Deuteronômio: os discursos de Moisés antes da terra
o que a bíblia diz sobre deuteronômio
Resposta curta
Deuteronômio é o último livro da Torá e o mais parecido com um sermão. Em vez de narrar acontecimentos, reproduz os discursos de Moisés nas planícies de Moabe, nos dias finais de sua vida, diante de uma geração que está para entrar na terra prometida sem ele. O livro tem a forma de um tratado de aliança: recorda a história, apresenta o Decálogo e o Shemá, estabelece leis sociais e termina com bênçãos, maldições e a morte do profeta. É também o livro que Jesus cita ao ser tentado no deserto. Este estudo o percorre em seis partes, do formato à herança, e não evita o trecho mais difícil, o herem, nem as dúvidas que os estudiosos ainda têm sobre data e autoria.
Em palavras simples
Deuteronômio é o último livro da Torá. Nele, Moisés faz uma série de discursos ao povo, pouco antes de morrer, quando Israel está prestes a entrar na terra prometida. Ele lembra o que Deus fez, repete os Dez Mandamentos, ensina a amar o Senhor e dá leis para cuidar dos pobres. Também ordena a destruição de alguns povos de Canaã, um assunto que os estudiosos explicam de formas diferentes. O livro termina com bênçãos, avisos e a morte de Moisés. Jesus citou Deuteronômio três vezes ao responder ao tentador.
Antes de começar
Israel está nas planícies de Moabe, a leste do Jordão, no quadragésimo ano depois da saída do Egito (Dt 1:3). A geração que ouviu a voz no Horebe morreu no deserto, e a nova está diante do rio. Moisés, que não atravessará, fala. O livro é composto de três grandes discursos, cuja divisão exata varia entre comentaristas, e de capítulos finais com o cântico, a bênção às tribos e o relato da morte.
O gênero é o do tratado de suserania. Existem exemplos hititas do segundo milênio antes de Cristo e assírios do século VII, e Deuteronômio compartilha com ambos a sequência de prólogo histórico, estipulações, cláusula de leitura pública, testemunhas e sanções. A comparação alimentou o debate sobre a data: a tradição judaica e cristã atribui o núcleo a Moisés, e boa parte da pesquisa crítica o situa na época do rei Josias, por volta de 622 a.C., quando um livro da lei foi achado no templo (2 Rs 22).
O livro se distingue pelo tom. Fala em segunda pessoa, apela ao coração, insiste na memória e na exclusividade do culto em um único lugar. Chama o monte da aliança de Horebe, em vez de Sinai. Seu título deriva da Septuaginta, que leu "cópia desta lei" (Dt 17:18) como "segunda lei"; o hebraico, Devarim, significa "palavras".
Sua influência é imensa. Os livros de Josué a Reis foram descritos por Martin Noth como uma história escrita sob a ótica deuteronomista. Jeremias retoma sua linguagem, e o Novo Testamento o cita com frequência, em especial nas respostas de Jesus ao tentador, no maior mandamento e na leitura de Paulo sobre a palavra que está perto. Ao mesmo tempo, Deuteronômio contém os textos mais difíceis da Torá, as ordens de destruição dos povos de Canaã, que as tradições leem de modos bem diferentes. Entender o contexto é o primeiro passo para essas discussões: quem fala, a quem, em que momento e com que forma.
Como isso aponta para Jesus
Trajetória do textoDeuteronômio promete que Deus levantaria um profeta como Moisés (Dt 18:15-19), e o último capítulo observa que ainda não havia surgido (Dt 34:10). O Novo Testamento lê essa espera em Jesus, que no deserto repete a travessia de quarenta anos em quarenta dias e responde a cada tentação com uma frase do livro. Não é a única leitura possível do texto antigo; é a que os cristãos fazem desde os primeiros sermões em Atos.
Respaldo no Novo Testamento:
As partes do estudo
1.Palavras na fronteira: a forma de um tratado
Quem abre Deuteronômio esperando mais um livro de narrativa encontra outra coisa: quase tudo é fala. Israel está nas planícies de Moabe, a leste do Jordão, no primeiro dia do décimo primeiro mês do quadragésimo ano (Dt 1:3), com a terra à vista e a geração do Sinai já enterrada no deserto. Moisés não atravessará; o livro é o que ele diz a quem atravessará sem ele.
