Davi: pastor, rei e salmista de 1 Samuel a 1 Reis
o que a bíblia diz sobre o rei davi
Resposta curta
Davi é uma das figuras mais longamente narradas do Antigo Testamento. Pastor de Belém, ungido em segredo, vencedor de Golias, fugitivo de Saul, rei em Hebrom e em Jerusalém, destinatário de uma promessa dinástica, autor de salmos, adúltero e responsável pela morte de Urias, pai de um filho que se rebela contra ele. O texto bíblico o apresenta sem retoque e sem condená-lo por inteiro. Este estudo percorre a vida de Davi em seis partes, de 1 Samuel a 1 Reis, trata da aliança de e do retrato diferente de Crônicas, e mostra como o Novo Testamento passa a chamar Jesus de Filho de Davi. Onde as tradições divergem, ele diz onde e por quê.
Em palavras simples
Davi foi um pastor de Belém que Deus escolheu para ser rei de Israel. Venceu o gigante Golias, fugiu durante anos do rei Saul, reinou em Hebrom e depois em Jerusalém e trouxe a arca da aliança para a cidade. Deus prometeu que a linhagem dele duraria para sempre. Davi também errou gravemente ao tomar Bate-Seba e mandar matar o marido dela, e as consequências marcaram sua família. A tradição lhe atribui muitos salmos. O Novo Testamento chama Jesus de Filho de Davi. Judeus e cristãos leem essa promessa de formas diferentes.
Antes de começar
A história de Davi ocupa a parte final de 1 Samuel, todo o livro de 2 Samuel e o início de 1 Reis, com uma segunda versão em 1 Crônicas. Os livros de Samuel e Reis fazem parte do que a tradição hebraica chama de Profetas Anteriores, e a tradição cristã coloca entre os livros históricos. Eles foram compostos e editados ao longo de séculos, e a data e o modo da redação são discutidos. A narrativa cobre a passagem de Israel de um sistema de chefes tribais, os juízes, para a monarquia, em um contexto em que os filisteus pressionavam os israelitas.
Davi era de Belém, na tribo de Judá, e filho de Jessé. Reinou, segundo os textos, quarenta anos, entre cerca de 1010 e 970 a.C. em datações tradicionais, que os estudiosos ajustam de várias formas. Há poucas evidências externas diretas. A estela de Tel Dan, descoberta em 1993 e 1994 e datada do século IX a.C., traz uma expressão normalmente lida como 'casa de Davi', e isso é geralmente aceito como indício de que Davi existiu e fundou uma dinastia; a extensão e a riqueza do seu reino, porém, são muito discutidas pela arqueologia.
O livro de Samuel tem uma marca literária peculiar: o narrador raramente julga. Ele conta, e o leitor percebe. Isso torna a história de Davi uma das mais ambíguas da Bíblia, porque o mesmo personagem aparece corajoso e violento, leal e traiçoeiro, penitente e cego. Crônicas, escrito provavelmente depois do exílio, retoma o material com outra preocupação, o culto e o templo, e omite episódios que Samuel narra.
A tradição também associa Davi aos Salmos. O texto hebraico atribui cerca de setenta salmos a ele em seus títulos, e o chama de doce cantor de Israel. Que ele os tenha escrito, em que sentido e quando os títulos foram acrescentados são questões em aberto. Por fim, o nome de Davi é central no Novo Testamento, que abre o primeiro evangelho com o título Filho de Davi.
Como isso aponta para Jesus
TipologiaO Novo Testamento lê Davi em duas direções ao mesmo tempo. Como pastor ungido, rei e destinatário da promessa de , ele aparece como figura de quem viria. Como rei que falhou, ele mostra, por contraste, o que a promessa ainda aguardava. É a lógica de , em que Pedro diz que Davi morreu e foi sepultado e que por isso os salmos falam de outro, e de , que nomeia Jesus como filho de Davi depois de contar uma genealogia em que a falha de Davi não é omitida.
