Isaías: juízo, consolo e esperança de Isaías 1 a 66
o que a bíblia diz sobre o livro de isaías
Resposta curta
Isaías é o livro profético de maior alcance da Bíblia: começa com um tribunal em Jerusalém, no século VIII a.C., e termina com a promessa de novos céus e nova terra. Entre uma ponta e outra há uma visão no templo, um sinal chamado Emanuel, o cerco assírio de Senaqueribe, o consolo a exilados, o nome de Ciro e o servo que sofre pelos outros. Este estudo em seis partes segue essa trajetória, do texto ao debate: o que o livro diz, como foi lido por judeus e cristãos, o que se discute sobre a autoria de suas seções e como o Novo Testamento o usa, sem esconder onde os intérpretes divergem.
Em palavras simples
Isaías é um livro com 66 capítulos que foi escrito para três situações. Primeiro, para um reino ameaçado por um império, em que o profeta cobra justiça e confiança em Deus. Depois, para um povo derrotado e exilado, que recebe consolo e a promessa de volta. Por fim, para uma comunidade que voltou e se decepcionou. O livro anuncia um rei justo, um servo que sofre pelos outros e novos céus e nova terra. Judeus e cristãos o leem de maneiras diferentes, e os estudiosos discutem quem escreveu cada parte.
Antes de começar
O livro abre com o nome do profeta, Isaías filho de Amoz, e com quatro reis de Judá: Uzias, Jotão, Acaz e Ezequias (Is 1:1). Isso o situa na segunda metade do século VIII a.C., quando a Assíria se torna a potência dominante do Oriente Médio e o reino do norte, Israel, caminha para o fim. Isaías age em Jerusalém, perto da corte e do templo, e o seu nome em hebraico, Yeshayahu, significa "o Senhor salva", a mesma raiz de "salvação".
Os 66 capítulos cobrem mais de dois séculos de situações. Os capítulos 1 a 39 falam de Judá ameaçada pela Assíria e de reis que precisam decidir em quem confiar. Os capítulos 40 a 55 se dirigem a um povo no exílio na Babilônia, depois de 587 a.C., e anunciam o retorno. Os capítulos 56 a 66 parecem tratar da comunidade de volta a uma Jerusalém pobre. Quem lê o livro de uma vez percebe essa mudança de cenário, o que explica por que ele é o centro de um dos debates mais antigos da crítica bíblica.
Há ainda duas características literárias. A primeira é a poesia: Isaías é rico em imagens, com a vinha, o toco, a luz, o deserto florido e a mulher que consola o filho. A segunda é o título que o atravessa, "o Santo de Israel", que aparece em todas as seções e dá ao livro uma unidade temática mesmo quando se discute a autoria. A santidade de Deus é o critério com que se julgam a injustiça do povo, o orgulho dos impérios e os ídolos, e é também o fundamento do consolo.
No judaísmo, Isaías é lido nas sinagogas como haftará e é um dos Neviim posteriores. No cristianismo, o livro é citado no Novo Testamento por Mateus, Marcos, Lucas, João, Atos e Paulo, em geral para entender quem é Jesus e por que muitos não creram nele. Essa dupla herança exige cuidado: um mesmo texto, como ou 53, é lido por duas comunidades de maneiras que não se confundem.
Como isso aponta para Jesus
Cumprimento diretoO Novo Testamento lê o rei de e 11 e o servo de como imagens que se encontram em Jesus. Os evangelhos citam o livro para explicar o início do ministério na Galileia, as curas e a pregação aos pobres, e Atos mostra Filipe partindo de para anunciar Jesus. Essa leitura é a das igrejas cristãs; a tradição judaica lê os mesmos textos de outras maneiras, e este estudo registra as duas sem apagar a diferença.
Respaldo no Novo Testamento:
As partes do estudo
1.Visão e vocação: o Santo de Israel diante de um profeta
O livro abre dizendo de que se trata: "visão de Isaías, filho de Amoz", recebida nos dias de quatro reis de Judá (Is 1:1). Isso põe o profeta na segunda metade do século VIII a.C., em Jerusalém, falando a gente que tem religião de sobra e justiça de menos, enquanto a Assíria cresce ao norte. O primeiro capítulo é montado como um processo: céus e terra são convocados como testemunhas, o povo é acusado de ter esquecido quem o criou, e sacrifícios, festas e orações são recusados enquanto as mãos estiverem cheias de sangue (1:2-3, 11-15). O remédio não é abolir o culto, mas ligá-lo à vida: buscar o direito, socorrer o oprimido, fazer justiça ao órfão (1:17). Isaías trata a injustiça como sintoma. A causa está no capítulo 6.
