Cânon e apócrifos: como a Bíblia ganhou seus livros
como foi formado o cânon da bíblia
Resposta curta
A Bíblia não traz o índice dos próprios livros, e a lista que cada igreja usa hoje é resultado de uma história longa, com acordos e desacordos. Este estudo percorre essa história em seis partes: o que significa cânon, o cânon hebraico, a Septuaginta e os livros deuterocanônicos, os sínodos e concílios de Hipona a Trento e a ruptura da Reforma, a formação do Novo Testamento de Marcião a Atanásio e, por fim, o que ficou de fora, dos pseudepígrafos aos evangelhos gnósticos. Mostra onde há convergência, como nos 27 livros do Novo Testamento, e onde as tradições católica, ortodoxa, protestante e oriental divergem, sem escolher lado e sem esconder as dúvidas que a pesquisa histórica ainda deixa abertas.
Em palavras simples
A Bíblia não traz uma lista dos seus próprios livros. Essa lista foi sendo formada com o tempo, pelo uso das comunidades e por decisões de bispos e sínodos. O Antigo Testamento judeu tem 24 livros, o protestante 39 e o católico 46, porque alguns livros gregos mais tardios foram aceitos por uns e não por outros. O Novo Testamento, com 27 livros, é praticamente igual em todas as igrejas e aparece completo numa carta de Atanásio, em 367. Outros escritos, como Enoque e o Evangelho de Tomé, ficaram fora da lista.
Antes de começar
A palavra cânon vem do grego κανών (kanōn), vara de medir, e passou a designar a lista de livros que uma comunidade reconhece como norma. O Antigo Testamento nasceu em hebraico, com poucos trechos em aramaico, e se organizou em três partes: Torá, Profetas e Escritos. Muitos judeus, porém, falavam grego depois das conquistas de Alexandre, e para eles surgiu a tradução grega conhecida como Septuaginta, a partir do século III a.C. Foi essa coleção, com livros que não estão na Bíblia hebraica, que a maior parte dos primeiros cristãos herdou.
O Novo Testamento foi escrito entre meados do século I e o início do século II, em grego. Não nasceu como coleção: cartas e narrativas circularam isoladas ou em pequenos grupos, e a ideia de reuni-las foi se consolidando por uso e por controvérsia. O mundo de então copiava à mão em rolos e, desde cedo, em códices, o formato de livro com páginas que os cristãos adotaram em larga escala. Isso tornava possível reunir muitos textos num só volume e, ao mesmo tempo, obrigava a decidir o que entrava nele.
Três fatores empurraram a questão. O primeiro foi a polêmica: Marcião, no século II, e os grupos que hoje chamamos de gnósticos obrigaram as igrejas a dizer quais escritos reconheciam. O segundo foi a perseguição: durante a perseguição de Diocleciano, no início do século IV, entregar livros sagrados às autoridades era considerado traição por muitos cristãos, o que tornou necessário saber o que era, de fato, Escritura. O terceiro foi o próprio formato do livro: quando se fez a primeira Bíblia de grande porte, no século IV, alguém teve de decidir o que cabia nela. Antes disso, cada igreja tinha seus costumes, e a variedade era normal. Convém lembrar, por fim, que o cânon do Antigo Testamento não se resolveu em separado do cristão. Judeus e cristãos tiveram de definir suas listas no mesmo período, em meio a uma separação progressiva, e uma coisa influenciou a outra de modos que os historiadores ainda discutem.
Como isso aponta para Jesus
Cumprimento diretoO cânon cristão se organiza em torno de uma tese: que a Lei, os Profetas e os Salmos falam de Cristo. É o que Jesus afirma a seus discípulos em , ao reler a Escritura de Israel à luz da sua morte e ressurreição. Os livros do Novo Testamento foram reconhecidos porque davam testemunho dele, e o Antigo foi mantido pelos cristãos porque, na leitura apostólica, era ali que esse testemunho começava.
