Divórcio e novo casamento: o que a Bíblia diz, com honestidade
o que a bíblia diz sobre divórcio
Resposta curta
Divórcio é um dos assuntos em que a Bíblia parece dizer coisas diferentes e em que as igrejas, de fato, chegaram a respostas diferentes. Moisés regula o divórcio, Malaquias fala de Deus e do repúdio em termos que as traduções não concordam em verter, Jesus volta ao princípio da criação, Mateus acrescenta uma exceção que Marcos e Lucas não trazem, e Paulo enfrenta casos que o próprio Senhor não tratou. Este estudo percorre os textos em seis partes, do que realmente diz até o cuidado com quem está no meio dessa história. Ele apresenta as posições católica, ortodoxa e protestante sem tomar partido, aponta o que o texto deixa em aberto e não esconde que o assunto, para muita gente, não é teoria.
Em palavras simples
A Bíblia não tem um texto único sobre divórcio, e sim vários, que respondem a perguntas diferentes. A lei de Moisés regula o divórcio como algo que já existia. Jesus lembra que o casamento foi pensado para durar e que a lei de Moisés foi uma concessão. Mateus registra uma exceção por infidelidade. Paulo trata do cristão abandonado por um cônjuge que não crê. As igrejas leem esses textos de maneiras diferentes: a católica não admite dissolução do vínculo, a ortodoxa aceita o divórcio por misericórdia, a protestante em geral admite infidelidade e abandono. Todas pedem cuidado.
Antes de começar
No mundo de Moisés, o casamento era um arranjo entre famílias, e a mulher dependia do marido ou da casa do pai para sobreviver. Nesse cenário, o divórcio era uma realidade jurídica que a lei precisava enquadrar, e faz isso ao exigir uma carta que declarasse a mulher livre. Os profetas usam a imagem, às vezes sobre Deus e Israel, e depois do exílio Malaquias e Esdras tratam de casamentos feitos fora da comunidade, em meio a uma crise de identidade do povo que voltava a Judá.
Na época de Jesus, havia dois mundos em cena. No judaico, só o homem podia dar a carta, e escolas rivais, a de Hillel e a de Shammai, discutiam o que era motivo válido. A pergunta que os fariseus lhe fazem em .3 já nasce dentro dessa disputa. No mundo greco-romano, o divórcio era fácil e bilateral: homens e mulheres podiam encerrar o casamento sem cerimônia, o que ajuda a entender por que .12 menciona a mulher que repudia o marido e por que Paulo, falando a coríntios, trata de homens e mulheres em igualdade de forma incomum para a época.
Também ajuda saber que casamento não era o que a cultura brasileira de hoje chama de casamento. Não se baseava em amor romântico, e sim em honra, aliança entre famílias e herança. Isso não torna o texto menos exigente, mas muda a pergunta: o que a mulher abandonada podia fazer para viver? A carta de divórcio e a ideia de que ela ficaria livre para casar de novo deixam de parecer detalhe jurídico e passam a ser proteção.
Por fim, a palavra mais usada, 'repudiar', traduz verbos gregos e hebraicos que significam despedir, enviar embora. Não existia, no mundo bíblico, o processo judicial moderno, com partilha de bens, guarda e pensão. O que os textos chamam de divórcio é, em geral, um ato do marido, documentado numa carta. Esse abismo entre práticas torna cada transposição para a vida contemporânea um ato de interpretação, e não de simples leitura.
Como isso aponta para Jesus
Ligação indiretaO ensino de Jesus sobre o casamento aponta para além de uma regra: ele volta ao princípio, ao Criador que uniu homem e mulher. Paulo, em .31-32, cita o mesmo texto de .24 e o lê como retrato de Cristo e da Igreja, uma união que não se desfaz porque o noivo não abandona. A leitura cristã vê, então, no casamento um sinal de fidelidade mais antiga do que o casal, e é por isso que o divórcio é tratado como ferida, e não como detalhe jurídico.
