Prisma de Senaqueribe
O que o Prisma de Senaqueribe diz sobre o cerco de Jerusalém na Bíblia?
Ficha do documento
- Data provável
- c. 691 a.C.
- Língua
- acádio (dialeto assírio)
- Autoria atribuída
- Senaqueribe, rei da Assíria
- Onde se preserva
- British Museum, Londres (BM 91032); cópias do mesmo texto no Instituto Oriental de Chicago e no Museu de Israel, em Jerusalém
A erudição, no entanto, sustenta: Escribas da corte real assíria, redigindo em nome e na primeira pessoa do rei Senaqueribe
Status por tradição
| Tradição judaica | Fora do cânon | Inscrição real assíria secular, sem qualquer candidatura ao cânon. |
| Igreja Católica | Fora do cânon | Documento histórico, não um texto religioso ou candidato a cânon. |
| Igreja Ortodoxa | Fora do cânon | Fonte extrabíblica de valor histórico, fora de qualquer discussão canônica. |
| Ortodoxa Etíope | Fora do cânon | Não se trata de um texto religioso preservado por essa tradição. |
| Tradições protestantes | Fora do cânon | Achado arqueológico, não um texto escriturístico ou apócrifo. |
Resposta curta
O Prisma de Senaqueribe — também chamado Prisma de Taylor, por causa do oficial britânico que o adquiriu em 1830 — é um prisma hexagonal de argila cozida, coberto de escrita cuneiforme em acádio, fabricado por volta de 691 a.C. Nele, em primeira pessoa, o rei Senaqueribe da Assíria (r. 705–681 a.C.) faz o balanço de suas campanhas militares, incluindo a expedição contra Judá. Achado nas ruínas do palácio de Nínive, hoje está no British Museum; cópias quase idênticas existem em Chicago e em Jerusalém.
A parte mais lida por quem estuda a Bíblia narra a campanha contra Judá: 46 cidades fortificadas tomadas, cerco a Jerusalém e o pesado tributo enviado por Ezequias — mas, de forma notável, o texto nunca afirma que os assírios conquistaram a capital.
Passagens bíblicas relacionadas
Em palavras simples
O Prisma de Senaqueribe é uma peça de argila coberta de escrita cuneiforme, feita por volta de 691 a.C. pelos assírios. Nela, o rei Senaqueribe conta suas vitórias militares, inclusive contra o reino de Judá, no tempo do rei Ezequias. Ele descreve o cerco a Jerusalém e o tributo que recebeu, comparando Ezequias a um pássaro preso numa gaiola. O detalhe mais comentado é o que falta: em nenhum momento o texto diz que os assírios tomaram Jerusalém, ao contrário do que fizeram com as outras cidades derrotadas.
O que o documento conta
Senaqueribe governou o Império Assírio de 705 a 681 a.C., num período de forte expansão militar sobre o Levante. Como era costume dos reis assírios, seus feitos eram registrados em inscrições reais — anais escritos em primeira pessoa, gravados em cilindros e prismas de argila, destinados a glorificar o rei e a servir de registro para futuras gerações e para os deuses. Ao longo do reinado, essas narrativas foram atualizadas em sucessivas edições, cada uma acrescentando as campanhas mais recentes; a versão mais antiga conhecida, o Cilindro Rassam, remonta a cerca de 700–699 a.C., logo depois da campanha contra Judá, enquanto o Prisma de Taylor é uma edição posterior, de 691 a.C., que reúne o relato de oito campanhas militares.
O prisma foi encontrado em 1830 entre as ruínas do palácio de Senaqueribe em Nínive, perto da atual Mossul, no Iraque, pelo coronel Robert Taylor, então cônsul britânico em Bagdá — daí o nome alternativo "Prisma de Taylor". A peça foi adquirida pelo British Museum em 1855, onde permanece catalogada como BM 91032. Não é um documento isolado: existem pelo menos duas outras cópias praticamente idênticas do mesmo texto oficial, com data semelhante — o Prisma do Instituto Oriental, hoje em Chicago, achado em Nínive em 1919-1920, e o Prisma de Jerusalém, hoje no Museu de Israel. A existência de várias cópias do mesmo texto real, feitas para arquivo e para depósito em fundações de edifícios, é típica da administração assíria e ajuda os historiadores a reconstruir o texto com confiança, comparando uma cópia com as outras.