Respaldo no Novo Testamento:
As partes do estudo
1.O que significa ter um cânon
A palavra cânon vem do grego κανών (kanōn), que designava uma vara de medir, uma régua. Aplicada aos livros, passou a nomear a lista dos escritos que uma comunidade reconhece como norma para a fé e a vida. A definição já carrega uma dificuldade: lista e norma não são a mesma coisa. Um livro pode funcionar como Escritura muito antes de existir uma relação oficial, e a relação oficial pode vir séculos depois do uso. Boa parte da história do cânon acontece nesse intervalo.
A primeira coisa honesta a dizer é que a própria Bíblia não traz o índice. Nenhum texto bíblico enumera os livros que pertencem à Bíblia. Lucas 24:44 fala da Lei de Moisés, dos Profetas e dos Salmos, o que indica uma divisão em partes, mas não fixa fronteiras. Em 2 Timóteo 3:16, a expressão 'toda Escritura' se refere, no contexto, aos escritos sagrados de Israel, porque o Novo Testamento ainda estava sendo escrito. Em 2 Pedro 3:15-16, o autor coloca as cartas de Paulo ao lado 'das demais Escrituras', sinal precoce de que alguns escritos cristãos já eram tratados como autoridade. E 1 Timóteo 5:18 apresenta como 'a Escritura' uma frase que aparece em Deuteronômio 25:4 e também no dito de Jesus que Lucas 10:7 registra. O quadro é o de um processo em andamento, e não o de um índice entregue pronto.
Isso não faz do cânon algo arbitrário. A pergunta tem duas camadas, e convém separá-las. A primeira é histórica: quando, onde e por quem cada livro foi reconhecido? A segunda é teológica: o que a comunidade afirma estar fazendo ao reconhecer um livro? Para a tradição católica, a Igreja discerne com autoridade quais livros são Escritura. Para boa parte da tradição reformada, os livros se impõem por si mesmos e a Igreja apenas os reconhece, como se reconhece a voz de alguém conhecido. As duas respostas aceitam o mesmo fato histórico e o descrevem de modos diferentes,.
Este estudo não repete o que significa um livro ser inspirado, assunto que tem estudo próprio. A pergunta aqui vem antes e é mais modesta: como se chegou à lista que está hoje na estante, por que ela não é a mesma em todas as igrejas e o que cada decisão deixou de fora. As partes seguintes seguem a ordem do tempo, do cânon hebraico ao Novo Testamento, e terminam nos livros que ficaram à margem.
Para conversar
- Se a Bíblia não traz a lista dos próprios livros, que tipo de confiança o leitor deposita em quem a montou? Essa confiança é a mesma para um católico, um ortodoxo e um protestante?
- Reconhecer um livro como Escritura é descobrir uma autoridade que ele já tinha ou conferir uma autoridade nova? O que muda na prática conforme a resposta?
- Em , as cartas de Paulo aparecem ao lado das 'demais Escrituras'. O que esse texto prova, e o que ele deixa em aberto?
2.O cânon hebraico: três partes e a porta que demorou a fechar
A Bíblia que os judeus leem se divide em três partes: a Torá (os cinco livros de Moisés), os Profetas (Neviim) e os Escritos (Ketuvim). A sigla Tanakh nasce das três iniciais. Os Profetas incluem os livros que o cristão chama de históricos, de Josué a Reis, e os profetas propriamente ditos, com os Doze menores contados como um só livro. Daniel, Crônicas, Esdras-Neemias, Salmos, Jó, Provérbios, Rute, Cantares, Eclesiastes, Lamentações e Ester ficam nos Escritos. Somados, são 24 livros na contagem judaica e 39 na protestante, com exatamente o mesmo conteúdo, apenas repartido de outro modo.
A fixação foi gradual. A Torá ocupa o centro desde cedo, e os Profetas vêm em seguida. O prólogo do livro de Sirácida, escrito por um neto do autor por volta de 132 a.C., fala da Lei, dos Profetas e de 'outros livros dos pais', o que mostra uma terceira coleção ainda sem nome fixo. Josefo, no fim do primeiro século, afirma em Contra Apião que os judeus têm 22 livros reconhecidos. O número parece resultar de um agrupamento diferente do atual, e os estudiosos discutem a correspondência exata. Em 4 Esdras 14, obra judaica da mesma época, aparece a imagem de 24 livros públicos e 70 reservados, o que indica que já havia uma noção de lista fechada para uns e de literatura sagrada paralela para outros.
