Maria Madalena: discípula, testemunha e seus mitos
quem foi maria madalena na bíblia
Resposta curta
Maria Madalena é uma das figuras mais citadas e mais mal compreendidas do cristianismo. Os evangelhos a mostram como uma mulher curada por Jesus, discípula e sustentadora do grupo, presente na cruz, no sepulcro e na primeira aparição do ressuscitado. Os séculos seguintes acrescentaram o que os textos não dizem: a prostituta arrependida, a esposa de Jesus, a rival de Pedro. Este estudo bíblico completo percorre o que Lucas, Marcos, Mateus e João registram, examina o título de apóstola dos apóstolos, mostra como Gregório Magno fundiu três mulheres em uma e avalia o que os textos gnósticos de fato provam, sempre separando o que está na Bíblia do que veio depois.
Em palavras simples
Maria Madalena foi uma mulher que Jesus curou e que passou a segui-lo e a ajudar no sustento do grupo. Os evangelhos a mostram junto à cruz, no sepulcro e como a primeira a ver Jesus ressuscitado, enviada a avisar os discípulos. A ideia de que era prostituta vem de uma pregação do século VI que juntou três mulheres diferentes. A ideia de que foi esposa de Jesus vem de textos tardios e de romances, e nenhuma fonte antiga a comprova.
Antes de começar
Os evangelhos foram escritos numa sociedade em que o testemunho de uma mulher tinha peso jurídico reduzido, e é nesse cenário que Maria Madalena aparece. O nome "Madalena" é uma indicação de origem: aponta para Magdala, localidade na margem ocidental do mar da Galileia, e o Novo Testamento não a chama de "Maria de Magdala". é o único texto que dá algo do passado dela: foi curada de sete demônios e passou a acompanhar Jesus e a sustentar o grupo.
Ela é mencionada nos quatro evangelhos, e quase sempre em torno da morte e da ressurreição, o que já indica onde os autores viam o peso do testemunho dela. Marcos, Mateus, Lucas e João a incluem nas listas de mulheres junto à cruz e no túmulo, e os nomes ao redor dela mudam de um evangelho para outro. lhe dedica o relato mais longo. O final longo de Marcos (16:9) também a nomeia como a primeira a quem Jesus apareceu, mas esse trecho falta nos manuscritos mais antigos e é tratado por muitos estudiosos como acréscimo posterior.
Fora do Novo Testamento, o quadro muda. A tradição latina posterior a identificou com a pecadora anônima de e com Maria de Betânia, e a arte e a liturgia consolidaram essa imagem. Textos dos séculos II a V, como o Evangelho de Maria e o Evangelho de Filipe, usaram o nome dela em contextos gnósticos. Nada disso aparece nos textos mais próximos dos fatos.
Há ainda a questão da data. Os evangelhos foram escritos, em geral, entre as décadas de 60 e 90 do primeiro século, e a fusão de personagens só aparece em escritos pós-bíblicos, algumas centenas de anos depois. Entre uma coisa e outra há um intervalo que ajuda a ver o que é registro e o que é elaboração.
Por isso, um estudo sobre ela precisa de método. Começa pelo que os evangelhos dizem, passa ao que a tradição fez com isso e termina separando os dois níveis, sem tratar a tradição como se fosse a Bíblia e sem tratá-la como se fosse invenção.
Como isso aponta para Jesus
Cumprimento diretoO que o texto bíblico afirma sobre Maria Madalena aponta para fora dela. Ela é nomeada porque foi curada, porque seguiu e porque viu o ressuscitado, e a mensagem que leva não é sobre si mesma, e sim sobre ele. Em , o ponto alto da cena não é a fé dela, mas o momento em que Jesus a chama pelo nome e a envia. O relato a trata como testemunha, e testemunha só tem sentido por causa daquilo que viu.
Respaldo no Novo Testamento:
As partes do estudo
1.O que Lucas 8.2 diz — e o que não diz
Maria Madalena aparece pela primeira vez em Lucas 8:1-3, numa lista breve, quase administrativa. Jesus percorre cidades e povoados anunciando o Reino, os Doze o acompanham, e com eles vão algumas mulheres que tinham sido curadas de espíritos malignos e de doenças. A primeira é "Maria, chamada Madalena, da qual saíram sete demônios". Seguem-se Joana, mulher de Cuza, administrador de Herodes, e Susana, "e muitas outras". O texto acrescenta que elas serviam ao grupo com os seus bens.
