Salmos de lamento: como a Bíblia ensina a reclamar diante de Deus
o que são os salmos de lamento
Resposta curta
Cerca de um terço do livro de Salmos é composto de orações que reclamam: o salmista pergunta "até quando", acusa Deus de ter esquecido, descreve a dor sem enfeite e pede que ele aja. Este estudo percorre o gênero em seis partes. Primeiro, o que é um lamento e por que ele está no cânon. Depois, a anatomia típica, com invocação, queixa, petição e confiança, e a virada para o louvor. Em seguida, os lamentos coletivos e a raiva do Salmo 137. A quarta parte trata do Salmo 88, que termina no escuro. A quinta segue os ecos em Lamentações, e no grito de Jesus em . A última encara o debate: é lícito questionar a Deus? As tradições cristãs respondem de modos diferentes, e o estudo as apresenta sem escolher lado.
Em palavras simples
Os salmos de lamento são orações da Bíblia em que a pessoa ou o povo reclama a Deus. Em vez de esconder a dor, eles perguntam "até quando?" e "por quê?", descrevem o que está acontecendo e pedem ajuda. Muitos terminam com uma declaração de confiança ou de louvor; o Salmo 88 termina no escuro, sem consolo. Jesus usou as palavras de um desses salmos, o 22, na cruz. Os cristãos discordam sobre o sentido exato desse grito e sobre se é correto questionar Deus, mas todos reconhecem que esses textos estão na Bíblia para serem rezados.
Antes de começar
Os salmos de lamento nasceram dentro do culto de Israel, não à margem dele. O livro de Salmos reúne cento e cinquenta poemas organizados em cinco coleções, compostos ao longo de séculos, muitos ligados ao templo de Jerusalém, a músicos levitas e à figura de Davi. Entre eles, os lamentos formam um dos grupos mais numerosos. A classificação moderna em gêneros vem de Hermann Gunkel, no início do século XX, e foi refinada por Claus Westermann, que distinguiu o lamento do louvor como dois movimentos da fala de Israel diante de Deus.
Há lamentos individuais, como os e 22, e coletivos, como o 44 e o 137. Os coletivos aparecem em contextos de guerra, derrota, seca ou exílio. A experiência da destruição de Jerusalém em 586 a.C. e do exílio na Babilônia deixou marcas fundas no Saltério e produziu também o livro de Lamentações. Os títulos que acompanham muitos salmos, com nomes como Davi, Corá ou Hemã, são antigos, mas o grau em que registram autoria real é discutido entre os estudiosos.
O vocabulário do lamento tem algumas palavras constantes. "Até quando" traduz a pergunta sobre a duração. "Por que" questiona o sentido. Hesed, a lealdade de aliança, é o apelo que sustenta a confiança. Esse pano de fundo importa: o lamento só faz sentido numa relação de aliança, em que Deus prometeu algo. Quem reclama está cobrando uma promessa, não negando a existência de quem prometeu.
No Novo Testamento, os lamentos reaparecem com peso: Jesus cita o Salmo 22 na cruz, Paulo cita o Salmo 44 em , e o Apocalipse retoma o "até quando" na boca dos mártires. A igreja cristã primitiva herdou os Salmos como livro de oração e os usou como tal, o que inclui os de queixa. Uma história posterior, que varia de tradição para tradição, é o quanto de fato esses textos foram rezados no cotidiano das comunidades.
Como isso aponta para Jesus
Cumprimento diretoO Novo Testamento liga o Salmo 22 à paixão de Jesus de forma explícita: o grito de repete o primeiro versículo, e cita o versículo 18 sobre a divisão das vestes. fala das súplicas com forte clamor e lágrimas. Para a leitura cristã, o justo sofredor dos salmos encontra em Jesus o seu momento mais agudo, e o lamento deixa de ser só palavra do povo e passa a ser também palavra do Filho. O texto não explica como isso funciona, e as tradições divergem sobre o alcance desse uso.