Respaldo no Novo Testamento:
As partes do estudo
1.O ungido que ninguém esperava: Belém e o vale de Elá
A história de Davi começa com uma escolha que o texto faz questão de mostrar como improvável. Samuel é enviado a Belém, à casa de Jessé, para ungir um rei entre os filhos dele, e olha primeiro para o mais alto e de melhor aparência. A resposta de Deus em 1 Samuel 16:7 é a chave de leitura do que vem depois: o Senhor não vê como o homem vê, o homem olha o exterior e o Senhor olha o coração. Davi, o mais novo, está com as ovelhas e nem foi chamado à cerimônia. O texto diz que o Espírito do Senhor veio sobre ele a partir daquele dia e, no mesmo versículo, diz que o Espírito se retirou de Saul. A frase de 1 Samuel 13:14, sobre um homem segundo o coração de Deus, é debatida: descrição de caráter ou afirmação sobre a escolha divina.
Davi entra na corte por uma porta lateral. Saul, atormentado, precisa de alguém que toque harpa, e o jovem de Belém é descrito por um servo como bom músico, valente e de fala prudente.
O capítulo 17 é uma das cenas mais conhecidas da Bíblia e uma das mais lidas de forma apressada. Golias, de Gate, desafia o exército de Israel durante quarenta dias. Sua altura, no texto hebraico tradicional, é de seis côvados e um palmo, algo perto de três metros; a tradução grega antiga e um fragmento de Qumran trazem quatro côvados e um palmo, e a diferença é um dos casos em que os manuscritos não concordam. Davi chega apenas para levar provisões aos irmãos. Rejeita a armadura de Saul e se justifica pelo que fez com leões e ursos e pelo insulto ao Deus vivo. Em 17:45-47 ele diz que vai em nome do Senhor dos Exércitos e que a batalha pertence ao Senhor. A cena trata menos de coragem pessoal do que de a quem pertence a guerra.
O texto deixa lacunas honestas. Não informa a idade de Davi, apenas que Saul o chama de jovem. Em 1 Samuel 17:55-58 Saul parece não saber quem é o rapaz, embora o capítulo 16 já os tenha apresentado, e as tradições explicam isso de formas diferentes, desde a perda de memória de um rei perturbado até a diferença de fontes. E 2 Samuel 21:19 atribui a morte de Golias a Elanã, de Belém, enquanto 1 Crônicas 20:5 fala de Elanã matando o irmão de Golias.
Para conversar
- Em Deus afirma olhar o coração, mas a mesma narrativa descreve a aparência de Davi. O que o texto parece querer dizer com essa tensão?
- Davi justifica sua coragem por experiências anteriores com leões e ursos e por uma convicção sobre Deus. Que peso cada uma das duas razões tem na cena?
- Quando o texto apresenta versões que não batem, como a identidade de quem matou Golias, o que você prefere fazer: harmonizar, deixar em aberto ou perguntar o que cada versão quer ensinar?
- Por que o narrador mostra o Espírito vindo sobre Davi e saindo de Saul no mesmo momento, em vez de contar as duas coisas em lugares diferentes?
2.Saul, Jônatas e os anos de fuga
Entre o vale de Elá e a coroa existe um longo intervalo que ocupa mais capítulos do que o próprio reinado. Em 1 Samuel 18 o sucesso militar de Davi provoca a canção das mulheres, mil para Saul, dez mil para Davi, e o rei passa a olhá-lo com suspeita. A partir daí o texto alterna entre tentativas de matá-lo, fugas e pequenas alianças. Saul atira a lança duas vezes, entrega a filha Mical numa troca que é uma armadilha e acaba convencido, mais de uma vez, a recuar. O texto atribui o estado de Saul ao espírito mau que vem da parte do Senhor, uma expressão difícil que as tradições leem de modos diferentes, e não oferece uma explicação psicológica.
