Jejum: o que a Bíblia ensina sobre abster-se
o que a bíblia diz sobre jejum
Resposta curta
O jejum aparece na Bíblia inteira, mas quase nunca como lei geral. No Antigo Testamento, só o Dia da Expiação traz a ordem de "afligir a alma"; o restante é costume voluntário diante de luto, ameaça ou arrependimento, como em Davi, Ester e Joel. Os profetas, em Isaías e Zacarias, discutem o sentido do gesto e recusam o jejum que convive com injustiça. Jesus pressupõe a prática em , corrige a exibição e, em , liga o jejum à ausência do noivo. Em Atos, a comunidade jejua ao enviar missionários e designar presbíteros. Este estudo percorre essas camadas em seis partes, mostra como católicos, ortodoxos e protestantes regularam a abstinência, trata com honestidade do corpo e da saúde e examina a tentação de usar o jejum como moeda de troca com Deus.
Em palavras simples
O jejum, na Bíblia, é ficar sem comer por um tempo para expressar luto, súplica ou arrependimento diante de Deus. O Antigo Testamento só manda jejuar no Dia da Expiação; nos demais casos é voluntário. Os profetas avisam que jejum sem justiça não agrada a Deus. Jesus diz "quando jejuardes" e pede que não se faça de modo a ser admirado. Na igreja de Atos, jejuava-se ao decidir sobre missão e liderança. Católicos, ortodoxos e protestantes seguem calendários e costumes diferentes. Quem tem problemas de saúde deve buscar orientação médica antes de jejuar.
Antes de começar
O vocabulário do jejum é mais simples do que a prática construída em volta dele. Em hebraico, a palavra mais comum é צום (tsom), que designa a abstenção de comida, às vezes também de bebida, por um período determinado. A Torá usa outra expressão para o único dia em que o jejum é ordenado: "afligir a alma" (; 23:27), de onde a tradição concluiu que o Dia da Expiação, Yom Kippur, é dia de abstenção de comida. Em grego, o Novo Testamento usa νηστεία (nēsteía) e o verbo νηστεύω (nēsteúō), que significam, em sentido literal, não comer.
O jejum bíblico quase nunca aparece sozinho. Vem com pano de saco, cinzas, terra sobre a cabeça, choro e vestes rasgadas (; ; ). Num mundo em que a emoção se expressava com o corpo todo, recusar o alimento era uma das maneiras de dizer a Deus "não estou bem" ou "preciso de ti". É gesto de luto, de súplica e de arrependimento antes de ser disciplina espiritual regular.
Isso importa para a leitura, porque a palavra "jejum" carrega hoje sentidos que o texto não traz. Para muitos, é um método de intensificar a oração, de buscar uma bênção ou de ganhar clareza; para outros, é um costume do calendário litúrgico, como a Quaresma; e, no uso recente, é também uma prática de saúde. Nenhum desses sentidos está ausente da história cristã, mas nenhum deles é, sozinho, o sentido do texto bíblico. O estudo avança por camadas para ver o que cada passagem diz e onde começam as extensões.
Há ainda um ponto de cronologia. Na época de Jesus, a prática judaica já incluía jejuns além do Dia da Expiação: os fariseus jejuavam com regularidade (), os discípulos de João também () e Ana, no templo, servia a Deus com jejuns e orações (). Os primeiros cristãos herdaram esse mundo, e a Didaquê, texto cristão primitivo de datação debatida, já recomenda jejuar às quartas e sextas, em vez de às segundas e quintas, que associa aos "hipócritas" (Didaquê 8:1). A passagem do jejum bíblico ao jejum eclesiástico é antiga, e não invenção medieval nem protestante.
Como isso aponta para Jesus
Cumprimento diretoO jejum do Antigo Testamento é gesto de ausência: o povo clama porque Deus parece distante. Em , Jesus apresenta-se como o noivo e diz que sua presença muda o sentido do gesto: enquanto ele está presente, é tempo de festa, e o jejum volta quando ele é tirado. O deserto de mostra o Filho vivendo de dependência da palavra do Pai, e a recusa de transformar pedras em pão aponta para alguém que não usa a própria posição para si mesmo.