"No ano em que morreu o rei Uzias", por volta de 740 a.C. segundo a cronologia mais usada, Isaías vê o Senhor assentado num trono alto e elevado, (6:1). Serafins cobrem rosto e pés e proclamam: "Santo, Santo, Santo é o Senhor dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória" (6:3). Repetir é a maneira hebraica de dizer o máximo, e nenhum outro atributo de Deus recebe esse tratamento na Bíblia hebraica. A reação não é entusiasmo, é colapso: "Ai de mim, que estou perdido! Sou homem de lábios impuros e habito no meio de um povo de lábios impuros" (6:5). Uma brasa do altar toca a sua boca, e a culpa é removida (6:6-7). O perdão vem antes do envio; só então ouve a pergunta divina, "a quem enviarei, e quem irá por nós?", à qual responde: "Eis-me aqui, envia-me a mim" (6:8). O plural "por nós" é lido como corte celestial por muitos intérpretes e como indício trinitário por parte da tradição cristã.
A comissão raramente aparece em cartazes de vocação. Deus manda dizer a este povo: "ouvi, ouvi, mas não entendais; vede, vede, mas não percebais" (6:9-10). Discute-se se é ironia amarga, previsão ou endurecimento judicial; os evangelhos e Atos recorrem ao texto para explicar a incredulidade diante de Jesus (Mt 13:14-15; At 28:26-27). Isaías pergunta "até quando?" e recebe como resposta cidades devastadas e terra deserta (6:11-12). Mas o último versículo, cujo hebraico é difícil e traduzido de vários modos, deixa um toco: como o terebinto abatido conserva o tronco, "a santa semente é o seu toco" (6:13). Juízo e esperança aparecem no mesmo fôlego, e é assim que o livro inteiro se lê.
Para conversar
- O texto põe o perdão antes do envio. O que isso muda na ideia de que só os preparados são chamados?
- recusa o culto sem justiça sem pedir o fim do culto. Como você descreveria a relação entre as duas coisas?
- A comissão de 6:9-13 anuncia de antemão que a mensagem não será ouvida. O que se pode dizer sobre o sentido de continuar falando?
- Por que o livro situa a esperança de Israel num toco, e não numa árvore de pé?
2.Emanuel e o rei que vem: Isaías 7, 9 e 11
Por volta de 735 a.C., Rezim, rei de Damasco, e Peca, rei de Israel, pressionam Judá a entrar numa coalizão contra a Assíria. Acaz, rei de Judá, recusa, e os dois ameaçam derrubá-lo e pôr outro no trono (Is 7:1-6). Isaías o encontra no final do aqueduto do tanque superior, com o filho Sear-Jasube, nome que quer dizer "um resto voltará". A mensagem é política e teológica: acalma-te, não temas, aqueles dois reis são "tocos de tições fumegantes". E o desfecho é um jogo de palavras: "se não crerdes, certamente não permanecereis" (7:9), em que crer e permanecer vêm da mesma raiz hebraica. Acaz recusa o sinal oferecido, em tom piedoso ("não tentarei o Senhor"), pois já decidiu pedir socorro à Assíria (2 Rs 16:7-9). O sinal vem assim mesmo.
É aqui que surge Isaías 7:14: "a jovem conceberá e dará à luz um filho, e lhe chamará Emanuel", "Deus conosco". O hebraico usa 'almá, termo para a mulher jovem em idade de casar; a palavra técnica para virgem seria bethulá, e a tradução grega antiga, a Septuaginta, escolheu parthénos, que Mateus cita em 1:22-23. O artigo, "a jovem", sugere uma mulher que o rei e o profeta tinham em vista. O contexto aponta para um horizonte curto: antes de o menino saber distinguir o bem do mal, a terra dos dois reis será abandonada (7:16). No capítulo seguinte nasce um filho de Isaías, Maer-Salal-Hás-Baz, e Emanuel reaparece em 8:8 e 8:10. Propõem-se como criança um filho de Acaz, como Ezequias, um filho do profeta ou uma figura sem identificação. Entre os cristãos, uns leem a promessa como dupla, com sinal imediato e cumprimento pleno em Jesus; outros, como diretamente messiânica; a leitura histórico-crítica a restringe ao século VIII e entende Mateus como releitura. A tradição judaica a situa na época de Ezequias.