Jônatas ocupa o lugar mais inesperado da história. Ele é o herdeiro do trono e, mesmo assim, faz aliança com o rival, dá a Davi o manto e as armas e, em 1 Samuel 20, arrisca a própria posição para avisá-lo. O texto diz que amou Davi como a si mesmo, e a leitura que se faz dessa linguagem varia: amizade política selada por aliança, amizade profunda ou algo mais, sem que o texto force uma resposta. O lamento de Davi em 2 Samuel 1:26 diz que o amor de Jônatas lhe era mais maravilhoso do que o amor de mulheres.
O Davi fugitivo não é apresentado como santo. Em Nobe, mente ao sacerdote Aimeleque para conseguir pão e a espada de Golias, e a consequência é a morte de oitenta e cinco sacerdotes pelas mãos de Doegue, fato que o próprio Davi reconhece em 22:22 como responsabilidade sua. Em Gate, finge-se de louco diante do rei filisteu. Reúne em Adulão um bando de endividados e descontentes. Poupa Saul duas vezes, em En-Gedi e em Haquilá, recusando levantar a mão contra o ungido do Senhor, mas quase mata Nabal e só é detido pela intervenção de Abigail, no capítulo 25.
A parte mais desconfortável vem depois. Para escapar de Saul, Davi serve ao rei filisteu Aquis, recebe a cidade de Ziclague e faz incursões que, segundo 27:8-12, não deixam sobreviventes, enquanto deixa Aquis acreditar que atacava Judá. Os comandantes filisteus acabam por dispensá-lo antes da batalha de Gilboa, onde Saul e Jônatas morrem. Vários títulos de salmos ligam poemas a essas situações, como os Salmos 34, 52, 54, 56, 57 e 142. A antiguidade desses títulos é discutida, mas eles mostram que a tradição quis ler a oração de Davi dentro do contexto de perseguição.
Para conversar
- O texto mostra Davi poupando Saul duas vezes, mas também mentindo em Nobe e servindo ao rei filisteu. Como você lê um personagem em que virtude e falha aparecem lado a lado, sem que o narrador resolva isso?
- Jônatas abre mão de um trono em nome de uma amizade. O que a história sugere sobre lealdade quando ela entra em conflito com interesse e família?
- A expressão 'espírito mau da parte do Senhor' é difícil. Que cuidado um leitor precisa ter ao explicá-la?
- Por que o autor reserva tanto espaço aos anos de fuga antes de mostrar Davi reinando? O que a narrativa ganha com isso?
3.Rei em Hebrom, rei em Jerusalém: o poder e a arca
A ascensão de Davi ao trono não é imediata nem limpa. Depois de Gilboa, os homens de Judá o ungem rei em Hebrom, enquanto Abner, comandante de Saul, faz de Isbosete, filho de Saul, rei sobre o norte. Segundo 2 Samuel 5:4-5, Davi reina sete anos e meio em Hebrom e trinta e três em Jerusalém, com idade de trinta anos no início. O texto passa por vários episódios de violência: Abner muda de lado e é morto por Joabe, Isbosete é assassinado por dois dos seus próprios oficiais. Davi condena as duas mortes e executa os assassinos de Isbosete, e o narrador faz questão de dizer que ele não se beneficiou pelas mãos deles. Só então os anciãos de Israel vêm a Hebrom e fazem aliança com ele. A união de norte e sul em torno de um rei é, no texto, recente e frágil, e as fraturas voltarão com Absalão.
A conquista de Jerusalém, cidade dos jebuseus, em 2 Samuel 5:6-10, cria uma capital que não pertencia a nenhuma tribo. A passagem tem um trecho obscuro em 5:8, sobre a entrada na cidade por um canal, e os tradutores divergem sobre ele. Davi chama o lugar de Cidade de Davi. Hirão, rei de Tiro, envia cedro e artesãos. Os filisteus tentam e são derrotados duas vezes.