Os limites dos Escritos ainda eram discutidos. A Mishná (Yadayim 3:5) registra debate rabínico sobre se Eclesiastes e Cantares 'contaminam as mãos', expressão técnica para dizer que são livros sagrados, e o Talmude menciona dúvidas semelhantes sobre Ester e Ezequiel. Por muito tempo se ensinou que um concílio rabínico em Jâmnia, por volta do ano 90, teria encerrado a lista. Hoje a maior parte dos estudiosos duvida disso: as fontes falam de discussões entre mestres, não de um decreto, e o cânon judaico parece ter se firmado por uso e consenso, sem data única.
Os Manuscritos do Mar Morto, achados a partir de 1947, ajudam e complicam. Há cópias de quase todos os livros do cânon hebraico (Ester é a ausência notada, cujo significado se discute), mas também de obras como 1 Enoque e Jubileus, e um rolo de Salmos com composições que não estão no Saltério conhecido. Isso pode indicar que, para a comunidade de Qumran, os limites não eram os que viriam depois. Também pode indicar que a biblioteca de uma comunidade não é a lista dessa comunidade. A resposta honesta é que os dois debates seguem abertos.
Para conversar
- Se o cânon hebraico se firmou por uso e consenso, e não por um decreto, o que isso diz sobre a autoridade dos livros que ficaram de fora e dos que entraram?
- A mesma coleção tem 24 livros para o judeu e 39 para o protestante. O que a diferença de organização comunica sobre como cada tradição lê o conjunto?
- Uma biblioteca como a de Qumran guarda obras que a comunidade tratava como Escritura e obras que apenas lia. Como distinguir uma coisa da outra a partir dos manuscritos?
3.A Septuaginta e os livros deuterocanônicos
Enquanto o cânon hebraico se firmava na Palestina, os judeus de língua grega, sobretudo em Alexandria, liam as Escrituras traduzidas. A Torá foi vertida para o grego provavelmente no século III a.C.; a Carta de Aristeias conta que 72 anciãos fizeram o trabalho, daí o nome Septuaginta (os setenta), mas a tradição é lendária. Os demais livros foram traduzidos nas décadas seguintes. A coleção grega acabou incluindo escritos que não estão na Bíblia hebraica: Tobias, Judite, Sabedoria de Salomão, Eclesiástico (Sirácida), Baruque com a Carta de Jeremias, 1 e 2 Macabeus e acréscimos a Ester e Daniel (Susana, Bel e o Dragão, o Cântico dos Três Jovens). Alguns foram escritos em hebraico ou aramaico, como Sirácida, do qual há fragmentos hebraicos achados em Qumran, em Masada e na Genizá do Cairo. Outros, como Sabedoria e 2 Macabeus, foram compostos em grego.
Os autores do Novo Testamento escreveram em grego e, com frequência, citam o Antigo Testamento em forma próxima à da Septuaginta. Hebreus 10:5-7 é o exemplo conhecido: cita o Salmo 40:6 com a frase 'um corpo me preparaste', enquanto o texto hebraico lê 'ouvidos me abriste'. Isso mostra que a tradução grega circulava como Escritura entre os primeiros cristãos. Mostra menos do que se costuma dizer sobre os livros extras: o Novo Testamento não cita nenhum deles com a fórmula 'está escrito', ainda que haja ecos e possíveis alusões, como a de Hebreus 11:35 ao martírio narrado em 2 Macabeus 7. Católicos e ortodoxos leem esse uso como sinal de acolhida. Protestantes observam que alusão não é citação autorizada e que não está provado que o judaísmo de Alexandria tivesse um cânon mais amplo que o da Palestina. A hipótese de um 'cânon alexandrino' é hoje muito contestada.