Respaldo no Novo Testamento:
As partes do estudo
1.Jejum no Antigo Testamento: luto, súplica e arrependimento
Quem abre a Bíblia procurando uma lei geral do jejum encontra primeiro uma surpresa: o Antigo Testamento quase não manda jejuar. A Torá prescreve, em Levítico 16:29-31 e 23:27-32, que no décimo dia do sétimo mês o povo "afligirá a alma", e a tradição judaica e a cristã leram essa expressão como abstenção de comida. Isaías 58:3 põe "jejuar" e "afligir a alma" em paralelo, e Atos 27:9 chama o Dia da Expiação simplesmente de "o jejum". Fora dessa data, o jejum das narrativas é voluntário e quase sempre nasce de algo que acabou de acontecer.
O padrão é consistente. Jejua-se de luto: os homens de Jabes-Gileade jejuam sete dias pela morte de Saul (1 Samuel 31:13), e Davi faz o mesmo (2 Samuel 1:12). Jejua-se diante da ameaça: Josafat proclama jejum em todo o Judá quando um exército se aproxima (2 Crônicas 20:3), e Ester pede que os judeus de Susã passem três dias sem comer nem beber antes de ela se apresentar ao rei sem ter sido chamada (Ester 4:16). Jejua-se para confessar: em Neemias 9:1 o povo se reúne com jejum, pano de saco e terra sobre a cabeça. E jejua-se por um doente: quando o filho de Bate-Seba adoece, Davi passa os dias deitado no chão, sem comer (2 Samuel 12:16).
Joel dá o texto mais claro sobre o que se espera do gesto. O profeta convoca um jejum solene diante de uma praga de gafanhotos (Joel 1:14) e logo depois diz: "Rasgai o vosso coração, e não as vossas vestes" (Joel 2:13). O jejum é, então, o corpo dizendo o que o coração deveria estar dizendo: pequenez, dependência, arrependimento. Fora do coração, as vestes rasgadas e o estômago vazio não significam nada.
Convém notar o que o texto não diz. Não há, no Antigo Testamento, regra de frequência para o jejum individual, lista do que se deve evitar nem explicação de por que a abstenção de comida acompanha a súplica. Os quarenta dias de Moisés no monte, sem pão e sem água (Êxodo 34:28), e os quarenta dias de caminhada de Elias até o Horebe (1 Reis 19:8) aparecem como acontecimentos extraordinários ligados à presença de Deus, não como modelos propostos ao povo. Mais tarde, Zacarias 8:19 menciona quatro jejuns anuais, que a tradição judaica associa às tragédias da queda de Jerusalém. A prática cresce, portanto, por costume e por memória coletiva, e é por isso mesmo que os profetas poderão discutir o seu sentido. É o assunto da próxima parte.
Para conversar
- Nas narrativas, o jejum quase sempre responde a um acontecimento (morte, ameaça, doença, culpa). O que muda na leitura quando se vê o jejum como reação, e não como rotina?
- Joel pede que se rasgue o coração, e não as vestes. Que gestos de hoje poderiam cumprir o papel das vestes rasgadas, isto é, parecer sinceros sem ser?
- O texto antigo não explica por que o jejum acompanha a súplica. Que explicações você já ouviu, e quais delas o texto de fato sustenta?
2.Jejum e justiça: a crítica dos profetas à barganha
Se o jejum fosse apenas um meio de conseguir uma resposta, seria uma técnica, e os profetas passam boa parte do tempo impedindo que ele vire isso. O texto central é Isaías 58. O povo reclama: "Por que jejuamos, e tu não o vês? Por que afligimos a nossa alma, e tu não o sabes?" (v. 3). A resposta é desconfortável: no dia do jejum vocês cuidam dos seus negócios, exigem o trabalho de todos os empregados e jejuam entre contendas. Seria esse o jejum que escolhi, pergunta Deus, um dia de cabeça inclinada como um junco (vv. 5-7)? O jejum que ele diz escolher é "soltar as ligaduras da impiedade", desfazer cargas pesadas, repartir o pão com o faminto, abrigar o pobre sem casa, vestir o nu.