O título que usamos vem do grego. Os tradutores da Septuaginta leram a expressão hebraica de Dt 17:18, "cópia desta lei", como "segunda lei" (deuteronómion), embora o livro não pretenda ser uma lei nova. O título hebraico, Devarim, "palavras", descreve melhor: Dt 1:5 diz que Moisés começou a "explicar" a lei, e o verbo sugere exposição, quase pregação. Deuteronômio é a Torá pregada, e não a Torá ditada.
A forma lembra os tratados que os grandes reis do Oriente Próximo impunham a seus vassalos. Há um preâmbulo que identifica quem fala, um prólogo histórico que recorda o que o soberano já fez (Dt 1–4), estipulações gerais e específicas (Dt 5–26), cláusulas de guarda e leitura pública do documento (Dt 31:9-13), testemunhas, que aqui são o céu e a terra (Dt 30:19), e a lista de bênçãos e maldições (Dt 27–28). George Mendenhall chamou atenção para o paralelo com tratados hititas do segundo milênio antes de Cristo, e Kenneth Kitchen o defendeu como argumento a favor de uma origem antiga. Moshe Weinfeld e outros mostraram afinidades igualmente fortes com tratados assírios do século VII, como o de Esarhaddon, e leram o livro à luz da reforma do rei Josias, quando um "livro da lei" foi encontrado no templo (2 Rs 22–23). A forma de tratado é real; o que ela prova sobre a data é discutido.
Dois traços a distinguem do restante da Torá. O primeiro é a insistência em um único lugar de culto, "o lugar que o Senhor escolher" (Dt 12). O segundo é o tom: Deuteronômio fala em segunda pessoa, apela à memória e ao coração, e pede amor onde um tratado comum pediria lealdade. O próprio texto se apresenta como aliança renovada com a geração presente: "não com nossos pais... mas conosco, todos nós que hoje estamos vivos" (Dt 5:3).
Este estudo segue a ordem do livro, guiado pela pergunta de quem ouvia: o que fazer com a terra quando ela estiver nas mãos?
Para conversar
- Se Deuteronômio é Torá pregada e não apenas ditada, o que muda na forma como você lê as leis do livro?
- A forma de tratado pode sugerir uma origem muito antiga ou uma releitura tardia, e há estudiosos sérios nos dois lados. Como você lida com uma pergunta de data que o texto não responde?
- Por que um livro de leis começaria com a fala de alguém que não entrará na terra?
2.Lembrar para obedecer: a história recontada
Antes de qualquer mandamento, Moisés conta a história. Dt 1–3 refaz o caminho desde o Horebe: a nomeação de chefes para julgar o povo, o episódio dos espias em Cadesh-Barneia, a derrota por falta de confiança, os trinta e oito anos de espera (Dt 2:14) e as primeiras vitórias na Transjordânia. O tratado só obriga quem reconhece o que o soberano já fez, e é por isso que a memória vem antes da lei.
Em Dt 2, Edom, Moabe e Amom são poupados porque o Senhor lhes deu suas terras: a promessa a Israel não é licença para tomar qualquer território. O relato da recusa em Cadesh também muda de tom em relação a Números. Aqui Moisés diz que o Senhor se irou contra ele "por causa de vocês" (Dt 1:37; 3:26), enquanto Números 20 liga a exclusão de Moisés a um gesto seu junto à rocha. Os leitores harmonizam os dois relatos de maneiras diferentes, e Moisés fala aqui como orador, não como historiador neutro: reorganiza o passado para que os ouvintes assumam a própria parte.
O capítulo 4 é o coração teológico da recapitulação. Moisés lembra que no Horebe o povo ouviu uma voz, mas "não viu forma alguma" (Dt 4:12, 15). A proibição de imagens não nasce de um gosto abstrato; nasce do que o povo experimentou, uma presença que fala sem se deixar representar. Daí a pergunta de Dt 4:32-34, quase vertiginosa: já se ouviu, desde o dia em que Deus criou o homem, algo como isto? E daí a conclusão de Dt 4:39, que o Senhor é Deus em cima nos céus e embaixo na terra, e que não há outro. Alguns estudiosos veem aqui um monoteísmo plenamente formulado; outros, um processo que o próprio texto ainda registra. O que o texto afirma é a exclusividade da lealdade devida a este Deus.