Os grandes códices cristãos dos séculos IV e V, Vaticano, Sinaítico e Alexandrino, reúnem a Septuaginta com livros extras, mas nenhum traz exatamente a mesma lista. Os cristãos também não herdaram uma ideia de fronteira nítida: Melitão de Sardes, por volta de 170, informa ter viajado para o Oriente a fim de saber quais eram os livros do Antigo Testamento e apresenta uma lista sem os extras. Jerônimo, ao traduzir a Vulgata, defendeu a 'verdade hebraica' e chamou esses livros de apócrifos nos prefácios, mas acabou por incluí-los. Agostinho, ao contrário, defendeu a lista mais longa pelo uso das igrejas. O termo deuterocanônicos, 'do segundo cânon', é do século XVI e não foi usado pelos antigos.
Para conversar
- O uso dos livros extras na Septuaginta pelos primeiros cristãos pesa como argumento a favor de sua inclusão? E o fato de o Novo Testamento não os citar como Escritura?
- usa uma tradução grega que difere do hebraico em um detalhe. O que isso sugere sobre a relação entre uma tradução e o texto original quando ambos são tratados como Escritura?
- Jerônimo e Agostinho discordaram sobre os livros extras e conviveram na mesma Igreja. Que lições a discordância deles oferece para as discussões atuais?
4.De Hipona a Trento, passando por Lutero
Nos séculos IV e V, as listas do Antigo Testamento ainda variavam de região para região. Atanásio, em 367, e Cirilo de Jerusalém deixam de fora a maioria dos livros extras, embora Atanásio recomende a leitura de alguns para catecúmenos. No Ocidente latino, os sínodos africanos de Hipona (393) e Cartago (397 e 419), de que Agostinho participou, aprovaram a lista longa, com Tobias, Judite, Sabedoria, Sirácida e 1 e 2 Macabeus. Eram concílios regionais, e não ecumênicos. As atas de Hipona se conservam apenas por meio dos textos de Cartago. Uma carta do papa Inocêncio I, em 405, traz lista semelhante. A força da lista longa no Ocidente veio mais do uso na liturgia e da Vulgata, a Bíblia latina, do que de um decreto universal.
Durante a Idade Média, a questão nunca desapareceu. Teólogos de peso ainda conheciam a distinção de Jerônimo, e o cardeal Caetano, contemporâneo de Lutero, comentou os livros históricos nessa linha. O Concílio de Florença (1442) publicou uma lista longa num decreto para os coptas, mas sem a força de definição que a questão teria depois.
A ruptura veio com a Reforma. Em 1519, na disputa de Leipzig, o teólogo católico João Eck defendeu o purgatório com 2 Macabeus 12:43-45, e Lutero respondeu que esse livro não faz parte do cânon. Em 1534, a Bíblia alemã de Lutero reuniu os livros extras numa seção própria, com a nota de que não eram iguais à Escritura, mas úteis e bons de ler. Lutero também expressou dúvidas sobre Hebreus, Tiago, Judas e Apocalipse, que colocou no fim do Novo Testamento em 1522, embora nenhuma igreja luterana os tenha excluído. As confissões reformadas foram mais firmes: a Confissão de Westminster (1646) nega-lhes autoridade. Os Trinta e Nove Artigos anglicanos permitem a leitura 'como exemplo de vida', mas não para estabelecer doutrina.
Em 8 de abril de 1546, a quarta sessão do Concílio de Trento definiu pela primeira vez, para a Igreja Católica, a lista completa dos 46 livros do Antigo Testamento e dos 27 do Novo, e excluiu 3 e 4 Esdras e a Oração de Manassés. O decreto atribuiu uma condenação a quem rejeitasse esses livros conscientemente. Trento portanto não inventou a lista, que o Ocidente já usava, mas tornou obrigatório o que antes era costume. Por fim, em 1827, a Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira deixou de financiar edições com os livros extras, e é por isso que a maior parte das Bíblias protestantes em português não os traz.
Para conversar
- Se Hipona e Cartago foram sínodos regionais, com que autoridade a lista deles passou a valer para a Igreja ocidental? Que papel o uso litúrgico teve nisso?
- Lutero questionou alguns livros do Novo Testamento mas não os retirou. O que a decisão de manter os livros, mesmo com dúvidas, revela sobre o modo como ele pensava o cânon?