Zacarias 7 repete a lógica. Uma delegação pergunta se deve manter o jejum do quinto mês, que lembrava a destruição do templo. Deus responde com uma pergunta: "Porventura foi para mim que jejuastes?" (v. 5). Depois vem a pauta que ele prefere: julgar com verdade, praticar misericórdia e não oprimir a viúva, o órfão, o estrangeiro e o pobre (vv. 9-10). Jeremias 14:12 é mais duro: Deus diz que, quando jejuarem, não ouvirá o seu clamor.
Há duas leituras honestas desses textos. Uma entende que os profetas desqualificam o jejum ritual quando ele convive com injustiça. Outra, que eles não o abolem, e sim o definem: o jejum aceito por Deus inclui o pão repartido. Isaías 58 favorece a segunda, pois promete resposta, "Então clamarás, e o Senhor te responderá" (v. 9), a quem faz as duas coisas. Nenhuma das duas permite separar o jejum de seu efeito sobre o próximo.
Se o jejum funciona, o Antigo Testamento tem dois registros. Esdras proclama jejum para pedir caminho seguro e conclui que Deus o atendeu (Esdras 8:21-23). Os ninivitas jejuam, e Jonas 3:9 registra só um "quem sabe". E Davi, em 2 Samuel 12:22-23, explica por que jejuou enquanto o filho vivia: "Quem sabe o Senhor terá compaixão de mim, e a criança viverá?" A criança morreu. Davi se levanta, lava-se e pede comida. O texto não comenta: o jejum é súplica, e a súplica não obriga quem ouve.
É a diferença entre pedir e barganhar. Quem barganha trata o jejum como pagamento; quem suplica o trata como o gesto de quem nada tem a oferecer. Em Joel 2:13 o argumento é o caráter de Deus, compassivo e lento para se irar, e não a quantidade de dias sem comer.
Para conversar
- pode ser lido como crítica ao jejum ou como definição do jejum verdadeiro. Qual leitura lhe parece mais fiel ao texto, e o que cada uma mudaria na prática?
- Davi jejuou, e a criança morreu. Como uma comunidade pode falar de jejum e súplica sem prometer o que o texto não promete?
- Onde, na vida de uma igreja ou de uma família, o jejum e a injustiça poderiam coexistir sem que ninguém perceba, como no ?
- Qual é, para você, a linha entre suplicar e barganhar com Deus? Ela passa pelo gesto ou pela intenção de quem o faz?
3.Jesus: o deserto e o jejum que não se exibe
Os evangelhos mostram Jesus jejuando de modo explícito uma vez e ensinando sobre a prática uma vez, e cada texto diz uma coisa diferente. Em Mateus 4:1-2, o Espírito o conduz ao deserto, ele jejua quarenta dias e quarenta noites e, depois, tem fome. Lucas 4:2 diz que ele nada comeu naqueles dias. Marcos 1:12-13 menciona o deserto e a tentação, mas não fala de jejum. A cena costuma ser lida como eco dos quarenta anos de Israel no deserto e de Moisés no Sinai, e a primeira resposta de Jesus ao tentador cita Deuteronômio 8:3, texto sobre o maná e a fome: "nem só de pão viverá o homem". Os evangelhos não o apresentam como modelo de prática: narram uma fome real e a recusa de usar o próprio poder para saciar-se.
O ensino sobre a prática está em Mateus 6:16-18, no Sermão do Monte. "Quando jejuardes", diz Jesus, na mesma fórmula usada para a esmola (6:2) e a oração (6:5). Ele não escreve "se", mas também não impõe calendário: supõe o gesto e corrige a motivação. Os hipócritas desfiguram o rosto para que os homens vejam que jejuam, e essa visibilidade é a única recompensa que terão. O discípulo, ao contrário, deve ungir a cabeça e lavar o rosto, isto é, parecer num dia de jejum o que parece num dia comum, para que o jejum seja visto "por teu Pai, que está em secreto".