O sobrenome não é nome de família, é indicação de procedência. Magdala ficava na margem ocidental do mar da Galileia, e o nome parece ligado à palavra hebraica para "torre". Convém notar, porém, que o Novo Testamento nunca escreve "Maria de Magdala": diz apenas "a Madalena". Ligá-la à cidade que a arqueologia escava hoje é uma inferência razoável e muito comum, mas é inferência.
Os sete demônios são a única informação que Lucas dá sobre o passado dela. O número sete pode sugerir gravidade ou totalidade, e o texto não o explica. A linguagem de possessão, nos evangelhos, cobre quadros que hoje distinguiríamos como doença física, sofrimento mental ou outra coisa, e Lucas não esclarece qual era o caso. O que ele omite pesa tanto quanto o que diz: não há uma palavra sobre prostituição, sobre pecado sexual ou sobre vida escandalosa. Essa associação vem de outro lugar, e a quinta parte deste estudo a examina.
O que o texto afirma com clareza é o papel. Ela segue Jesus, o que no mundo antigo custava reputação e conforto, e é nomeada em primeiro lugar nesta lista e em quase todas as listas de mulheres que virão depois. Lucas a descreve, junto com Joana, como sustentadora material do grupo. Isso sugere que em volta de Jesus havia mulheres com recursos próprios e liberdade para dispor deles, um detalhe que nem todos os leitores esperam encontrar. Marcos 15:40-41 confirma o quadro de passagem: havia mulheres que o seguiam e serviam já na Galileia, e só aparecem na narrativa quando tudo desmorona.
A pergunta que organiza o resto do estudo é simples: o que sabemos de Maria Madalena a partir dos textos mais próximos dos fatos, e o que foi acrescentado por quem veio depois? Neste primeiro passo a resposta é curta. Sabemos que foi curada, que seguiu Jesus e que o sustentou. Quase tudo o mais precisa ser conferido.
Para conversar
- Lucas apresenta Maria primeiro pela cura e só depois pelo seguimento. O que muda na leitura quando se começa por aí, e não pela fama que ela ganhou depois?
- O texto menciona mulheres que sustentavam o grupo com os seus bens. O que isso sugere sobre quem formava o círculo de Jesus, e por que esse detalhe costuma passar despercebido?
- Onde você aprendeu o que sabe sobre Maria Madalena? Quanto dessa imagem está nos textos, e quanto veio de pregação, arte ou cinema?
2.Ao pé da cruz e diante do sepulcro
Depois de Lucas 8, Maria Madalena só reaparece na sexta-feira da crucificação, e daí em diante aparece sempre. Os quatro evangelhos a colocam perto da morte de Jesus, mas não a descrevem do mesmo modo. Marcos 15:40, Mateus 27:55-56 e Lucas 23:49 dizem que as mulheres olhavam "de longe", o que é compreensível diante da guarda romana. João 19:25 a põe "junto à cruz", ao lado da mãe de Jesus, da irmã dela e de Maria de Clopas. Os textos podem descrever momentos diferentes, e é honesto dizer que os evangelistas não explicam a diferença.
As listas das mulheres também não coincidem. Marcos cita Maria Madalena, Maria mãe de Tiago e de Joset, e Salomé; Mateus fala da mãe dos filhos de Zebedeu no lugar de Salomé; Lucas tem Joana; João reúne outro grupo. Em todas elas, porém, há uma constante: Maria Madalena. Quando os nomes variam, o dela permanece, e isso pesa em favor de um dado histórico firme, não de um enfeite literário.
Ela vê também o sepultamento. Marcos 15:47 e Mateus 27:61 registram que ela observou onde o corpo foi posto, um dado que tem função narrativa clara: o túmulo que será encontrado vazio não é um túmulo qualquer, foi identificado por quem estava lá. Passado o sábado, ela volta. Marcos 16:1 diz que as mulheres levaram aromas para ungir o corpo, Mateus 28:1 diz que foram "ver o sepulcro", Lucas 24:1 fala de aromas preparados, e João 20:1 menciona só Maria Madalena, embora a fala dela no versículo 2 esteja no plural ("não sabemos onde o puseram"), o que muitos leitores entendem como sinal de que não estava só.