- O decreto de Trento definiu a lista em resposta direta à Reforma. Uma definição formal feita em contexto de polêmica deve ser lida de modo diferente de uma feita em tempo de paz?
5.O Novo Testamento: de Marcião a Atanásio
O Novo Testamento teve um percurso mais curto, mas também sem um dia de fundação. As cartas de Paulo circulavam em coleção cedo, como sugere 2 Pedro 3:16, e Justino, por volta de 150, descreve o culto em que se liam 'as memórias dos apóstolos' ou os escritos dos profetas. Por volta de 140, em Roma, Marcião propôs uma lista própria: rejeitava o Antigo Testamento e o Deus que via nele, mantendo apenas uma versão editada de Lucas e dez cartas de Paulo, sem as pastorais. Foi excluído da comunidade de Roma por volta de 144. Para uns, Marcião estimulou a Igreja a definir uma lista; para outros, apenas mostra que um evangelho e uma coleção paulina já existiam.
Em torno de 180, Ireneu de Lião defende em Contra as Heresias que só há quatro evangelhos, com um argumento que hoje soa estranho (quatro ventos, quatro cantos da terra), mas que prova que a lista de quatro já era firme. O Fragmento Muratoriano, em latim, começa truncado e lista Lucas e João como terceiro e quarto evangelhos, Atos, treze cartas de Paulo, Judas, duas cartas de João, o Apocalipse de João e o de Pedro (este com ressalva), e rejeita O Pastor de Hermas para leitura pública. Não menciona Hebreus, Tiago nem 1 e 2 Pedro. É tradicionalmente datado do século II, em Roma, mas alguns estudiosos o situam no século IV, no Oriente.
Eusébio de Cesareia, por volta de 325, dividiu os livros em reconhecidos, discutidos (Tiago, Judas, 2 Pedro, 2 e 3 João) e espúrios, e deixou o Apocalipse numa posição ambígua. O Oriente tinha dúvidas sobre o Apocalipse e o Ocidente sobre Hebreus. Em 367, a Carta Festal 39 de Atanásio, bispo de Alexandria, traz a primeira lista conservada com exatamente os 27 livros do Novo Testamento atual. Hipona e Cartago, nos anos 390, a confirmam no Ocidente.
Costuma-se resumir os critérios em três: apostolicidade (o livro vem de um apóstolo ou de alguém ligado a ele, como Marcos a Pedro e Lucas a Paulo), ortodoxia (concorda com a 'regra de fé' que as igrejas já professavam) e uso amplo (é lido em muitas comunidades). Os antigos, porém, não listam esses critérios como fórmula; é uma síntese moderna, e a aplicação nunca foi uniforme: Hebreus e Judas entraram sem autoria apostólica clara.
Para conversar
- Marcião rejeitou o Antigo Testamento e ajudou, por contraste, a definir o Novo. Que outras controvérsias da história cristã obrigaram a Igreja a tornar explícito algo que antes era apenas prática?
- Hebreus e Judas entraram no cânon mesmo sem autoria apostólica certa. O que essa exceção diz sobre o peso real do critério da apostolicidade?
- Se os três critérios são uma síntese moderna e não uma regra antiga, até que ponto eles explicam o que de fato aconteceu? Em que medida são uma justificativa posterior?
6.Fora da lista: pseudepígrafos, evangelhos gnósticos e igrejas orientais
Pseudepígrafos é um rótulo moderno para escritos judaicos, em geral entre 200 a.C. e 100 d.C., atribuídos a figuras antigas: 1 Enoque, Jubileus, os Testamentos dos Doze Patriarcas, a Ascensão de Isaías, 4 Esdras. Alguns eram populares. Judas 14-15 cita uma profecia que se encontra em 1 Enoque 1:9, e 2 Pedro 2:4 e Judas 6 ecoam a tradição dos anjos vigilantes desenvolvida ali. Citar, porém, não é canonizar: Paulo cita poetas gregos em Atos 17:28 e Tito 1:12 sem lhes dar status de Escritura. Tertuliano defendeu Enoque; Agostinho (Cidade de Deus 15.23) negou-lhe autoridade, dizendo que a obra, pela antiguidade, não tinha sido preservada com segurança. A Igreja Ortodoxa Tewahedo da Etiópia guarda 1 Enoque e Jubileus em ge'ez e tem um cânon mais amplo que os demais, cujo tamanho exato é descrito de formas diferentes, conforme se conte o chamado cânon 'estreito' e o 'amplo'.
