Pastor de Hermas
O que é o Pastor de Hermas e por que ele quase entrou na Bíblia?
Ficha do documento
- Data provável
- c. 100-150 d.C. (forma final provavelmente por volta de 140-150 d.C.)
- Língua
- grego (original), latim (tradução antiga, a "Vulgata do Pastor"), etiópico (tradução completa), copta (fragmentos)
- Autoria atribuída
- Hermas, que se identifica a si mesmo como narrador — ex-escravo cristão liberto, residente em Roma
- Onde se preserva
- Texto completo em tradução latina antiga e em versão etiópica; em grego, sobrevive quase por completo no Codex Athous e em boa parte no Codex Sinaiticus, além de fragmentos em papiro egípcios
A erudição, no entanto, sustenta: Provavelmente o próprio Hermas, segundo o Fragmento Muratoriano irmão do bispo de Roma Pio I; estudiosos modernos discutem se a obra é de um único autor ou resultado de composição em camadas ao longo de décadas
Status por tradição
| Tradição judaica | Fora do cânon | texto cristão do séc. II, posterior e alheio ao cânone hebraico |
| Igreja Católica | Fora do cânon | circulou como leitura edificante nos primeiros séculos, citado por padres, mas nunca formalizado no cânon |
| Igreja Ortodoxa | Fora do cânon | aparece em listas antigas de livros 'úteis para leitura', sem status canônico definitivo |
| Ortodoxa Etíope | Fora do cânon | não consta entre as obras do cânone amplo etíope, que inclui outras obras extracanônicas como Enoque e Jubileus |
| Tradições protestantes | Fora do cânon | nunca fez parte do cânon; hoje é estudado como parte da coleção dos Padres Apostólicos |
Resposta curta
O Pastor de Hermas é uma obra cristã de visões e exortação moral escrita em Roma, provavelmente entre 100 e 150 d.C. Seu narrador, Hermas, um ex-escravo liberto, recebe revelações primeiro de uma figura feminina que representa a Igreja e depois de um anjo disfarçado de pastor — o "Anjo do Arrependimento" — que lhe ensina doze Mandamentos e dez Parábolas sobre pureza, disciplina e a possibilidade de um último arrependimento depois do batismo.
Tão respeitada que foi copiada ao final do Novo Testamento no Codex Sinaiticus e citada como texto quase escriturístico por Irineu de Lyon e Clemente de Alexandria, a obra acabou fora do cânon: o Fragmento Muratoriano explica que, por ter sido escrita recentemente por um irmão do bispo de Roma, podia ser lida, mas não junto aos profetas e apóstolos.
Passagens bíblicas relacionadas
Em palavras simples
O Pastor de Hermas é um livro cristão antigo, escrito em Roma no início do século II. Nele, um ex-escravo chamado Hermas conta que recebeu visões de uma senhora que representa a Igreja e depois de um mensageiro em forma de pastor, que lhe ensina a viver com honestidade e a se arrepender dos erros. Por muito tempo alguns cristãos o liam quase como parte da Bíblia, mas ele nunca foi oficialmente incluído no Novo Testamento.
O que o documento conta
O Pastor de Hermas nasce na comunidade cristã de Roma numa época de crescimento e tensão: o cristianismo já não é apenas um punhado de assembleias ligadas a sinagogas, mas uma rede de igrejas urbanas que precisa lidar com apostasia, riqueza, disputas internas e a pergunta prática de o que fazer com quem pecou gravemente depois do batismo — sacramento então entendido, por muitos, como perdão único e irrepetível. Hermas escreve como cristão comum, não como bispo ou teólogo: descreve-se como ex-escravo, liberto, comerciante que enriqueceu e teve conflitos de família e negócios, uma voz rara na literatura cristã antiga vinda de fora da elite clerical.
A tradição mais antiga sobre a autoria vem do Fragmento Muratoriano (fim do séc. II), que afirma que Hermas era irmão do bispo de Roma Pio I e escreveu "bem recentemente, em nossos dias" — o que ajudaria a datar a forma final da obra por volta de 140-150 d.C., embora partes do texto, sobretudo as primeiras Visões, possam refletir tradições anteriores em décadas. A obra circulou amplamente: é citada como texto quase escriturístico por Irineu de Lyon e Clemente de Alexandria, e séculos depois ainda aparece copiada junto ao Novo Testamento no Codex Sinaiticus (séc. IV), um dos manuscritos bíblicos mais importantes que existem.
Foi justamente o Fragmento Muratoriano, porém, que fixou a distinção que prevaleceria: o livro podia — e devia — ser lido pelos cristãos, mas não em público, ao lado dos profetas e apóstolos, por ser recente demais. Essa posição intermediária, nem cânon nem descarte, descreve bem o destino do Pastor de Hermas nos séculos seguintes: obra respeitada, usada na catequese e na formação moral, mas gradualmente deixada fora das listas oficiais de Escritura tanto no Oriente quanto no Ocidente, sobrevivendo sobretudo em círculos monásticos, litúrgicos e eruditos ao longo dos séculos.
