo.
Como isso aponta para Jesus
Cumprimento diretoO ponto mais discutido do sermão é quem fala. Jesus não cita um mestre anterior, mas diz "eu, porém, vos digo", e afirma que veio cumprir a Lei e os Profetas. Para o leitor cristão, o sermão não é só um conjunto de preceitos; é a voz de alguém que se apresenta como a medida do que a Lei sempre apontava. É também isso que a conclusão em 7:24-27 pressupõe: o fundamento da casa é ouvir as palavras dele e agir segundo elas.
Respaldo no Novo Testamento:
As partes do estudo
1.O cenário: onde, para quem e com que autoridade
Mateus 5 a 7 é o primeiro de cinco grandes blocos de ensino do evangelho, e o próprio autor marca o limite de cada um com uma fórmula quase igual: "quando Jesus acabou estas palavras" (7:28; 11:1; 13:53; 19:1; 26:1). Isso sugere que Mateus organizou o material em discursos, e não que transcreveu uma tarde. Quem lê o capítulo 5 como um sermão pregado de uma vez, do primeiro ao último versículo, está supondo algo que o texto não afirma.
O cenário é montado com cuidado. Em 4:23-25, Jesus percorre a Galileia ensinando e curando, e as multidões vêm de lugares diversos. Em 5:1, ele vê as multidões, sobe ao monte, senta-se, e os discípulos se aproximam. Sentar-se era a postura de quem ensina com autoridade. O texto não dá nome ao monte; a localização tradicional, perto do mar da Galileia, é tradição posterior. Também não é consenso quem exatamente ouve: os discípulos estão perto dele, mas no final são as multidões que se admiram (7:28). A leitura mais frequente é que o ensino se dirige a quem já o segue, com a multidão ouvindo por perto. Isso importa, porque muda a natureza do texto: ele descreve a vida de quem pertence ao reino, e não os requisitos para entrar.
Há também um possível eco de Moisés. Uma figura que sobe ao monte e traz instrução ao povo de Deus lembra o Sinai, e muitos comentaristas veem aí uma intenção de Mateus, em sintonia com o tema de Jesus como alguém maior que Moisés. Outros acham o paralelo plausível, mas não declarado, já que o monte é lugar comum de ensino e oração nos evangelhos. É razoável tratar a ideia como hipótese bem fundada, e não como fato do texto.
O fecho do discurso dá a chave de leitura. Em 7:28-29, a reação das multidões não é a respeito do conteúdo, mas do jeito: ele ensinava "como quem tem autoridade, e não como os escribas". Os escribas apoiavam-se em mestres anteriores; aqui o refrão será "eu, porém, vos digo". A pergunta que acompanha todo o estudo nasce daí: alguém que fala assim está interpretando a Lei ou se colocando acima dela? Mateus parece querer que o leitor sinta a pergunta antes de responder.
Para conversar
- Se o ensino se dirige principalmente a quem já segue Jesus, o que muda na maneira de ler as exigências que vêm a seguir? Elas soam diferentes como condição e como descrição?
- O que significa, para uma comunidade de hoje, um mestre ensinar "com autoridade"? Em que ponto isso atrai e em que ponto incomoda?
- Vale a pena ler o texto como uma composição de Mateus, e não como um único sermão? O que se ganha e o que se perde com essa leitura?
2.Quem é feliz: as bem-aventuranças, o sal e a luz
O sermão abre com bênçãos, e não com ordens. A palavra grega μακάριος (makários) é uma declaração, algo como "felizes" ou "abençoados", e não um imperativo. Jesus não diz "sede pobres" nem "chorai"; diz que os pobres, os que choram e os mansos são alcançados por algo que ainda não se vê. Conta-se oito ou nove bênçãos em 5:3-12, conforme se trate a última, que muda para a segunda pessoa, como uma ou duas. A primeira e a oitava trazem a mesma promessa, "deles é o reino dos céus" (5:3,10), e esse arranjo enquadra o conjunto.