Os evangelhos gnósticos são outro caso. Em 1945, perto de Nag Hammadi, no Egito, foram achados treze códices coptas do século IV com cerca de cinquenta tratados, entre eles os evangelhos de Tomé (uma coletânea de 114 ditos), de Filipe e da Verdade. O Evangelho de Judas veio a público em 2006, do Códice Tchacos. Esses textos, em sua maioria dos séculos II e III, ensinam um conhecimento secreto que liberta o espírito da matéria e tendem a ver a criação material como falha. Ireneu já os combatia por volta de 180, quase um século e meio antes do Concílio de Niceia (325), que tratou da relação entre o Filho e o Pai e da data da Páscoa, não do cânon. A ideia de que um concílio constantiniano suprimiu os evangelhos rivais é um mito. Mesmo assim, a pergunta histórica permanece: por que ficaram de fora? As respostas usuais apontam a data tardia, a atribuição apostólica não sustentada e a distância do ensino que as igrejas já recebiam.
As igrejas orientais mostram que o cânon não foi decidido em um só lugar. A tradução siríaca Peshitta, clássica, não trazia 2 Pedro, 2 e 3 João, Judas e Apocalipse. A Ortodoxia grega acolhe os deuterocanônicos, com variações, e em algumas edições acrescenta 3 Macabeus e o Salmo 151. O Sínodo de Jerusalém, em 1672, declarou-os parte da Escritura. Os 27 livros do Novo Testamento são comuns à imensa maioria dos cristãos, e o Antigo Testamento tem 39, 46 ou mais livros conforme a tradição. A lista é, ao mesmo tempo, uma convergência notável e um território onde as igrejas ainda divergem.
Para conversar
- Judas cita 1 Enoque sem dizer que o livro é Escritura. Como distinguir entre usar um texto como fonte e reconhecê-lo como norma?
- A existência dos evangelhos gnósticos mostra que havia cristãos que pensavam de outro modo. O que as igrejas ganham e o que perdem ao conhecer esses textos?
- A Igreja Etíope, a Ortodoxa grega, a Católica e as protestantes têm listas diferentes do Antigo Testamento. O que significa dizer 'a Bíblia' num contexto em que o cânon não é o mesmo?
- O que a convergência quase total sobre os 27 livros do Novo Testamento sugere, e o que não sugere, sobre a origem desse acordo?
O que fica
- A Bíblia não traz o índice dos próprios livros: o cânon foi reconhecido aos poucos, por uso nas comunidades e por decisões de sínodos, e não por um único dia ou concílio.
- A diferença entre 39, 46 e mais livros no Antigo Testamento nasce da escolha entre o cânon hebraico e a Septuaginta, e cada tradição apresenta argumentos sérios e reconhece fragilidades.
- O Novo Testamento, com 27 livros, é comum a quase todos os cristãos, e sua lista aparece completa pela primeira vez na Carta Festal de Atanásio, em 367.
- Niceia não escolheu os livros, e os evangelhos gnósticos não foram apagados por decreto: ideias populares sobre a formação do cânon precisam ser checadas nas fontes.
- Os critérios (apostolicidade, ortodoxia e uso) são uma síntese moderna, e historiadores ainda discutem datas e processos, como Jâmnia, o Fragmento Muratoriano e o chamado cânon alexandrino.
Aprofundamento
A divergência central não é histórica, mas teológica, e convém nomeá-la com precisão. Quase todos concordam sobre os fatos básicos: houve listas diferentes, os sínodos africanos aprovaram a lista longa, Lutero separou os livros extras e Trento definiu a lista católica. O desacordo está no que esses fatos significam.
