Apocalipse: como ler o último livro da Bíblia
o que é o apocalipse e como ler
Resposta curta
O Apocalipse é o livro mais citado e menos lido da Bíblia. Ele se chama revelação, não catástrofe, e junta três gêneros: carta, profecia e apocalipse. Foi escrito por um homem exilado em Patmos a sete igrejas da Ásia Menor, que viviam sob a pressão do culto ao imperador. Suas visões de selos, trombetas, taças, besta, milênio e nova Jerusalém usam o simbolismo dos profetas do Antigo Testamento, e quatro escolas — preterista, historicista, idealista e futurista — disputam a leitura. O livro não oferece um calendário do futuro. Oferece um Cordeiro que venceu por meio da morte e uma promessa de consolo a quem sofre. Este estudo percorre o gênero, o contexto, as visões, a besta, o milênio e a cidade final.
Em palavras simples
O Apocalipse é um livro de visões escrito por João, em Patmos, a sete igrejas que sofriam pressão do império romano. A palavra significa revelação. Ele fala por símbolos, como os profetas do Antigo Testamento, e por isso não deve ser lido como notícia do futuro. As cartas às igrejas corrigem e consolam. As visões de selos, trombetas e taças mostram Deus julgando o mal. No centro está o Cordeiro, que venceu morrendo. O livro termina com uma cidade nova, onde Deus mora com o seu povo. Cristãos leem o livro de formas diferentes.
Antes de começar
O Apocalipse foi escrito por alguém que se chama João e diz estar em Patmos, ilha do mar Egeu, por causa da palavra de Deus (1:9). A tradição cristã antiga o identificou com o apóstolo João, mas já na Antiguidade houve dúvidas, e o texto não diz que o autor seja o apóstolo. A data mais aceita é o fim do reinado de Domiciano, por volta do ano 95, seguindo o testemunho de Irineu de Lyon; uma minoria defende uma data próxima ao fim de Nero, nos anos 60.
O destino imediato são sete igrejas da província romana da Ásia, no oeste da atual Turquia: Éfeso, Esmirna, Pérgamo, Tiatira, Sardes, Filadélfia e Laodiceia. Eram cidades prósperas, cheias de templos, e o culto ao imperador fazia parte da vida pública. Recusar o culto podia custar o emprego, a reputação ou a liberdade. Os historiadores discutem se houve perseguição organizada naquele período, mas o próprio livro fala de mortos por causa da fé, como Antipas, em Pérgamo (2:13).
O gênero também é parte do contexto. O livro pertence à família dos apocalipses judaicos, da qual Daniel é o exemplo bíblico, e usa a linguagem de visões, números, animais compostos e anjos intérpretes. Quem o lia no primeiro século conhecia essas convenções e sabia que a imagem não pretendia ser fotografia.
Há ainda a questão da língua e das imagens. O grego do livro é áspero e cheio de hebraísmos, o que sugere um autor que pensava nas Escrituras de Israel enquanto escrevia. Os símbolos centrais — o trono, o rio, a árvore, a mulher, a cidade, o dragão — vêm de Gênesis, Êxodo, Ezequiel e Daniel, e entendê-los pede conhecer essas fontes mais do que conhecer o noticiário de qualquer época.
Por fim, o Apocalipse foi feito para ser ouvido: a bênção de 1:3 é dirigida a quem lê e a quem ouve, o que indica leitura pública. Isso explica a repetição de fórmulas, as doxologias e a divisão em septenas, que ajudam a memória. Ler o livro de maneira individual e tentar montar uma cronologia é um uso legítimo, porém posterior, e distante da situação em que ele nasceu.
Como isso aponta para Jesus
Cumprimento diretoO Apocalipse abre e fecha com Cristo, e o centro dele é uma figura paradoxal: o Leão que é Cordeiro. Ele é apresentado como o primeiro e o último, aquele que viveu, morreu e vive para sempre (1:17-18), o que tem a chave da morte, o Cordeiro digno de abrir o livro selado e o noivo da cidade final. Todo o simbolismo das visões converge para ele, e o desfecho consiste menos em um evento do que em sua presença com o povo.
