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Significado Bíblico
Estudo completoPara uma classe55 minavançada

Guerra e paz: o que a Bíblia diz sobre violência e shalom

o que a bíblia diz sobre guerra e paz

Resposta curta

A Bíblia guarda, lado a lado, batalhas narradas com naturalidade, a ordem de destruição total das cidades de Canaã, a promessa profética de espadas viradas em enxadas e um mestre que manda amar o inimigo. Este estudo não escolhe uma dessas vozes para calar as outras. Percorre em seis partes o vocabulário de shalom e herem, o livro de Josué, Davi e o templo que lhe foi negado, os profetas, Jesus e os soldados do Novo Testamento, e o que as tradições cristãs fizeram com esse material: guerra justa, pacifismo e cruzada. Mostra onde o texto é claro, onde é silencioso e onde as igrejas divergem de verdade, sem moralizar nem atenuar o que é difícil.

Em palavras simples

A Bíblia fala de guerra e de paz. Há batalhas contadas, uma ordem terrível de destruir cidades inteiras no livro de Josué, o rei Davi que lutou muito e não pôde construir o templo, profetas que sonham com espadas viradas em enxadas, e Jesus, que manda amar o inimigo. Shalom, a palavra hebraica para paz, quer dizer vida inteira e em ordem, não só ausência de briga. As igrejas discordam: umas defendem a guerra justa em certos casos, outras são pacifistas, e todas reconhecem que as cruzadas foram longe demais. Este estudo mostra cada ponto.

Antes de começar

O pano de fundo é um mundo em que quase todo reino entendia a guerra como assunto religioso: o deus de cada povo lutava por ele, e a vitória era prova de que esse deus era mais forte. Israel nasce nesse ambiente, e os livros antigos falam do Senhor como guerreiro (). Mas o próprio Êxodo coloca a primeira libertação do povo sem espada: em , Israel assiste e o Senhor luta. Esse detalhe conta, porque a fé de Israel carrega desde cedo a ideia de que a vitória não vem da força militar.

A palavra herem (חרם) designa o que é separado e entregue à destruição, e está ligada às ordens de Deuteronômio e Josué sobre as cidades de Canaã. Há verbetes próprios sobre guerra santa e herem no acervo; este estudo trata deles apenas na medida em que moldam o restante. A palavra shalom (שלום), por sua vez, descreve inteireza: saúde, segurança, justiça, relações em ordem. Ela é a medida pela qual o texto avalia a guerra, e não o contrário.

No Novo Testamento, o cenário muda. Israel vive sob ocupação romana, e a pergunta sobre a espada deixa de ser abstrata. Zelotas defendiam a luta armada, o templo e a elite sacerdotal se acomodavam a Roma, e Jesus aparece em meio a esse debate sem tomar nenhum dos dois partidos. Muitas das cenas que importam para o tema, como a entrada em Jerusalém e a noite da prisão, só fazem sentido nesse contexto.

Por fim, convém lembrar uma diferença que atravessa a história da leitura: a Bíblia é uma coleção de textos escritos em épocas muito distantes entre si. Uma ordem dada em um contexto de conquista, um salmo de vingança, uma promessa profética de paz e uma instrução de Jesus não têm o mesmo gênero, nem a mesma função. Ler tudo como lei uniforme, ou tudo como relato sem peso, empobrece o texto de qualquer forma.

Como isso aponta para Jesus

Cumprimento direto

O fio profético do rei que vem sem cavalo de guerra e traz paz às nações chega à entrada de Jesus em Jerusalém, montado em um jumento, citando . O Novo Testamento afirma que a inimizade entre povos é derrubada na cruz, e que Cristo é ele mesmo a nossa paz. O Apocalipse apresenta a vitória final como a do Cordeiro, e não como a de um exército humano: a palavra de Deus faz o que as espadas não fizeram.