Respaldo no Novo Testamento: .31-32
As partes do estudo
1.Deuteronômio 24: o que a lei regula e o que ela não diz
Quase toda conversa sobre divórcio na Bíblia começa em Deuteronômio 24.1-4, e quase sempre começa mal: como se o texto fosse a lei que autoriza o divórcio e lista os seus motivos. Lido devagar, ele faz outra coisa. Os versículos 1 a 3 formam uma única e longa condição: se um homem toma uma mulher, e ela deixa de lhe agradar porque ele achou nela alguma 'coisa indecente' (em hebraico, ervat davar, literalmente algo como 'nudez de coisa'), e ele lhe escreve uma carta de divórcio, e ela se casa com outro, e este também a despede ou morre. A única ordem aparece no versículo 4: o primeiro marido não pode tomá-la de volta, porque isso seria abominação diante do Senhor. Algumas traduções deixam os primeiros versículos soarem como mandamento; no hebraico, o divórcio é pressuposto e a lei cuida de uma de suas consequências.
A expressão central é justamente a que o texto não define. Não se sabe ao certo o que era a 'coisa indecente', e essa lacuna produziu, séculos depois, uma das maiores disputas da tradição judaica, que veremos adiante. Também convém notar o que a carta fazia. Numa sociedade em que a mulher dependia da casa de um homem, o documento dizia, em termos práticos, que ela estava livre e podia casar de novo, e a protegia de ser tratada como adúltera. Outras leis completam o quadro sem o transformar em tratado: Êxodo 21.10-11 garante à mulher em posição frágil alimento, roupa e direitos conjugais, sob pena de sair livre, e Levítico 22.13 e Números 30.9 mencionam a divorciada como figura conhecida.
Os profetas mostram como o assunto era sentido. Jeremias 3.1 evoca a regra de Deuteronômio 24 para dizer que uma esposa que foi de outros não deveria voltar, e logo adiante, em 3.12, o mesmo Deus chama Israel à volta. Isaías 50.1 pergunta onde está a carta de divórcio da mãe de Israel. A imagem é de um rompimento doloroso, nomeado com franqueza, que nem a linguagem divina evita. O texto-base, portanto, descreve uma realidade, limita um abuso e não oferece nem aprovação nem proibição. Tudo o que vem depois, em Jesus, em Paulo e nas igrejas, é leitura sobre esse ponto de partida modesto.
Para conversar
- Se regula um divórcio que já existia em vez de instituí-lo, o que isso muda na forma de citar o texto numa discussão?
- A carta de divórcio protegia a mulher de ser chamada de adúltera. Que proteções equivalentes faltam hoje a quem passa por uma separação?
- Jeremias usa a imagem do divórcio para falar da relação entre Deus e Israel e, ainda assim, chama o povo de volta. O que essa imagem diz, e o que ela não permite concluir sobre casais?
2.Malaquias e Esdras: quando casamento e identidade se misturam
Dois textos do período posterior ao exílio pesam sobre o debate, e ambos são mais difíceis do que costumam parecer. O primeiro é Malaquias 2.10-16. O profeta fala a homens que oferecem sacrifícios e não são aceitos, e dá a razão: o altar está coberto de lágrimas, porque eles foram infiéis à 'mulher da tua mocidade', à 'companheira' e 'mulher da tua aliança' (2.14). O versículo 11 menciona alguém que se casou com 'a filha de deus estranho', e muitos comentaristas entendem que a acusação combina duas coisas, o abandono de esposas israelitas e a união com mulheres de outros cultos. Essa leitura é provável, mas é inferência, e o versículo 15 é tão obscuro que as traduções divergem até na pontuação.
O versículo 16 é o mais citado e o mais disputado. A fórmula tradicional em português, 'o Senhor odeia o repúdio', segue uma leitura do hebraico. Outra leitura, presente na antiga versão grega e na Vulgata, entende algo como 'se o odeias, despede-a', e há ainda a tradução que faz do odiador o próprio sujeito: 'quem odeia e despede sua mulher cobre de violência as suas vestes'. O estudioso honesto reconhece que o texto hebraico admite mais de uma solução. O que as leituras partilham é o tom: o profeta está do lado da esposa traída, e a palavra 'violência' aparece no versículo.