Respaldo no Novo Testamento:
As partes do estudo
1.Um gênero, não um código
A primeira palavra do livro já avisa o que ele pretende ser. Apokalypsis, em Apocalipse 1:1, significa revelação, o ato de tirar um véu, e não catástrofe ou fim do mundo — sentido que a palavra ganhou só depois, no uso popular. O livro se apresenta como revelação de Jesus Cristo, dada a servos de Deus, e logo em seguida se chama também de profecia (1:3) e assume a forma de carta, dirigida a sete igrejas concretas. Reúne, portanto, três gêneros em um: carta, profecia e apocalipse.
O gênero apocalíptico era conhecido do leitor antigo. Daniel, Ezequiel e Zacarias já falavam por visões, animais compostos, números e anjos intérpretes, e a literatura judaica dos séculos seguintes produziu muitos escritos assim. Essa linguagem tem convenções próprias: o vidente narra o que viu, e o que viu é simbólico. Quando João diz que da boca de Cristo saía uma espada afiada (1:16), ninguém no primeiro século imaginaria uma arma no rosto; entendia-se palavra que julga. O próprio livro dá a chave em alguns casos: as sete estrelas são os anjos das igrejas e os candeeiros são as igrejas (1:20), e o Cordeiro é descrito com sete chifres e sete olhos (5:6), números de plenitude.
Isso desfaz dois erros opostos. Um é ler tudo literalmente, como se fosse reportagem antecipada, o que obriga a imaginar um Cristo com espada na boca e um cordeiro com sete olhos. O outro é concluir que, sendo símbolo, o livro não diz nada determinado. O símbolo aponta para algo real; a questão é saber para quê, e o texto muitas vezes responde, dentro do próprio livro ou nas imagens do Antigo Testamento de onde saem.
Há ainda um detalhe que costuma passar despercebido: o título do livro, no singular, é Apocalipse de Jesus Cristo, e a expressão pode significar tanto a revelação que Jesus dá quanto aquela que o revela. Em ambos os casos, o foco não é um calendário de acontecimentos, mas uma pessoa. Quem abre o livro procurando um mapa do futuro encontra, logo na abertura, alguém andando entre os candeeiros e dizendo ao vidente que não tenha medo (1:17-18). A promessa de bênção para quem lê e guarda (1:3) é prática: o livro foi escrito para ser lido em voz alta numa assembleia e obedecido, e não apenas decifrado.
Para conversar
- Se o Apocalipse é carta, profecia e apocalipse ao mesmo tempo, o que muda quando você o lê primeiro como uma carta enviada a pessoas reais?
- Onde está, para você, a fronteira entre ler um símbolo com seriedade e esvaziá-lo? Que critérios o próprio texto oferece?
- O que a mudança de sentido de apocalipse — de revelação para catástrofe — diz sobre a maneira como o livro costuma ser recebido hoje?
2.Patmos, Domiciano e as sete igrejas
João diz estar em Patmos, ilha do mar Egeu, por causa da palavra de Deus e do testemunho de Jesus (1:9). A data tradicional do livro vem de Irineu de Lyon, que no fim do século segundo afirmou que a visão foi vista perto do fim do reinado de Domiciano, por volta do ano 95. A maioria dos estudiosos ainda segue essa data. Uma minoria prefere os anos 60, logo após Nero, e o debate é real, porque o texto não dá o nome do imperador.
O que o livro mostra é um mundo em que o poder romano exige adoração. A Ásia Menor, onde ficavam as sete igrejas, era uma região rica em templos dedicados ao imperador. Pérgamo é chamada de lugar onde está o trono de Satanás (2:13), e ali morreu Antipas, chamado de fiel testemunha, sobre quem o texto não diz mais nada. Há também um debate historiográfico: nem todos os historiadores veem uma perseguição sistemática sob Domiciano, e alguns acham que a pressão era local e irregular, feita de denúncias, boicotes econômicos e medo. O livro, de qualquer modo, supõe tensão com a ordem pública, e essa tensão se mede em escolhas cotidianas: participar ou não da refeição no templo, do culto cívico, da associação profissional.