A expressão "pobres em espírito" é a mais discutida. Lucas 6:20 diz apenas "pobres" e acrescenta, logo depois, quatro ais dirigidos a ricos, fartos, risonhos e elogiados (6:24-26). Parte dos intérpretes entende a versão de Mateus como a dimensão espiritual da pobreza, o reconhecimento da própria necessidade diante de Deus, com ecos da tradição dos Salmos e de Isaías 61:1. Outros chamam a atenção para a pobreza material que Lucas deixa à mostra. Não é preciso que as duas leituras se excluam, e as duas aparecem ao longo da história da igreja.
Também há uma tensão de tempo. O reino "é" deles agora (5:3), mas o consolo, a herança da terra e a visão de Deus estão no futuro. Cada tradição acentua um lado desse "já e ainda não", e o próprio texto não resolve. Outra questão é se as bem-aventuranças descrevem um caráter a cultivar ou pessoas que Deus favorece. A leitura mais cautelosa vê as duas coisas: são retratos de quem não seria contado como bem-sucedido, e também de uma forma de vida que o discípulo é chamado a assumir.
Em seguida vêm o sal e a luz (5:13-16). Os verbos estão no indicativo: "vós sois", não "sede". Quando o texto fala de sal que perdeu o sabor, os comentaristas propõem explicações diferentes, porque o sal puro não perde sabor, e nenhuma delas é segura. A frase final, "para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem o vosso Pai", cria uma tensão com 6:1, que adverte contra praticar justiça para ser visto. O próprio Mateus coloca as duas lado a lado, e a diferença está no propósito: aquilo que aponta para o Pai e aquilo que aponta para si mesmo.
Para conversar
- Quem, na sua comunidade ou no seu entorno, seria chamado de bem-aventurado por Jesus e dificilmente seria chamado assim por todo mundo?
- Mateus escreve "pobres em espírito" e Lucas, "pobres". O que cada versão faz o leitor enxergar que a outra deixa menos visível?
- "Vós sois o sal" é uma afirmação, não uma tarefa. Como isso muda a maneira de pensar sobre a própria vida de fé?
- Como distinguir, na prática, a boa obra que aponta para Deus daquela que aponta para quem a faz?
3.A Lei e os Profetas: a pergunta de 5:17-20
O primeiro ponto realmente difícil do sermão vem logo no começo. Em 5:17 Jesus diz que não veio abolir a Lei e os Profetas, mas cumprir. Em 5:18 afirma que nem um jota nem um til passará da Lei. Em 5:19 declara que quem desfizer o menor desses mandamentos será chamado menor no reino. Em 5:20 exige uma justiça que exceda a dos escribas e fariseus. Quatro afirmações em fila, e cada uma, tomada sozinha, aponta numa direção.
O verbo "cumprir" (πληρόω, plēroō) admite mais de um sentido: levar à plenitude, realizar o que a Lei prefigurava, praticar por inteiro, ou revelar o sentido pretendido. Cada tradição acentua um deles, e a escolha determina o que se faz com as leis de sacrifício, de alimentos e de pureza. O sermão, sozinho, não resolve isso. Mateus 15:1-20 e Atos 15 mostram que a pergunta se tornou prática viva na própria igreja primitiva, e o assunto tem estudo próprio neste acervo.
Vêm então as seis antíteses, todas com a mesma fórmula: "ouvistes que foi dito... eu, porém, vos digo". Tratam de ira e desprezo (5:21-26), desejo (5:27-30), divórcio (5:31-32), juramento (5:33-37), vingança (5:38-42) e inimigos (5:43-48). Note-se que "foi dito" está na voz passiva e que Jesus não escreve "Moisés errou". Nas duas primeiras antíteses, ele parte de mandamentos do decálogo e vai da ação para a raiz interior. Na última, cita "amarás o teu próximo" (Levítico 19:18) e acrescenta "e odiarás o teu inimigo", frase que não está na Torá; alguns textos de Qumrã falam em odiar os filhos das trevas, o que pode indicar que a máxima circulava em ambientes sectários.