O segundo texto é Esdras 10, talvez o mais duro da Bíblia sobre o assunto. Descobertos casamentos com mulheres dos povos da terra, Secanias propõe uma aliança para despedir as esposas e os filhos delas (10.3), a assembleia concorda debaixo de chuva, uma comissão trabalha por três meses e o capítulo termina com uma lista de nomes. O narrador não comenta se Deus aprovou. Há oposição de poucos (10.15), e a Bíblia sabe de moabitas e madianitas dentro do povo: Rute é bisavó de Davi, e Moisés casou com Zípora. Tradições diferentes leem Esdras como zelo exemplar ou como medida de emergência, ligada à sobrevivência da comunidade, e nenhuma igreja a aplica a casamentos cristãos. Quando Paulo trata de casamento misto, em 1 Coríntios 7, a direção é outra.
Para conversar
- .16 admite pelo menos três traduções. Como um grupo de estudo deve tratar um versículo cuja tradução está em disputa, e que cuidados isso pede ao citá-lo?
- relata a separação sem dizer se Deus a aprovou. Que diferença faz o narrador descrever e não avaliar?
- Rute e Zípora são estrangeiras acolhidas pelo povo. Como lidar com a tensão entre esses relatos e a medida de Esdras?
- Em Malaquias, a queixa de Deus é a deslealdade dos homens com as esposas. O que essa ênfase acrescenta a uma discussão que costuma girar em torno de regras?
3.Hillel, Shammai e a pergunta feita a Jesus
Quando os fariseus perguntam a Jesus, em Mateus 19.3, se é lícito repudiar a mulher 'por qualquer motivo', a pergunta tem endereço. A tradição judaica discutia havia gerações o sentido da 'coisa indecente' de Deuteronômio 24. A Mishná, que registra a discussão por escrito bem depois (tratado Gittin, capítulo 9), atribui à escola de Shammai a posição de que só uma questão de natureza sexual justificava a carta, e à escola de Hillel a de que bastava qualquer motivo, até um prato queimado. O rabino Akiva teria chegado a admitir que bastava o marido achar outra mulher mais bela. Vale a cautela de que essa fonte é posterior a Jesus; ela mostra, porém, que o debate era antigo e que a pergunta de Mateus pertence a ele.
A resposta de Jesus não escolhe um dos lados. Ele recua de Deuteronômio para Gênesis: o Criador fez homem e mulher, e 'os dois serão uma só carne' (Gênesis 1.27 e 2.24), de modo que 'o que Deus ajuntou, não o separe o homem'. Os fariseus voltam a Deuteronômio 24, e a escolha dos verbos importa. Em Mateus, eles dizem que Moisés 'mandou' dar a carta; Jesus corrige: Moisés 'permitiu', por causa da 'dureza de coração', e 'não foi assim desde o princípio'. Em Marcos 10.3-5 o diálogo tem outra ordem, mas o movimento é o mesmo. Jesus trata a lei de Deuteronômio como concessão a um mundo quebrado e aponta para o propósito original, sem dizer que a concessão foi pecado de Moisés.
A reação dos discípulos é dos detalhes mais honestos da cena: se é assim, dizem, não convém casar (19.10). Jesus não suaviza. Responde que nem todos compreendem isso, e fala em seguida de pessoas que não se casam por razões diversas (19.11-12). Para o leitor, a lição é de método. O texto não usa a lei de Deuteronômio como ponto final e também não a revoga num gesto. Ele lê o divórcio à luz do que o casamento deveria ser, e deixa a tensão entre o ideal e a realidade exposta, em vez de resolvê-la com uma lista de casos.
Para conversar
- Jesus responde a uma pergunta jurídica voltando a Gênesis. O que muda quando o debate sobre divórcio parte da criação, e não da exceção?
- 'Dureza de coração' descreve a causa da concessão de Moisés. Como entender essa expressão sem transformá-la numa acusação contra pessoas divorciadas de hoje?
- A reação dos discípulos, em 19.10, é de desconforto. Por que o texto preserva esse momento em vez de omiti-lo?