Duas observações ajudam. A primeira: o alvo do texto não é o jejum, e sim a exibição, e o mesmo tratamento dado à esmola e à oração não leva ninguém a aboli-las. A segunda: a promessa final, "e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará", não diz em que consiste a recompensa. Os intérpretes divergem: alguns veem uma resposta às petições, outros a própria comunhão com o Pai, outros uma retribuição no fim dos tempos. O texto é silencioso.
Há, por fim, um contraste útil. O jejum do deserto é extraordinário e solitário, e o de Mateus 6 é cotidiano e discreto. Os evangelhos não pedem ao discípulo que repita o primeiro, e sim que pratique o segundo sem plateia. Lucas 18:9-14 completa o quadro: um fariseu lista, em oração, que jejua duas vezes por semana, e é o cobrador de impostos que volta justificado para casa. O texto não condena o jejum do fariseu, mas o seu uso como argumento diante de Deus, a barganha de que os profetas já falavam.
Para conversar
- trata esmola, oração e jejum com o mesmo critério. O que acontece quando uma comunidade valoriza uma dessas três práticas em público e esquece as outras?
- Jesus diz 'quando jejuardes', e não 'se'. Isso basta para concluir que o jejum é obrigatório? Que outros elementos do texto pesam nessa conclusão?
- É possível falar do próprio jejum sem exibi-lo? Em que situações compartilhar a prática ajuda, e em quais ela passa a ser vitrine?
4.O noivo, a espera e o envio: Marcos 2 e Atos
Marcos 2:18-20 coloca o jejum em forma de pergunta. Os discípulos de João e os fariseus jejuavam, e os de Jesus não. Por quê? A resposta é uma imagem de casamento: "Podem acaso os convidados do noivo jejuar enquanto o noivo está com eles?" Depois vem a frase que gerou séculos de debate: virão dias em que o noivo lhes será tirado, e "naquele dia" jejuarão. Mateus 9:15 diz que os convidados não podem estar de luto enquanto o noivo está presente. A lógica é de tempo. Jejum é gesto de ausência e de luto, e a presença de Jesus é tempo de festa.
Quando são os dias do noivo tirado? A tradição divide-se. Uma leitura aponta os dias da paixão, entre a prisão e a ressurreição. Outra entende todo o período entre a ascensão e a volta de Cristo, e é a que sustenta, em ortodoxos, católicos e em muitos protestantes, a ideia de que o jejum é próprio do tempo da Igreja. Uma terceira lê a imagem como princípio, não como calendário: o jejum cabe quando expressa saudade e espera, e não como regime obrigatório. Marcos não resolve a questão, e acrescenta as imagens do remendo e dos odres novos (2:21-22), que sugerem que a novidade de Jesus não cabe em formas antigas de piedade, sem dizer que o jejum seja abolido.
Atos mostra o que uma comunidade fez nesse tempo. Em Atos 13:1-3, a igreja de Antioquia tem cinco profetas e mestres, entre eles Barnabé e Saulo, e "enquanto ministravam ao Senhor e jejuavam" o Espírito Santo diz: "Separai-me Barnabé e Saulo para a obra a que os tenho chamado". A comunidade jejua e ora de novo, impõe as mãos e os despede. Em Atos 14:23, Paulo e Barnabé designam presbíteros em cada igreja, "orando com jejuns", e os encomendam ao Senhor. O jejum, em Atos, é coletivo e acompanha decisões de missão e de liderança. O texto não diz que o jejum tenha causado a fala do Espírito, nem por quantos dias durou. Diz apenas que praticavam o jejum quando a direção veio.
Uma advertência de crítica textual: em Marcos 9:29, alguns dos manuscritos mais antigos trazem apenas "esta casta só sai com oração", e a menção a jejum aparece em outros. Mateus 17:21, que repete a ideia, falta nos manuscritos mais antigos, e muitas traduções modernas o põem em nota. Quem constrói um ensino sobre "jejum para libertação" apoiado nesses versículos deve saber que o texto é incerto.