Respaldo no Novo Testamento:

As partes do estudo

  1. 1.Um livro cheio de guerras e de uma palavra para a paz

    Quem abre a Bíblia procurando uma resposta limpa sobre guerra encontra, em poucas páginas, três coisas que parecem não caber juntas. Há batalhas contadas com naturalidade, algumas ordenadas por Deus. Há uma esperança persistente de um mundo sem armas. E há, no centro do Novo Testamento, um homem que manda amar o inimigo e morre sem reagir. Este estudo não começa decidindo qual das três é a verdadeira; começa admitindo que as três estão no texto e que qualquer leitura honesta precisa dar conta de todas.

    Convém fixar primeiro o vocabulário da outra ponta. A palavra hebraica shalom (שלום) costuma ser traduzida por paz, mas o português empobrece o que ela diz. Paz, para nós, é sobretudo ausência de conflito. Shalom é inteireza: saúde, segurança, comida na mesa, relações em ordem, justiça nos tribunais. Pode-se desejar shalom a alguém que não está em guerra nenhuma, e é assim que o termo aparece nas saudações do Antigo Testamento. Por isso o contrário de shalom não é exatamente a guerra, e sim tudo o que despedaça uma vida ou uma sociedade, de que a guerra é apenas a forma mais visível.

    A outra palavra, herem (חרם), designa o que é separado e entregue à destruição, e está ligada ao que se costuma chamar de guerra santa. Ela será tratada na parte seguinte, e há verbetes próprios no acervo tanto para shalom quanto para herem; aqui interessa só o que os dois conceitos fazem ao resto do assunto.

    O que fazem é fixar a tensão. De um lado, uma Bíblia que não finge que o povo de Deus nunca guerreou, nem esconde que os exércitos de Israel também mataram. De outro, uma Bíblia que chama de shalom o estado em que Deus quer ver o mundo e que aponta, do começo ao fim, para um futuro em que a violência cessa. A progressão das próximas partes segue esse fio: primeiro os textos mais duros, em Josué; depois o rei que guerreia e o templo que ele não pôde construir; em seguida os profetas, que imaginam o fim das armas; depois Jesus e a primeira geração de cristãos; por fim, o que as tradições fizeram com tudo isso e como o Apocalipse fecha a conta.

    Para conversar

    • Se shalom significa inteireza e não apenas ausência de conflito, o que isso muda na forma de ouvir a palavra paz em um texto bíblico?
    • Qual das três coisas — guerra narrada, esperança de um mundo sem armas, Jesus que não reage — você costuma deixar de fora quando fala do assunto? Por quê?
    • O que significa ler um livro que registra violência sem necessariamente aprová-la? Onde essa distinção ajuda e onde ela é usada como desculpa?
  2. 2.Josué e o herem: o texto mais difícil

    O herem é a parte da Bíblia que mais incomoda leitores de hoje, e não adianta amenizá-la. Em Deuteronômio 7:1-5 e 20:16-18, Israel recebe a ordem de devastar por completo as cidades de povos que habitavam Canaã, sem fazer tratado e sem poupar quem ali vivia. O livro de Josué narra a execução: Jericó cai em Josué 6, Ai em Josué 8, e Josué 10:40 resume que Josué destruiu tudo o que tinha fôlego. O texto atribui a ordem a Deus, e isso precisa ser enfrentado.

    Antes de qualquer leitura, observe o que o próprio texto faz com a ordem. Deuteronômio 20:10-15 manda oferecer paz às cidades distantes antes de atacá-las; o herem vale só para as cidades da terra prometida. Raabe e sua casa são poupadas em Josué 6:25, e os gibeonitas fazem aliança em Josué 9, o que a narrativa trata como engano e como fato consumado. O herem também não é privilégio de Israel: em Josué 7, quando Acã toma o que estava consagrado, é Israel que sofre a derrota, e o culpado é destruído com a família. E há um dado de contexto em Gênesis 15:16, onde a posse da terra é adiada porque a medida da iniquidade dos amorreus ainda não estava completa. O texto apresenta o herem como juízo, não como direito étnico.