Algumas exigências usam linguagem de exagero deliberado, como arrancar o olho (5:29-30), e a fronteira entre hipérbole e norma literal não é consenso. A regra sobre o casamento tem estudo próprio. Em 5:38-42, Êxodo 21:24 limitava a retaliação, e Jesus pede mais: renunciar à exigência. Os exemplos são cenas de humilhação ou litígio, e não se sabe se ensinam não resistência absoluta ou um modo de reagir ao insulto pessoal. O trecho fecha em 5:48 com um "sede perfeitos" (τέλειος, téleios) que Lucas 6:36 traduz por "sede misericordiosos". A diferença entre as duas versões ajuda a entender o alvo.
Para conversar
- Das quatro afirmações de 5:17-20, qual lhe parece mais difícil de conciliar com as outras? Que leitura de "cumprir" tornaria a coerência possível?
- As antíteses levam do ato para a raiz interior. Isso aumenta o peso da exigência, a torna mais gentil, ou os dois ao mesmo tempo?
- Como decidir quando uma frase como a de 5:29-30 é exagero deliberado e quando é norma a ser seguida?
- Em 5:38-42, o que muda se lermos os exemplos como cenas de humilhação pessoal e não como regra geral para qualquer violência?
4.Justiça em segredo e um coração sem divisão
O capítulo 6 muda de assunto. Depois de falar do que Jesus exige em relação à Lei, o sermão vira para a prática da piedade: esmola, oração e jejum, os três pilares da vida religiosa judaica do período. A estrutura se repete três vezes: "quando fizeres", "não como os hipócritas", "teu Pai, que vê em secreto, te recompensará". A palavra grega ὑποκριτής (hypokritēs) era usada para o ator de teatro, e isso explica o sentido: o hipócrita é quem representa um papel para a plateia. O texto não diz que a prática religiosa é um problema; diz que o destinatário dela pode mudar sem que ninguém perceba. A recompensa do Pai fica sem descrição, e as tradições a entendem de maneiras diferentes.
No centro, em 6:9-13, está o Pai-Nosso, inserido num trecho que desaconselha a multiplicação de palavras (6:7-8). Lucas 11:2-4 traz uma versão mais curta. A doxologia final, "pois teu é o reino", não aparece nos manuscritos mais antigos, e por isso muitas Bíblias a colocam em nota. O assunto da oração e do perdão tem estudo próprio; aqui basta notar que 6:14-15 é o único comentário que Jesus faz a uma petição da oração, e que ele a faz sobre o perdão.
A segunda metade do capítulo reúne tesouro, olho e ansiedade. Em 6:19-24, tesouros na terra e no céu se opõem, e a imagem do olho como lâmpada do corpo é obscura; no uso judaico, "olho bom" podia significar generosidade, e algumas versões seguem essa pista. O versículo 24 coloca Deus e Mamom (palavra aramaica para riqueza) como dois senhores. Dinheiro e bens têm estudo próprio.
O trecho de 6:25-34 é provavelmente o mais citado e o mais difícil de aplicar. Jesus manda não andar ansioso com comida e roupa, aponta as aves e os lírios, e conclui que o Pai sabe do que se precisa. O texto não elogia a imprevidência: a literatura sapiencial valoriza o trabalho, e Mateus não proíbe o planejamento. O verbo traduzido por "andar ansioso" (μεριμνάω, merimnaō) tem relação com ser dividido, e isso conecta o trecho ao anterior: um coração que serve a dois senhores não consegue descansar. O texto, porém, não promete que ninguém passará necessidade, e quem já viu crentes sem comida sabe que a leitura mais simples não basta. Muitos intérpretes tomam o trecho como diagnóstico pastoral, e não como garantia de resultados. O versículo 33 oferece a ordem: buscar primeiro o reino.
Para conversar
- Em que situações da sua vida de fé você percebe que o destinatário de uma prática mudou, sem que ninguém de fora notasse?