Para conversar
- O jejum, em , é um gesto de ausência. O que significa 'sentir a ausência de Cristo' para quem crê que ele está presente pelo Espírito?
- Atos mostra a igreja jejuando ao decidir sobre envio e liderança. Que decisões de uma comunidade hoje seriam tratadas com esse mesmo cuidado, e quais são resolvidas sem nenhum?
- Das três leituras dos 'dias do noivo tirado' (paixão, tempo da Igreja, princípio), qual lhe parece mais convincente, e por quê?
- Como lidar com um ensino popular que depende de um versículo cuja presença nos manuscritos é incerta?
5.Abstinência e tradições: o que a Igreja fez do jejum
Com os séculos, o jejum bíblico, voluntário e de ocasião, virou calendário, e a abstenção total de comida deu lugar à abstinência de certos alimentos. O Novo Testamento já tinha discutido a questão. Em Romanos 14:1-6, Paulo manda acolher quem come só legumes e quem observa certos dias, sem que um despreze o outro, e conclui que "o reino de Deus não é comida nem bebida" (14:17). Colossenses 2:16-23 recusa que alguém seja julgado por comida, bebida ou festas, e 1 Timóteo 4:1-5 critica quem proíbe alimentos que Deus criou. Os textos não condenam o jejum, mas recusam transformar regra alimentar em medida de santidade.
A Didaquê (8:1), de datação debatida entre o fim do século I e o início do II, manda jejuar às quartas e sextas, para não coincidir com os dias dos "hipócritas". O Pastor de Hermas, do século II, recomenda que o valor economizado ao jejuar seja dado a uma viúva, a um órfão ou a um necessitado, eco claro de Isaías 58. A Quaresma tomou forma nos séculos seguintes, com quarenta dias de preparação para a Páscoa.
A tradição católica manteve o jejum como penitência regulada. O Código de Direito Canônico de 1983 fixa a Quarta-feira de Cinzas e a Sexta-feira Santa como dias de jejum e abstinência de carne, as sextas como dias penitenciais, e prevê que as conferências de bispos possam substituir a abstinência por outras formas de penitência. A ortodoxa conserva quatro períodos anuais de jejum e as quartas e sextas, com abstinência de carne, laticínios e ovos, e, em dias mais severos, de peixe, vinho e óleo, conforme a jurisdição e o pai espiritual.
A Reforma questionou a obrigação, não a prática. Em 1522, em Zurique, a controvérsia das salsichas comidas na Quaresma levou Zwínglio a escrever sobre a liberdade em matéria de alimentos. Lutero e a Confissão de Augsburgo (artigo 26) rejeitam o jejum como mérito e como lei imposta, e Calvino, nas Institutas (IV, 12), distingue o jejum público do privado e o verdadeiro do hipócrita. João Wesley manteve o jejum entre os meios de graça, com as quartas e sextas herdadas dos anglicanos. Entre pentecostais e carismáticos, o jejum é com frequência uma prática convocada, com motivo e prazo definidos, às vezes inspirada no "jejum de Daniel" (Daniel 10:2-3).
Convém distinguir o que o texto diz do que a tradição construiu sobre ele. Cada uma responde a perguntas que o texto deixou abertas: quando, por quanto tempo, de quê e sob que autoridade.
Para conversar
- Paulo recusa que a comida seja medida de santidade, mas não condena quem jejua. Como equilibrar a prática de uma tradição com o respeito a quem pratica diferente?
- Que vantagens e que riscos você vê em um jejum regulado por calendário (Quaresma, quartas e sextas) em comparação com um jejum convocado para uma ocasião?
- O Pastor de Hermas pede que o valor poupado no jejum seja dado a quem precisa. Como esse costume dialoga com em uma realidade como a sua?
- Por que o 'jejum de Daniel' é um nome tão popular se descreve luto, e não um regime alimentar?