    Há, porém, um problema interno: o livro diz que a conquista foi total e depois mostra que não foi. Josué 11:23 afirma que Josué tomou toda a terra; Josué 15:63 e Juízes 1 mostram povos cananeus ainda vivendo entre os israelitas. Daí as leituras. Uma entende a linguagem como hipérbole de guerra, comum em relatos de conquista do antigo Oriente Próximo, em que destruir tudo significa vitória decisiva; é a posição de estudiosos como Kenneth Younger e, de modo parecido, Paul Copan. Outra lê o texto de modo literal e responde à dificuldade moral com a tese do juízo divino sobre povos já condenados. Uma terceira, mais antiga, lê Jericó como alegoria da luta contra o pecado, como Orígenes já fazia em suas homilias sobre Josué. E há quem conclua que o texto registra como Israel entendeu a vontade de Deus, e não necessariamente o que Deus ordenou.

    Nenhuma é consensual. O que todas precisam admitir é que o próprio cânon não deixa o herem como regra permanente: ele aparece ligado a um momento, a um lugar e a um povo, e não é repetido como instrução para a igreja.

    Para conversar

    • Qual das quatro leituras (hipérbole, juízo literal, alegoria, relato da compreensão de Israel) lhe parece mais coerente com o próprio texto? Qual custo você teria de aceitar?
    • O que significa dizer que o texto trata o herem como juízo e não como direito étnico? Essa distinção resolve o incômodo ou apenas o desloca?
    • Como lidar, em um grupo de estudo, com a pessoa que simplesmente diz que esse texto não deveria estar na Bíblia?
    • Por que a pergunta sobre o herem ser ou não ser repetível pela igreja importa tanto para a história que virá nas partes seguintes?
  3. 3.Davi, o templo e o rei que derramou sangue

    Depois de Josué vêm os juízes e, com os reis, a guerra deixa de ser episódio e passa a ser política. Davi é o rei guerreiro por excelência: derrota o gigante em 1 Samuel 17, amplia as fronteiras, e muitos salmos que a tradição lhe atribui falam de combate com a franqueza de quem o praticou. O Salmo 144:1 agradece a Deus por treinar as mãos do rei para a guerra. A Bíblia não esconde o lado militar da fé de Israel nesse período.

    O ponto que costuma passar despercebido é o que a própria narrativa faz com esse sucesso. Davi quer construir uma casa para Deus, e o pedido não é aceito. Em 2 Samuel 7, o profeta Natã primeiro aprova a ideia e depois recebe uma palavra contrária: o templo ficará para o filho. O motivo aparece mais tarde, em 1 Crônicas 22:8 e 28:3, na voz do próprio Davi: ele derramou muito sangue e fez grandes guerras, e por isso não edificará casa ao nome de Deus. O templo, a coisa mais sagrada da vida de Israel, é negado ao homem que mais lutou por Israel. O texto não condena as guerras de Davi como tais, mas não deixa que elas sejam a última palavra sobre o que Deus quer habitar no meio do povo.

    O filho recebe o nome Salomão, da mesma raiz de shalom, e 1 Crônicas 22:9 o descreve como homem de descanso, a quem Deus daria paz com os inimigos ao redor. A associação entre templo e paz não é decorativa: o lugar onde Deus habita pede um estado de coisas em que o povo não vive em guerra. Que o reinado de Salomão acabe contado de forma bem menos pacífica pelos livros dos Reis é outra história, e a Bíblia a conta sem poupar o rei.

    Há ainda o lado que os Salmos mostram sem maquiagem. O Salmo 120:7 diz, em resumo, que o salmista é pela paz, mas que basta ele falar para os outros quererem guerra. O Salmo 46:9 apresenta Deus como quem faz cessar as guerras até os confins da terra. E o Salmo 137:9 termina com um desejo de vingança tão brutal que muitos leitores preferem pular. A tradição cristã sempre soube que a Bíblia contém orações que não devem ser imitadas, mas que também não devem ser apagadas, porque dizem a verdade sobre o que o sofrimento faz com as pessoas. Quem lê só os salmos pacíficos ou só os violentos está lendo metade do livro.