Por fim, o capítulo olha adiante com franqueza. Moisés prevê que o povo, já instalado, se corromperá e será disperso entre as nações, e também prevê que, de lá, buscando de todo o coração, voltará (Dt 4:25-31). O livro se escreve sabendo como a história termina mal, e por isso a memória não é nostalgia: é instrumento.
O que a recapitulação ensina, portanto, é um método. A obediência pedida em seguida não é o ponto de partida do povo; é a resposta esperada de quem já foi tirado do Egito e sustentado no deserto.
Para conversar
- Moisés reorganiza o passado para os ouvintes. Em que momentos uma releitura da própria história ajuda alguém a assumir responsabilidade, e em que momentos pode distorcer?
- A proibição de imagens nasce do que o povo ouviu no Horebe. O que muda quando a experiência vem antes da regra?
- O que significa um livro que prevê o fracasso do povo antes de ele acontecer?
3.O Shemá e o Decálogo: o centro do livro
No meio do livro, depois de lembrar o passado, Moisés recita a lei. O Decálogo reaparece em Dt 5, com variações pequenas e significativas. No mandamento do sábado, Êxodo 20 funda o descanso na criação; Deuteronômio o funda na libertação: "lembra-te de que foste escravo na terra do Egito" (Dt 5:15), e estende o descanso a servos e animais. Na última proibição, a cobiça da mulher do próximo vem antes da casa (Dt 5:21), e o verbo muda em relação a Êxodo. Moisés não cita; reaplica. Ele também faz uma declaração notável antes de começar: a aliança foi feita "conosco" (Dt 5:3), e o povo, tomado de medo, pediu um mediador (Dt 5:23-27).
Depois vem o texto que o judaísmo recita duas vezes ao dia: o Shemá (Dt 6:4-5). O hebraico é curto e admite mais de uma tradução. Pode-se ler "o Senhor, nosso Deus, o Senhor é um", "o Senhor é nosso Deus, o Senhor somente", ou "o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor". A palavra echad, "um", fala de unidade, mas num contexto de tratado ela é também exclusividade: só este Senhor reclama a fidelidade do povo. As tradições cristãs leram o versículo como base de sua confissão de um só Deus, e a relação com a Trindade pertence a outro estudo.
O que vem em seguida desarma quem esperava um mandamento frio: "Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força". Em contextos de tratado, "amar" já era vocabulário de lealdade, como mostrou William Moran, mas Deuteronômio carrega a palavra de afeto sem perder o compromisso. A pedagogia prescrita é concreta (Dt 6:6-9): as palavras ficam "no coração", são repetidas aos filhos, ditas em casa e na estrada, atadas à mão e à testa, escritas nos umbrais. O judaísmo praticou isso literalmente, com filactérios e mezuzá; houve comentaristas medievais, como Rashbam, que viram nas imagens uma figura para a atenção constante. O texto não decide.
Dt 6:20-25 antecipa o dia em que o filho perguntar o sentido das leis, e a resposta não é uma regra: é uma história, "éramos escravos do faraó". Dt 6:10-12 avisa que o perigo maior virá com a prosperidade, quando o povo esquecerá quem encheu suas casas.
Foi desse conjunto que Jesus tirou o que chamou de maior mandamento (Mc 12:29-30), acrescentando ao coração, à alma e à força a palavra "mente". O acréscimo é do evangelista.
Para conversar
- As variações entre o Decálogo de Êxodo e o de Deuteronômio mostram a lei sendo reaplicada. O que isso sugere sobre a relação entre texto fixo e leitura viva?
- Como você entende um mandamento de amar? Ele descreve sentimento, lealdade, ou ambos?
- Dt 6:20-25 responde à pergunta do filho com uma história. Que respostas costumam ser dadas hoje, e o que cada uma ensina?
- Por que o texto vê na prosperidade um perigo maior do que na escassez?
4.A terra e o herem: o trecho mais difícil
Este é o trecho que a maioria dos leitores prefere pular, e o estudo não pode fazê-lo. Dt 7 manda que Israel, ao entrar, destrua totalmente sete povos (hititas, girgaseus, amorreus, cananeus, perizeus, heveus e jebuseus), sem aliança e sem compaixão (Dt 7:1-2), e proíbe casamentos com eles. Dt 20 distingue duas situações: cidades distantes recebem oferta de paz antes do cerco (Dt 20:10-15), e as cidades dos povos da terra devem ser entregues ao herem, a "consagração à destruição", sem sobreviventes (Dt 20:16-18). Incomodar-se com isso não é erro de leitura.