6.Jejum, corpo e saúde: o que muda na vida
Nenhum texto bíblico apresenta o jejum como técnica de saúde. As abstenções do Antigo Testamento são de luto, súplica ou arrependimento, e a de Mateus 6 é uma prática de devoção. Isso não torna a pergunta ilegítima, porque quem jejua usa o próprio corpo, e o corpo tem limites. A Bíblia, aliás, não os esconde: Jesus tem fome depois dos quarenta dias (Mateus 4:2), e o jejum de Ester, de três dias sem água, é narrado sem ser proposto como método (Ester 4:16).
A ciência, por sua vez, não oferece uma resposta única. O jejum intermitente e os jejuns mais longos têm sido estudados, com resultados que variam conforme o tipo de jejum, a população e o desfecho avaliado, e o debate entre pesquisadores continua em andamento. O que há de relativamente firme é a lista de cuidados. Pessoas com diabetes que usam insulina ou certos medicamentos correm risco de hipoglicemia. Grávidas, lactantes, crianças, adolescentes e idosos frágeis exigem atenção especial. Quem tem histórico de transtorno alimentar encontra no jejum religioso um terreno delicado, porque a restrição pode ser praticada com boas razões e funcionar como sintoma. Jejuns prolongados pedem acompanhamento, e a volta à alimentação depois de muitos dias sem comer precisa ser gradual.
As próprias tradições sabem disso. A norma católica limita o jejum a uma faixa de idade, e as tradições católica e ortodoxa preveem dispensa por doença, gravidez e outras necessidades, em geral com a orientação do pastor ou do confessor. Isso não é frouxidão: a lógica de Isaías 58 e de Mateus 6 é que o jejum sirva à devoção e ao próximo, e não que cobre do corpo uma prova. Quando o jejum total é inviável, muitos cristãos recorrem a formas parciais ou a outras abstenções, como tempo de tela ou consumo. A Bíblia fala de comida, e a extensão do gesto a outras coisas vem por analogia, não por mandamento.
O que muda, então, na vida? Três perguntas resumem o percurso. Para quê: se o jejum é súplica ou arrependimento, como em Joel, ou se virou pagamento, como nas críticas de Isaías e Zacarias. Diante de quem: do Pai que vê em secreto, ou de uma plateia. E com que efeito sobre o próximo: o pão repartido de Isaías 58 é o teste que o próprio texto propõe. Sobre cada uma delas, as tradições cristãs dão respostas práticas diferentes, e nenhuma delas dispensa o texto.
Para conversar
- Se o texto bíblico não trata o jejum como prática de saúde, que cuidado uma comunidade deveria ter ao incentivar jejuns longos entre seus membros?
- Uma pessoa que não pode jejuar de comida por razão médica pode viver o que o jejum bíblico expressa? De que formas, e com que limites?
- Das três perguntas finais (para quê, diante de quem, com que efeito sobre o próximo), qual costuma ficar de fora quando se fala de jejum?
- O que significaria, concretamente, o 'pão repartido' de na sua vida ou na sua igreja neste ano?
O que fica
- No Antigo Testamento, só o Dia da Expiação traz ordem de jejum; nos demais casos ele é resposta voluntária a luto, ameaça ou culpa.
- e não deixam separar o jejum da justiça: o pão repartido é parte do teste.
- Jesus supõe o jejum e corrige a exibição, mas o texto não fixa frequência, e as tradições cristãs divergem sobre quanto regulá-lo.
- O jejum é súplica, não pagamento: a Bíblia mostra jejuns atendidos e jejuns sem o desfecho pedido, e nada autoriza usá-lo como moeda de troca.
- A Bíblia é silenciosa sobre jejum e saúde. Cuidar do corpo e buscar orientação médica não contradiz o sentido do gesto.
Aprofundamento
Quatro pontos concentram a discussão sobre o jejum, e vale separá-los. O primeiro é se ele é mandamento. No Antigo Testamento, a única ordem é a do Dia da Expiação, e mesmo ela fala em "afligir a alma", expressão que a tradição interpretou como abstenção de comida. No Novo Testamento, diz "quando jejuardes", o que supõe a prática sem fixar frequência. Para católicos e ortodoxos, a Igreja pode regular a prática, e o faz com calendário. Para a tradição reformada e a luterana, a obrigação não pode vir de fora, e o jejum permanece livre. Cada posição se apoia nos mesmos textos e os lê com perguntas diferentes.