    Para conversar

    • O que significa para o relato bíblico negar o templo ao rei que mais guerreou? Isso é um julgamento sobre Davi, um limite para a violência, ou outra coisa?
    • Como você lê um salmo como o 137, que registra um desejo de vingança? Ele pode ser rezado hoje, estudado como testemunho, ou deixado de lado?
    • A fé de Israel unia a esperança de paz e a prática da guerra. Em que situações atuais as duas coisas também convivem dentro de uma mesma pessoa ou comunidade?
  4. 4.Os profetas e o fim das armas

    Os profetas escrevem em tempo de guerra, muitos deles com a Assíria e a Babilônia à porta, e é nesse cenário que produzem a imagem mais famosa de paz da Bíblia. Isaías 2:4 e Miqueias 4:3 dizem, quase com as mesmas palavras, que as nações converterão as espadas em enxadas e as lanças em foices, que um povo não levantará espada contra outro e que ninguém mais aprenderá a guerra. Miqueias 4:4 acrescenta o detalhe doméstico que sustenta a visão: cada um debaixo da sua videira e da sua figueira, sem ninguém que os atemorize. É shalom em sentido pleno, com segurança, terra e mesa.

    Uma peculiaridade ajuda a entender o tipo de texto. Joel 3:10 diz o contrário, quase com as mesmas palavras: forjai espadas com as vossas enxadas. Não é contradição; os profetas usam a imagem conforme a situação. Joel descreve o dia do juízo, Isaías e Miqueias descrevem o dia da restauração. As duas direções existem no mesmo cânone, e nenhuma delas é o fim da conversa.

    Outro ponto é o que acontece antes da inversão das armas. Em Isaías 2:2-4, o desarmamento é consequência de uma peregrinação: os povos sobem ao monte do Senhor para aprender os seus caminhos, e é ali que Deus julga entre as nações. A paz, portanto, não nasce de um tratado entre estados; nasce de uma arbitragem que as nações aceitam. O texto é uma promessa para os últimos dias, e não um programa político. Quem o cita como argumento para desarmar hoje precisa reconhecer que o profeta o coloca no futuro; quem o descarta como utopia precisa reconhecer que ele foi escrito justamente para quem vivia sob ameaça de exércitos reais.

    A figura do rei muda de acordo. Isaías 9:6-7 chama o filho prometido de Príncipe da Paz e diz que a paz do seu governo não terá fim; Zacarias 9:9-10 mostra um rei justo e humilde, montado em um jumento, e anuncia que o arco de guerra será quebrado e que ele falará paz às nações. O cavalo era o equipamento do exército. O jumento é o contrário disso, e é o animal que os evangelhos vão escolher para a entrada de Jesus em Jerusalém, citando exatamente esse texto.

    Os profetas também insistem em que a paz sem justiça é falsa. Jeremias 6:14 denuncia os que dizem paz, paz, quando não há paz, e Isaías 32:17 liga a paz ao fruto da justiça. Shalom, para eles, nunca é calmaria conseguida à custa de alguém.

    Para conversar

    • Por que Isaías e Miqueias colocam o fim das armas depois de uma peregrinação e de um julgamento, e não antes? O que isso diz sobre a origem da paz?
    • Joel inverte a imagem de Isaías. Como um leitor deve decidir qual dos dois textos fala a uma situação concreta, sem escolher só o que lhe agrada?
    • Jeremias chama de falsa a paz sem justiça. Que exemplos, pessoais ou coletivos, você reconhece de calmaria que se paga com o silêncio de alguém?
    • O que muda quando a promessa de paz é lida como esperança para o futuro, e não como programa para o presente? Há risco em cada leitura?
  5. 5.Jesus, a espada e os soldados

    O Sermão do Monte é o texto que mais pesa na discussão cristã. Em Mateus 5:9, Jesus chama de bem-aventurados os que promovem a paz, e em Mateus 5:38-48 manda não resistir ao mau, oferecer a outra face, andar a segunda milha e amar os inimigos. Quase todos concordam que essas palavras são radicais; o desacordo é sobre o alcance. Elas são regra para toda circunstância, ou orientação para o discípulo em suas relações pessoais, deixando em aberto o papel do Estado? O texto não diz, e as tradições se dividem exatamente aí.