Para a tradição católica, a Igreja tem autoridade para discernir quais livros são Escritura, e o uso das igrejas, com os sínodos e a Vulgata, reconheceu a lista de 46 livros no Antigo Testamento. Para a tradição ortodoxa, o critério é o uso da Igreja na liturgia e nos Padres, o que explica a aceitação dos deuterocanônicos com variações regionais. Para as tradições protestantes, a referência é o cânon hebraico, que Jesus e os apóstolos teriam recebido, e os livros extras servem à edificação, não à doutrina. Cada leitura tem argumentos sérios e fragilidades que seus próprios estudiosos reconhecem, e nenhuma é caricatura da outra.
Do lado católico e ortodoxo, a fragilidade é que a lista longa não era unânime nos primeiros séculos e que o Novo Testamento não cita os extras como Escritura. Do lado protestante, a fragilidade é que o cânon hebraico, como lista fechada, parece ter se estabilizado depois do tempo de Jesus, e que os primeiros cristãos leram a Septuaginta, que continha os extras. Ninguém tem uma resposta isenta de custo.
Há ainda um debate sobre o Novo Testamento. Michael Kruger sustenta que os livros foram reconhecidos cedo porque trouxeram consigo as marcas de sua origem, e que as listas tardias apenas registraram o que a prática já havia fixado. Lee McDonald e outros observam que a lista dos 27 só aparece completa no século IV e que o processo foi mais contingente, com listas diferentes em regiões diferentes. Essas posições não são incompatíveis em tudo, e uma síntese possível é que o núcleo (quatro evangelhos, cartas de Paulo) se firmou cedo e a periferia (Hebreus, Tiago, 2 Pedro, 2 e 3 João, Judas, Apocalipse) demorou.
Duas ideias populares merecem cautela. A primeira é que Constantino ou o Concílio de Niceia teria escolhido os livros, o que as fontes não sustentam. A segunda é que o cânon teria sido uma ordem imposta de cima: as listas mais antigas refletem, em geral, o que as comunidades já liam, com bispos registrando e ordenando uma prática existente. Reconhecer isso não resolve a questão teológica, mas a coloca no terreno correto, o das comunidades concretas e de suas escolhas.
O que costumam dizer errado
Dizem que:O Concílio de Niceia, em 325, escolheu os livros da Bíblia e queimou os demais.
Niceia tratou da relação entre o Filho e o Pai e da data da Páscoa. Não há registro de uma votação sobre o cânon, e as listas conservadas, como a de Atanásio em 367, vêm décadas depois. O Novo Testamento já circulava em sua forma quase final, e a discussão sobre os livros de fronteira seguiu por mais de um século.
Dizem que:Os católicos acrescentaram sete livros à Bíblia depois da Reforma.
Os livros extras já estavam na Vulgata e na Septuaginta, e figuram nas listas de Hipona e Cartago, mil anos antes. O que Trento fez, em 1546, foi defini-los formalmente. Quem alterou a prática ocidental foram as igrejas da Reforma, ao seguir o cânon hebraico, mas a discussão sobre seu status é anterior a Lutero.
Dizem que:Os evangelhos gnósticos são relatos mais antigos e mais fiéis a Jesus, e foram apagados pela Igreja.
A maior parte desses textos é dos séculos II e III, posterior aos quatro evangelhos, e os manuscritos de Nag Hammadi são cópias coptas do século IV. Ireneu os criticava por volta de 180. A datação do Evangelho de Tomé é debatida, mas mesmo as propostas mais altas não o tornam anterior a Marcos. Não foram apagados por um decreto; deixaram de ser copiados.
Dizem que:O cânon hebraico foi fechado em um concílio em Jâmnia, por volta do ano 90.
É uma tese antiga que a maioria dos pesquisadores hoje rejeita. As fontes registram discussões entre mestres sobre livros como Eclesiastes e Cantares, e não um decreto. O cânon judaico parece ter se estabilizado de modo gradual, sem data única.
Como diferentes tradições cristãs leem
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Católica
A Igreja discerne com autoridade quais livros são Escritura, e o Concílio de Trento (Sessão IV, 1546) definiu a lista de 46 livros do Antigo Testamento e 27 do Novo. Os livros chamados deuterocanônicos têm o mesmo valor que os demais, com base no uso da Igreja, na Septuaginta e na Vulgata.