O próprio texto dá razões, e elas merecem atenção. A primeira é religiosa, não étnica: os povos devem desaparecer para que não ensinem Israel a imitar seus cultos (Dt 7:4; 20:18). A segunda é que a posse da terra não vem de mérito de Israel, que é chamado de "povo de dura cerviz" (Dt 9:4-6), nem de tamanho, pois Israel era "o menor de todos os povos" (Dt 7:7); e a perversidade dos povos expulsos é motivo do juízo sobre eles, motivo que se voltaria contra Israel depois (Dt 8:19-20). A terceira são limites: isenções militares para o recém-casado e para o medroso (Dt 20:5-8) e a proibição de derrubar árvores frutíferas no cerco (Dt 20:19-20).
As leituras cristãs e judaicas divergem muito. Há quem tome o herem ao pé da letra, como juízo divino sobre povos específicos num momento único, sem modelo para guerras futuras. Há quem aponte o estilo retórico das narrativas de conquista no Oriente Próximo, em que "destruímos todos" convivia com a continuação dos mesmos povos: Josué 10:40 diz que tudo foi destruído, e Juízes 1 mostra cananeus ainda na terra; Lawson Younger e, mais recentemente, Paul Copan e Matthew Flannagan leem assim. Orígenes, no século III, entendeu as batalhas como luta espiritual contra os vícios. A Mishná (Yadayim 4:4) diz que Senaqueribe misturou as nações, de modo que ninguém mais pode identificar os sete povos, o que tornou a norma inaplicável. Estudiosos críticos, por fim, veem nos textos uma ideologia do período dos reis, projetada para trás, e não uma crônica.
Nenhuma dessas leituras faz o problema desaparecer, e a honestidade pede que se diga que o texto bíblico não resolve por nós se o herem foi praticado como descrito. Ele registra, porém, as exceções (Raabe em Js 6:25, os gibeonitas em Js 9), a motivação religiosa declarada e a ameaça de que o mesmo destino alcançaria Israel infiel.
Para conversar
- Entre as leituras literal, retórica, espiritual e crítica do herem, qual lhe parece mais honesta com o texto, e qual lhe parece mais confortável? São a mesma?
- O que significa dizer que o texto bíblico não resolve por nós se algo aconteceu como descrito?
- Que critérios um leitor pode usar para impedir que textos de guerra sejam usados para justificar violência hoje?
- Como pesa para você o fato de o mesmo juízo ser anunciado contra Israel (Dt 8:19-20)?
5.Lembra-te de que foste escravo: as leis sociais
Depois do capítulo mais áspero, o livro mostra o que a terra exigia de quem a recebesse. As leis sociais de Deuteronômio estão entre as mais exigentes do Antigo Testamento, e a razão que elas dão para quase todas é a mesma: "lembra-te de que foste escravo no Egito" (Dt 15:15; 24:18, 22).
Dt 15 começa com uma instituição radical, a remissão de dívidas a cada sete anos (Dt 15:1-3). O credor perdoa o que emprestou ao irmão. O texto antecipa a objeção óbvia, que seria deixar de emprestar quando o ano se aproxima, e a condena: "não endureças o teu coração" (Dt 15:7-10). Em seguida, o escravo hebreu, homem ou mulher, é libertado no sétimo ano e não pode sair de mãos vazias: o dono lhe dá do rebanho, da eira e do lagar (Dt 15:12-14). Há uma tensão interna no capítulo. Dt 15:4 diz que "não haverá pobre entre vós", e Dt 15:11 que "pobres nunca deixarão de existir na terra". O segundo versículo continua com uma ordem: "abrirás generosamente a mão". Quando Jesus diz que os pobres estão sempre com os discípulos (Mt 26:11), ele cita este texto, não o inventa.
Dt 24 desce ao detalhe cotidiano. Não se toma em penhor a mó, de que depende a comida da casa (24:6). A capa do pobre dada em penhor deve ser devolvida ao pôr do sol, pois é o cobertor dele (24:10-13). O salário do diarista é pago no mesmo dia (24:14-15). Ninguém é morto pelo pecado do pai ou do filho (24:16). Ao estrangeiro, ao órfão e à viúva não se nega justiça (24:17), e o que cai do feixe fica no campo para eles (24:19-22). Dt 24:1-4, sobre a carta de divórcio, aparece em Mt 19:3-9, onde Jesus a chama concessão; o assunto tem estudo próprio.