A língua é o acádio, no dialeto assírio padrão da época, escrito em cuneiforme sobre argila cozida — um suporte e uma escrita totalmente distintos do hebraico bíblico, o que faz do prisma uma fonte verdadeiramente independente da tradição escriturística de Judá, escrita pela mão do lado vencedor da guerra.
Aprofundamento
O trecho mais estudado por leitores da Bíblia é a descrição da "terceira campanha" de Senaqueribe, contra o rei Ezequias de Judá. O texto relata a conquista de 46 cidades fortificadas e inúmeras aldeias menores, a deportação de mais de duzentas mil pessoas e o cerco à própria Jerusalém. Sobre Ezequias, o prisma usa uma imagem célebre: diz tê-lo deixado "preso dentro de Jerusalém, sua cidade real, como um pássaro numa gaiola", cercado por torres de assalto e postos de bloqueio. Em seguida, lista o tributo enviado depois a Nínive: trinta talentos de ouro, oitocentos talentos de prata, pedras preciosas, marfim, mobiliário incrustado, além de filhas, mulheres do harém e músicos do próprio Ezequias.
Comparado a , há um ponto de convergência notável: ambos os textos falam de um tributo pesado pago por Ezequias, e os trinta talentos de ouro citados pelo prisma coincidem exatamente com o número bíblico. Já a prata diverge — 2 Reis fala em trezentos talentos, o prisma em oitocentos —, diferença que estudiosos costumam atribuir a padrões distintos de peso do talento entre Judá e a Assíria, mais do que a uma contradição direta.
O ponto mais discutido, porém, é o que o prisma não diz. Ao contrário do que faz para outras 45 cidades de Judá, listadas como conquistadas, o texto jamais afirma ter tomado Jerusalém — nem menciona a deposição de Ezequias, algo que os anais assírios normalmente registravam com orgulho quando acontecia. Essa ausência convive, na narrativa bíblica de e , com o relato de que o exército assírio foi devastado numa só noite e recuou sem tomar a cidade, e de que o próprio Senaqueribe foi assassinado por dois de seus filhos anos depois — este último detalhe, aliás, é corroborado de forma independente pela Crônica Babilônica e por uma inscrição do filho e sucessor de Senaqueribe, Esaradon. É importante notar que anais reais assírios eram textos de propaganda: nenhum rei registraria uma derrota, então o silêncio sobre a queda de Jerusalém não prova, por si só, o motivo bíblico da retirada — apenas mostra que a versão oficial assíria também parou exatamente no ponto em que a versão bíblica descreve o desastre.
Vale ainda registrar um debate historiográfico secundário: alguns estudiosos, entre eles o egiptólogo Kenneth Kitchen, já propuseram que Senaqueribe teria feito duas campanhas separadas contra Judá — uma em 701 a.C. e outra, não documentada nos anais, anos depois — para explicar certas tensões cronológicas entre o texto assírio e o relato bíblico envolvendo o faraó Tirhaca. É uma hipótese minoritária, não um consenso, e o próprio prisma só registra e data com clareza a campanha de 701 a.C.
O que costumam dizer errado3 afirmações
Dizem que:O Prisma de Senaqueribe prova que a Bíblia é historicamente exata em cada detalhe do cerco de Jerusalém.
O prisma confirma pontos gerais — o cerco, o tributo, o valor do ouro — mas diverge em outros, como o total de prata (800 talentos no prisma contra 300 em ), e não menciona o desfecho descrito na Bíblia (a destruição do exército e a retirada). É uma fonte independente e parcial, não um atestado ponto a ponto do texto bíblico.