Os relatos da manhã de domingo divergem em detalhes que não se resolvem por simples soma: quantas mulheres, quantos anjos, onde estavam, o que foi dito. Há harmonizações antigas e modernas, nenhuma delas é consensual, e vale reconhecer que o núcleo é estável (as mulheres, o túmulo, o vazio, o anúncio) enquanto a moldura varia. Marcos, nos manuscritos mais antigos, termina em 16:8 com as mulheres fugindo, tremendo e em silêncio.
Esse quadro mostra uma discípula que não abandona o que os outros abandonaram. Ela não é descrita como mais corajosa nem como mais santa: é descrita como presente. O que vem depois só tem peso porque ela estava lá antes.
Para conversar
- Os evangelhos discordam sobre se as mulheres estavam longe ou perto da cruz e sobre quem exatamente foi ao túmulo. Isso enfraquece o testemunho deles ou o torna mais parecido com lembranças reais de pessoas distintas?
- Maria Madalena aparece em todas as listas, enquanto os outros nomes mudam. O que a constância de um nome pode indicar, e o que ela não consegue provar?
- O que significa dizer que o valor dessa discípula, neste ponto da narrativa, está na presença e não em algum ato extraordinário?
3.João 20: uma mulher diante do túmulo vazio
João 20:1-18 é o texto mais extenso sobre Maria Madalena e o que mais costuma ser lembrado. Ela vai ao túmulo ainda escuro, vê a pedra removida e corre a Pedro e ao outro discípulo para dizer que o corpo foi levado. Os dois correm, entram, veem as faixas e voltam para casa. Maria fica. É um contraste que o evangelista constrói com cuidado: os homens confirmam o vazio e saem; ela permanece diante dele, chorando.
Ao olhar para dentro, vê dois anjos, e responde a pergunta deles com a mesma queixa de antes: levaram o meu Senhor. Ao se voltar, vê Jesus e não o reconhece, tomando-o pelo jardineiro. O reconhecimento vem com uma única palavra, o próprio nome dela dito por ele. A cena ecoa João 10:3-4, onde o pastor chama as ovelhas pelo nome e elas conhecem a voz. Ela responde em aramaico, "Rabôni", e Jesus diz algo de tradução difícil em 20:17. A versão tradicional traz "não me toques"; o verbo grego ἅπτομαι (haptomai) pode significar tocar ou segurar, e muitos entendem "não me retenhas", como quem diz que a relação mudou e não pode ser prendida ao que era antes. O sentido exato é debatido, e nenhuma tradução esgota o verbo.
O versículo seguinte é o ponto decisivo para este estudo. Jesus a envia a "meus irmãos" com uma mensagem, e ela vai e anuncia: "Vi o Senhor". A primeira testemunha do ressuscitado, em João, é uma mulher, e a primeira ordem de anunciar é dada a ela.
Os outros evangelhos contam a coisa de modo próprio, e há um dado difícil que não convém esconder. Lucas 24:11 diz que os apóstolos tomaram o relato das mulheres por delírio e não acreditaram. Paulo, em 1 Coríntios 15:5-8, enumera os que viram o ressuscitado e não nomeia mulher alguma. Esse silêncio é objeto de discussão: alguns o atribuem à natureza da lista, voltada a testemunhas com autoridade pública; outros, a uma resistência real em dar peso ao testemunho feminino. Josefo, em Antiguidades 4.219, diz que a lei judaica não aceitava o testemunho de mulheres, e muitos historiadores usam isso como argumento de que ninguém inventaria uma história assim: se fosse ficção, teria escolhido homens. O argumento é plausível, embora tenha críticos, e a ressurreição em si foi tratada em outro estudo.
Para conversar
- João contrasta os dois discípulos que entram no túmulo e voltam com a mulher que fica. O que esse contraste sugere sobre o que é perseverar diante de uma ausência?
- O reconhecimento acontece quando Jesus diz o nome dela, e não quando ela o vê. O que essa escolha narrativa comunica sobre o modo de conhecer alguém?
- Paulo não menciona mulheres na lista de , e Lucas diz que os apóstolos desacreditaram delas. Como você pesa esses dois dados ao lado de ?
4.A apóstola dos apóstolos
A expressão "apóstola dos apóstolos" é o título mais conhecido de Maria Madalena na tradição cristã, e é útil saber de onde ele vem. Não está no Novo Testamento. A origem costuma ser rastreada até Hipólito de Roma, no início do século III, em um comentário ao Cântico dos Cânticos que associa as mulheres do sepulcro ao anúncio da ressurreição, em contraste com a queda de Eva. Na Idade Média, a fórmula foi retomada por autores latinos e aparece, por exemplo, em Tomás de Aquino, ao comentar João 20. A ideia é que a primeira a ser enviada com a notícia foi quem a levou aos que, mais tarde, a levariam ao mundo.