As cartas dos capítulos 2 e 3 seguem um padrão: Cristo se apresenta com um traço da visão inicial, elogia, repreende e promete algo ao vencedor. Éfeso perdeu o primeiro amor, Esmirna é pobre mas rica, Tiatira tolera uma figura chamada Jezabel, Sardes tem nome de viva e está morta, Filadélfia tem pouca força e guarda a palavra, Laodiceia se julga rica e não vê a própria miséria. A imagem da morna em Laodiceia (3:15-16) costuma ser ligada à água da cidade, mas essa ligação é uma sugestão de estudiosos, não afirmação do texto.
Um ponto importante: as cartas são dirigidas a comunidades com problemas reais, de acomodação, e não só de perseguição. A ameaça interna — o compromisso com o sistema — aparece tão forte quanto a ameaça externa. É dentro desse quadro que o resto do livro precisa ser lido.
Para conversar
- As cartas elogiam e repreendem igrejas pelo que fazem no dia a dia, e não só pelo que creem. O que isso sugere sobre o tipo de perigo que João via?
- Como um leitor honesto deve tratar o fato de que a data e a extensão da perseguição são debatidas, mas o texto continua a falar de tensão com o poder?
- Qual das sete igrejas soa mais próxima da comunidade que você conhece, e por quê?
- Que diferença faz ler as cartas como correção de acomodação, e não apenas como consolo a perseguidos?
3.Selos, trombetas e taças: a estrutura das visões
Depois das cartas, João é levado à sala do trono (capítulos 4 e 5), onde um livro selado só pode ser aberto pelo Cordeiro. A abertura dos sete selos (capítulo 6), o toque das sete trombetas (capítulos 8 a 11) e o derramar das sete taças (capítulo 16) formam a espinha das visões. Os três conjuntos compartilham traços: cada um tem sete elementos, os quatro primeiros afetam a terra, o mar, as águas e os astros, e os últimos se intensificam. As pragas lembram as do Egito, e isso não é acidente; o Êxodo é a matriz de toda a imagem.
O primeiro selo e os três seguintes trazem cavaleiros: um sobre cavalo branco, outro vermelho, outro preto e outro amarelo. A tradição os leu como conquista, guerra, fome e morte, embora o texto só nomeie explicitamente o quarto cavaleiro como Morte (6:8). No quinto selo, almas de mortos por causa da palavra de Deus perguntam até quando (6:9-10). A pergunta não é respondida com data, mas com a ordem de esperar. No sexto, o cosmos se desfaz com linguagem tirada dos profetas. Entre o sexto e o sétimo, há um intervalo: os servos de Deus são marcados (7:1-8) e vê-se uma multidão incontável de todas as nações (7:9).
Essa técnica de interlúdios, que suspendem a tensão antes do último elemento, se repete entre as trombetas (10 e 11). O leitor é lembrado de que o julgamento não é a última palavra e de que a igreja é guardada em meio a ele.
O ponto mais debatido é a relação entre as três séries. Para alguns, são sequenciais: selos, depois trombetas, depois taças, como etapas cronológicas. Para outros, são recapitulações: o mesmo período visto várias vezes, cada vez com mais intensidade. Há razões para as duas leituras. O sétimo selo contém as trombetas e a sétima trombeta contém as taças, o que favorece a ideia de um desdobramento. Por outro lado, o fim já aparece nos capítulos 6, 11 e 16, o que favorece a recapitulação. O texto não resolve a questão com uma nota de rodapé, e quem afirma a ordem como certeza vai além do que o livro oferece.
Para conversar
- Por que o livro repete séries de sete em vez de contar o fim uma vez só? O que a repetição faz com o leitor?
- A pergunta dos mortos no quinto selo, até quando, recebe uma resposta incompleta. O que significa uma revelação que mantém a espera?
- Se selos, trombetas e taças podem ser lidas como sequência ou como recapitulação, que argumento textual pesa mais para você, e por quê?