    Duas cenas da noite da prisão pesam no debate. Em Mateus 26:52, depois que um dos discípulos saca a espada e fere o servo do sumo sacerdote, Jesus manda guardá-la, porque todos os que lançarem mão da espada à espada perecerão. Lucas 22:51 acrescenta que ele tocou a orelha ferida e a curou. Mas pouco antes, em Lucas 22:36-38, Jesus havia dito aos discípulos que comprassem uma espada, e, quando eles apresentam duas, responde: basta. Alguns leem a frase como permissão de defesa; muitos veem ironia ou encerramento da conversa, já que duas espadas não bastariam para nada. Em João 18:36, diante de Pilatos, Jesus diz que o seu reino não é deste mundo e que, se fosse, os seus servos lutariam.

    Quanto aos soldados, o Novo Testamento é curiosamente silencioso. Quando soldados perguntam a João Batista o que fazer, ele não os manda abandonar o ofício; diz que não extorquam ninguém e que se contentem com o soldo (Lucas 3:14). Jesus elogia a fé do centurião de Cafarnaum em Mateus 8:5-13 sem comentar a profissão. Cornélio, oficial romano, recebe o Espírito e é batizado em Atos 10, e o texto não conta se ele deixou o exército depois. Para uns, o silêncio mostra que a profissão é aceitável; para outros, é só silêncio, e é arriscado construir doutrina sobre ele. Paulo, em Romanos 13:4, diz que a autoridade não traz a espada em vão, mas a frase fala do magistrado, e não do cristão que o serve.

    Há ainda Mateus 10:34, em que Jesus diz que não veio trazer paz, mas espada. O contexto é a divisão que a mensagem causa dentro das famílias, e não uma instrução de violência. E há a linguagem militar de Efésios 6:10-17, onde a armadura é de verdade, justiça e fé, e a luta, segundo o próprio texto, não é contra pessoas de carne e sangue.

    Para conversar

    • O Sermão do Monte descreve uma regra para todas as situações ou uma orientação para as relações pessoais do discípulo? Que passagens ajudam a decidir e quais complicam?
    • O que você faz com o silêncio do Novo Testamento sobre os soldados que se converteram? Ele permite concluir alguma coisa, ou é apenas silêncio?
    • Como ler sem forçar o texto para nenhum lado? Que perguntas o episódio deixa em aberto?
  6. 6.Guerra justa, pacifismo, cruzada e a espada de Apocalipse 19

    Os primeiros séculos do cristianismo não têm posição única. Muitos autores cristãos recusaram o serviço militar, ora pelo juramento ao imperador, ora pelo sangue derramado, mas houve soldados cristãos, e a questão era debatida. A virada vem com Constantino, no começo do século IV, quando a igreja passa a conviver com o poder imperial e precisa perguntar o que fazer com a espada que o Estado carrega. Agostinho de Hipona responde sem entusiasmo: a guerra é uma tragédia, e só se justifica como resposta a uma injustiça, sob autoridade legítima e com intenção de restaurar a paz. Tomás de Aquino sistematizou esses critérios séculos depois, e daí vem a tradição da guerra justa, que ainda orienta debates militares e documentos de várias igrejas.

    A cruzada é um caso à parte. Quando o papa Urbano II convocou, em 1095, a expedição rumo a Jerusalém, a guerra passou a ser apresentada como ato de devoção, com indulgências para quem participasse. Quase todas as tradições cristãs de hoje, a católica inclusive, reconhecem que isso foi longe demais, porque a guerra justa pede causa e limites, e a cruzada pedia vitória em nome de Deus. O herem de Josué foi invocado em vários desses momentos, e a maioria dos estudiosos sustenta que o texto não autoriza a transposição, pois Israel e a igreja não são a mesma coisa.