Respaldo no Novo Testamento:
As partes do estudo
1.O que é um lamento e por que ele está no cânon
Quem abre o livro de Salmos esperando um hinário encontra, num terço do caminho, algo diferente: orações que reclamam. Os estudiosos calculam que o lamento é o gênero mais frequente do Saltério, em número de salmos, bem acima do hino de louvor puro. A contagem exata depende de critérios de classificação que variam de autor para autor, mas o fato geral é aceito: a oração que a Bíblia coloca na boca do povo de Deus inclui, com muita frequência, a queixa.
O Salmo 13 serve de porta de entrada porque é curto e não esconde nada. Em dois versículos, a expressão "até quando" aparece quatro vezes, e cada uma aponta para um lugar diferente: Deus parece esquecer, esconde o rosto, deixa a alma carregar conselhos de si mesma e permite que o inimigo se levante. Não há aqui um argumento teológico. Há alguém que sofre, que fala com Deus em segunda pessoa e que usa o verbo no tom de quem não aguenta mais esperar.
Dois detalhes importam. O primeiro é que o lamento é dirigido a Deus. O salmista não desabafa sobre Deus para terceiros; ele se dirige a ele, e a queixa só tem sentido porque pressupõe que Deus ouve. O segundo é que o gênero é compartilhado. Esses textos não foram guardados como diário de um indivíduo; foram recolhidos, ordenados e cantados pela comunidade. Isso significa que a tradição de Israel decidiu, deliberadamente, que a dor sem disfarce merecia lugar no culto.
Aqui vale uma nota de método. A classificação dos salmos em gêneros veio, no sentido moderno, com Hermann Gunkel, no início do século XX, e foi refinada por Claus Westermann, que insistiu que lamento e louvor são os dois polos da fala de Israel diante de Deus. Outros autores contestam os detalhes da classificação, e há salmos que misturam gêneros. O que fica de pé, mesmo com as discussões, é que a Bíblia não trata a queixa como falta de fé a ser editada, e sim como fala legítima a ser preservada.
Para conversar
- Você já ouviu alguém dizer que orar com queixa é falta de fé? O que o Salmo 13 acrescenta, ou complica, nessa ideia?
- Por que uma comunidade guardaria, ensaiaria e cantaria orações de dor em vez de apenas as de gratidão?
- O que muda quando a queixa é dita a Deus, e não sobre Deus a outras pessoas?
2.A anatomia do lamento: invocação, queixa, petição e confiança
Muitos lamentos seguem um roteiro reconhecível, e conhecê-lo ajuda a ler sem se perder. Não é uma fórmula obrigatória, e nenhum salmo repete exatamente o esquema, mas os elementos aparecem com regularidade suficiente para que os estudiosos o descrevam. Primeiro vem a invocação, o chamado a Deus pelo nome ou por um título. Depois a queixa, que costuma ter três alvos: Deus ("tu"), o próprio salmista ("eu") e os inimigos ("eles"). Em seguida, a petição, que é o pedido concreto: olha, responde, livra. Muitas vezes há uma motivação, um argumento para que Deus aja. E, com frequência, termina com uma declaração de confiança ou um voto de louvor.
O Salmo 22 mostra o roteiro quase completo, em escala maior. Abre com o grito que o Novo Testamento tornaria célebre: "Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?". O salmista descreve a distância de Deus, lembra que os antepassados confiaram e foram livrados, descreve o escárnio dos que o cercam e pinta a própria fragilidade em imagens físicas fortes. A motivação aparece quando ele recorda que Deus o tirou do ventre materno. A petição vem em intervalos: não fiques longe, apressa-te em socorrer-me.
Perto do versículo 21 acontece o que os estudiosos chamam de virada. O tom muda, e a segunda metade do salmo fala de anunciar o nome de Deus aos irmãos e de louvá-lo na assembleia. O texto hebraico do versículo 21 tem uma forma verbal difícil, que pode ser lida como "tu me respondeste", e muitos tomam isso como o ponto do giro. A frase é debatida.