- O texto diz que o Pai sabe o que falta (6:32), mas não promete que nada faltará. Como uma pessoa ou comunidade pode ler esse trecho sem trivializar quem passa necessidade real?
- Qual a diferença entre planejar e andar ansioso? Existe um ponto em que o primeiro vira o segundo?
- "Coração dividido" é uma boa descrição da ansiedade? O que a imagem acrescenta ao que se costuma dizer sobre o assunto?
5.Julgar, pedir e discernir: o que o capítulo 7 pede
O capítulo 7 reúne ensinos mais curtos, e a ordem não parece seguir uma única linha. Ainda assim, há uma preocupação que o atravessa: como viver diante dos outros e diante de Deus sem fingimento. A abertura é a frase mais citada e mais mal entendida do sermão: "não julgueis, para que não sejais julgados" (7:1). Os versículos seguintes falam da medida com que se mede e da trave que está no próprio olho enquanto se aponta o cisco no olho alheio. O texto não suspende o discernimento. O mesmo capítulo manda se guardar dos falsos profetas e reconhecê-los pelos frutos (7:15-20), 7:6 supõe que se saiba distinguir quem recebe o que é santo e quem o despreza, e em 7:5 o resultado do autoexame é que se tire o cisco do irmão. O que fica condenado é o julgamento que não olha para si mesmo e que condena em vez de corrigir.
Em 7:7-11, a promessa de que quem pede recebe, quem busca acha e a quem bate se abrirá parece generosa demais diante da experiência comum. A imagem é a de um pai que não dá pedra ao filho que pede pão. As tradições respondem com ressalvas diferentes, como a vontade de Deus (1 João 5:14) ou o conteúdo do que é bom. Vale notar que Lucas 11:13 completa a frase com o Espírito Santo, onde Mateus diz "coisas boas". O estudo sobre a oração trata do assunto com mais espaço.
A regra de ouro (7:12) liga o capítulo ao início do sermão: "tudo quanto quereis que os homens vos façam, fazei-o vós também a eles; porque esta é a Lei e os Profetas". A expressão retoma 5:17 e fecha uma moldura. Formulações negativas da mesma ideia existem fora dos evangelhos, como em Tobias 4:15 e em ensino atribuído a Hillel, o que indica que Jesus não foi o primeiro a falar assim. A forma positiva, que pede ação e não só abstenção, é a que chama atenção.
O trecho mais inquietante é 7:13-23. A porta estreita, os falsos profetas e, por fim, pessoas que dizem "Senhor, Senhor", que profetizaram, expulsaram demônios e fizeram milagres em nome de Jesus e, ainda assim, ouvem que ele nunca as conheceu. A passagem tem sido lida de modos distintos: como alerta sobre perda da salvação, como aviso sobre falsa profissão de fé ou como lembrete de que obras extraordinárias não substituem uma relação. A distinção entre as leituras está tratada no estudo sobre a salvação.
Para conversar
- Onde passa a fronteira entre discernir e julgar? Que sinais indicam que alguém atravessou essa fronteira sem perceber?
- A promessa de 7:7-11 parece maior do que a experiência da maioria das pessoas. O que um grupo pode dizer sobre isso sem esvaziar o texto nem desiludir ninguém?
- A regra de ouro é positiva: pede fazer, não só evitar. Que diferença isso faz no dia a dia?
- O que 7:21-23 deixa a você, sem pressa de resolver, como pergunta para a própria vida?
6.As duas casas e as leituras do sermão
O sermão termina com uma parábola curta (7:24-27). Dois homens constroem, e vêm a chuva, os rios e os ventos sobre as duas casas. A diferença não está em ouvir ou deixar de ouvir, porque ambos ouviram. Está em fazer ou não fazer: a casa sobre a rocha pertence a quem ouve estas palavras e as pratica. O fecho do discurso, portanto, é uma pergunta sobre ação, e não sobre assentimento. Tiago 1:22 diz algo parecido, e a insistência da imagem é a de que o teste é a tempestade.