4.A besta, o 666 e Babilônia
Os capítulos 12 a 14 apresentam o confronto central: um dragão, identificado como a antiga serpente (12:9), uma besta que sobe do mar e outra que sobe da terra. A primeira recebe poder, autoridade e adoração; a segunda faz o povo adorar a primeira e impõe uma marca, sem a qual ninguém pode comprar ou vender (13:16-17). A imagem tem duas camadas: o poder político que exige lealdade total e a propaganda religiosa que o sustenta. Para uma igreja em cidades cheias de culto ao imperador, a leitura da época seria imediata.
O número da besta aparece em 13:18: é número de homem, e seu valor é seiscentos e sessenta e seis. O texto convida a calcular. No hebraico e no grego antigos, as letras valiam números, e a prática de transformar nomes em somas se chama gematria. A soma das letras hebraicas de Nero César, em grafia hebraica, dá 666. Isso explica por que muitos estudiosos veem aí o imperador, e há ainda a lenda, difundida depois da morte de Nero, de que ele voltaria. Alguns manuscritos antigos trazem 616 em lugar de 666, e a grafia latina de Nero César dá justamente esse valor, o que reforça a hipótese, ainda que não a prove. Irineu conhecia as duas variantes e preferiu não cravar um nome.
Outras leituras convivem com essa. Os futuristas esperam uma figura individual no fim da história. Os idealistas veem o padrão que se repete em todo poder que exige o que é de Deus. O historicismo clássico, por sua vez, identificou a besta com instituições de cada época, e a lista de candidatos ao longo dos séculos deveria servir de cautela: as identificações se sucederam e se contradisseram, e nenhuma resistiu ao tempo.
Babilônia, nos capítulos 17 e 18, é a prostituta que se assenta sobre sete montes (17:9) e sobre muitas águas, embriagada com o sangue dos santos. Os sete montes foram associados a Roma desde cedo. Mas a imagem é maior que uma cidade: é um sistema de luxo, comércio e idolatria, que o capítulo 18 descreve com a lista de mercadorias, entre as quais se encontram até corpos e almas humanas (18:13).
Para conversar
- Por que o texto convida o leitor a calcular (13:18) e, ao mesmo tempo, não escreve o nome? O que se ganha ou se perde com essa dupla indicação?
- A lista de identificações da besta ao longo dos séculos deveria nos tornar mais cautelosos, ou ela mostra que o padrão é real e se repete?
- Que formas de lealdade total ao poder ou ao mercado você reconhece hoje, sem precisar nomear um inimigo?
- Como falar do 666 sem alimentar o medo nem esvaziar o texto?
5.O milênio e as quatro escolas de leitura
O capítulo 20 é o único lugar da Bíblia que fala em mil anos. Um anjo prende Satanás por mil anos; mártires reinam com Cristo; depois o adversário é solto por pouco tempo, derrotado e lançado no lago de fogo. A passagem é breve, e sobre ela se construiu uma das maiores discussões da teologia cristã. Os nomes são conhecidos: o pré-milenismo espera a volta de Cristo antes do milênio, o pós-milenismo depois, e o amilenismo vê o milênio como a era presente da igreja ou o estado dos que morreram em Cristo. Sobre a volta de Cristo em si, há outro estudo neste acervo; aqui interessa só o capítulo 20 e o que ele pede ao leitor: decidir se a ordem das visões é uma ordem do tempo.
Por trás dessas posições há quatro escolas gerais de leitura do livro inteiro. A preterista entende que a maior parte das visões trata de acontecimentos do primeiro século, ligados ao conflito com Roma, e que o livro foi escrito para os leitores originais. A historicista vê no Apocalipse um panorama da história da igreja do primeiro século até o fim; Joaquim de Fiore e muitos reformadores a usaram, e ela perdeu terreno entre os estudiosos. A idealista, ou simbólica, entende que as imagens descrevem lutas que se repetem em toda época, sem corresponder a um evento específico. A futurista aplica a maior parte do livro, a partir do capítulo 4, a um tempo ainda por vir.