A arca da aliança, que estava em Quiriate-Jearim desde os dias de Samuel, é o gesto que transforma a capital política em centro religioso. A primeira tentativa de levá-la, num carro novo, termina com Uzá morto ao tocar na arca para segurá-la. Davi se irrita e depois se assusta, e deixa a arca na casa de Obede-Edom, gateu, por três meses. Quando a leva a Jerusalém, o faz com sacrifícios, com gritos e com Davi dançando vestido de linho. Mical o despreza e a conversa entre os dois termina sem reconciliação. 1 Crônicas 15 explica o episódio de Uzá dizendo que a arca deveria ser carregada pelos levitas, e este é um exemplo de como cada livro conta a mesma cena com a sua preocupação própria.
O trecho levanta uma pergunta que o texto não responde sobre a morte de Uzá: por que uma ação de boa intenção recebe uma resposta tão dura? Tradições judaicas e cristãs apontam para a santidade que não se manuseia, mas o narrador apenas relata o fato e a reação de Davi.
Para conversar
- Davi chega ao trono depois de duas mortes que ele condena publicamente. O que o relato parece querer garantir ao leitor sobre a legitimidade desse reinado?
- A morte de Uzá é uma das cenas mais difíceis do livro. O que você faz com uma passagem em que Deus age de forma que o próprio Davi acha perturbadora?
- Jerusalém não pertencia a nenhuma tribo. Que significado político e religioso essa escolha pode ter tido?
- Mical vê a dança como vergonha e Davi a vê como adoração. Há uma forma de decidir quem tem razão ou o texto deixa a tensão aberta?
4.A casa que Deus promete: a aliança davídica
O capítulo 7 de 2 Samuel é considerado por muitos estudiosos o centro teológico do livro. Davi, estabelecido e em paz, nota que mora numa casa de cedro enquanto a arca está numa tenda e propõe construir um templo. O profeta Natã, sem consultar, diz que vá em frente. Na mesma noite a palavra de Deus corrige o profeta e o rei. A resposta de Deus é construída em torno do verbo e do substantivo casa. Davi quer construir uma casa para Deus; Deus diz que é ele quem edificará uma casa para Davi, no sentido de uma dinastia. A lembrança vem de longe: Deus o tirou do pasto das ovelhas, esteve com ele em todos os lugares e vai fazer-lhe um nome grande.
A promessa central é que um descendente de Davi será estabelecido no trono e construirá a casa do nome de Deus. Em 7:14, Deus diz que será pai para ele e ele será filho, e acrescenta que, se vier a transgredir, será corrigido com vara de homens. Em 7:15 a misericórdia de Deus não se afastará dele, como se afastou de Saul. A palavra aliança não aparece neste capítulo, mas é usada para ele em 2 Samuel 23:5 e no Salmo 89, que fala de uma aliança jurada ao escolhido de Deus. O Salmo 132:11-12 coloca a promessa de forma condicional, vinculando-a à fidelidade dos filhos. A tensão entre esses textos é o ponto que as tradições discutem: a promessa é incondicional, cumprindo-se mesmo quando os reis falham, ou depende da obediência da dinastia?
A história dos reis dá motivo para a pergunta. Salomão constrói o templo, mas o reino se divide após sua morte, e em 586 a.C. o último rei davídico é deposto pelos babilônios. O Salmo 89:38-45 é um lamento de quem vê a promessa aparentemente rompida. Os profetas então projetam a promessa para a frente: o broto do tronco de Jessé em Isaías 11, o rei justo em Jeremias 23 e o pastor, o meu servo Davi, em Ezequiel 34:23-24. Esse movimento é anterior ao Novo Testamento e é o pano de fundo sem o qual o título Filho de Davi não faz sentido.
Quem lê 2 Samuel 7 como promessa sobre a linhagem, e não apenas sobre Salomão, já está lendo com os profetas. Quem lê só Salomão perde a trajetória. As leituras cristãs e judaicas partem da mesma passagem e chegam a lugares diferentes, e o debate começa aqui.
Para conversar
- Davi quer fazer algo bom por Deus e a resposta é uma inversão: Deus fará algo por ele. O que essa inversão revela sobre como o texto entende a relação entre o rei e o seu Deus?