Os capítulos 9 e 11 ampliam o retrato. Sobre a Galileia humilhada, "o povo que andava em trevas viu uma grande luz" (9:1-2; Mt 4:14-16). Depois: "um menino nos nasceu, um filho se nos deu; o governo está sobre os seus ombros", chamado Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz (9:6). Traduções judaicas leem os títulos como nome que Deus dá ao menino; a leitura cristã tradicional os atribui ao próprio rei. O capítulo 11 fala de um rebento saído do tronco de Jessé, ou seja, de uma dinastia cortada, a mesma imagem do toco em 6:13, sobre o qual repousa o Espírito do Senhor e que julga os pobres com justiça (11:1-5).
Para conversar
- Acaz recusa o sinal com palavras religiosas. Como distinguir confiança verdadeira de piedade usada para evitar uma decisão?
- Se tinha sentido para Acaz e é lido por Mateus em outro nível, o que a leitura de um texto antigo exige de quem respeita os dois?
- Por que a esperança do livro é descrita como criança e rebento, e não como exército?
- O que muda para um leitor quando o nome "Deus conosco" aparece no contexto de uma ameaça de guerra e não de um nascimento tranquilo?
3.Assíria, Ezequias e Senaqueribe: Isaías 36 a 39
Antes dos capítulos narrativos, o livro já tratou da Assíria como instrumento. Em Isaías 10:5-15 ela é "a vara da minha ira", enviada contra um povo sem Deus, e o império é por sua vez julgado por se vangloriar do que fez como se tivesse feito sozinho. Os capítulos 28 a 33 repetem uma acusação a Jerusalém: buscar aliança com o Egito e confiar em cavalos e carros em vez de esperar no Santo de Israel (30:1-5; 31:1). Os capítulos 13 a 23 estendem o juízo a outras nações. Tudo isso desemboca nos capítulos 36 a 39, que são quase uma cópia de 2 Reis 18:13 a 20:19.
A cena abre em 701 a.C., segundo a datação mais aceita, com Senaqueribe tomando as cidades fortificadas de Judá. Seu porta-voz, o Rabsaqué, para no mesmo lugar onde Isaías enfrentara Acaz, junto ao aqueduto do tanque superior (36:2; 7:3), e faz um discurso de propaganda notável: o Egito é cana quebrada, Ezequias engana o povo, nenhum deus de nenhuma nação salvou seu país da Assíria (36:4-20). A pergunta de capítulos atrás volta, agora com outro rei. Ezequias rasga as vestes, vai à casa do Senhor e manda consultar Isaías (37:1-4), e depois ora com a carta aberta diante de Deus (37:14-20). A resposta é a de que Jerusalém será poupada. Na noite seguinte, o anjo do Senhor fere o acampamento assírio, e Senaqueribe volta a Nínive, onde mais tarde seria morto pelos filhos (37:36-38).
Fontes externas ajudam e não resolvem. Os anais assírios descrevem a campanha de Senaqueribe contra Judá e dizem que Ezequias foi fechado em Jerusalém "como um pássaro em gaiola", sem afirmar que a cidade foi tomada; relevos de Nínive mostram o cerco de Laquis. Heródoto conta uma história egípcia em que ratos de campo roem as armas do exército assírio. Como esses relatos se encaixam é matéria de debate: alguns propõem mais de uma campanha, outros uma praga, outros leem o relato bíblico como narrativa teológica sobre o que ocorreu.
Os capítulos 38 e 39 mudam o tom. Ezequias adoece, ora, recebe quinze anos de vida e um sinal (38). Mensageiros de Merodaque-Baladã, rei da Babilônia, chegam, e ele lhes mostra todos os tesouros; Isaías anuncia que tudo isso será levado à Babilônia, e o rei responde, aliviado, que haverá paz nos seus dias (39:6-8). É um final deliberadamente sombrio, que abre caminho para o capítulo 40.
Para conversar
- O discurso do Rabsaqué mistura fatos, ameaças e uma pergunta teológica. O que ele diz de verdadeiro, e onde está a manipulação?
- O mesmo lugar aparece em e 36. O que o livro sugere ao colocar Acaz e Ezequias na mesma cena?
- Quando o relato bíblico e os documentos assírios não coincidem inteiramente, como um leitor pode ser honesto com os dois?