Lucas conserva uma versão da parábola no fim de um discurso mais curto, o Sermão da Planície (6:17-49). Ali, Jesus fala num "lugar plano", as bem-aventuranças são quatro e vêm acompanhadas de quatro ais, e o conjunto tem pouco mais de trinta versículos. Boa parte do que Mateus agrupa em 5 a 7 aparece em Lucas espalhada: o Pai-Nosso em 11, a ansiedade em 12. A explicação comum entre os estudiosos é que os dois evangelistas usaram fontes parecidas e organizaram o material à sua maneira; outros preferem pensar que Jesus repetiu ensinos em ocasiões diferentes. Não é possível decidir com certeza. O que se pode dizer é que o sermão, em Mateus, é uma composição com um propósito.
Resta a pergunta que o leitor quase sempre faz: isso é possível? A história da igreja dá ao menos quatro respostas. Lutero entendeu as exigências como a Lei em sua forma mais exigente, que mostra a necessidade de Cristo; o custo dessa leitura é que o texto conclui chamando a ouvir e fazer, e não a desistir. Schweitzer viu uma ética provisória, para um fim próximo; o custo é que nada no sermão marca prazo. Anabatistas, Tolstói e Bonhoeffer enfatizaram o discipulado concreto; o custo é decidir o que fazer com as hipérboles e com o papel do Estado. A tradição católica distingue preceitos e conselhos; o custo é que o texto não faz essa separação. Cada leitura enxerga algo real, e nenhuma resolve tudo.
Uma observação final. Em Mateus 28:20, o Cristo ressuscitado manda ensinar os discípulos "a guardar tudo o que vos ordenei", e o sermão é o maior bloco de ensino de Jesus que Mateus apresenta antes dessa frase. Isso sugere que o evangelista queria o texto lido como instrução de vida, e não como retrato distante. Que se leia como impossível, provisório ou radical, ele continua pedindo uma resposta.
Para conversar
- Na imagem das duas casas, o que a chuva e o rio representam na vida real de quem tenta seguir esses ensinos?
- Qual das leituras (impossível, provisória, discipulado radical, preceitos e conselhos) lhe parece mais honesta com o texto? Qual custo você aceitaria pagar?
- O que a comparação com mostra sobre a maneira como cada evangelista escolhe e organiza o que Jesus ensinou?
- Depois deste estudo, que trecho do sermão você relê de forma diferente do que lia antes?
O que fica
- O Sermão do Monte é uma composição de Mateus, com cenário próprio, e não um resumo de tudo o que Jesus ensinou. Cruz e ressurreição ficam fora do seu assunto.
- As bem-aventuranças são declarações, não ordens, e o sal e a luz são descritos no indicativo. O sermão começa descrevendo quem Deus alcança, antes de dizer o que pede.
- Em 5:17-20 Jesus afirma que não veio abolir a Lei, mas cumprir. O sentido de "cumprir" e o destino das leis cerimoniais continuam debatidos entre as tradições.
- "Não julgueis" não suspende o discernimento: o mesmo capítulo manda reconhecer falsos profetas pelos frutos.
- As quatro leituras históricas (impossível, provisória, discipulado radical, preceitos e conselhos) enxergam algo real, e cada uma tem um custo. O texto fecha pedindo que se ouça e se faça.
Aprofundamento
Três discussões concentram o que há de mais debatido no texto, e vale separá-las.
A primeira é a relação com a Lei, em 5:17-20. Jesus diz que não veio abolir, mas cumprir (πληρόω, plēroō), e que nem um jota ou til passará. O verbo admite sentidos diferentes: levar à plenitude, realizar o que a Lei apontava, praticar por inteiro, ou ensinar o sentido que ela sempre teve. As tradições dividem os mandamentos de maneiras distintas. A reformada costuma separar leis morais, civis e cerimoniais; a luterana lê o sermão como a Lei em sua forma mais exigente, que conduz ao Evangelho; a dispensacionalista clássica tende a ligá-lo ao reino futuro. O texto não traz essa divisão pronta, e e mostram que a pergunta se tornou prática viva na própria igreja primitiva.