Cada uma tem pontos fortes e preços. A preterista respeita o contexto, mas dificilmente dá conta dos capítulos 21 e 22. A historicista é rica, mas depende de escolher marcos, que variam. A idealista é coerente, mas corre o risco de diluir a dimensão histórica. A futurista toma a sério a esperança de um desfecho, mas pode tornar o livro irrelevante para os primeiros destinatários. Muitos intérpretes combinam elementos: um núcleo no primeiro século, um padrão recorrente e um cumprimento final. Quem apresenta uma única escola como a leitura óbvia está, em geral, escolhendo sem avisar.
Para conversar
- Se um livro foi escrito para leitores que viveram sob Domiciano, o que significa dizer que ele também fala de um fim que ainda não chegou?
- Qual dos preços das quatro escolas você considera mais pesado, e por quê?
- O que a variedade de leituras entre pessoas igualmente sérias deveria ensinar sobre a maneira de discutir o Apocalipse numa classe?
6.O Cordeiro, a nova Jerusalém e o consolo
Quem lê o Apocalipse com atenção percebe que o título mais frequente de Cristo no livro é Cordeiro, usado mais de vinte vezes. A primeira aparição (5:5-6) é um choque deliberado: João ouve que o Leão da tribo de Judá venceu e, ao olhar, vê um Cordeiro como que imolado. A vitória chega pela via da morte. Os seguidores do Cordeiro, por sua vez, vencem pelo sangue dele e pela palavra do seu testemunho, e não amaram tanto a vida a ponto de recuar diante da morte (12:11). Esse é o centro moral do livro: o poder do império é desmascarado por um poder de natureza diferente.
O Antigo Testamento está em quase todas as linhas. O livro tem poucas citações formais e muitíssimas alusões, a Daniel, Ezequiel, Isaías, Zacarias, Salmos e Êxodo. Os estudiosos discordam quanto ao número exato, justamente porque depende de como se conta uma alusão, mas o ponto é claro: João pensa e escreve com as imagens de Israel, e as reorganiza em torno de Cristo.
A visão final (capítulos 21 e 22) é uma retomada do começo da Bíblia. Há novo céu e nova terra, o mar já não existe, e a cidade desce de Deus, e não sobe da terra (21:1-2). O tabernáculo de Deus está com os homens, e ele enxugará toda lágrima (21:3-4). A cidade tem forma de cubo (21:16), como o santo dos santos no templo, e por isso não há templo nela, porque Deus e o Cordeiro são o seu templo (21:22). No centro, a árvore da vida de Gênesis volta, e suas folhas servem para a cura das nações (22:2). O texto não explica como isso se dá, e o leitor que quiser mais precisão do que o livro oferece estará inventando.
Tudo isso é consolo para quem sofria, e ele não é abstrato. Diz a uma comunidade pequena e pressionada que o império não terá a última palavra, que os mortos por causa da fé não foram esquecidos e que a história tem um fim com rosto. Ler o livro assim muda a pergunta: em vez de quando, a pergunta passa a ser a quem pertencemos e o que fazemos enquanto esperamos.
Para conversar
- O que muda quando a vitória é apresentada por meio de um Cordeiro imolado, e não de um leão? Como isso corrige a ideia de poder?
- Por que João usa tantas imagens do Antigo Testamento? Que diferença faz ler Apocalipse conhecendo essas fontes?
- O consolo da visão final funciona para quem não está sendo perseguido? Como?
- Que parte da nova Jerusalém lhe parece mais difícil de imaginar, e o que o texto deixa em aberto?
O que fica
- Apocalipse significa revelação, e o livro é ao mesmo tempo carta, profecia e apocalipse; ler como reportagem do futuro ignora o gênero.
- O contexto são sete igrejas da Ásia Menor sob a pressão do culto imperial; as cartas corrigem a acomodação tanto quanto consolam a perseguição.
- Selos, trombetas e taças podem ser lidos em sequência ou como recapitulação, e o 666 admite leituras diferentes; o texto não resolve tudo.