O que provoca a virada é uma pergunta aberta. Uma hipótese antiga, ligada a Joachim Begrich, sugere que um sacerdote ou profeta pronunciaria no culto uma palavra de salvação entre a queixa e o louvor. É uma reconstrução plausível, mas os textos não a descrevem, e outros autores preferem pensar em mudança interior do orante. O Salmo 13 faz a mesma passagem em três versículos: "Mas eu confio na tua misericórdia", diz o versículo 5. A palavra hebraica traduzida assim é hesed, a lealdade de aliança. A virada não nega a dor; ela a deixa em pé e, ao lado dela, afirma algo sobre Deus.
Para conversar
- Se a queixa e a confiança aparecem no mesmo salmo, o que isso sugere sobre como a fé e a dor convivem?
- A virada do Salmo 22 é uma experiência interior, uma palavra recebida no culto ou algo que o texto deliberadamente deixa sem explicação? O que muda em cada leitura?
- Na sua experiência, o que acontece com a confiança quando a queixa não pode ser dita?
- Que elemento do roteiro (invocação, queixa, petição, motivação, voto) costuma faltar nas orações que você conhece?
3.Lamento coletivo e a raiva que ninguém quer ler
Nem todo lamento é de uma pessoa só. O Salmo 44 é uma oração da comunidade, provavelmente composta depois de uma derrota militar, e é um dos textos mais duros do Saltério. Começa lembrando o que os pais contaram sobre os feitos de Deus na conquista. Em seguida, vira: "Mas agora nos rejeitaste e nos envergonhaste". O povo descreve a derrota, a dispersão, a zombaria dos vizinhos e declara, nos versículos 17 a 22, algo que desafia a teologia de recompensa: "Tudo isto nos sobreveio, e não nos esquecemos de ti". Ou seja, a comunidade afirma que não quebrou a aliança e que, apesar disso, sofre. O versículo 23 chega a ordenar a Deus: "Desperta, por que dormes, Senhor?".
Duas coisas chamam atenção. O salmo não explica o sofrimento, nem culpa o povo, e termina em petição sem resposta: "Resgata-nos por causa da tua misericórdia". O apóstolo Paulo cita o versículo 22 em Romanos 8:36, ao falar de perseguição, e o apresenta como descrição possível da vida do crente, não como erro a corrigir.
O Salmo 137 é outro tipo de dificuldade. Escrito por quem estava ou esteve exilado na Babilônia, começa em lágrimas à beira dos rios e na recusa de cantar canções de Sião em terra estrangeira. Termina com um desejo de vingança que incomoda: bem-aventurado quem agarrar as crianças de Babilônia e as despedaçar contra a rocha. O texto não suaviza.
As tradições leem isso de maneiras diferentes. Alguns, como C. S. Lewis, reconhecem a malícia no texto e a tratam como exemplo do que a raiva produz, ainda assim levado a Deus. Outros veem a oração como entrega da vingança a Deus, em vez de executá-la, e destacam que o salmista pede, não faz. Leituras cristológicas e alegóricas, comuns na tradição antiga, tomaram "as crianças de Babilônia" como imagens dos primeiros movimentos do pecado. O que o texto não faz é autorizar ou ordenar a violência; ele a registra como parte da oração de um povo ferido. A Bíblia guarda a raiva no lugar onde ela pode ser dita sem ser praticada.
Para conversar
- O Salmo 44 diz que o povo sofre sem ter rompido a aliança. Como isso conversa com a ideia de que o sofrimento é sempre consequência de algo?
- Como você leria o versículo 9 do Salmo 137 numa congregação? Que leituras você acha honestas, e quais acha evasivas?
- Há diferença entre dizer a Deus o que se deseja e agir segundo esse desejo? Onde ela passa?
- Por que Paulo escolheria citar o Salmo 44 justamente em ?
4.O Salmo 88: o lamento que termina na escuridão
Se o Salmo 22 faz a virada no meio e o Salmo 13 em três versículos, o Salmo 88 não a faz. É, entre os salmos de lamento, o caso mais notado de oração que termina sem consolo. O título o atribui a Hemã, o ezraíta, e o liga aos filhos de Corá, grupo de levitas ligado ao canto do templo.