4.A cláusula de exceção e o enigma de porneia
Mateus é o único evangelista que traz uma exceção. Em 5.32 e em 19.9, o divórcio seguido de novo casamento é chamado de adultério, 'exceto em caso de porneia'. Marcos 10.11-12 e Lucas 16.18 dão a mesma regra sem exceção alguma. Quem lê os três lado a lado enfrenta duas perguntas de peso: o que significa porneia, e por que só um evangelho a menciona.
Sobre a palavra, o grego não ajuda tanto quanto se gostaria. Porneia é um termo largo, que cobre relações sexuais ilícitas de vários tipos. Existe outra palavra, moicheia, para adultério em sentido estrito, e Mateus a usa em 15.19; aqui, porém, escolheu porneia. Os intérpretes propõem alternativas: infidelidade sexual de modo geral; uniões proibidas pela lei, como as de Levítico 18, que em Atos 15.20 aparecem sob esse mesmo termo; ou ainda a infidelidade descoberta durante o noivado judaico, que já criava vínculo legal, situação em que José de Mateus 1.19 se encontra. Cada uma tem apoio, nenhuma é consenso, e o texto não escolhe por nós.
Sobre a ausência da exceção em Marcos e Lucas, há duas explicações antigas. Uma diz que Mateus esclarece o que já estava implícito, já que a infidelidade rompe o casamento por si; outra diz que Marcos e Lucas enunciam o princípio geral e Mateus registra uma ressalva que Jesus fez de fato. Uma terceira, mais recente, sustenta que a exceção responde ao debate de Hillel e Shammai e que os demais evangelistas escreveram para leitores que não o conheciam. São hipóteses. Nenhuma pode ser demonstrada.
A segunda dificuldade é o recasamento. A frase 'quem casa com a repudiada comete adultério' pode significar que o segundo casamento é um estado contínuo de adultério, ou que o divórcio indevido seguido de nova união é o ato adúltero. Aqui as tradições se separam, como veremos. Também é curioso que Marcos 10.12 fale de mulher que repudia o marido, algo que o direito judaico comum não previa e o direito romano permitia: o evangelho foi escrito para um mundo em que as duas coisas aconteciam.
Para conversar
- Dos três evangelistas, só Mateus traz a exceção. O que a presença e a ausência dela mudam na maneira de citar 'o que Jesus disse' sobre divórcio?
- Porneia pode significar coisas diferentes. Que significado um grupo de estudo deve escolher, e com que critério, se o texto não decide?
- Marcos fala de mulher que repudia o marido. Que cuidado a diferença de contexto cultural pede de quem aplica o texto hoje?
- Por que é tão frequente que a discussão sobre a exceção ocupe mais espaço do que a regra de que ela é exceção?
5.Paulo, o mandamento do Senhor e o juízo apostólico
Em 1 Coríntios 7, Paulo é o primeiro a tratar do assunto depois dos evangelhos, e o faz em dois movimentos que ele mesmo distingue. No primeiro (7.10-11), diz que 'ordena, não eu, mas o Senhor': a mulher não se separe do marido, e se o fizer, que permaneça sem casar ou se reconcilie; o marido não despeça a mulher. É um eco da tradição de Jesus, com um detalhe interessante: a mulher é mencionada primeiro, e a fórmula 'se separar' vem junto da possibilidade de reconciliação, o que sugere que a situação concreta já era mais complicada que a regra.
No segundo movimento (7.12-16), Paulo muda o registro: 'aos outros digo eu, não o Senhor'. Trata de cristãos casados com quem não crê. Se o cônjuge descrente consente em continuar, não haja divórcio, porque ele é 'santificado' pelo cônjuge crente, e os filhos são santos (7.14). Mas, se o descrente se separa, 'separe-se', e o irmão ou a irmã 'não fica sujeito à servidão em tais casos', porque Deus chamou a viver em paz (7.15). A distinção entre palavra do Senhor e opinião de Paulo não rebaixa a segunda: no final do capítulo ele afirma que também pensa ter o Espírito de Deus (7.40). Mostra, antes, que o apóstolo sabia que Jesus não tratara de todos os casos e que a igreja precisava aplicar o princípio a situações novas.