A segunda é o estatuto das exigências. Ninguém ouve "se o teu olho te faz tropeçar, arranca-o" e conclui que o texto fala em linguagem seca e literal. Há hipérbole evidente, mas o ponto em que a hipérbole termina e a norma começa não é consenso. O juramento é um bom teste: repete a proibição, e ainda assim muitas tradições admitem o juramento judicial, enquanto os anabatistas históricos o recusaram.
A terceira é a pergunta sobre a quem o sermão se dirige e com que fim. Agostinho, no comentário que escreveu por volta de 394, leu o texto como retrato da vida cristã perfeita. Lutero o leu como a Lei que desmascara. Albert Schweitzer o chamou de ética provisória, pensada para um fim iminente. Bonhoeffer o tomou como chamada concreta ao discipulado. Cada uma tem um texto a favor e um custo, e a sexta parte do estudo os expõe lado a lado.
Uma quarta discussão, menos visível, é a do vocabulário da perfeição. Em 5:48, Jesus manda ser perfeito (τέλειος, téleios) como o Pai é perfeito, e a palavra pode indicar completude, maturidade ou integridade, não ausência de falhas. diz "misericordiosos", o que sugere que o contexto imediato, o amor que alcança até os inimigos, define o alcance da perfeição pedida. Quem lê o versículo isolado tende a ouvir uma exigência impossível; quem o lê depois de 5:43-47 ouve algo mais específico, embora não menos desafiador. As tradições também divergem sobre o peso dessa palavra na vida cristã, e esse é outro ponto em que o texto não encerra a conversa.
Convém notar, por fim, o que o sermão não faz. Ele não explica a cruz nem a ressurreição, e por isso não deve ser lido como o resumo de todo o ensino de Jesus. É um recorte, com assunto próprio: a justiça que o reino exige e a vida de quem o ouve.
O que costumam dizer errado
Dizem que:O Sermão do Monte resume tudo o que Jesus ensinou.
É um dos cinco discursos de Mateus, com assunto próprio: a justiça do reino e a vida de quem o ouve. Não trata da cruz, da ressurreição nem de boa parte do que Jesus ensina em parábolas. Lucas apresenta uma versão menor e distribui o restante do material por outros lugares, o que mostra que cada evangelista fez uma seleção.
Dizem que:"Não julgueis" proíbe qualquer avaliação moral do outro.
O mesmo capítulo manda guardar-se de falsos profetas e reconhecê-los pelos frutos (7:15-20), e 7:6 supõe que se distinga entre quem recebe e quem despreza o que é santo. O próprio trecho sobre o cisco e a trave prevê que o irmão seja ajudado, depois do exame de si mesmo (7:5). O alvo é o julgamento hipócrita e condenatório.
Dizem que:Jesus aboliu a Lei do Antigo Testamento no Sermão do Monte.
Em 5:17 ele diz o contrário: não veio abolir, mas cumprir. As antíteses de 5:21-48 aprofundam os mandamentos, e a regra de ouro é apresentada como resumo da Lei e dos Profetas (7:12). Quanto ao que isso implica para as leis cerimoniais, as tradições cristãs divergem, e o sermão sozinho não resolve.
Dizem que:"Dar a outra face" significa aceitar toda violência sem reagir.
Os exemplos de 5:38-42 são cenas de insulto e de litígio: o tapa, a túnica cobrada em juízo, o serviço imposto. O texto não discute defesa de terceiros nem o papel do Estado. Se ele ensina não resistência absoluta é uma das divergências reais entre anabatistas e a maioria das demais tradições.
Como diferentes tradições cristãs leem
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Luterana
Lê o sermão sobretudo como a Lei em sua forma mais exigente. Ao radicalizar ira, desejo e vingança, ele desmascara a pretensão de cumpri-la e conduz a pessoa a Cristo. Lutero distinguia o âmbito da vida pública, regido pela espada, do âmbito da fé, e por isso não aplicava ao magistrado exigências como a de não resistir.