Perguntar se isso foi praticado é legítimo. Jeremias 34:8-22 mostra a libertação de escravos desobedecida, e Neemias 5 mostra credores explorando irmãos; a tradição rabínica registra que Hilel criou o prosbul, instrumento que permitia ao credor preservar a dívida e contornar a remissão (Mishná, Sheviit 10). A lei reconhecia, portanto, que a generosidade tem um custo, e que a prática se enfraquece quando o custo aparece.
Dt 23:19-20 proíbe juros ao irmão, mas os permite ao estrangeiro, distinção que nem todos os comentaristas veem como justa. Dt 23:15-16 manda não devolver o escravo fugitivo. O conjunto é coerente: uma comunidade que se define pela libertação deve ser reconhecível pela forma como trata os que ficaram sem proteção.
Para conversar
- A lei admite que haverá pobres e ao mesmo tempo ordena que não haja. Como conviver com essa tensão sem anular nenhum dos lados?
- O prosbul preservava a letra da lei contornando seu espírito. Onde você vê esse padrão hoje, em instituições ou na vida pessoal?
- Por que a razão dada para quase todas essas leis é uma memória, e não um princípio abstrato?
- Que diferença faz a justiça social ter sido formulada como parte da aliança, e não como filantropia opcional?
6.Bênção, maldição e a morte de Moisés
O discurso termina como um tratado: com sanções. Dt 27 descreve uma cerimônia em Gerizim e Ebal, com tribos de cada lado e doze maldições às quais o povo responde "amém". Dt 28 lista bênçãos e, em extensão muito maior, maldições, da fome à invasão por uma nação "de longe" (Dt 28:49) e à dispersão. Dt 29–30 renova a aliança em Moabe e chega a uma virada: depois da dispersão, se o povo voltar, o Senhor o trará de volta e "circuncidará o seu coração" (Dt 30:6). A palavra "não está no céu... está muito perto de ti" (Dt 30:11-14) foi retomada por Paulo em Romanos 10:6-8. O capítulo fecha com céu e terra por testemunhas: "escolhe, pois, a vida" (Dt 30:19).
A lógica de bênção para a obediência e maldição para o desvio ficou conhecida como teologia deuteronomista, e Martin Noth, em 1943, propôs que Josué, Juízes, Samuel e Reis foram escritos sob essa lente. Jó e Eclesiastes o questionam, e Jesus o recusa para o cego de nascença (Jo 9:3) e para as vítimas da torre de Siloé (Lc 13:1-5). Ler Dt 28 como regra para o destino de cada indivíduo é ir além do que o capítulo diz, que fala de uma nação sob aliança.
Os capítulos finais trazem o cântico de Moisés (Dt 32), as bênçãos às tribos (Dt 33) e a morte (Dt 34). Moisés sobe ao Nebo, vê a terra toda e morre "conforme a palavra do Senhor"; "ninguém sabe o lugar da sua sepultura até hoje" (Dt 34:5-6). O Talmude (Bava Batra 14b) registra duas opiniões sobre quem escreveu esses versículos, Josué ou o próprio Moisés, em lágrimas. E o elogio final, que nenhum profeta se levantou como ele (Dt 34:10), conversa com a promessa de Dt 18:15-19 de que Deus levantaria um profeta como ele. O Novo Testamento lê isso em Jesus (At 3:22; Jo 1:45; 6:14).
A reforma de Josias (2 Rs 22–23) se apoia em um livro da lei que muitos associam a Deuteronômio. Jeremias fala de circuncidar o coração (Jr 4:4) e de uma lei escrita no coração (Jr 31:33), em ecos nítidos de Dt 6:6 e 30:6. Malaquias encerra os profetas mandando lembrar a lei de Moisés, dada no Horebe (Ml 4:4). E quando Jesus é tentado no deserto, depois de quarenta dias, cada resposta vem de Deuteronômio (Mt 4:1-11): Dt 8:3, Dt 6:16 e Dt 6:13. Ele responde com o livro que Israel aprendeu a recitar para não esquecer.
Para conversar
- Dt 28 liga obediência e bem-estar coletivos, e Jó e Jesus recusam fazer disso uma regra individual. Como equilibrar as duas coisas ao ler a Bíblia?
- O que significa um líder que conduz o povo até a fronteira e morre sem entrar? O que isso diz sobre a obra dele?