O ponto disputado é a frase 'não fica sujeito à servidão'. Ela dispensa o cristão abandonado do dever de manter o casamento, ou o liberta também para casar de novo? A tradição protestante, em geral, entende que sim, e vê no abandono um segundo fundamento além do adultério. A tradição católica entende que o texto dá base ao chamado privilégio paulino, aplicado a casamentos de pessoas não batizadas, em que o convertido pode se unir a outra pessoa se o cônjuge não batizado se recusa a viver em paz. Outras leituras limitam o texto ao fim da coabitação, sem abrir novo casamento. O texto é silencioso sobre esse ponto, e nenhuma das leituras pode alegar a palavra final do apóstolo.
Para conversar
- Paulo separa o que 'o Senhor' ordenou do que ele mesmo 'diz'. O que essa honestidade ensina sobre como a igreja primitiva aplicava os ensinos de Jesus?
- 'Deus nos chamou à paz' é a razão que Paulo dá em 7.15. Que peso essa frase deve ter ao lado de um texto que parece tratar de regras?
- A palavra 'servidão' pode significar vários graus de liberdade. Que perguntas ficam sem resposta no texto, e como conviver com isso na vida de uma igreja?
6.Três tradições e o cuidado com quem está no meio disso
Com os textos na mesa, as grandes tradições cristãs chegaram a respostas diferentes, e é útil descrevê-las sem caricatura. A católica parte de Jesus e de Paulo para afirmar que o casamento válido, consumado entre batizados, é indissolúvel. O Concílio de Trento (1563) fixou a doutrina, em redação cuidadosa para não condenar a prática oriental. Na prática, a Igreja admite a separação dos cônjuges sem dissolução do vínculo e, em casos específicos, declara a nulidade, isto é, que o casamento nunca foi válido. Para recasados, a discussão pastoral continua aberta, e documentos recentes, como Amoris Laetitia (2016), pedem discernimento no acompanhamento de cada caso.
A ortodoxa mantém o ideal da permanência, mas aplica a oikonomia, a administração pastoral que concede, por misericórdia, o que a regra estrita não prevê. A Igreja reconhece que um casamento pode morrer, concede o divórcio eclesiástico em certos casos e celebra um segundo casamento em rito de tom penitencial. A protestante, de Lutero e Calvino em diante, aceita o divórcio por infidelidade e, em muitas confissões, por abandono, como a de Westminster (1646), e reconhece o novo casamento do cônjuge inocente. Dentro dela há uma gama enorme, e as igrejas evangélicas brasileiras vão de uma acolhida ampla a restrições ao ministério de recasados.
Quem conversa com pessoas reais precisa ir além da doutrina. Há quem tenha sido abandonado, quem tenha abandonado, quem sofreu violência, quem se divorciou antes de se converter, quem carrega vergonha por um fim que não escolheu. A Bíblia não trata diretamente de violência doméstica como motivo de divórcio, o que levou muitas tradições a distinguir separação para proteção de dissolução do vínculo, e a maioria dos pastores sérios recomenda que segurança venha primeiro. O texto também não diz o que fazer com todos os casos: a mulher samaritana de João 4 teve cinco maridos e Jesus não menciona divórcio nem morte. A tradição inteira concorda em um ponto: o assunto exige menos veredito e mais presença.
Para conversar
- As três tradições descritas partem dos mesmos textos e chegam a lugares diferentes. O que isso ensina sobre o modo de lidar com quem discorda em sua própria comunidade?
- Como uma igreja pode acolher pessoas divorciadas sem relativizar o que o texto diz do casamento, e sem transformar essa fidelidade ao texto em peso sobre quem já sofreu?
- Segurança física e emocional vem antes de qualquer discussão sobre o vínculo, segundo muitas tradições. Que lugar esse cuidado deve ocupar num grupo de estudos?
- Quais perguntas de uma pessoa divorciada deveriam ser ouvidas antes de qualquer resposta doutrinária?
O que fica
- regula um divórcio que já existia; o texto não o ordena nem o recomenda.