A abertura traz o único fio de esperança: "Senhor, Deus da minha salvação". É a única expressão de relação sólida em todo o texto. O restante descreve alguém próximo da morte, que se vê como já numerado entre os que descem à cova, como alguém sem forças, entre os mortos, lançado nas profundezas. O orante atribui a Deus a causa: "Tu me puseste na mais profunda cova". Acusa os amigos, que se afastaram. Pergunta, com ironia amarga, se os mortos se levantam para louvar a Deus, uma questão que, no pensamento do Antigo Testamento, pressupõe que o além não oferece o louvor desta vida. E o salmo fecha com a frase que, em muitas traduções, soa como ponto final seco: as trevas são o seu companheiro mais chegado. A tradução do versículo final varia, e há quem leia "as trevas são os meus conhecidos", mas o sentido de escuridão persistente se mantém.
O que fazer com um texto assim? Algumas leituras apontam que o salmo ainda é oração. Quem fala continua a falar a Deus, "de dia e de noite", e a insistência é, em si mesma, forma de fé. Outras observam que o salmo está dentro de um livro e de uma sequência que o segue com o Salmo 89, sobre a promessa de Deus a Davi, cuja queixa final também fica em aberto. Há ainda quem destaque que o cânon preservou sem retoque a possibilidade de que a oração não resolva nada naquele momento.
O que a Bíblia não faz é acrescentar um versículo para o conforto do leitor. A tradição cristã, em várias vertentes, usa o salmo em liturgias de luto e de noite escura. O texto não promete que a escuridão termine; ele dá linguagem a quem está nela.
Para conversar
- O que significa que a Bíblia preserve uma oração sem virada para o louvor? O que isso permite, e o que deixa em aberto?
- Se o Salmo 88 for a única oração que alguém consegue fazer em certa fase, ele é suficiente? Por quê?
- O que você pensa sobre acrescentar um final esperançoso a esse tipo de texto, ao citá-lo ou ao pregar sobre ele?
- Como o fio inicial, 'Deus da minha salvação', altera a leitura do restante do salmo?
5.Os ecos: Lamentações, Jeremias e o grito de Jesus na cruz
O gênero não fica restrito ao Saltério. O livro de Lamentações, tradicionalmente associado a Jeremias embora o texto seja anônimo, é uma coleção de poemas sobre a queda de Jerusalém em 586 a.C. Quatro dos cinco capítulos são acrósticos, dispostos segundo o alfabeto hebraico, como se a dor precisasse de uma forma para não transbordar. O capítulo 3 traz uma das frases mais citadas da Bíblia ("grande é a tua fidelidade", 3:23), mas está cercado por versículos em que Deus fecha os ouvidos à oração. O livro termina, no capítulo 5, com um pedido de restauração e uma dúvida: "a não ser que nos tenhas rejeitado totalmente". Na liturgia judaica, Lamentações é lido no Nove de Av, dia de luto pela destruição do Templo.
Em Jeremias 20, a queixa é pessoal e feroz. O profeta, ridicularizado e preso, diz a Deus que foi "enganado" ou "seduzido" (o verbo hebraico admite as duas leituras e é debatido) e que a palavra de Deus tornou-se para ele vergonha. Ele tenta calar e descobre que a palavra arde como fogo nos ossos. Em seguida há uma explosão de louvor, no versículo 13, seguida, logo, por uma maldição do dia do seu nascimento. A ordem é desconcertante: o louvor não encerra a dor. Os dois convivem no mesmo capítulo.
Há ainda ecos no Novo Testamento. O clamor "até quando" aparece em Apocalipse 6:10, na boca dos mártires. Romanos 8:26 fala de gemidos que o Espírito intercede sem palavras. E Hebreus 5:7 diz que Jesus, nos dias da carne, ofereceu orações e súplicas "com forte clamor e lágrimas".