- Jesus responde ao tentador citando Deuteronômio. O que isso revela sobre como ele lia o livro?
O que fica
- Deuteronômio é Torá pregada: discursos de Moisés em forma de tratado, dirigidos a uma geração que não esteve no Horebe e é chamada a se ver lá.
- A memória vem antes da lei. A obediência pedida é resposta ao que Deus já fez, e a razão de quase toda lei social é lembrar da escravidão no Egito.
- O Shemá e o amor ao Senhor ocupam o centro do livro, e foi dali que Jesus tirou o maior mandamento e as respostas ao tentador.
- O herem de Dt 7 e 20 é o trecho mais difícil, e as tradições o leem de modos muito diferentes; nenhuma leitura honesta o trata como fácil.
- Bênção e maldição valem para a nação sob aliança; Jó e Jesus mostram o erro de aplicar o esquema a cada vida individual.
Aprofundamento
O núcleo do livro é a relação entre aliança e memória. Em Dt 5:3 Moisés diz que o Senhor fez a aliança "conosco, todos nós que hoje estamos vivos", embora a maioria dos presentes não tivesse estado no Horebe. É um mecanismo de atualização: cada geração se coloca na posição de quem ouviu. Daí o peso dos verbos "lembrar" e "não esquecer", repetidos dezenas de vezes, e das fórmulas para o ensino aos filhos (Dt 6:7, 20-25). O texto se entende como liturgia pedagógica antes de ser código jurídico.
Há três pontos de debate que um leitor precisa conhecer. O primeiro é a data. A leitura tradicional mantém a origem mosaica do núcleo, com acréscimos posteriores como o relato da morte; a crítica histórica, desde Wellhausen, associa o livro a Josias; posições intermediárias falam de tradições antigas editadas ao longo dos séculos. O texto não afirma que Moisés escreveu tudo (Dt 31:9, 24 atribui a ele a escrita da lei, não do livro todo), e isso abre espaço para leituras diferentes dentro de tradições que valorizam a autoridade do texto.
O segundo é o herem de Dt 7 e 20. As leituras literal, retórica, alegórica e crítica foram descritas na parte quatro. O que importa aqui é notar que todas as tradições, judaicas e cristãs, trataram o assunto como difícil, e não como rotina, e que o rabinismo antigo restringiu a aplicação do mandamento até torná-lo inoperante.
O terceiro é a teologia da retribuição. Dt 28 e 30 ligam obediência a bênção e desobediência a maldição, e esse esquema dominou a historiografia de Josué a Reis. Os livros de Jó e Eclesiastes, e depois os ensinos de Jesus, mostram os limites de aplicar o esquema a casos individuais. O próprio Deuteronômio, porém, termina com uma esperança que vai além da retribuição: depois do exílio, o Senhor circuncidará o coração do povo (Dt 30:6). Esse é o ponto de onde Jeremias e Ezequiel partem.
Por fim, convém registrar a relação com Jesus. Ele cita Deuteronômio em Mt 4:4, 7 e 10, em Mc 12:29-30 e em outras passagens. O Novo Testamento também lê a promessa de um profeta como Moisés (Dt 18:15-19) em Jesus (At 3:22). Isso não prova que o livro seja sobre ele; registra como os primeiros leitores cristãos o tomaram por chave de leitura, e quem lê o texto antigo por si mesmo pode ver nele outra coisa, sem trair o sentido original.
O que costumam dizer errado
Dizem que:Deuteronômio é a "segunda lei", uma versão mais branda ou nova da lei do Sinai.
O nome vem de uma leitura grega de Dt 17:18, que traduz a expressão hebraica "cópia desta lei" como "segunda lei". O livro não se apresenta como lei nova, e sim como a exposição de Moisés da lei já dada (Dt 1:5), reaplicada à geração que vai entrar na terra. O título hebraico, "palavras", descreve melhor.
Dizem que:A Bíblia ordena destruir todos os povos que não são israelitas.
As ordens de Dt 7 e 20 se referem aos povos que habitavam a terra, e o próprio capítulo 20 prevê oferta de paz às cidades distantes. O texto explica o herem por motivo religioso e por juízo, não por etnia, e o aplica também a Israel infiel (Dt 8:19-20). A Mishná (Yadayim 4:4) considera que as nações foram misturadas e que os sete povos já não podem ser identificados.