    O pacifismo cristão tem uma linha longa. Os anabatistas do século XVI, na Confissão de Schleitheim (1527), recusaram a espada, e menonitas, quakers e outros grupos mantêm essa posição. Lutero, ao contrário, distinguia dois reinos e defendia que o soldado pode servir a Deus no seu ofício. A tradição ortodoxa trata a guerra como mal, mesmo quando inevitável. Entre os dois polos há ainda quem defenda a resistência não violenta como terceira via.

    Resta o Apocalipse. Em Apocalipse 19:11-21, um cavaleiro em cavalo branco julga e guerreia com justiça, vestido de manto tingido de sangue, e de sua boca sai uma espada. Parece a imagem máxima da guerra santa. Mas o sangue é o dele, de sua morte, ou o dos inimigos? Os intérpretes divergem. Os exércitos que o seguem vão de linho branco, sem armas citadas, e o único instrumento do cavaleiro é a palavra. O mesmo livro apresenta Cristo como o leão que é Cordeiro (Apocalipse 5:5-6). Para muitos, o texto diz que a violência final fica nas mãos de Deus, e não dos fiéis. E o livro termina em shalom: Deus enxugará toda lágrima (Apocalipse 21:4).

    Para conversar

    • Os critérios da guerra justa (causa, autoridade, intenção) funcionam na prática, ou servem para justificar o que já se queria fazer? Que exemplos históricos ou atuais vêm à mente?
    • Que argumento do pacifismo cristão você acha mais forte, e que objeção a ele você acha mais séria?
    • Como , com o cavaleiro e a espada, pode ser lido junto com , em que o leão é um Cordeiro?
    • Entre a lição de Davi, a promessa dos profetas e a palavra de Jesus, o que muda na sua forma de pensar o conflito, no trabalho, na família e na política?

O que fica

  • Shalom significa inteireza de vida, e não só ausência de guerra; é a medida pela qual a Bíblia avalia a violência.
  • O herem de Josué é o texto mais difícil do assunto, e as leituras (hipérbole, juízo, alegoria, relato da compreensão de Israel) têm custos que nenhuma esconde.
  • Davi guerreou e não pôde construir o templo; os profetas sonham com espadas viradas em enxadas, mas como promessa de um futuro, não como programa.
  • Jesus manda amar o inimigo e recusa a espada de Pedro, e o Novo Testamento fica em silêncio sobre os soldados convertidos; é daí que nascem guerra justa e pacifismo.
  • A cruzada é amplamente reconhecida como erro, e o Apocalipse entrega a violência final a Cristo, não aos fiéis.

Aprofundamento

Três pontos concentram a divergência entre as tradições cristãs, e vale nomeá-los com precisão em vez de tratá-los como um só.

O primeiro é o estatuto do herem. Se Deus de fato ordenou a destruição das cidades, o que isso diz sobre ele? As leituras principais são quatro. A que vê hipérbole retórica lembra que relatos de conquista do antigo Oriente Próximo usam linguagem total para vitórias parciais, e que o próprio Josué mostra povos que continuam na terra. A leitura literal e judicial defende que o texto trata de um juízo divino sobre povos específicos, uma vez só, e que nada autoriza repeti-lo. A alegórica, de Orígenes em diante, lê as batalhas como luta espiritual. E há quem sustente que o texto reflete a compreensão de Israel sobre a vontade divina. Nenhuma resolve tudo, e o leitor honesto sabe disso. Vale notar também que a escolha entre elas muda o modo de ler o restante do livro de Josué, e não apenas o capítulo de Jericó: quem lê a conquista como hipérbole lê o final do livro, com os povos que permanecem, como confirmação; quem a lê como total precisa explicar o que a narrativa diz depois.