- A promessa é incondicional, condicional ou as duas coisas? Quais textos você usaria para sustentar cada resposta?
- O Salmo 89 termina em lamento, com a promessa aparentemente desfeita. O que significa a Bíblia preservar um texto assim?
- Como a promessa de pode ser lida primeiro como sobre Salomão e depois como sobre uma linhagem maior, sem que uma leitura apague a outra?
5.Bate-Seba, Natã e a espada que não se afasta
O capítulo 11 de 2 Samuel começa com uma nota de tempo que já diz muito: era a época em que os reis saíam à guerra, e Davi ficou em Jerusalém. Do terraço do palácio ele vê uma mulher se banhando e manda saber quem é. Descobre que é Bate-Seba, mulher de Urias, o heteu, um dos seus guerreiros. Os verbos do narrador atribuem a ação a Davi: enviou, tomou, deitou-se com ela. O texto não usa linguagem de sedução da parte dela nem descreve explicitamente consentimento, e leitores recentes destacam a assimetria entre um rei e a mulher de um soldado. Quando ela engravida, Davi chama Urias de volta da frente para que durma em casa, e Urias recusa, dizendo que a arca e o exército estão em tendas. Davi o embebeda, em vão, e manda por ele mesmo a carta que ordena a Joabe colocá-lo onde a luta é mais forte. O narrador encerra com uma frase seca: o que Davi fez foi mau aos olhos do Senhor.
Natã chega com uma parábola sobre um homem rico que toma a única ovelha de um pobre. Davi se indigna, sentencia, e o profeta responde com duas palavras em hebraico, traduzidas como Tu és o homem. A pena anunciada é que a espada não se apartará da casa de Davi. Quando Davi diz que pecou contra o Senhor, Natã responde que o Senhor removeu seu pecado e que ele não morrerá, mas o filho morrerá. A lei previa pena de morte para adultério e homicídio, e o texto não explica por que Davi escapa dela. O Salmo 51, em seu título, é ligado a esse momento, e seu versículo 4, 'contra ti, contra ti somente pequei', tem sido lido tanto como uma confissão que vai ao fundo quanto como uma tensão com o fato de haver uma vítima humana.
O resto do reinado é lido, desde 12:10, como o desdobramento dessa sentença. Amnom violenta Tamar, sua meia-irmã, e Davi se enfurece, mas não age. Absalão mata Amnom depois de dois anos, foge, volta e acaba conquistando o coração dos homens de Israel junto ao portão. A revolta o leva a ocupar Jerusalém, Davi cruza o Cedrom em fuga e aceita as maldições de Simei como possível castigo. Absalão deita-se com as concubinas do pai à vista de todos, cumprindo o que Natã dissera. Na batalha, Davi pede que o poupem, mas Joabe o mata, e o lamento do rei, 'Absalão, meu filho, meu filho', comove até hoje.
Para conversar
- O narrador descreve o que Davi fez com verbos curtos e sem comentário até a última frase do capítulo 11. Que efeito esse silêncio tem sobre o leitor?
- O perdão em vem junto com consequências que duram o resto do reinado. Como você entende a relação entre perdão e consequência nessa história?
- O Salmo 51 foi ligado a este episódio pelo título, mas essa ligação é discutida. O que mudaria na sua leitura do salmo se ele fosse lido sem o título?
- Davi age rápido contra Urias e devagar com Amnom e Absalão. O texto sugere uma conexão entre as duas coisas?