Ortodoxa grega e eslava
Recebe como Escritura os livros da Septuaginta, com variações em torno dos extras, e dá peso decisivo ao uso litúrgico e aos Padres. O Sínodo de Jerusalém (1672) afirmou os deuterocanônicos, e algumas edições acrescentam 3 Macabeus e o Salmo 151. A tradição não costuma tratar a questão como definida por um único concílio.
Luterana e anglicana
Mantém os livros extras em separado, como bons e úteis para leitura, mas sem autoridade para fundamentar doutrina. Lutero os apresentou assim em 1534, e o artigo VI dos Trinta e Nove Artigos anglicanos diz que se leem para exemplo de vida. Os livros do Novo Testamento permanecem todos.
Reformada e evangélica
Segue o cânon hebraico para o Antigo Testamento, com 39 livros, e recusa autoridade aos deuterocanônicos (Confissão de Westminster, 1646). Em boa parte da tradição, a autoridade dos livros se deve a eles mesmos, e a Igreja os reconhece, mas não os cria. A Sociedade Bíblica Britânica deixou de imprimi-los em 1827.
Igrejas orientais antigas
A Igreja Ortodoxa Tewahedo da Etiópia mantém um cânon mais amplo, com 1 Enoque e Jubileus em ge'ez, e as igrejas siríacas usaram historicamente a Peshitta, sem alguns livros menores do Novo Testamento. Mostram que o cânon se formou em vários centros ao mesmo tempo.
O que fazer com isso
Ao ouvir alguém dizer que a Bíblia foi escolhida por um concílio ou que há livros escondidos por poder, pergunte de qual lista e de qual época a pessoa fala. Em seguida, nomeie a sua própria: a sua igreja usa 66, 73 ou mais livros, e por quê? Conhecer o caminho que levou a essa lista permite estudá-la com gratidão e sem ingenuidade, e conversar com cristãos de outras tradições sem tratá-los como adversários.
Perguntas frequentes
- Por que a Bíblia católica tem mais livros que a protestante?
- O Antigo Testamento católico inclui sete livros e acréscimos a Ester e Daniel que estão na Septuaginta e na Vulgata, mas não na Bíblia hebraica: Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico, Baruque e 1 e 2 Macabeus. As igrejas protestantes seguem o cânon hebraico, e por isso têm 39 livros em vez de 46.
- Quem decidiu quais livros entrariam no Novo Testamento?
- Não houve um único decisor. As igrejas foram reconhecendo livros por uso e por controvérsia ao longo de mais de dois séculos. A primeira lista conservada com os 27 livros atuais é a Carta Festal de Atanásio, em 367, confirmada pelos sínodos africanos de Hipona e Cartago.
- Por que Enoque está fora da Bíblia se Judas o cita?
- Judas cita uma profecia que aparece em 1 Enoque, mas a citação não diz que o livro inteiro é Escritura. Paulo também cita poetas gregos sem torná-los canônicos. A maior parte das igrejas não o incluiu. A Igreja Ortodoxa Tewahedo da Etiópia o preserva e o reconhece.
- Os evangelhos de Tomé e de Judas foram escondidos pela Igreja?
- Os manuscritos foram descobertos no século XX e são estudados abertamente. Escritos principalmente nos séculos II e III, foram criticados por Ireneu por volta de 180 e deixaram de ser copiados. Não há decreto conhecido que os tenha destruído.
Fontes consultadas
- Atanásio de Alexandria. Carta Festal 39, 367.
- Concílio de Trento. Decreto sobre as Escrituras Canônicas, Sessão IV, 1546.
- Eusébio de Cesareia. História Eclesiástica.
- Bruce M. Metzger. The Canon of the New Testament: Its Origin, Development, and Significance, 1987.
- F. F. Bruce. The Canon of Scripture, 1988.
- Lee Martin McDonald. The Biblical Canon: Its Origin, Transmission, and Authority, 2007.
- Michael J. Kruger. Canon Revisited: Establishing the Origins and Authority of the New Testament Books, 2012.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.