O segundo é o que o jejum faz. Os textos antigos o associam a súplica, luto e arrependimento, mas não explicam o mecanismo. Algumas tradições o entendem como expressão sincera de humildade que Deus acolhe; outras, como disciplina que educa o desejo e libera atenção para a oração; e há quem o apresente, de modo mais discutível, como instrumento que "libera" respostas. A última leitura tem pouco apoio no texto e encontra um contrapeso em , em que o jejum não evita a morte da criança, e em , em que Deus recusa o jejum separado da justiça.
O terceiro é a frase de , "então jejuarão naquele dia". Se ela designa os dias da paixão, o jejum cristão tem pouca base nesse texto. Se designa o tempo entre a ascensão e a volta de Cristo, ele fica sendo próprio da Igreja. Se descreve um princípio, o jejum depende da disposição de quem o pratica. O texto não escolhe entre as três, e as três já foram sustentadas por intérpretes sérios.
O quarto é a distinção entre jejum e abstinência. O Antigo Testamento conhece o jejum total (), o parcial () e o de um dia até a tarde (). Com o tempo, as tradições litúrgicas passaram a regular a qualidade do alimento mais do que a sua ausência, e a abstinência de carne ou de laticínios tornou-se o modo corrente de jejuar. e avisam que isso pode virar medida de santidade, o que nenhuma tradição histórica diz querer.
Por fim, existe um deslocamento moderno que merece atenção: a leitura do jejum como prática de saúde. O texto bíblico é silencioso sobre isso, e a evidência científica é discutida. Quem o pratica por esse motivo pode fazê-lo com liberdade, desde que não o apresente como o jejum de que a Bíblia fala.
O que costumam dizer errado
Dizem que:Quanto mais dias de jejum, mais certo é que Deus responda.
O texto bíblico não sustenta essa lógica. Em , Davi jejua sete dias e a criança morre. Em e , Deus recusa o jejum de quem vive em injustiça, por mais prolongado que seja. registra só um 'quem sabe'. O jejum é súplica, e a súplica não obriga quem ouve.
Dizem que:Mateus 17:21 e Marcos 9:29 provam que certos demônios só saem com jejum.
Em , alguns dos manuscritos mais antigos trazem apenas 'oração', e a menção a jejum aparece em outros. está ausente dos manuscritos mais antigos, e muitas traduções modernas o põem em nota. Um ensino que dependa desses versículos precisa assumir que o texto é incerto.
Dizem que:O jejum bíblico é sempre ficar vários dias sem comer e sem beber.
O jejum de um dia é o mais comum, até a tarde () ou de tarde a tarde (). O jejum parcial aparece em , em que se evita pão desejável, carne e vinho. O de três dias sem água, em , é narrado como medida extrema, e os quarenta dias de Moisés () e de Jesus () como acontecimentos extraordinários.
Dizem que:Jesus aboliu o jejum ao dizer que seus discípulos não jejuavam.
Em , Jesus diz que 'naquele dia' os discípulos jejuarão, e em fala de jejum com a fórmula 'quando jejuardes'. A conversa em trata de quando o gesto faz sentido, não de sua extinção. Em e 14:23, a igreja jejua.
Como diferentes tradições cristãs leem
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Católica
O jejum é obra de penitência, ligada à conversão e à Quaresma. O Código de Direito Canônico (1983) estabelece como dias penitenciais todas as sextas-feiras e o tempo da Quaresma, com jejum e abstinência de carne na Quarta-feira de Cinzas e na Sexta-feira Santa. O jejum obriga os maiores de idade até começarem os 60 anos, e a abstinência, a partir dos 14. As conferências episcopais podem substituir a abstinência das sextas, fora da Quaresma, por outras formas de penitência. Há ainda o jejum eucarístico, de uma hora antes da comunhão.
