Cilindro de Ciro
O que é o Cilindro de Ciro e ele prova o decreto bíblico de Ciro?
Ficha do documento
- Data provável
- c. 539-538 a.C.
- Língua
- Acadiano (cuneiforme babilônico)
- Onde se preserva
- Museu Britânico, Londres (BM 90920); dois fragmentos relacionados na Universidade Yale
A erudição, no entanto, sustenta: Escribas da corte persa ou do templo de Esagila, redigindo em nome de Ciro, o Grande, segundo a convenção mesopotâmica de inscrições de fundação
Status por tradição
| Tradição judaica | Fora do cânon | Documento histórico secular, nunca foi candidato a cânone. |
| Igreja Católica | Fora do cânon | Achado arqueológico, não texto religioso ou candidato a Escritura. |
| Igreja Ortodoxa | Fora do cânon | Mesmo status: fonte histórica externa à Bíblia. |
| Ortodoxa Etíope | Fora do cânon | Mesmo status: fonte histórica externa à Bíblia. |
| Tradições protestantes | Fora do cânon | Documento histórico secular, nunca foi candidato a cânone. |
Resposta curta
O Cilindro de Ciro é um cilindro de argila cozida, coberto de escrita cuneiforme em acadiano, enterrado nas fundações do templo de Esagila, em Babilônia, pouco depois de o rei persa Ciro, o Grande, conquistar a cidade em 539 a.C. Foi encontrado em 1879 pelo arqueólogo Hormuzd Rassam e hoje está no Museu Britânico, em Londres, com dois fragmentos adicionais identificados depois na Universidade Yale.
O texto segue o padrão das inscrições reais mesopotâmicas de fundação: legitima a ascensão de Ciro como vontade do deus Marduk, critica o rei deposto, Nabonido, e descreve como Ciro devolveu estátuas de deuses e populações deportadas a suas cidades, permitindo reconstruir santuários. Judeus e Jerusalém não aparecem nominalmente, mas o documento atesta, de forma independente, o tipo de política que o livro de Esdras atribui a Ciro quanto ao templo de Jerusalém.
Passagens bíblicas relacionadas
Em palavras simples
É um pedaço de argila com escrita antiga, achado nas ruínas da Babilônia, em que o rei persa Ciro conta que devolveu povos exilados a suas terras e deixou reconstruir templos destruídos. Ele não fala em judeus nem em Jerusalém, mas mostra que essa era mesmo a política do império persa — a mesma que a Bíblia diz que Ciro aplicou ao povo de Judá.
O que o documento conta
Em outubro de 539 a.C., o exército persa de Ciro, o Grande, tomou Babilônia praticamente sem resistência, encerrando o domínio neobabilônico que décadas antes havia destruído Jerusalém e exilado parte de sua população (2Rs 25). Governantes mesopotâmicos tinham o costume, ao assumir uma cidade conquistada, de depositar nas fundações de templos importantes cilindros ou tabuinhas de argila narrando sua vitória em termos religiosos, para agradar o clero local e legitimar seu governo. O Cilindro de Ciro segue exatamente esse gênero: foi enterrado nas fundações do templo de Marduk, o deus principal da Babilônia, e escrito por escribas da corte ou do próprio templo, em nome do rei.
O cilindro foi descoberto em março de 1879, durante escavações patrocinadas pelo Museu Britânico no sítio de Babilônia, no atual Iraque, sob a direção do assiriólogo Hormuzd Rassam. Décadas mais tarde, pesquisadores identificaram dois fragmentos de tabuinhas na coleção da Universidade Yale que pertencem ao mesmo texto, confirmando que a inscrição circulava também em cópias menores, prática comum para textos reais importantes. O objeto, assim preservado, tem cerca de 22 centímetros de comprimento e está em exposição permanente no Museu Britânico, em Londres, catalogado como BM 90920.
O texto é redigido em acadiano, língua da Babilônia, usando escrita cuneiforme, e teve tradução por assiriólogos desde o fim do século XIX. Historicamente, ele é lido junto com outras fontes persas e babilônicas do período — como a Crônica de Nabonido e os Anais de Ciro — que também descrevem a queda de Babilônia e o início do domínio persa. Nenhuma dessas fontes menciona judeus, Judá ou Jerusalém especificamente: a lista de cidades e povos beneficiados no cilindro cobre principalmente a própria Mesopotâmia, da região de Assur a Susã. Ainda assim, o documento se tornou uma referência central para entender o pano de fundo histórico do retorno dos exilados narrado em Esdras.
Aprofundamento
O núcleo do Cilindro de Ciro é uma justificativa religiosa de conquista: afirma que o deus Marduk, descontente com o rei Nabonido — acusado de negligenciar os cultos tradicionais e impor práticas estranhas —, escolheu Ciro como seu instrumento, chamou-o pelo nome e o conduziu à vitória sobre a Babilônia sem batalha. Depois de narrar a entrada pacífica na cidade, o texto passa a listar as medidas de Ciro como novo rei: ele diz ter cessado trabalhos forçados impostos à população, restaurado o culto a Marduk e a outros deuses, e devolvido a seus templos de origem as imagens divinas que os babilônicos, sob Nabonido, tinham reunido em Babilônia — junto com os povos que cuidavam desses cultos, permitindo-lhes voltar para casa e reconstruir seus santuários.