- Preterista, historicista, idealista e futurista têm pontos fortes e preços; quem apresenta uma só como óbvia está escolhendo sem avisar.
- O centro do livro é o Cordeiro que venceu morrendo, e o fim é uma cidade em que Deus mora com o seu povo.
Aprofundamento
A questão central de interpretação é a relação do livro com o tempo, e é nela que se separam as quatro escolas. A preterista entende que as visões tratam sobretudo do mundo de João: Roma, o culto imperial, a destruição de Jerusalém, o conflito entre a igreja e o império. O argumento mais forte é que o livro anuncia que o tempo está próximo (1:3; 22:10), o que só faria sentido para os primeiros leitores.
A historicista lê as visões como mapa da história da igreja, do primeiro século até o fim dos tempos. Foi dominante entre muitos reformadores, que viam no papado a besta, e entre protestantes dos séculos seguintes. Perdeu força porque cada geração de intérpretes reconhecia nas visões a sua própria época, e as datas de fim previstas não se cumpriram.
A idealista, associada a Agostinho e à Cidade de Deus, vê no livro o conflito permanente entre a cidade de Deus e a cidade do mundo, sem eventos específicos. Seu ponto forte é a utilidade para qualquer época. Seu risco é reduzir a esperança concreta, a nova criação, a uma metáfora psicológica.
A futurista, a mais popular hoje em muitos círculos evangélicos, aplica os capítulos 4 a 22, em geral, a um período ainda por vir. Seu ponto forte é levar a sério o desfecho, que realmente não aconteceu. Seu risco é transformar o livro em um quebra-cabeça de manchetes, ao qual os destinatários originais não teriam acesso.
Uma segunda divisão atravessa as quatro: a leitura do tempo verbal e da ordem. O livro é sequência ou recapitulação? Estudiosos como Beale defendem a recapitulação; outros, a sequência. Nesse ponto, o texto aceita as duas leituras, e a honestidade pede que se diga isso. Vale lembrar que as escolas não são blocos fechados: um preterista pode aceitar um cumprimento final, e um futurista pode reconhecer que Nero ilustra o padrão da besta. As fronteiras são mais porosas do que os rótulos sugerem.
Uma terceira divisão diz respeito ao lugar do Antigo Testamento. Para uns, as promessas a Israel são cumpridas na igreja, que herda os títulos do povo de Deus; para outros, o livro preserva um papel distinto para Israel no desfecho. O texto usa os nomes das tribos (7:4-8) e os nomes de Israel para a cidade final (21:12), e cada lado lê esses dados de maneira diferente. Também aqui as tradições são sérias, e a escolha tem consequências para a leitura dos capítulos 7, 11 e 20.
A orientação prática é pesar o que cada leitura explica melhor e quanto custa, sem tratar quem discorda como inimigo.
O que costumam dizer errado
Dizem que:A palavra apocalipse significa fim do mundo ou grande catástrofe.
A palavra grega apokalypsis quer dizer revelação, a retirada de um véu. É assim que o livro se apresenta em 1:1. O sentido de catástrofe é uso popular posterior, vindo das imagens de julgamento que o livro contém, e não do significado da palavra.
Dizem que:O número 666 é, sem dúvida, um chip, um código de barras ou um governante específico dos nossos dias.
O texto diz que é número de homem e convida a calcular (13:18), e os leitores do primeiro século conheciam a gematria. A hipótese mais difundida entre estudiosos é Nero César, e a variante textual 616 favorece essa leitura sem prová-la. Identificações modernas, de chips a líderes políticos, se repetem a cada geração e nunca se confirmaram.
Dizem que:As sete igrejas representam sete épocas sucessivas da história da igreja.
As cartas são dirigidas a comunidades reais da Ásia Menor, com problemas concretos. O texto não diz que cada igreja corresponde a um período, e essa leitura, popular em alguns círculos, foi acrescentada séculos depois e depende de escolher marcos históricos que variam de autor para autor.