Ortodoxa
O jejum é parte do combate espiritual e está sempre ligado à oração e à esmola. A Igreja guarda quatro períodos anuais (a Grande Quaresma, o Jejum dos Apóstolos, o da Dormição e o do Natal) e as quartas e sextas. A abstinência é de carne, laticínios e ovos e, nos dias mais severos, de peixe, vinho e óleo. As regras variam entre jurisdições e são aplicadas com a orientação do pai espiritual, que pode dispensar por doença ou necessidade.
Luterana e reformada
Rejeitam o jejum como mérito e como obrigação imposta pela Igreja, mas o conservam como exercício livre e como resposta pública a momentos de crise. A Confissão de Augsburgo (art. 26) combate a ideia de que distinções de alimento justificam alguém diante de Deus. Calvino, nas Institutas (IV, 12), distingue o jejum público do privado e o verdadeiro do hipócrita, e afirma que ele não pode ser reduzido a mera abstenção externa.
Anglicana e metodista
Mantém o jejum entre os meios de graça, ao lado da oração e da Escritura. O Livro de Oração Comum prevê dias de jejum e abstinência, e João Wesley e os primeiros metodistas jejuavam às quartas e sextas, em continuidade com o costume anglicano. Wesley comentou num sermão dedicado ao tema.
Pentecostal e carismática
Pratica o jejum como intensificação da oração, individual ou coletivo, com motivo e prazo definidos (campanhas de três, sete ou quarenta dias, ou o chamado jejum de Daniel). Apoia-se em e e se regula menos pelo calendário e mais pela convocação da liderança ou da congregação. As críticas, de dentro e de fora, apontam o risco de transformar o jejum em técnica para obter resultados.
O que fazer com isso
Antes de adotar ou rejeitar uma prática de jejum, pergunte o que o texto que a sustenta realmente diz: é luto, súplica, preparação, calendário ou costume? Depois, aplique o teste que os profetas e Jesus propõem. O jejum é feito diante de Deus ou de plateia, e deixa alguém mais alimentado, mais livre ou mais bem tratado? Se não, o problema não é o jejum, mas o lugar que ele ocupa. Ajuste a prática ao seu corpo, com orientação médica quando for o caso.
Perguntas frequentes
- Jesus mandou os discípulos jejuarem?
- Em , Jesus diz 'quando jejuardes', o que supõe a prática, mas não fixa frequência nem duração. Em afirma que os discípulos jejuarão 'naquele dia', depois que o noivo for tirado. Católicos e ortodoxos leem isso como base para o jejum regulado pela Igreja; muitos protestantes, como prática livre e voluntária.
- Jejum é só deixar de comer?
- No texto bíblico, jejum é sobretudo abster-se de comida, em alguns casos também de bebida. Há formas parciais, como em . As tradições estenderam a prática à abstinência de certos alimentos e, mais recentemente, a outras abstenções, como tempo de tela. A extensão é por analogia, não por mandamento.
- Jejuar faz Deus responder?
- A Bíblia registra jejuns seguidos de resposta () e jejuns sem o resultado pedido (). Os profetas deixam claro que o jejum não funciona como pagamento (; ). O texto apresenta o jejum como súplica, e a súplica não obriga quem a ouve.
- Quem tem problemas de saúde pode jejuar?
- Convém procurar orientação médica antes de jejuar, sobretudo em caso de diabetes, gravidez, amamentação, uso de medicamentos, idade avançada ou histórico de transtorno alimentar. As tradições católica e ortodoxa preveem dispensa por doença, e é possível viver o sentido do jejum por formas parciais ou por outras abstenções.
Fontes consultadas
- Anônimo. Didaquê, cap. 8.
- Basílio de Cesareia. Homilias sobre o Jejum.
- João Calvino. Institutas da Religião Cristã, livro IV, cap. 12, 1559.
- Paulo VI. Constituição apostólica Paenitemini, 1966.
- Alexander Schmemann. Great Lent: Journey to Pascha, 1969.
- Richard Foster. Celebração da Disciplina, 1978.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.