- A resposta de Ezequias em 39:8 é piedosa ou egoísta? O que a ambiguidade faz com o leitor?
4.Consolai o meu povo: o exílio e Ciro (Isaías 40 a 48)
O capítulo 40 começa em outra voz e outro tempo: "Consolai, consolai o meu povo" (40:1). Quem é consolado é um povo que perdeu cidade, templo e rei, e ouve que o castigo está cumprido. Uma voz manda preparar no deserto o caminho do Senhor, e a imagem ficou ligada ao Batista (40:3; Mc 1:2-3). Tudo o que é humano é erva que seca; a palavra de Deus permanece (40:6-8). Num mundo em que os deuses são levados em procissão, ouve-se que o Criador não precisa ser carregado (40:12-26; 46:1-7), e as sátiras aos ídolos feitos de madeira, metade para o fogo e metade para a adoração, são das passagens mais afiadas da Bíblia (44:9-20). A afirmação central é de monoteísmo explícito: "eu sou o primeiro e o último; fora de mim não há Deus" (44:6). A idolatria tem estudo próprio no acervo; aqui interessa o efeito consolador dessa tese num povo vencido: o fracasso de Israel não prova a vitória de Marduk.
Dentro desse conforto surge um nome inesperado. Isaías 44:28 chama Ciro de "meu pastor", e 45:1 vai além: "assim diz o Senhor ao seu ungido, a Ciro" (em hebraico, mashiach). Ciro, rei persa que conquistou a Babilônia em 539 a.C., não é israelita e, segundo o texto, não conhece o Senhor (45:4-5). Esdras 1:1-4 conserva o decreto que permitiu o retorno. O chamado Cilindro de Ciro, escrito em babilônico, apresenta o rei como escolhido de Marduk e fala do retorno de imagens de deuses aos seus santuários; não menciona Israel nem seu Deus, e por isso sua relação com o decreto bíblico é discutida. O que o texto de Isaías afirma é que o Senhor usa quem quiser, inclusive quem não o conhece, e o mesmo poder que "forma a luz e cria as trevas" (45:7) governa a história dos impérios.
Aqui aparece o problema de leitura mais debatido do livro. Se o profeta viveu no século VIII, um oráculo que nomeia um rei persa do século VI é predição a mais de cem anos de distância; se a maior parte da crítica tem razão, o autor de 40 a 55 escreve a exilados que já veem Ciro avançar. Voltaremos a isso. Em ambos os casos, o capítulo 45:22 permanece: "olhai para mim e sede salvos, todos os confins da terra".
Para conversar
- O consolo de vem acompanhado de argumentos sobre quem é Deus. Por que o conforto de um povo em luto passa por teologia?
- O que significa, para quem lê, que Deus chame de "ungido" um rei que não o conhece?
- Como o paralelo entre o Cilindro de Ciro e o decreto de Esdras ajuda ou atrapalha na leitura de ?
- afirma que Deus cria a luz e as trevas. Como cada tradição que você conhece lida com a frase?
5.O servo do Senhor e o capítulo 53
Entre os capítulos 40 e 55 se destaca uma figura chamada "meu servo". Em várias passagens o servo é Israel: "tu, Israel, és meu servo" (41:8; 44:1; 49:3). Mas há quatro trechos, isolados como "cantos do servo" por Bernhard Duhm em 1892, em que o servo parece ter missão sobre Israel e sobre as nações: 42:1-4, 49:1-6, 50:4-9 e 52:13 a 53:12. A divisão em quatro cantos é convenção moderna, e nem todos aceitam que sejam unidades à parte. O primeiro apresenta alguém que traz o direito às nações com manso poder, sem quebrar a cana rachada. O segundo faz a ambiguidade mais explícita: o servo é chamado Israel, mas tem a tarefa de reconduzir Israel e ser luz para as nações (49:3-6). O terceiro o mostra ouvindo, falando e entregando as costas aos que o golpeiam.
O quarto canto, Isaías 53, é o texto mais comentado do livro. O servo é desfigurado, desprezado, "homem de dores". O coro que fala por todos confessa: "eram as nossas enfermidades que ele carregava", "o castigo que nos traz a paz estava sobre ele", "o Senhor fez cair sobre ele a iniquidade de todos nós" (53:4-6). Ele não abre a boca, como ovelha diante de quem a tosquia; morre com ímpios e é posto com um rico (53:7-9). O poema termina com vida depois do sofrimento, justificação de muitos e intercessão pelos transgressores (53:10-12).