O segundo é o alcance do Sermão do Monte. A leitura pacifista (menonitas, quakers, John Howard Yoder) entende que Jesus ensina um modo de vida para toda a igreja, e que a cruz é o método do reino. A leitura da guerra justa (Agostinho, Tomás de Aquino) entende que Jesus fala ao discípulo em relação pessoal, e que o Estado mantém sua função de conter o mal em . A leitura luterana, dos dois reinos, separa o que o cristão faz como pessoa e o que faz no ofício que ocupa. A discussão não se resolve com um texto isolado, e quem apresenta só uma dessas posições como a única bíblica está formando convicção, não ensinando.

O terceiro é o uso religioso da violência. A cruzada e outras guerras justificadas em nome de Deus mostram o perigo de aplicar a conquista de Josué à igreja. A maioria das tradições concorda hoje que isso foi um erro, ainda que tenha havido quem o defendesse com argumentos bíblicos.

Há um fato de método a registrar. O Novo Testamento nunca usa a linguagem do herem para descrever o que a igreja deve fazer com pessoas; usa a imagem militar para a luta espiritual ( Coríntios 10:3-4). E, quando fala do juízo final, atribui a ação a Cristo, e não aos fiéis (). Isso não elimina a pergunta sobre o Estado e a força legítima, mas mostra que o texto não entrega aos discípulos a espada do Josué.

O que costumam dizer errado

  • Dizem que:O Deus do Antigo Testamento é violento e o Deus do Novo é pacífico.

    O Antigo Testamento contém , e , as imagens mais fortes de paz da Bíblia, e o Novo Testamento contém , com a espada saindo da boca do cavaleiro. A divisão em dois deuses foi proposta por Marcião no século II e rejeitada pela igreja. A tensão entre juízo e misericórdia atravessa os dois testamentos.

  • Dizem que:Jesus foi pacifista absoluto e o Novo Testamento condena qualquer serviço militar.

    O Novo Testamento não condena explicitamente o ofício de soldado: João Batista, em , não manda os soldados abandonarem o posto; Jesus elogia o centurião em ; Cornélio é batizado em . Isso também não prova o contrário, pois o texto é silencioso. A leitura pacifista é uma interpretação respeitável, mas é interpretação, não afirmação literal do texto.

  • Dizem que:Mateus 26:52, 'quem pega a espada morre pela espada', é uma lei universal da violência.

    A frase é dita a Pedro numa cena específica, a prisão de Jesus, e o contexto indica que ele recusa uma defesa armada naquela noite. As tradições a leem como princípio geral (pacifistas), como advertência prática contra a escalada, ou como limitada à ocasião. Poucos teólogos a tratam como lei mecânica, porque o próprio texto bíblico narra pessoas que usam armas e não morrem por elas.

  • Dizem que:A conquista de Canaã dá à igreja um modelo de guerra santa.

    O herem de Josué está ligado a uma ordem específica, a um lugar e a um povo, e nenhum texto do Novo Testamento o transfere para a igreja. A linguagem militar do Novo Testamento, em , é espiritual. Usar Josué para justificar cruzadas ou guerras de religião foi, na leitura da maioria das tradições, um erro.

Como diferentes tradições cristãs leem

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • Guerra justa (Agostinho e Tomás de Aquino; católica e várias protestantes)

    A guerra é um mal, mas pode ser um mal tolerável quando é resposta a injustiça grave, declarada por autoridade legítima, com intenção reta, como último recurso e com proporção. Agostinho a trata em obras como A Cidade de Deus, e Tomás de Aquino a sistematiza na Suma Teológica. e o silêncio sobre os soldados são os apoios bíblicos mais citados.

  • Pacifismo (anabatistas, menonitas, quakers)

    O Sermão do Monte e a cruz mostram o modo de agir do reino, e o discípulo não usa a violência, nem mesmo em defesa própria ou do Estado. A Confissão de Schleitheim (1527) recusa a espada. John Howard Yoder, em A Política de Jesus, argumenta que a ética de Jesus é política, e não apenas privada.