O eco mais conhecido é Marcos 15:34. Na cruz, Jesus grita em aramaico as palavras do Salmo 22:1. Mateus 27:46 repete a cena. Os intérpretes discordam sobre o sentido: uns veem uma expressão real de abandono, outros um eco do salmo inteiro, incluindo sua virada, e outros ainda a identificação de Jesus com o justo sofredor do Antigo Testamento. O texto de Marcos não decide. O que ele faz é pôr na boca de Jesus uma frase de lamento, o que torna difícil dizer que o lamento é estranho à fé cristã.
Para conversar
- Em , o louvor do versículo 13 não elimina a maldição dos versículos 14 a 18. O que isso diz sobre como a fé realmente funciona?
- Se Jesus usa as palavras do Salmo 22 na cruz, o que isso muda no modo de ler os demais lamentos?
- Entre as leituras do grito de , qual parece mais próxima do texto? O que cada uma preserva e o que custa?
- Por que a tradição judaica reserva um dia anual para ler Lamentações?
6.É lícito questionar a Deus? O debate e o que ele muda
A pergunta que atravessa o estudo inteiro pode agora ser feita de frente: a Bíblia autoriza reclamar de Deus? A resposta curta é que os textos fazem isso, e é difícil lê-los de outro modo. Mas quase todo o debate está em como entender essa permissão.
Um argumento a favor da legitimidade é o simples volume. Se cerca de um terço do Saltério é queixa, a prática não pode ser tratada como desvio. Outro é o desfecho de Jó: depois de longos discursos de acusação contra Deus, o Senhor diz aos amigos de Jó que eles não falaram dele o que era reto, como seu servo Jó (Jó 42:7). A frase é debatida, mas parece pôr a franqueza de Jó acima da piedade dos amigos. Outro ainda é o testemunho de Jesus, que cita um lamento na cruz.
Há também textos que parecem apontar noutra direção. Em Números 14, o povo murmura no deserto e é julgado. Romanos 9:20 pergunta quem é o ser humano para discutir com Deus. Os intérpretes fazem aqui uma distinção frequente: murmurar é falar de Deus a outros, com desconfiança, enquanto lamentar é falar a Deus, dentro da aliança, pedindo que ele aja segundo o que prometeu. Essa distinção ajuda, mas não resolve tudo, porque algumas queixas dos salmos parecem acusações bem diretas, como em Salmos 44:23.
As tradições também diferem. Calvino chamou os Salmos de uma "anatomia de todas as partes da alma", e viu neles licença para expor emoções. A tradição patrística, em Agostinho, lê os salmos como a voz de Cristo e da Igreja unidos, o que dá ao lamento um caráter também coletivo e litúrgico. Walter Brueggemann sustenta que a igreja que perdeu o lamento perdeu algo do seu poder crítico e de sua honestidade.
O que muda na vida? Nada precisa ser prescrito. O texto oferece linguagem para a dor, uma forma a ser usada, e deixa a cada leitor, e à sua comunidade, a decisão de usá-la.
Para conversar
- Onde você traçaria a linha entre murmurar e lamentar? Os próprios salmos respeitam essa linha?
- deve ser lido como aprovação do que Jó disse, ou como correção dos amigos? O que muda em cada leitura?
- O que a sua comunidade faz com a dor que não tem solução rápida? Há lugar para ela no culto?
- Que risco você vê em ensinar o lamento? E que risco em silenciá-lo?
O que fica
- Cerca de um terço do Saltério é queixa: a Bíblia guarda a dor dita a Deus como oração legítima, não como desvio.
- O lamento típico tem invocação, queixa, petição e confiança, e muitas vezes uma virada para o louvor. A causa da virada o texto não explica.
- O Salmo 88 termina no escuro, e o cânon o preservou assim; ler um final esperançoso nele é acrescentar ao texto.
- Jesus cita o Salmo 22 na cruz. Os cristãos discordam sobre o alcance exato dessa citação, mas não sobre o fato de ela estar lá.