A pergunta "quem é o servo?" tem pelo menos quatro respostas históricas. A leitura judaica mais tradicional, representada por Rashi na Idade Média, entende o servo como Israel, o povo que sofre pelas nações; antes disso, o Targum de Isaías aplicava a figura ao Messias. A leitura cristã, atestada no Novo Testamento, identifica o servo com Jesus: Filipe explica o texto ao etíope (At 8:32-35), e Pedro o cita a respeito dos sofrimentos de Cristo (1 Pe 2:22-25). Estudiosos históricos propõem ainda o próprio profeta, um rei como Ezequias ou Josias, um remanescente fiel ou um mártir desconhecido. E há quem veja identidades que se sobrepõem, em que o servo começa como Israel e vai afunilando. O texto não resolve o debate; o que ele descreve com clareza é um sofrimento que outros reconhecem como sendo por eles.
Para conversar
- Quando o servo é Israel e quando parece ser alguém que age sobre Israel? O que a mudança de identidade sugere sobre o texto?
- O que muda na leitura de quando se lê como poema do povo, e quando se lê como poema de uma pessoa?
- Por que o coro que fala em se surpreende com o que descobre? O que isso diz sobre percepção do sofrimento alheio?
- Como você apresentaria a leitura judaica e a cristã de de maneira que uma pessoa de cada tradição se reconhecesse?
6.Isaías 56 a 66, a unidade do livro e Isaías no Novo Testamento
Os últimos onze capítulos mudam outra vez de cenário: o povo já voltou, a cidade é pobre e as promessas de 40 a 55 parecem não ter se cumprido. A estrutura mostra um debate dentro da comunidade. O capítulo 56 abre o templo a estrangeiros e eunucos que guardem a aliança, porque a casa do Senhor será "casa de oração para todos os povos" (56:3-8; Mc 11:17). O capítulo 58 critica um jejum que combina humilhação ritual e opressão, e põe no lugar dele soltar as cadeias da injustiça e repartir o pão. O capítulo 60 imagina Sião como luz para as nações. O 61 traz a voz de alguém ungido para levar boas notícias aos pobres, que Jesus lê na sinagoga de Nazaré (Lc 4:16-21), parando antes de "o dia da vingança do nosso Deus". Os capítulos 63 e 64 combinam um guerreiro que vem de Edom com uma oração: "ah, se rompesses os céus e descesses!" Por fim, 65:17 e 66:22 anunciam novos céus e nova terra, e o livro termina com um quadro que inclui adoração universal e também a imagem dura do verme que não morre (66:24).
Quanto à unidade, a tradição antiga e muitos leitores conservadores sustentam que um só profeta, Isaías de Jerusalém, escreveu tudo, inclusive o nome de Ciro. Desde o fim do século XVIII, muitos estudiosos propõem que 40 a 55 vêm de um profeta no exílio e, depois de Duhm, que 56 a 66 vêm de um terceiro círculo pós-exílico. Os argumentos históricos são o cenário, o vocabulário e a teologia diferentes. Os argumentos de unidade são o título "o Santo de Israel", muito mais frequente aqui que no resto do Antigo Testamento, temas que atravessam as seções e o testemunho de Eclesiástico 48:22-25 e do Novo Testamento. Parte dos exegetas, como Brevard Childs, lê o livro em sua forma final como obra coerente, sem decidir sobre a autoria de cada parte.
O Novo Testamento cita Isaías mais que a maioria dos livros do Antigo. João atribui a Isaías tanto 6:10 quanto 53:1 (Jo 12:38-41), e Paulo cita 65:1 como palavra de "Isaías" (Rm 10:20). Isso não resolve a pergunta de autoria, pois os autores usavam o nome do livro; mas mostra que, para eles, o livro circulava sob um só nome.
Para conversar
- O que muda na leitura de a 55 e 56 a 66 se os capítulos foram escritos em situações históricas diferentes?
- Como sustentar a seriedade de um livro cuja autoria é debatida sem transformar a questão em teste de fé?
- Por que interrompe a leitura de antes do "dia da vingança"? O que isso diz sobre a forma de ler?
- O final de Isaías combina alegria universal e uma imagem dura. Como cada pessoa do grupo lida com essa mistura?
O que fica
- Isaías junta juízo e esperança desde o começo: no capítulo 6, o mesmo versículo que anuncia devastação deixa um toco com semente santa.