Reformada
Calvino entende que Jesus não cria uma lei nova, mas restitui o sentido original de Moisés, que as glosas de escribas e fariseus haviam reduzido ao ato exterior. O sermão é norma de vida para o cristão, e a Lei continua com função de guia. A distinção entre leis morais, civis e cerimoniais organiza a leitura de 5:17-20.
Católica
Tomás de Aquino e a tradição posterior distinguem preceitos, obrigatórios a todos, e conselhos evangélicos, como pobreza e castidade voluntárias, a que alguns são chamados. O sermão contém ambos, e Agostinho já o via como retrato da vida cristã perfeita, em que as bem-aventuranças descrevem etapas do caminho.
Anabatista e menonita
Toma o sermão como instrução direta para a comunidade de discípulos, inclusive nos pontos sobre juramento e não resistência. A Confissão de Schleitheim (1527) recusa o juramento e a espada; Bonhoeffer, de tradição luterana, aproxima-se dessa leitura ao tratar a obediência como o centro do discipulado.
Escatológica e dispensacionalista
Schweitzer viu no sermão uma ética provisória, formulada para um fim iminente da história. O dispensacionalismo clássico o liga ao reino futuro e o entende como exigência para a era vindoura, e não como regra direta da igreja atual. Ambas as leituras ressaltam o horizonte do reino e enfrentam a objeção de que o texto não indica prazo.
O que fazer com isso
Ao ler a 7 em grupo, evite começar pela pergunta "isso é possível?". Comece por outra: em que ponto este texto me incomoda de modo concreto, e o que ele diz a respeito de quem eu seria se o levasse a sério? Anote quais passagens você tende a suavizar e quais tende a endurecer nos outros. A diferença entre as duas listas costuma ser a parte mais honesta do estudo.
Perguntas frequentes
- O Sermão do Monte é para todos ou só para os discípulos?
- Mateus diz que Jesus subiu ao monte e que os discípulos se aproximaram (5:1), mas termina com as multidões admiradas (7:28). Os intérpretes discordam sobre se o ensino se dirige a um círculo interno ou a um público maior. O conteúdo, de todo modo, descreve a vida de quem já pertence ao reino, e não uma lista de condições de entrada.
- O que significa "pobres em espírito"?
- fala em pobres em espírito, e , apenas em pobres. A leitura mais comum entende como quem reconhece a própria necessidade diante de Deus, com eco de e dos Salmos. Outros destacam a pobreza material. Muitos intérpretes veem as duas dimensões como compatíveis, não excludentes.
- É possível cumprir o Sermão do Monte?
- As tradições divergem. Para uns, as exigências mostram a impossibilidade e levam a Cristo; para outros, são chamada concreta ao discipulado; outros ainda as ligam ao reino futuro. O texto termina com a imagem de quem ouve e faz (7:24), e não com uma explicação sobre a possibilidade.
- Qual a diferença entre o Sermão do Monte e o Sermão da Planície?
- O Sermão da Planície, em , é bem mais curto. Traz quatro bem-aventuranças e quatro ais, o amor aos inimigos, a regra de ouro, o julgamento, os frutos e as duas casas. Parte do material de a 7 aparece em Lucas em outros capítulos. Se são dois discursos ou versões de um só, é debatido.
Fontes consultadas
- Agostinho de Hipona. Comentário ao Sermão do Senhor na Montanha, 394.
- Martinho Lutero. Sermões sobre o Sermão do Monte, 1532.
- João Calvino. Comentário sobre a Harmonia dos Evangelhos, 1555.
- Albert Schweitzer. A Busca do Jesus Histórico, 1906.
- Dietrich Bonhoeffer. Discipulado, 1937.
- John Stott. A Mensagem do Sermão do Monte, 1978.
- W. D. Davies e Dale C. Allison. A Critical and Exegetical Commentary on the Gospel According to Saint Matthew, vol. 1, 1988.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.