- É lícito questionar a Deus? As tradições divergem sobre os limites, e quase todas distinguem lamentar (falar a Deus) de murmurar (falar dele com desconfiança).
Aprofundamento
O ponto mais discutido sobre os lamentos é a virada. Muitos salmos passam da queixa ao louvor sem aviso, e os estudiosos propõem explicações diferentes. Uma, associada a Joachim Begrich, supõe que um sacerdote pronunciava no templo uma palavra de salvação entre os dois momentos. Outra pensa numa mudança interior do orante, causada pelo próprio ato de orar. Outra ainda vê, na virada, uma decisão de confiar apesar de nada ter mudado. O texto hebraico, nos casos em que a virada ocorre, não explica o que a provoca.
O segundo ponto é o Salmo 88. Se a virada fosse uma regra do gênero, o salmo seria uma exceção chocante. Se for uma tendência, ele mostra algo que as outras orações sugerem: que a fidelidade de Deus não é condição para a oração ser permitida. A tradição litúrgica, em diferentes igrejas, usou esse salmo em contextos de luto e de vigília, justamente por não tentar consolar.
O terceiro é a raiva. Os salmos imprecatórios, como partes do 109 e do 137, pedem castigo sobre inimigos, às vezes em termos que chocam. As leituras principais são três: a de que o texto expressa ressentimento humano real, que a Bíblia não aprova nem condena, mas expõe; a de que o pedido entrega a vingança a Deus, em vez de praticá-la; e a de que a linguagem deve ser lida cristologicamente, com os inimigos como poderes espirituais. As três encontram apoio e problemas.
Por fim, há o uso do Salmo 22 por Jesus. Alguns leitores entendem que citar o primeiro versículo evocava o salmo inteiro, incluindo o final de vitória; outros veem no grito uma experiência real de abandono, que o Novo Testamento não suaviza. Marcos registra a frase em aramaico e não oferece comentário. A discussão é antiga e não está resolvida; honestamente, o que se pode dizer é que o texto preservou as palavras e deixou a interpretação aberta.
Um quarto ponto é a relação entre lamento individual e coletivo. O Salmo 22 e o Salmo 44 mostram que a mesma gramática serve a um sofredor isolado e a um povo inteiro, e que o "eu" dos salmos pode ser lido, na liturgia, como o "nós" da assembleia. Isso explica por que as comunidades puderam rezar com palavras que nasceram da dor de uma só pessoa, e levanta uma pergunta que as tradições respondem de modos diferentes: quem exatamente está falando quando a congregação diz 'eu'? A leitura de Agostinho, que ouve nele a voz de Cristo unido à Igreja, é uma resposta; a leitura histórico-crítica, que reconstrói o contexto original de cada poema, é outra. As duas têm ganhos reais e nenhuma esgota o texto.
O que costumam dizer errado
Dizem que:Reclamar com Deus é falta de fé.
Os próprios salmos, preservados e cantados pelo povo de Deus, trazem a queixa sem disfarce. O Salmo 13 pergunta quatro vezes 'até quando', o 44 manda Deus despertar, e diz que foi enganado. Nenhum desses textos é apresentado como pecado. A distinção que muitos intérpretes fazem é entre lamentar, que fala a Deus dentro da aliança, e murmurar, que fala contra ele a terceiros, como em .
Dizem que:Todo salmo de lamento termina em louvor.
A maioria faz a virada, mas o Salmo 88 termina com as trevas como companhia, sem esperança declarada. também fecha com dúvida. O cânon preservou essas orações sem retoque, o que sugere que a virada é frequente, não obrigatória.
Dizem que:Quando Jesus clamou o Salmo 22 na cruz, estava apenas recitando o salmo inteiro, e não sentia abandono.
Essa é uma das leituras possíveis, e tem defensores sérios, mas não é a única nem a que o texto impõe. registra apenas o grito, em aramaico, sem comentário. Outros intérpretes tomam a frase como expressão real do que Jesus vivia. O texto não decide, e apresentar uma leitura como certa esconde a discussão.