- Jesus responde à disputa entre Hillel e Shammai voltando a Gênesis: o casamento foi pensado para durar, e a lei de Moisés foi concessão à dureza de coração.
- Só Mateus traz a exceção, com a palavra porneia, e o texto não esclarece seu alcance nem o destino do novo casamento.
- Paulo distingue o que o Senhor ordenou do que ele mesmo julga, e .15 segue sendo lido de modos diferentes por católicos, ortodoxos e protestantes.
- Cuidado vem antes de veredito: quem pergunta sobre divórcio quase sempre está vivendo o assunto.
Aprofundamento
O debate entre as tradições não é sobre se o casamento é importante, mas sobre três perguntas que o texto deixa em aberto. A primeira é se existe alguma exceção ao princípio de permanência. Católicos e muitos dos primeiros pais da Igreja entenderam que a cláusula de Mateus permite, no máximo, a separação, e que o vínculo permanece. Lutero, Calvino e a maior parte do protestantismo entenderam que a infidelidade de fato rompe o casamento, e que o inocente fica livre para casar. Ortodoxos reconhecem que o casamento pode morrer e aceitam o divórcio por razões mais amplas, ainda que por concessão pastoral.
A segunda pergunta é o que acontece com o novo casamento. Para quem lê que a pessoa divorciada que casa de novo comete adultério, o segundo casamento é um estado contínuo, que só termina com o arrependimento e a separação. Para quem lê que o adultério é o ato de rompimento, e não uma condição permanente, o arrependimento e o perdão restauram a pessoa à vida da igreja e o segundo casamento pode ser abençoado. As duas leituras têm apoio gramatical, e a discussão no Novo Testamento sobre o tempo verbal de 'comete adultério' não decide o caso.
Uma diferença de método ajuda a entender por que as respostas divergem: quem parte da regra sem exceção de Marcos e Lucas trata a cláusula de Mateus como caso-limite, e quem parte de Mateus, o único a explicitar o debate judaico, tende a vê-la como parte do ensino. A escolha do ponto de partida pesa tanto quanto a conclusão, e raramente é declarada em voz alta.
A terceira é o alcance de .15. O protestantismo clássico vê ali um segundo motivo, o abandono. A Igreja Católica aplica o texto, pelo privilégio paulino, apenas a casamentos entre não batizados. Outras leituras mais restritas limitam a liberdade de Paulo ao fim da convivência.
Convém dizer o que as posições têm em comum. Todas afirmam que o casamento é desejado por Deus como aliança duradoura, todas reconhecem que a quebra é sempre dolorosa e todas, com ênfases distintas, afirmam que o perdão alcança quem se divorciou. Há também estudiosos, como David Instone-Brewer, que propõem que Mateus e Paulo respondem a um debate judaico específico, no qual abuso e negligência já eram vistos como motivos. Essa tese influente é, porém, apenas uma entre várias, e este estudo não a adota como resposta final.
O que costumam dizer errado
Dizem que:Deuteronômio 24 é a lei de Moisés que autoriza o divórcio e estabelece seus motivos.
O texto hebraico forma uma longa condição em que o divórcio é pressuposto, e a única ordem é que o primeiro marido não retome a mulher depois que ela se casar com outro (24.4). Jesus lê o texto como concessão por causa da dureza de coração, não como instituição (.8). Dizer que o texto 'ordena' o divórcio não é o que o hebraico faz.
Dizem que:Malaquias 2.16 prova que Deus odeia as pessoas divorciadas.
O versículo fala de um ato, o repúdio, e não de uma categoria de pessoas, e o hebraico é tão difícil que as traduções divergem sobre quem odeia o quê. O contexto, além disso, condena a deslealdade dos homens com as esposas, e as próprias tradições que mais valorizam a permanência afirmam que o perdão alcança quem se divorciou.
Dizem que:A Bíblia ensina uma única posição clara sobre divórcio e novo casamento, e quem discorda não leva o texto a sério.
Cristãos fiéis ao texto chegaram a conclusões diferentes por séculos: a Igreja Católica ensina a indissolubilidade do casamento válido, a ortodoxa pratica a concessão pastoral, e a maior parte do protestantismo admite infidelidade e abandono. Os pontos que os separam, como o sentido de porneia e o alcance de .15, são questões em que o próprio texto é silencioso ou ambíguo.