  • Luterana (dois reinos)

    Deus governa o mundo de duas maneiras: pelo evangelho, na igreja, e pela espada, no Estado. O cristão como pessoa não retalia, mas pode servir ao Estado, inclusive como soldado, porque a justiça pública também é ordem de Deus. Lutero defendeu essa posição em escritos como Se também os soldados podem estar em estado de salvação.

  • Ortodoxa

    A guerra é um mal, mesmo quando inevitável; a Igreja Ortodoxa não desenvolveu uma doutrina sistemática de guerra justa. Cânones antigos tratam o derramamento de sangue na guerra como mancha que pede penitência, e a tradição honra o serviço militar sem glorificar a guerra.

  • Resistência não violenta

    Pensadores como Martin Luther King Jr. e movimentos cristãos do século XX defenderam que a resistência ativa e sem armas é a aplicação mais fiel do ensino de Jesus: nem submissão passiva nem violência, e sim confronto da injustiça com meios que não imitam o mal.

O que fazer com isso

Ao ler uma passagem sobre guerra ou paz, pergunte primeiro três coisas: que tipo de texto é (relato, lei, salmo, profecia, ensino de Jesus), a quem se dirige (a Israel, ao rei, ao discípulo, a todos) e o que ele promete ou ordena de fato. Muitas discussões sobre o assunto se resolvem, ou ao menos se esclarecem, quando se separa o que o texto descreve do que ele prescreve, e o que é promessa para o futuro do que é instrução para hoje.

Perguntas frequentes

A Bíblia aprova a guerra?
Ela narra guerras, atribui algumas a ordens de Deus e usa a imagem militar de forma frequente, mas também prevê o fim das armas e coloca Jesus como Príncipe da Paz. Aprovar e narrar não são a mesma coisa, e o texto não oferece uma única posição sobre o assunto.
O que significa herem?
Herem (חרם) designa o que é separado para Deus e entregue à destruição, e aparece nas ordens sobre as cidades de Canaã em Deuteronômio e Josué. As leituras variam entre hipérbole de guerra, juízo literal e alegoria; nenhuma é consensual.
Cristão pode ser soldado?
O Novo Testamento é silencioso sobre o assunto: João Batista não manda os soldados deixarem o ofício e Cornélio é batizado sem que o texto conte o que fez depois. As tradições divergem: a guerra justa admite o serviço militar sob certas condições, enquanto o pacifismo o recusa.
O que quer dizer Mateus 26:52?
Jesus ordena que Pedro guarde a espada na noite da prisão, porque quem usa a espada perece pela espada. Pacifistas leem como princípio geral; outros, como advertência ligada àquela ocasião. O texto também mostra que Jesus recusa ser defendido por armas naquele momento.

Fontes consultadas

  • Agostinho de Hipona. A Cidade de Deus, 426.
  • Tomás de Aquino. Suma Teológica, II-II, questão 40, 1274.
  • Confissão de Schleitheim. Artigos de Schleitheim (anabatistas), 1527.
  • Martinho Lutero. Se também os soldados podem estar em estado de salvação, 1526.
  • Gerhard von Rad. Der heilige Krieg im alten Israel, 1951.
  • Roland H. Bainton. Christian Attitudes toward War and Peace, 1960.
  • John Howard Yoder. A Política de Jesus, 1972.
  • Kenneth Lawson Younger Jr.. Ancient Conquest Accounts, 1990.
  • Paul Copan e Matthew Flannagan. Did God Really Command Genocide?, 2014.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Temas

Publicado em 06/11/2026

Como produzimos. Encontrou um erro? Escreva para a redação.

O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 9 obras citadas, com autor e ano
  • 4 afirmações populares checadas e refutadas
  • 5 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

Uma explicação nova por semana

Sem devocional, sem corrente e sem promoção. Só o verbete da semana, com o contexto que normalmente fica de fora. Todo e-mail leva um link para sair, e sair é imediato.