O argumento por trás do título é textual. A palavra "apóstolo" significa enviado, e em João 20:17-18 Jesus envia Maria com uma mensagem. Mateus 28:7 e 28:10 mostram as mulheres recebendo a mesma incumbência do anjo e de Jesus. Quem lê "apóstolo" no sentido amplo de enviado encontra aqui um caso claro. Quem lê no sentido restrito, como um dos Doze escolhidos para estar com Jesus desde o início, lembra que Atos 1:21-22 exige como critério ter acompanhado o grupo desde o batismo de João, e que Maria Madalena não é contada entre os Doze em nenhuma lista.
Essa distinção resolve boa parte da polêmica, mas não toda. O próprio Novo Testamento usa "apóstolo" em mais de um sentido: Paulo se reivindica apóstolo sem ter sido dos Doze, e em Romanos 16:7 saúda Andrônico e Júnia como notáveis entre os apóstolos, texto cuja leitura e cujo gênero de "Júnia" têm sido discutidos. Dizer que Maria Madalena foi enviada e anunciou é afirmação sólida; dizer que ela ocupou um ofício institucional equivalente ao dos Doze já é interpretação, e as tradições concluem diferente.
Em 2016, a Igreja Católica elevou a memória de 22 de julho a festa litúrgica, com o título de "apóstola dos apóstolos" no decreto, e o gesto foi lido como reconhecimento de uma tradição já antiga. As igrejas ortodoxas a veneram como mirófora e "igual aos apóstolos". Muitas igrejas protestantes não têm essa devoção, mas parte da exegese evangélica reconhece com franqueza que ela foi a primeira testemunha enviada. O ponto de apoio comum é modesto e firme: o texto bíblico, e não um título posterior, é quem diz que ela viu e foi enviada.
Para conversar
- Se "apóstolo" quer dizer enviado, o que é preciso para que alguém seja chamado assim? Isso depende da tarefa recebida, do grupo a que a pessoa pertence, ou de ambos?
- Por que uma tradição popular pode dar a alguém um título que o Novo Testamento não usa? Esse tipo de título é um acréscimo ou um desenvolvimento legítimo do texto?
- As igrejas ortodoxa, católica e protestante lidam de maneiras diferentes com a veneração de Maria Madalena. O que cada uma preserva ao fazer isso, e o que corre o risco de perder?
5.Três mulheres em uma: como surgiu a Madalena penitente
A imagem popular de Maria Madalena como prostituta arrependida não tem base em nenhum texto bíblico, e a história de como se formou é um bom exemplo de como uma tradição se constrói por acúmulo. O primeiro ingrediente é Lucas 7:36-50, onde uma mulher descrita como "pecadora na cidade" unge os pés de Jesus na casa de um fariseu chamado Simão. Ela não tem nome. Lucas não diz qual era o pecado, e o termo "prostituta" não aparece ali. Poucos versículos adiante, no capítulo 8, surge Maria Madalena, sem nenhuma indicação de que seja a mesma pessoa.
O segundo ingrediente é Maria de Betânia, irmã de Marta e Lázaro, que em Lucas 10:38-42 ouve Jesus sentada aos seus pés e em João 11:2 e 12:1-8 unge os pés dele com perfume de nardo. A cena de João lembra a de Lucas 7, e os evangelhos ainda registram uma unção em Betânia na casa de Simão, o leproso, em Marcos 14:3-9 e Mateus 26:6-13. A semelhança dos gestos e dos nomes sempre levou leitores a mesclar personagens. Em nenhum desses textos, porém, a mulher que unge é chamada de Madalena.
A fusão se consolida no Ocidente com Gregório Magno, na Homilia 33 sobre os evangelhos, pregada por volta de 591. Ele identifica a pecadora de Lucas, Maria de Betânia e Maria Madalena como uma só mulher, e liga os sete demônios aos sete vícios. A leitura era pastoral, não uma conclusão de erudição, mas a autoridade do papa fez dela a versão corrente por séculos, e a arte, a pregação e as lendas medievais fizeram o resto. Daí vêm a Madalena de cabelos soltos e frasco de perfume, e, mais tarde, os asilos para mulheres chamados "madalenas".