- As promessas do livro respondem a crises concretas, como um rei assustado em , o cerco assírio em 36 e 37 e o exílio em 40 a 55.
- Textos como e 53 têm leituras judaicas e cristãs distintas, e o debate histórico acrescenta outras; vale conhecer as três.
- A autoria das seções do livro é debatida, e a discussão pede argumentos, não rótulos de fé ou de falta de fé.
- Em todas as seções a pergunta é a mesma: em quem se confia quando os recursos humanos acabam?
Aprofundamento
Três eixos organizam o livro e ajudam a ler sem se perder. O primeiro é a tensão entre juízo e esperança. coloca os dois no mesmo versículo, e o resto do livro desenvolve a ideia: o castigo é real e vem pela Assíria e pela Babilônia, mas sobra um toco, um resto, uma santa semente. A figura do resto aparece já no nome do filho do profeta, Sear-Jasube, e volta nos capítulos 10, 11 e 37. Ler só o juízo faz de Isaías um profeta de ameaças; ler só o consolo omite o tribunal do capítulo 1.
O segundo eixo é a pergunta sobre em quem confiar. Acaz recusa o sinal em e prefere a Assíria; Ezequias ora diante da carta do Rabsaqué em e é poupado. Os capítulos 28 a 31 criticam alianças com o Egito. A pergunta política é teológica: quem governa a história, os reis e os exércitos ou o Senhor dos Exércitos? Nos capítulos 40 a 48 a pergunta é respondida com a sátira dos ídolos e com o nome de Ciro.
O terceiro eixo é a figura do rei e a figura do servo. O rei ideal está em 9:1-7 e 11:1-10, e o servo, em 42, 49, 50 e 52:13 a 53:12. As tradições divergem sobre como relacioná-los. A leitura cristã vê em Jesus a convergência entre o rei de Davi e o servo que sofre, e o Novo Testamento sustenta essa associação em , , e . A leitura judaica tradicional identifica o servo de com Israel, enquanto o rei futuro permanece uma esperança a ser cumprida. A crítica histórica acrescenta propostas sobre quem o poeta tinha em vista. As três leituras se baseiam em textos reais e produzem conclusões diferentes.
Há também duas questões de método. A primeira é a autoria: um profeta do século VIII, um profeta no exílio e um terceiro círculo depois do retorno, ou um livro de formação gradual, mas lido como uma unidade. A segunda é o modo como o Novo Testamento cita: muitas vezes por associação, como Mateus com Emanuel, sem a preocupação moderna de citar um texto só no sentido original. Reconhecer isso não obriga a escolher entre tradição e crítica, mas pede honestidade sobre o que cada argumento realmente demonstra e o que apenas supõe. Quem estuda o livro em grupo ganha ao separar, a cada passagem, o que o texto diz, o que a tradição lê nele e o que a pesquisa propõe.
O que costumam dizer errado
Dizem que:Isaías 7:14 prova, por si só, que o Antigo Testamento profetizou o nascimento virginal de Jesus.
O hebraico usa 'almá, jovem em idade de casar, e não a palavra técnica para virgem; foi a Septuaginta que escolheu parthénos, e cita nessa forma. O texto tem um horizonte imediato em Acaz (7:16) e muitos cristãos o leem como sinal com sentido duplo. Afirmar que o versículo sozinho demonstra o nascimento virginal ignora a discussão sobre o contexto e a tradução.
Dizem que:Isaías 53 é um texto que só os cristãos aplicam a alguém, e os judeus nunca o leram como messiânico.
A leitura judaica antiga e medieval inclui as duas coisas: o Targum de Isaías aplica 52:13 ao Messias, e a exegese de Rashi identifica o servo com Israel. A divisão não é entre quem leu e quem ignorou o poema, mas entre identificações diferentes do servo, e Orígenes já registra a objeção judaica de que se trata do povo.
Dizem que:O livro de Isaías é uma coleção de previsões do futuro distante, escritas para quem viveria séculos depois.
A maior parte do livro responde a crises concretas: a guerra siro-efraimita, o cerco de Senaqueribe, o exílio e a volta. Previsões existem (como a queda da Babilônia ou a menção a Ciro), mas funcionam dentro de um discurso dirigido a ouvintes reais. Tratar tudo como carta ao futuro empobrece o texto e esconde o que ele disse a Acaz, a Ezequias e aos exilados.