Dizem que:Os salmos imprecatórios mostram que a Bíblia aprova a vingança.
O Salmo 137 registra o desejo de um povo ferido, mas o texto não ordena a execução e não o apresenta como modelo. Muitos leitores veem aí a entrega da vingança a Deus. Outros, como C. S. Lewis, tomam o texto como exemplo de malícia humana levada à oração, sem endosso.
Como diferentes tradições cristãs leem
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Reformada
Calvino, no comentário aos Salmos (1557), chamou o livro de 'anatomia de todas as partes da alma' e viu nos lamentos licença para expor diante de Deus as emoções mais turbulentas. A tradição reformada tende a ler as queixas como expressão legítima de fé, desde que dirigidas a Deus, e a ver na virada a confiança na promessa.
Patrística e litúrgica (católica e ortodoxa)
Agostinho, nas Exposições sobre os Salmos, lê os salmos como voz de Cristo e da Igreja em conjunto, de modo que o lamento é também oração do próprio Cristo pelo corpo sofredor. Na liturgia das Horas e nas igrejas orientais, os salmos de lamento são cantados com regularidade, e o Salmo 22 é associado à paixão.
Judaica
Os lamentos fazem parte da liturgia: Lamentações é lido no Nove de Av, dia de luto pela destruição do Templo, e os salmos são recitados em momentos de aflição. A tradição valoriza a franqueza do povo diante de Deus.
Crítico-formal (acadêmica)
Gunkel e Westermann classificaram os lamentos como gênero com estrutura própria e propuseram que a virada exprime a mudança entre queixa e certeza de ser ouvido. Walter Brueggemann sugeriu a tríade orientação, desorientação e reorientação, e argumentou que a perda do lamento empobrece a vida de fé. As propostas são úteis, mas discutidas.
O que fazer com isso
Ao ler um salmo de lamento, identifique primeiro os elementos: a quem a oração se dirige, o que ela reclama, o que pede e se há alguma afirmação de confiança. Depois, observe se há virada e o que o texto diz sobre ela. Se não houver, como no Salmo 88, resista à tentação de acrescentar um final por conta própria. Use o salmo como linguagem emprestada: às vezes a oração mais honesta é repetir palavras que outra pessoa já disse.
Perguntas frequentes
- Quantos salmos de lamento existem?
- Depende da classificação usada. A maioria dos estudiosos concorda que o lamento é o gênero mais numeroso do Saltério, algo em torno de um terço dos salmos, entre individuais e coletivos. Os números exatos variam porque alguns salmos misturam queixa, petição e louvor.
- Por que o Salmo 88 não termina em esperança?
- O texto não explica. Há quem leia o salmo como prova de que a oração é permitida mesmo sem resolução, e há quem destaque a abertura, 'Deus da minha salvação', como o único fio de esperança. A Bíblia preservou o poema sem acrescentar um final.
- Jesus realmente se sentiu abandonado por Deus na cruz?
- Os intérpretes divergem. Uns veem no grito de uma experiência real de abandono; outros, uma citação que evoca o Salmo 22 inteiro, incluindo seu final de vitória. O texto bíblico registra a frase e não comenta.
- É errado orar com raiva de Deus?
- Os salmos mostram a raiva sendo dita a Deus, o que indica que o gesto não é proibido. Mas as tradições cristãs divergem sobre os limites, e muitos distinguem lamentar, que fala a Deus dentro da aliança, de murmurar, que fala contra ele. A questão continua em debate.
Fontes consultadas
- Agostinho de Hipona. Exposições sobre os Salmos (Enarrationes in Psalmos).
- João Calvino. Comentário aos Salmos, 1557.
- Hermann Gunkel e Joachim Begrich. Einleitung in die Psalmen, 1933.
- C. S. Lewis. Reflexões sobre os Salmos, 1958.
- Claus Westermann. Praise and Lament in the Psalms, 1981.
- Walter Brueggemann. The Message of the Psalms, 1984.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.