Dizem que:O Apocalipse é um quebra-cabeça que só se resolve com mapas e cronogramas do futuro.
O livro se declara carta e foi lido em assembleias a leitores que precisavam de consolo e advertência. A prática de montar linhas do tempo veio muito depois, e as previsões de data feitas ao longo dos séculos falharam repetidamente.
Como diferentes tradições cristãs leem
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Preterista
A maior parte do livro trata de acontecimentos do primeiro século: o conflito com Roma e o culto imperial, e em algumas versões a queda de Jerusalém no ano 70. A besta seria Nero ou o poder romano. Valoriza o contexto e a expressão de que o tempo está próximo, mas encontra dificuldade nos capítulos finais, sobre a nova criação.
Historicista
As visões descrevem, em ordem, a história da igreja desde o primeiro século até o fim. Foi amplamente defendida por Joaquim de Fiore e por reformadores, que identificaram a besta com o papado. Perdeu terreno porque os marcos mudam de época para época e as datas calculadas não se cumpriram.
Idealista
O livro descreve o conflito permanente entre o reino de Deus e o poder do mundo, sem corresponder a eventos específicos. Agostinho, na Cidade de Deus, lê o milênio como o tempo da igreja. Seu ponto forte é a aplicação a qualquer época; o risco, dissolver a esperança concreta.
Futurista
Do capítulo 4 em diante, as visões tratam sobretudo de um período final ainda por vir, com uma figura individual que se opõe a Deus. É a leitura mais comum em muitos meios evangélicos, com variações sobre o milênio e o arrebatamento. Leva o desfecho a sério, mas tem dificuldade em explicar o sentido do livro para os primeiros leitores.
O que fazer com isso
Ao ler o Apocalipse, comece pelas cartas dos capítulos 2 e 3 e pela cena do Cordeiro no capítulo 5, e só depois vá às pragas e à besta. Pergunte, a cada visão, o que ela dizia a um cristão de Éfeso ou Laodiceia e o que o texto diz do Cordeiro. Desconfie de leituras que dão datas, nomes ou mapas políticos com certeza. Use o livro como consolo e como convocação a não se acomodar ao poder, sem fazer dele um instrumento de medo.
Perguntas frequentes
- Quem escreveu o Apocalipse?
- O livro diz que foi escrito por alguém chamado João (1:1, 1:4, 1:9). A tradição antiga o identifica com o apóstolo, mas isso foi discutido desde cedo, e o texto não afirma que se trata do apóstolo. A discussão ainda está aberta entre estudiosos.
- O 666 é o número do anticristo?
- O texto fala do número da besta (13:18) e não usa a palavra anticristo, que aparece nas cartas de João com outro sentido. A leitura mais comum entre estudiosos liga o número a Nero César por gematria, e a variante 616 reforça essa hipótese. Futuristas esperam uma figura final.
- Os 144 mil são um número literal?
- As tradições divergem. Muitos leem 12 vezes 12 vezes mil como número simbólico do povo de Deus completo; outros o tomam como grupo literal de israelitas. O próprio texto mostra logo em seguida uma multidão incontável (7:9), o que muitos entendem como a mesma realidade vista de outro ângulo.
- Por onde começar a ler o Apocalipse?
- Comece pelos capítulos 1 a 5: a visão de Cristo, as cartas às igrejas e a cena do Cordeiro. Eles dão a chave para o resto. Depois leia os capítulos 21 e 22, que retomam o começo da Bíblia, e só então as séries de selos, trombetas e taças.
Fontes consultadas
- Irineu de Lyon. Contra as Heresias, 180.
- Agostinho de Hipona. A Cidade de Deus, 426.
- Eusébio de Cesareia. História Eclesiástica, 325.
- Richard Bauckham. The Theology of the Book of Revelation, 1993.
- G. K. Beale. The Book of Revelation: A Commentary on the Greek Text, 1999.
- Craig R. Koester. Revelation (Anchor Yale Bible), 2014.
- Adela Yarbro Collins. Crisis and Catharsis: The Power of the Apocalypse, 1984.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.