Essa política de repatriação de povos e restauração de templos é o ponto de contato mais discutido entre o cilindro e a Bíblia. e registram um decreto de Ciro autorizando os judeus exilados a voltar a Jerusalém e reconstruir o templo do Senhor, com apoio material do próprio rei. O cilindro não cita esse decreto — nem judeus, nem Judá, nem Jerusalém aparecem em seu texto, que é fragmentário em alguns trechos finais. O que ele oferece é evidência independente de que devolver deuses e povos deportados, e financiar a reconstrução de seus templos, era uma prática real e documentada da administração de Ciro logo no início de seu reinado, aplicada a vários povos da Babilônia — o que torna plausível, dentro do próprio padrão imperial persa, que uma medida semelhante tenha sido estendida a Judá, mesmo sem prova direta e nominal.
É importante notar os limites dessa comparação. O cilindro é uma inscrição de propaganda real, no gênero convencional das inscrições de fundação mesopotâmicas — não um arquivo administrativo nem um decreto de aplicação específica a uma província, como seria o tipo de documento citado em , guardado nos arquivos reais de Ecbatana. Os estudiosos também notam que Judá, sem imagem de culto (já que Israel não fazia estátuas de Deus), não se encaixaria literalmente na descrição de "devolução de estátuas", o que talvez explique por que a região não aparece na lista geográfica do cilindro, voltada a santuários mesopotâmicos como Assur, Susã e Ešnunna. Ainda assim, o espírito da política — permitir retorno e reconstrução de templos como parte da legitimação religiosa do novo governo — é o mesmo que a tradição bíblica atribui a Ciro.
O que costumam dizer errado3 afirmações
Dizem que:O Cilindro de Ciro é a 'primeira declaração de direitos humanos da história'.
Essa frase, popularizada a partir de 1971 e repetida em réplicas expostas na sede da ONU, é anacrônica segundo assiriólogos: o cilindro segue o formato-padrão das inscrições reais de fundação mesopotâmicas, com paralelos em textos de séculos anteriores, e trata de legitimação religiosa de um novo rei, não de um conceito moderno de direitos individuais universais.
Dizem que:O cilindro cita os judeus e o decreto de reconstrução do templo de Jerusalém.
O texto preservado não menciona judeus, Judá nem Jerusalém em nenhum ponto; a lista de cidades e povos beneficiados que aparece no documento é voltada à Mesopotâmia central, não à Judeia.
Dizem que:O cilindro é uma cópia ou versão do decreto de Esdras 1.
São dois gêneros de texto diferentes: o cilindro é uma inscrição de fundação de templo enterrada na Babilônia para o deus Marduk, enquanto o decreto de Esdras é apresentado como um documento administrativo dirigido especificamente à situação judaica, do tipo que ficaria arquivado, não embutido em alicerces.
Como diferentes tradições leem4 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Protestantismo evangélico
Costuma destacar o cilindro como confirmação arqueológica robusta do pano de fundo histórico de Esdras, mostrando que a política atribuída a Ciro na Bíblia corresponde a uma prática real e documentada do império persa.
Catolicismo
Reconhece o valor histórico do achado como confirmação de contexto, mas tende a enquadrá-lo com cautela metodológica, evitando apresentá-lo como prova direta de um decreto específico que o próprio cilindro não menciona.
Ortodoxia Oriental
Tende a valorizar o cilindro dentro da leitura tipológica de Isaías sobre Ciro como 'ungido' de Deus, lendo o achado arqueológico como pano de fundo que ilustra, sem provar em detalhe, a providência divina agindo por meio de um governante estrangeiro.
Protestantismo histórico-crítico
Enfatiza as diferenças de gênero entre o cilindro e o texto de Esdras, tratando o primeiro como evidência do clima político geral da época persa, sem tomá-lo como confirmação textual do decreto bíblico específico.
O que fazer com isso
Ao ler um achado como o Cilindro de Ciro, vale resistir a duas tentações: tratá-lo como prova definitiva de que a Bíblia está certa, já que ele nem cita judeus, e descartá-lo por não mencionar Jerusalém, como se isso invalidasse o relato bíblico. O valor histórico está em outro lugar: ele mostra que a política de repatriação e reconstrução de templos descrita em Esdras se encaixa no comportamento real e documentado do império persa, e não é uma invenção literária isolada.
Fontes consultadas4 obras
- Amélie Kuhrt. The Persian Empire: A Corpus of Sources from the Achaemenid Period, 2007.
- Lester L. Grabbe. A History of the Jews and Judaism in the Second Temple Period, vol. 1, 2004.
- Pierre Briant. From Cyrus to Alexander: A History of the Persian Empire, 2002.
- Irving Finkel (ed.). The Cyrus Cylinder: The King of Persia's Proclamation from Ancient Babylon, 2013.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
O Cilindro de Ciro prova que a Bíblia está certa sobre o retorno dos judeus?
Ele não prova o decreto específico de Esdras, porque não menciona judeus nem Jerusalém. O que faz é confirmar, de forma independente, que devolver povos deportados e reconstruir templos era mesmo política real de Ciro, o que dá plausibilidade histórica ao relato bíblico.
Onde está o Cilindro de Ciro hoje?
Está exposto no Museu Britânico, em Londres, catalogado como BM 90920. Dois fragmentos de uma cópia em tabuinha, achados depois, ficam na coleção da Universidade Yale.
Em que língua o cilindro foi escrito?
Em acadiano, a língua da Babilônia, usando escrita cuneiforme. Foi traduzido por assiriólogos a partir do fim do século XIX.
É verdade que ele é considerado a primeira carta de direitos humanos?
Essa é uma leitura popular, mas a maioria dos assiriólogos discorda: o texto segue o modelo tradicional de inscrições reais mesopotâmicas de legitimação política e religiosa, não um documento sobre direitos individuais no sentido moderno.
Quem descobriu o Cilindro de Ciro?
Foi encontrado em 1879 pelo arqueólogo Hormuzd Rassam, durante escavações do Museu Britânico nas ruínas de Babilônia, no atual Iraque.
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