Dizem que:Isaías 14, sobre o astro da manhã caído, é uma narrativa direta sobre a queda de Satanás.
O texto é uma sátira contra o rei da Babilônia (14:4), em linguagem mitológica comum no Oriente Antigo. A leitura que o associa à queda de um anjo vem de intérpretes posteriores, como Orígenes e outros pais da Igreja, e é uma aplicação tradicional, não o sentido que o contexto de 14:3-23 apresenta.
Como diferentes tradições cristãs leem
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Judaica
Lê Isaías como livro de um profeta que fala a Israel em suas crises e aguarda a restauração e a paz universal. Os rabinos medievais, como Rashi, identificam o servo de com o povo de Israel que sofre entre as nações, e Emanuel com um menino da época de Acaz. A esperança messiânica permanece aberta, e o livro é lido nas sinagogas como haftará em muitos sábados do ano.
Católica e ortodoxa
Veem em Isaías a profecia de Cristo no Antigo Testamento. Os pais da Igreja, como Jerônimo, escreveram comentários sobre o livro e o liam como anúncio de Jesus, com Emanuel, o rebento de Jessé e o servo sofredor. A liturgia o usa muito, sobretudo no Advento. Reconhecem um sentido imediato, histórico, e um sentido pleno, que se revela no Novo Testamento.
Protestante conservadora
Defende, em geral, a unidade do livro, atribuída a Isaías de Jerusalém, e vê a menção a Ciro como predição. Entende o servo de como Jesus, com cumprimento direto, e lê Emanuel como sinal em duas etapas: a promessa a Acaz e o cumprimento pleno em Cristo. Calvino, em seu comentário, dá atenção expressa ao contexto histórico de cada oráculo.
Crítico-histórica
Entende o livro como obra formada em fases: Isaías no século VIII, um profeta no exílio (40 a 55) e círculos posteriores (56 a 66), desde Duhm, em 1892. Interpreta os textos primeiro em sua situação original e vê o Novo Testamento como releitura. Autores recentes, como Williamson e Childs, discutem se o foco deve estar nas camadas ou na forma final do livro.
O que fazer com isso
Leia Isaías por seções, perguntando em cada uma a quem o texto se dirigia: um rei assustado, um povo no exílio ou uma comunidade decepcionada. Depois pergunte o que mudaria se você estivesse no lugar dele. Isso evita tanto o hábito de extrair frases soltas quanto a pressa de reduzir o livro a profecias. Observe também que, em quase todas as seções, a pergunta é a mesma: em quem se confia quando os recursos humanos parecem insuficientes.
Perguntas frequentes
- Quem escreveu o livro de Isaías?
- A tradição judaica e cristã antiga atribui o livro inteiro a Isaías de Jerusalém, do século VIII a.C. Muitos estudiosos, desde o fim do século XVIII, propõem que as seções 40 a 55 e 56 a 66 vieram de profetas posteriores. O estudo apresenta os argumentos das duas posições, sem decidir entre elas.
- Isaías 53 fala de Jesus?
- O Novo Testamento aplica o texto a Jesus (At 8:32-35; 1 Pe 2:22-25), e a tradição cristã o lê assim. A tradição judaica tradicional identifica o servo com Israel. Estudiosos históricos propõem ainda outros candidatos. O texto em si não nomeia o servo.
- Quem foi Ciro e por que Isaías o menciona?
- Ciro foi o rei persa que conquistou a Babilônia em 539 a.C. e permitiu o retorno de povos deportados. e 45:1 o chamam de pastor e ungido do Senhor, embora ele não conhecesse o Deus de Israel. A menção a ele é central no debate sobre a unidade do livro.
- O que significa Emanuel?
- Em hebraico, 'Immanu El quer dizer 'Deus conosco'. Em é o nome de um menino que serve de sinal a Acaz; em é aplicado a Jesus. A discussão está em como se relacionam o sentido original e a releitura do evangelho.
Fontes consultadas
- Orígenes. Contra Celso, 248.
- Jerônimo. Comentário sobre Isaías, 410.
- João Calvino. Comentário sobre o profeta Isaías, 1559.
- Bernhard Duhm. Das Buch Jesaja, 1892.
- John N. Oswalt. The Book of Isaiah (New International Commentary on the Old Testament), 1986.
- H. G. M. Williamson. The Book Called Isaiah, 1994.
- Brevard S. Childs. Isaiah (Old Testament Library), 2001.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.