Dizem que:Moisés escreveu o relato da própria morte em Dt 34.
O texto fala de sua morte e sepultamento na terceira pessoa e diz que ninguém sabe onde está o túmulo "até hoje". O Talmude (Bava Batra 14b) registra duas tradições, uma atribuindo os versículos a Josué e outra a Moisés escrevendo em lágrimas. Leitores cristãos e judeus têm entendido o trecho como acréscimo, profético ou editorial, e a questão continua aberta.
Como diferentes tradições cristãs leem
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Judaísmo rabínico
Deuteronômio é Torá de Moisés, o livro mais lido na vida litúrgica (o Shemá é recitado diariamente) e fonte das leis sobre pobres, escravos e estrangeiros. O herem é tratado como mandamento circunscrito: a Mishná (Yadayim 4:4) sustenta que os sete povos já não são identificáveis, e a prática rabínica o deixou sem aplicação.
Crítica histórica
O livro, em sua forma atual, é visto como produto da época dos reis de Judá, ligado à reforma de Josias (2 Rs 22–23), com camadas anteriores e posteriores. Afinidades com tratados assírios sustentam essa data, e o herem é lido como retórica ideológica de um tempo em que os cananeus já não eram ameaça real.
Cristianismo conservador (católico e evangélico)
Mantém o núcleo mosaico e valoriza a analogia com tratados do segundo milênio. O herem é entendido como juízo específico sobre povos determinados em um momento único da história da salvação, e as narrativas de conquista são frequentemente lidas como linguagem hiperbólica, de acordo com os costumes da época.
Leitura alegórica patrística
Orígenes e outros pais leram as guerras de Josué e de Deuteronômio como combate espiritual do crente contra os vícios e as potências, de modo que o herem se aplica ao pecado dentro da pessoa, e não a povos. É uma leitura antiga e influente, hoje criticada por quem a considera uma fuga do sentido histórico do texto.
O que fazer com isso
Leia um capítulo de Deuteronômio como quem ouve um discurso, e não como quem consulta uma lista de regras. Pergunte a quem Moisés fala, o que ele quer que a pessoa lembre e que ação espera. Ao encontrar um trecho difícil, como o herem, não o contorne: leia o contexto, os limites que o próprio texto impõe e as leituras de tradições diferentes. Em seguida, escolha uma lei social do livro e pergunte que memória a sustenta.
Perguntas frequentes
- Por que o livro se chama Deuteronômio?
- O nome vem do grego da Septuaginta, que leu a expressão de Dt 17:18, "cópia desta lei", como "segunda lei". O título hebraico é Devarim, "palavras", e descreve melhor o conteúdo: discursos de Moisés que explicam a lei já dada.
- O que é o Shemá?
- É a confissão de Dt 6:4-5, "Ouve, Israel: o Senhor nosso Deus, o Senhor é um", seguida da ordem de amá-lo de todo o coração, alma e força. O judaísmo a recita duas vezes por dia, e Jesus a citou como o maior mandamento (Mc 12:29-30).
- Os mandamentos de Deuteronômio 5 são os mesmos de Êxodo 20?
- São os mesmos dez, com variações. A mais conhecida é o motivo do sábado: em Êxodo é a criação, em Deuteronômio é a libertação do Egito. Também muda a ordem na última proibição, em que a mulher do próximo aparece antes da casa.
- Quando Moisés morreu, o que o texto diz sobre o túmulo?
- Dt 34:5-6 diz que Moisés morreu no monte Nebo, em Moabe, e que foi sepultado num vale, mas que ninguém sabe onde fica o sepulcro. Sobre quem escreveu esses versículos, o Talmude registra duas opiniões: Josué ou o próprio Moisés.
Fontes consultadas
- George E. Mendenhall. Law and Covenant in Israel and the Ancient Near East, 1955.
- Gerhard von Rad. Deuteronomy: A Commentary, 1964.
- William L. Moran. The Ancient Near Eastern Background of the Love of God in Deuteronomy, 1963.
- Moshe Weinfeld. Deuteronomy and the Deuteronomic School, 1972.
- Peter C. Craigie. The Book of Deuteronomy, 1976.
- Jeffrey H. Tigay. JPS Torah Commentary: Deuteronomy, 1996.
- J. Gordon McConville. Deuteronomy (Apollos Old Testament Commentary), 2002.
- Kenneth A. Kitchen. On the Reliability of the Old Testament, 2003.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.