6.O fim do reinado, o Davi das Crônicas e o Filho de Davi
Os dois primeiros capítulos de 1 Reis mostram um Davi idoso, que não se aquece e precisa de uma jovem, Abisague, para cuidar dele. A sucessão é disputada: Adonias, o filho mais velho vivo, se proclama rei, e Natã e Bate-Seba intervêm para que Salomão seja ungido em Giom. As últimas palavras de Davi a Salomão misturam fidelidade à lei do Senhor com instruções sobre Joabe e Simei, que Salomão executa, e muitos leitores acham o trecho desconcertante. O livro registra os quarenta anos de reinado e encerra com uma fórmula: Davi dormiu com seus pais. Mais adiante o narrador o usa como régua: reis posteriores são avaliados por terem andado ou não como Davi, e 1 Reis 15:5 diz que ele fez o que era reto, exceto no caso de Urias, o heteu. A ressalva está ali, no mesmo versículo do elogio.
O Davi de 1 e 2 Crônicas é um retrato diferente, escrito provavelmente para uma comunidade que voltava do exílio. Os livros omitem Bate-Seba, Amnom, Absalão e a disputa por sucessão, e também os sete anos em Hebrom como rei só de Judá. Em compensação, dedicam muito espaço ao que Samuel diz pouco: a organização dos levitas, do canto e da música no culto, e os preparativos para o templo, que Salomão construirá. Em 1 Crônicas 22:8 e 28:3, Davi é impedido de construir porque derramou sangue, dado que Samuel não menciona. No recenseamento, 2 Samuel 24:1 atribui a incitação à ira do Senhor e 1 Crônicas 21:1 a Satanás. Alguns veem nisso uma idealização, outros uma escolha de tema para um público que precisava do culto e da linhagem. Os dois livros ficam na Bíblia, lado a lado.
O Novo Testamento herda os dois Davis. Mateus abre com Jesus, filho de Davi, e na genealogia nomeia a mulher de Urias, sem dar o nome dela. Lucas 1:32 liga a promessa a Maria, e Romanos 1:3 e Apocalipse 22:16 afirmam a descendência. Em Atos 2, Pedro diz que Davi morreu e foi sepultado, e por isso o Salmo 16 e o Salmo 110 falam de outro. Em Marcos 12:35-37, Jesus pergunta como o Cristo pode ser filho de Davi se o próprio Davi o chama de Senhor. As tradições divergem sobre como ler a continuidade entre o reino davídico e a esperança cristã, e o texto bíblico fornece material para cada uma. O que o texto sustenta é que o rei que falhou e a promessa que não falhou foram lidos juntos.
Para conversar
- Samuel conta o pecado de Davi e Crônicas o omite. Que razões você imagina para cada escolha, e o que você acha de a Bíblia manter os dois relatos?
- O Novo Testamento chama Jesus de Filho de Davi e ao mesmo tempo, em , parece dizer que isso não basta. Como você entende essa tensão?
- As últimas instruções de Davi a Salomão em incomodam muita gente. O que fazer com um final de vida que não é apenas edificante?
- O que muda na leitura da história inteira quando se reconhece que o elogio e a ressalva sobre Davi estão no mesmo versículo, em ?
O que fica
- O narrador de Samuel raramente julga: conta o que Davi fez e deixa o leitor perceber. É por isso que o personagem parece tão humano.
- A aliança de inverte o pedido de Davi: ele quer fazer uma casa para Deus, e Deus promete fazer uma casa para ele.
- O pecado com Bate-Seba e a morte de Urias não são apagados do relato, e o perdão em 12:13 vem junto com consequências que se prolongam por todo o reinado.
- Samuel e Crônicas contam Davi com propósitos diferentes, e a Bíblia mantém os dois relatos lado a lado.
- O Novo Testamento lê o Filho de Davi a partir da promessa e da falha do rei, e as tradições divergem sobre como entender a continuidade.
Aprofundamento
Quatro questões concentram o debate sobre Davi, e vale separá-las para que não se confundam.
A primeira é histórica. Há quem aceite o essencial do retrato bíblico, com um reino unificado e razoavelmente forte em Jerusalém no século X a.C., e há quem veja um chefe regional cuja imagem foi engrandecida depois. A estela de Tel Dan confirma a lembrança de uma dinastia de Davi no século IX, e a pergunta sobre o tamanho do reino continua aberta. Quem lê o texto como teologia narrativa não precisa decidir isso para entender o que ele diz, mas precisa saber que se trata de uma divergência real.