O Oriente nunca aceitou a fusão, e a tradição ortodoxa trata as três mulheres como pessoas distintas. No Ocidente houve dúvidas desde cedo, e no século XVI Jacques Lefèvre d'Étaples contestou a identificação, o que lhe rendeu críticas. A liturgia católica de 1969 deixou de ler Lucas 7 no dia de Maria Madalena. É possível, claro, que alguma dessas identificações seja verdadeira, porque os evangelhos não proíbem a ligação. Mas ligar o que o texto não liga é decisão de quem lê, e não informação do texto. O dano da fusão não é pequeno: reduz uma discípula que se apresenta pelo que foi curada, serviu e anunciou a uma figura definida por um pecado que nenhuma página lhe atribui.
Para conversar
- Por que é tão atraente juntar personagens parecidas numa só? O que a leitura ganha com isso, e o que perde quando o texto passa a dizer mais do que diz?
- Se a decisão de Gregório Magno foi pastoral e não histórica, como se deve avaliar uma interpretação que ajudou muita gente a pregar o arrependimento, mas contou uma história que os textos não contam?
- O que muda na compreensão do papel de Maria Madalena quando ela deixa de ser lembrada sobretudo por um pecado e passa a ser lembrada pelo que o texto realmente registra?
6.Os textos gnósticos e o que eles não provam
Nas últimas décadas, Maria Madalena ganhou vida nova fora das igrejas, em livros e filmes que a apresentam como esposa de Jesus, líder rival de Pedro e figura silenciada pela Igreja. Boa parte disso se apoia em textos antigos de fato existentes, e por isso vale olhá-los com precisão, sem exagerar e sem descartá-los.
O primeiro é o Evangelho de Maria, conhecido por um manuscrito copta do século V e por dois fragmentos gregos menores, de cerca do século III. A personagem principal é uma Maria, geralmente identificada com Madalena, que após a partida do Salvador conforta os discípulos e relata uma visão. Pedro e André questionam a autoridade dela, e outro discípulo a defende. O texto é gnóstico em sentido amplo: trata da ascensão da alma, e não de eventos da vida de Jesus. O Evangelho de Filipe, da biblioteca de Nag Hammadi (séculos III ou IV), chama Maria de "companheira" do Salvador e fala de um beijo, mas o manuscrito está danificado no ponto decisivo, e a palavra que completaria a frase é reconstrução dos estudiosos. No Evangelho de Tomé, Pedro pede que Maria saia do grupo e Jesus responde com uma imagem enigmática sobre torná-la "macho", frase que continua desafiando intérpretes.
Esses textos mostram algo real: no segundo ao quarto século, havia grupos cristãos que usavam o nome dela para legitimar ensinos próprios e para reivindicar um acesso especial à revelação. O que eles não mostram é o que o debate popular lhes atribui. Foram escritos mais de cem anos depois dos fatos, por comunidades com doutrinas distantes da dos evangelhos, e não preservam memória independente da vida de Jesus. "Companheira" não equivale a esposa, e o manuscrito lacunar não permite afirmar um beijo na boca. Nenhum documento do primeiro século, cristão ou não, sugere que Jesus tenha se casado.
O mesmo vale para o chamado "Evangelho da esposa de Jesus", um fragmento apresentado em 2012 e depois amplamente considerado falsificação moderna. E o romance O Código Da Vinci (2003) é ficção, ainda que muitos leitores o tenham tomado por história. Dizer que não há provas de um casamento não equivale a dizer que o assunto seja proibido, e sim que a evidência não chega lá. Os textos gnósticos revelam como Madalena foi disputada, não quem ela foi.
Para conversar
- Por que o nome de Maria Madalena teria sido tão útil a grupos que queriam legitimar ensinos próprios? O que isso diz sobre o peso que ela tinha na memória cristã?
- Como se distingue um texto que preserva memória sobre Jesus de um que usa o nome de seus seguidores para defender ideias posteriores? Que critérios você aplicaria a qualquer documento antigo?
- O que se perde quando o debate sobre Maria Madalena é reduzido à pergunta sobre ter sido ou não esposa de Jesus?
O que fica
- Os evangelhos apresentam Maria Madalena como uma mulher curada por Jesus, que o seguiu, sustentou o grupo e esteve na cruz e no sepulcro.
- Em ela é a primeira testemunha do ressuscitado e recebe a ordem de anunciar. O título de apóstola dos apóstolos vem da tradição e significa enviada, não membro dos Doze.