Como diferentes tradições cristãs leem
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Católica
O casamento válido e consumado entre batizados é indissolúvel (Concílio de Trento, 1563; Catecismo, 1992). A Igreja admite a separação sem dissolução do vínculo, a declaração de nulidade quando se comprova que o casamento nunca foi válido e, com base em , o privilégio paulino em casamentos entre não batizados. A pastoral dos recasados é objeto de discussão interna, em especial desde a exortação Amoris Laetitia (2016).
Ortodoxa
Preserva o ideal do casamento permanente, mas aplica a oikonomia, isto é, a concessão pastoral, quando o casamento morreu de fato. Reconhece o divórcio eclesiástico em casos como adultério e abandono e celebra o segundo casamento num rito de tom penitencial, não festivo, e o terceiro de modo ainda mais restrito.
Luterana e reformada
Entende que a infidelidade rompe o casamento e libera o inocente para casar de novo, e vê em .15 um segundo fundamento, o abandono do cônjuge que não crê. A Confissão de Westminster (1646, capítulo 24) sistematiza essa posição, e Lutero e Calvino a defendem em seus escritos.
Evangélica restritiva
Parte das igrejas evangélicas lê a cláusula de Mateus como permissão de divórcio, mas não de novo casamento, ou aceita o novo casamento só em casos limitados, e em algumas comunidades restringe o ministério de pessoas recasadas. Outras, dentro do mesmo universo, adotam a leitura reformada. As igrejas evangélicas brasileiras vão de uma ponta à outra.
O que fazer com isso
Antes de citar um versículo sobre divórcio, pergunte a si mesmo qual pergunta ele estava respondendo. regula consequências, Malaquias denuncia deslealdade, responde a uma disputa entre escolas, e Paulo trata de casos que Jesus não abordou. Quem transforma qualquer um deles em regra geral para todas as situações costuma ferir pessoas reais. Leia devagar, admita onde o texto se cala, e lembre que quem pergunta quase sempre está vivendo o assunto.
Perguntas frequentes
- Jesus permitiu o divórcio em caso de adultério?
- Só Mateus registra a exceção, e ele a expressa com a palavra porneia, que não é a palavra comum para adultério. Marcos e Lucas dão a regra sem exceção. As tradições divergem sobre o que isso significa: para umas, é permissão de divórcio e de novo casamento; para outras, só de separação.
- Quem se divorcia e casa de novo vive em adultério?
- Depende da leitura. .9 pode descrever um estado contínuo, como entende a tradição católica, ou o ato de rompimento, como entendem muitos protestantes. O texto não decide, e o que as tradições afirmam em comum é que o perdão alcança quem se arrepende.
- O que é o privilégio paulino?
- É o nome que a tradição católica dá ao caso de .12-15, em que o cônjuge não crê e se separa. Aplica-se a casamentos entre não batizados, e o convertido pode se unir a outra pessoa. Protestantes tendem a ver no mesmo texto um fundamento mais amplo, o abandono.
- A Bíblia manda a pessoa permanecer em um casamento com violência?
- Nenhum texto trata disso diretamente, e as tradições distinguem a separação, que protege, da dissolução do vínculo, que é outro assunto. .16 menciona a violência como parte da acusação contra os homens, o que ajuda a ler o conjunto. A recomendação pastoral comum é que a segurança venha antes de qualquer debate.
Fontes consultadas
- Concílio de Trento. Decreto sobre o Sacramento do Matrimônio, Sessão XXIV, 1563.
- João Calvino. Institutas da Religião Cristã, 1559.
- Confissão de Westminster. Confissão de Fé de Westminster, capítulo 24, 1646.
- Igreja Católica. Catecismo da Igreja Católica, 1992.
- William A. Heth e Gordon J. Wenham. Jesus and Divorce, 1984.
- David Instone-Brewer. Divorce and Remarriage in the Bible, 2002.
- Gordon D. Fee. The First Epistle to the Corinthians, 1987.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.