A segunda é a ética. O texto não esconde que Davi mentiu em Nobe, atacou povoados sem deixar sobreviventes quando vivia em Ziclague e matou Urias por meio de Joabe. Parte da tradição, como um trecho do Talmude (Shabbat 56a), registra a opinião de que ele não pecou da forma como parece; a maior parte das leituras cristãs e judaicas posteriores, ao contrário, vê o pecado como real e a penitência como real. A expressão homem segundo o coração de Deus, citada em , é lida por alguns como referência à disposição de Davi de se arrepender e por outros como referência à escolha divina; o texto permite as duas, e acrescenta a ressalva.
A terceira é a aliança de . Se ela é uma doação incondicional, como a dos tratados de concessão do Antigo Oriente, ou depende da fidelidade dos reis, como o Salmo 132 e sugerem. A tradição dispensacionalista insiste em um cumprimento literal futuro no reino de Israel; as tradições católica, ortodoxa e reformada leem o cumprimento em Cristo e na Igreja. Os judeus esperam um rei davídico ainda por vir.
A quarta é a relação entre Samuel e Crônicas. Os dois livros coincidem em muitos pontos e diferem em outros, como a autoria do recenseamento e a omissão de Bate-Seba. Para uns, Crônicas é uma releitura teológica deliberada; para outros, uma seleção de material para um público específico. Em nenhum dos casos o resultado cancela Samuel. O cânon mantém as duas versões lado a lado, e as tradições aprenderam a ler uma à luz da outra.
Há ainda uma questão de método que atravessa as quatro: o Novo Testamento cita Davi muitas vezes, mas não da mesma forma. Às vezes ele é exemplo de conduta, como em ; às vezes autor de profecia, como em ; às vezes ancestral, como em . Distinguir esses usos evita atribuir a uma passagem o que ela não afirma.
O que costumam dizer errado
Dizem que:Davi era perfeito, porque a Bíblia o chama de homem segundo o coração de Deus.
A expressão aparece em e é retomada em , mas as mesmas narrativas contam a mentira em Nobe, o massacre de povos em Ziclague, o adultério com Bate-Seba e a morte de Urias. elogia Davi e abre uma exceção no mesmo versículo. O texto não o descreve como sem pecado, e sim como alguém cuja relação com Deus incluía arrependimento.
Dizem que:Bate-Seba seduziu Davi quando tomava banho no terraço.
O texto de não atribui a ela nenhuma intenção. Ela se banhava, segundo 11:4, para se purificar. Os verbos que descrevem a ação, enviar, tomar e deitar-se, têm Davi como sujeito, e Natã, em 12:1-9, acusa apenas o rei. A ideia de uma sedução vem de leituras posteriores, não do texto.
Dizem que:Davi escreveu todos os salmos da Bíblia.
Cerca de setenta salmos trazem o nome de Davi no título hebraico, e a tradição discute em que sentido: de autoria, de dedicação ou de coleção. Há salmos atribuídos a Asafe, aos filhos de Corá, a Salomão, a Moisés (Salmo 90), e muitos anônimos. Alguns pressupõem o templo ou o exílio, depois da época de Davi.
Dizem que:Davi era uma criança quando enfrentou Golias.
O texto não dá a idade. Saul o chama de jovem em , e a palavra hebraica usada cobre uma faixa ampla de idades. Os irmãos mais velhos de Davi estavam no exército, e ele já era conhecido na corte como músico e guerreiro, segundo 16:18. A imagem de uma criança vem da arte posterior.
Como diferentes tradições cristãs leem
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Judaica
Davi é o rei fundador cuja linhagem deve produzir o Messias, que a tradição espera como rei davídico ainda por vir e que restaurará Israel. Ele é também o salmista por excelência, e os Salmos ocupam lugar central na liturgia. A tradição rabínica discute a gravidade do episódio de Bate-Seba, e uma passagem do Talmude (Shabbat 56a) registra a opinião de que Davi não pecou da maneira como o texto parece indicar.