- A imagem de prostituta arrependida nasce da fusão de três mulheres na pregação de Gregório Magno, por volta de 591, e nenhum evangelho a sustenta.
- Os textos gnósticos mostram como o nome dela foi disputado nos séculos II a V, mas não provam casamento com Jesus nem uma liderança apagada.
- Separar o que a Bíblia registra do que a tradição acrescentou devolve a Maria Madalena o que o texto realmente lhe dá.
Aprofundamento
Há três pontos em que as tradições se dividem de verdade, e vale nomeá-los com cuidado.
O primeiro é a identificação. A tradição latina, desde Gregório Magno, tratou a pecadora de , Maria de Betânia e Maria Madalena como uma só mulher. As tradições orientais e boa parte da exegese moderna, inclusive católica, as distinguem, porque nenhum evangelho as liga e porque os nomes e as circunstâncias diferem. A identificação não é impossível, mas é suposição, e a leitura mais prudente é tratar cada texto no seu contexto.
O segundo é o título de apóstola. Se "apóstolo" significa enviado, Maria foi enviada por Jesus () e cumpriu a missão. Se significa um dos Doze, ela não o foi. A Igreja Católica, em 2016, elevou sua memória litúrgica a festa, com o título de "apóstola dos apóstolos". As igrejas ortodoxas a veneram como mirófora e igual aos apóstolos. Boa parte do protestantismo lhe reconhece o papel de primeira testemunha sem desenvolver devoção. Em todos os casos, o ponto de partida é o texto e a diferença está no peso que se dá ao desenvolvimento posterior.
O terceiro é o uso gnóstico. Textos como o Evangelho de Maria, o Evangelho de Filipe e o Evangelho de Tomé a colocam no centro de disputas sobre revelação e autoridade. Parte da pesquisa vê aí sinal de que, em certos grupos, as mulheres tinham prestígio; outra parte vê apenas o uso retórico de um nome conhecido. É possível ler a presença dela nesses textos como indício da importância que tinha na memória cristã, mas não como testemunho independente sobre o Jesus histórico, pois são escritos tardios e de doutrina distinta.
Há ainda uma divergência prática que atravessa tudo isso: o que fazer com o silêncio. O texto bíblico não diz que ela foi prostituta, não diz que foi esposa de Jesus e não diz que foi líder institucional. Cada afirmação desse tipo parte do que o texto cala. A leitura sóbria reconhece o que está registrado: uma discípula curada, fiel até o sepulcro, primeira testemunha do ressuscitado e enviada a anunciar. O que passa disso depende de fontes posteriores, de teologia ou de imaginação, e convém dizê-lo.
Um quarto ponto, menos barulhento, é a própria palavra do texto sobre os sete demônios. Alguns intérpretes veem aí um quadro de aflição grave e prolongada; outros, um modo de dizer que a cura foi completa. O texto não decide entre as duas leituras, e a escolha de uma delas não altera o que se afirma sobre o seguimento e o testemunho que vêm depois.
O que costumam dizer errado
Dizem que:Maria Madalena era uma prostituta que Jesus perdoou.
Nenhum evangelho lhe atribui essa condição. diz apenas que dela saíram sete demônios, e a pecadora anônima de não é identificada com ela. A associação nasce da fusão de três mulheres feita na Homilia 33 de Gregório Magno, por volta de 591, e foi repetida pela arte e pela pregação durante séculos. O Oriente nunca a aceitou, e a liturgia católica a abandonou em 1969.
Dizem que:Maria Madalena foi esposa de Jesus, e a Igreja escondeu isso.
Nenhum texto do primeiro século sugere casamento. As fontes citadas em apoio, como o Evangelho de Filipe, são dos séculos III e IV, e o trecho que falaria de um beijo está danificado e foi completado por reconstrução. Chamar alguém de companheira não equivale a chamá-la de esposa, e o fragmento chamado Evangelho da esposa de Jesus, apresentado em 2012, foi amplamente considerado falsificação moderna.
Dizem que:Os evangelhos gnósticos mostram que Maria Madalena liderava a Igreja primitiva e foi apagada.
Os textos em que Maria aparece em destaque foram escritos mais de cem anos depois dos fatos, por grupos com doutrina distinta da dos evangelhos, e tratam de revelação e ascensão da alma. Eles provam que o nome dela tinha prestígio e era disputado, mas não oferecem memória independente da vida de Jesus nem descrevem uma estrutura de liderança que os documentos mais antigos desconheçam.