Dizem que:O texto do prisma afirma explicitamente que os assírios não conseguiram tomar Jerusalém.
O prisma simplesmente não afirma tê-la tomado — o que é diferente de admitir uma derrota. Anais reais assírios eram propaganda e jamais registravam fracassos; o silêncio é significativo, mas não é uma confissão.
Dizem que:Existe um único exemplar desse texto, guardado só no British Museum.
Ao menos três cópias quase idênticas do mesmo texto oficial de Senaqueribe sobreviveram: o Prisma de Taylor (Londres), o Prisma do Instituto Oriental (Chicago) e o Prisma de Jerusalém (Museu de Israel), todas de cerca de 691 a.C.
Como diferentes tradições leem3 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Protestantismo evangélico
Tende a destacar a convergência entre o prisma e o relato bíblico — o tributo, o cerco, a menção a Ezequias — como corroboração externa da confiabilidade histórica de 2 Reis e Isaías, e a ler o silêncio assírio sobre a queda de Jerusalém como um indício, ainda que indireto, coerente com o relato da libertação da cidade.
Catolicismo
Costuma acolher o valor documental do prisma com cautela metodológica: trata-o como testemunho histórico genuíno e importante, mas insiste em lê-lo como o que é — propaganda real assíria —, evitando transformar sua omissão sobre a captura de Jerusalém em prova cabal de qualquer evento sobrenatural específico.
Ortodoxia oriental
Situa o episódio dentro da providência divina sobre Jerusalém e a linhagem davídica, valorizando o achado arqueológico como confirmação circunstancial, mas apoiando a certeza da fé na tradição da Escritura e da liturgia, não na descoberta material em si.
O que fazer com isso
Ler um documento como este pede duas cautelas simétricas. A primeira é lembrar que anais reais assírios são propaganda de guerra: o rei nunca registraria uma derrota, então seu silêncio sobre a queda de Jerusalém não "prova" o milagre bíblico, apenas é compatível com ele. A segunda é reconhecer o valor real da fonte: ela confirma, de forma independente, que Ezequias existiu, pagou tributo e resistiu ao cerco. Bom senso histórico está em aceitar o que a fonte diz — nem mais, nem menos.
Fontes consultadas4 obras
- Grayson, A. Kirk; Novotny, Jamie. The Royal Inscriptions of Sennacherib, King of Assyria (RINAP 3/1-2), 2012.
- Luckenbill, Daniel David. The Annals of Sennacherib, 1924.
- Mitchell, T. C.. The Bible in the British Museum: Interpreting the Evidence, 2004.
- Millard, Alan. Discoveries from Bible Times, 1997.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
O Prisma de Senaqueribe menciona Jerusalém pelo nome?
Sim. O texto se refere a Ezequias, rei de Judá, e à cidade de Jerusalém como sua residência real, descrevendo o cerco montado ao redor dela. É uma das primeiras menções extrabíblicas conhecidas a Jerusalém por nome em uma fonte não israelita.
O prisma confirma o milagre da destruição do exército assírio?
Não diretamente. O prisma simplesmente termina o relato da campanha sem afirmar a conquista de Jerusalém, o que é compatível com a narrativa bíblica de uma retirada forçada, mas não descreve nenhum evento sobrenatural — como seria de se esperar de um texto de propaganda real.
Por que os números de prata do tributo divergem entre o prisma e a Bíblia?
fala em 300 talentos de prata, o prisma em 800. A explicação mais aceita entre historiadores é que Judá e a Assíria podem ter usado padrões de peso diferentes para o talento, ou que os escribas assírios arredondaram o valor para cima, prática comum em textos de propaganda.
Onde posso ver o Prisma de Senaqueribe?
O exemplar mais famoso, o Prisma de Taylor, está em exposição permanente no British Museum, em Londres, catalogado como BM 91032. Outras cópias do mesmo texto estão no Instituto Oriental de Chicago e no Museu de Israel, em Jerusalém.
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