Católica e ortodoxa
Davi é figura de Cristo, rei e pastor, e o Novo Testamento é lido como cumprimento da promessa de em Jesus e em sua Igreja. O Salmo 51 ocupa lugar de destaque na penitência e na liturgia, e os Salmos são cantados e rezados desde a Igreja antiga. Davi é lembrado como profeta, com base em .
Reformada e protestante em geral
Davi é lido como tipo de Cristo e como modelo de fé e de arrependimento, sem esconder seus pecados. Calvino, no comentário aos Salmos, vê no saltério um retrato de todos os afetos da alma, pois nele Davi expõe os seus. A aliança davídica é vista como cumprida em Cristo, cujo reino não é deste mundo, e a Igreja participa dele.
Dispensacionalista
A promessa de é entendida como literal e incondicional, e seu cumprimento pleno ainda é futuro, num reino messiânico terreno em Jerusalém, distinto da Igreja. Textos como e são lidos nessa chave, com Israel mantendo um lugar próprio nos propósitos de Deus.
Crítica histórica acadêmica
Aborda os livros de Samuel e Reis como obras compostas e editadas em etapas, e Crônicas como releitura posterior, e pergunta o que se pode dizer de Davi com evidências externas. A estela de Tel Dan sustenta a lembrança de uma dinastia davídica, mas o tamanho do reino e a historicidade de cada episódio seguem discutidos, com posições que vão da confiança no relato ao ceticismo.
O que fazer com isso
Ao ler uma história de Davi, resista a duas tentações: transformá-lo num herói sem falhas e usá-lo como exemplo negativo. Pergunte primeiro o que o narrador mostra, depois o que ele julga e por último o que ele deixa sem comentário. Boa parte da honestidade do texto está nesse último grupo. Em seguida, verifique se a passagem que você está lendo pertence a Samuel, a Crônicas ou a um salmo, porque cada um conta Davi com um propósito diferente.
Perguntas frequentes
- Quem matou Golias, Davi ou Elanã?
- atribui a morte a Davi, enquanto atribui a Elanã de Belém, e fala de Elanã matando o irmão de Golias. As tradições harmonizam de formas diferentes: uma segunda pessoa com o mesmo nome, um erro de cópia ou duas tradições distintas. O texto não resolve.
- Se Davi pecou tanto, por que é chamado de homem segundo o coração de Deus?
- A frase vem de e é retomada em . Alguns a leem como elogio à disposição de arrepender-se, outros como referência à escolha de Deus, e não ao caráter de Davi. O texto narra os pecados sem apagá-los, e faz a ressalva no mesmo versículo do elogio.
- Davi escreveu todos os salmos?
- Não. Cerca de setenta salmos trazem o nome de Davi no título hebraico, e a tradição discute se isso indica autoria, dedicação ou coleção. Outros são atribuídos a Asafe, aos filhos de Corá, a Salomão e a Moisés, e muitos não trazem nome.
- Jesus descende de Davi por José ou por Maria?
- e trazem genealogias diferentes, e as tradições divergem. Uma antiga leitura diz que Mateus segue a linhagem legal de José e Lucas a de Maria, outra que ambas são de José e diferem por casamentos de levirato. O texto não declara qual é a explicação, mas ambos afirmam a ligação com Davi.
Fontes consultadas
- Flávio Josefo. Antiguidades Judaicas, 94.
- João Calvino. Comentário aos Salmos, 1557.
- Moshe Weinfeld. The Covenant of Grant in the Old Testament and in the Ancient Near East, 1970.
- Walter Brueggemann. First and Second Samuel (Interpretation), 1990.
- Robert Alter. The David Story: A Translation with Commentary of 1 and 2 Samuel, 1999.
- Robert P. Gordon. 1 & 2 Samuel: A Commentary, 1986.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.