Dizem que:Maria Madalena foi uma das Doze.
Ela não aparece em nenhuma lista dos Doze (; ; ; ). O que o texto afirma é que foi discípula, testemunha e enviada com uma mensagem. Chamá-la de apóstola, no sentido de enviada, tem base em , mas isso é diferente de contá-la entre os Doze.
Como diferentes tradições cristãs leem
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Católica
Durante séculos, a liturgia ocidental seguiu a identificação de Gregório Magno, que unia a pecadora de , Maria de Betânia e Maria Madalena. Em 1969, o calendário deixou de ler no dia dela, e em 2016 sua memória foi elevada a festa, com o título de apóstola dos apóstolos, em reconhecimento do papel de primeira testemunha enviada. Isso não a conta entre os Doze.
Ortodoxa
Distingue as três mulheres desde cedo e venera Maria Madalena como mirófora, uma das mulheres que levaram aromas ao sepulcro, e como igual aos apóstolos. A ênfase está no anúncio da ressurreição, celebrado na liturgia pascal, e não na penitência. A imagem da pecadora arrependida é, nessa tradição, estranha ao que se diz dela.
Protestante e evangélica
Em geral, não desenvolve devoção a Maria Madalena e rejeita a fusão com a pecadora de por falta de base no texto. Muitos autores reconhecem que ela foi a primeira testemunha do ressuscitado e que o evangelho de João lhe dá a primeira ordem de anunciar. A discussão se concentra no que o texto bíblico afirma e na cautela diante de acréscimos posteriores.
Crítica histórica
Lê os evangelhos como fontes distintas e pergunta o que cada um lembra de mais firme. Considera sólida a presença dela na crucificação e no sepulcro, porque o nome persiste mesmo quando as listas variam. Trata os textos gnósticos como evidência de como seu nome foi usado nos séculos II a V, e não como informação sobre o Jesus histórico. Há divergência entre estudiosos sobre o peso que ela teve no grupo.
O que fazer com isso
Ao ouvir qualquer afirmação sobre Maria Madalena, pergunte de onde ela vem: de Lucas, Marcos, Mateus e João, de uma homilia do século VI, de um texto gnóstico ou de um romance. Os níveis têm pesos diferentes. Separar o que a Bíblia registra do que a tradição acrescentou evita tanto a devoção sem base quanto a desconfiança de tudo, e devolve à leitura o que o texto realmente afirma.
Perguntas frequentes
- Maria Madalena foi prostituta?
- A Bíblia não diz isso. afirma apenas que dela saíram sete demônios. A imagem de prostituta arrependida vem da fusão, feita por Gregório Magno por volta de 591, entre ela, a pecadora anônima de e Maria de Betânia. Nenhum evangelho as identifica.
- Maria Madalena foi casada com Jesus?
- Não há nenhum texto do primeiro século que sugira isso. As fontes citadas em apoio são tardias, lacunares ou ficcionais. A evidência disponível não sustenta o casamento, embora ele também não seja objeto de prova em sentido contrário, pois o que existe é silêncio.
- Por que ela é chamada de apóstola dos apóstolos?
- Porque, em , Jesus a envia a avisar os discípulos, e ela anuncia que viu o Senhor. O título vem da tradição, a partir de Hipólito de Roma, e não do Novo Testamento. Significa enviada, e não membro dos Doze.
- Quem era Maria Madalena segundo os evangelhos?
- Uma mulher da Galileia, provavelmente de Magdala, curada por Jesus, que o seguiu e ajudou a sustentar o grupo. Esteve na crucificação e no sepultamento, foi ao túmulo no domingo e, em João, é a primeira a ver o ressuscitado e a receber a ordem de anunciar.
Fontes consultadas
- Gregório Magno. Homilias sobre os Evangelhos (Homilia 33), 591.
- Tomás de Aquino. Comentário ao Evangelho de João, 1270.
- Susan Haskins. Mary Magdalen: Myth and Metaphor, 1993.
- Richard Bauckham. Gospel Women: Studies of the Named Women in the Gospels, 2002.
- Karen L. King. The Gospel of Mary of Magdala: Jesus and the First Woman Apostle, 2003.
- Bart D. Ehrman. Peter, Paul, and Mary Magdalene, 2006.
- Raymond E. Brown. The Gospel According to John (XIII-XXI), 1970.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.