Aprofundamento
Estruturalmente, o Pastor de Hermas se divide em três blocos. As cinco Visões abrem a obra: nelas, Hermas encontra primeiro Rode, uma mulher que o acusara injustamente, e depois uma senhora idosa que se revela figura da Igreja, mostrando-lhe a construção de uma torre feita de pedras — os cristãos — algumas bem encaixadas, outras rejeitadas por rachaduras ou impurezas. Na quinta Visão, a mensageira dá lugar a um novo personagem: um homem vestido de pastor, identificado como o "Anjo do Arrependimento", enviado para viver com Hermas e lhe ensinar o restante da revelação — é dele que vem o título da obra inteira. Seguem-se os doze Mandamentos, um catecismo moral prático sobre fé, temor, domínio próprio, verdade, tristeza, os dois espíritos que disputam cada pessoa e o perigo do desejo mau; e depois as dez Parábolas, alegorias mais elaboradas — a mais conhecida compara a Igreja a uma vinha sustentada por um olmo seco, e retoma a imagem da torre em construção, detalhando os tipos de pedra e o que cada um representa entre os fiéis.
O núcleo teológico da obra é a possibilidade de uma "segunda penitência": muitas comunidades do início do séc. II entendiam o batismo como perdão único, sem margem para reconciliação depois de um pecado grave. Hermas anuncia uma exceção pontual e irrepetível — uma última chance de arrependimento antes do fim dos tempos — posição que gerou debate justamente por tensionar com leituras rigoristas de textos como . Essa flexibilidade pastoral, e não qualquer desvio doutrinário, é a razão mais provável de sua popularidade entre cristãos comuns e de certa reserva entre teólogos mais rígidos.
Do ponto de vista textual, nenhum manuscrito grego completo sobreviveu: o Codex Sinaiticus preserva boa parte, o Codex Athous quase tudo, e há fragmentos em papiro do Egito. A obra sobrevive completa graças a uma tradução latina antiga, conhecida como "Vulgata do Pastor" (distinta da Vulgata bíblica de Jerônimo), e a uma versão etiópica; fragmentos coptas também existem. Essa dispersão em várias línguas diferentes e a ampla citação patrística mostram uma obra que circulou quase tanto quanto muitos livros hoje canônicos — o que torna sua exclusão final do Novo Testamento um caso de estudo valioso sobre como o cânon bíblico se formou, não por decreto único de uma autoridade central, mas por um processo longo de recepção, uso litúrgico e consenso gradual entre as diversas igrejas cristãs primitivas.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:O Pastor de Hermas foi banido do cânon por conter heresia.
Não há evidência disso nas fontes antigas. O próprio Fragmento Muratoriano, que primeiro distingue a obra do cânone apostólico, justifica isso pela data recente de composição — não por erro doutrinário. A obra continuou sendo lida com aprovação por padres como Irineu e Clemente de Alexandria mesmo depois dessa distinção.
Dizem que:Por aparecer no Codex Sinaiticus, o Pastor de Hermas prova que a Bíblia antiga tinha mais livros do que a atual.
O Codex Sinaiticus é um manuscrito, não uma declaração de cânon fechado: reúne textos que uma comunidade específica considerava úteis copiar junto às Escrituras, incluindo apêndices como o Pastor de Hermas e a Epístola de Barnabé. Isso mostra fronteiras ainda fluidas no séc. IV, não um cânon oficialmente reconhecido por todas as igrejas.
Como diferentes tradições leem3 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Católica
É estudado como parte da coleção dos Padres Apostólicos, testemunho valioso da vida e da disciplina penitencial da Igreja de Roma no séc. II, mas sem autoridade canônica — a Igreja nunca o incluiu entre os livros inspirados.
Ortodoxa
Figura em listas patrísticas antigas, como as de Eusébio de Cesareia, entre os livros 'discutidos' ou 'úteis para leitura', refletindo um período em que certas igrejas orientais o liam com respeito sem lhe atribuir status de Escritura inspirada; hoje não integra o cânon ortodoxo.
Protestante
Tratado como literatura patrística de valor histórico para entender o cristianismo pós-apostólico, mas claramente fora do cânon; sua ausência dos escritos apostólicos originais reforça, para essa tradição, a distinção entre Escritura inspirada e tradição eclesiástica posterior.
O que fazer com isso
Textos como o Pastor de Hermas pedem uma leitura de duas mãos: nem descartá-los como irrelevantes, nem tratá-los como Escritura perdida. Ler essa obra com equilíbrio é reconhecer nela uma janela genuína para a vida moral e pastoral de uma igreja do séc. II — suas dúvidas sobre pecado pós-batismal, sua ética prática — sem transferir a ela a autoridade que as próprias comunidades cristãs, ao longo de séculos de discernimento, decidiram não conceder.
Fontes consultadas4 obras
- Carolyn Osiek. Shepherd of Hermas: A Commentary, 1999.
- Bart D. Ehrman. The Apostolic Fathers, vol. II (Loeb Classical Library, tradução e introdução), 2003.
- Bruce M. Metzger. The Canon of the New Testament: Its Origin, Development, and Significance, 1987.
- J. B. Lightfoot. The Apostolic Fathers, 1891.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
O Pastor de Hermas chegou a fazer parte da Bíblia?
Não oficialmente, mas chegou perto: aparece copiado ao final do Novo Testamento no Codex Sinaiticus, do séc. IV, e foi citado como texto quase autoritativo por Irineu de Lyon e Clemente de Alexandria. O Fragmento Muratoriano, já no fim do séc. II, determinou que podia ser lido pelos cristãos, mas não em público ao lado dos profetas e apóstolos — e essa posição intermediária prevaleceu.
Quem foi Hermas?
Segundo o próprio texto, um ex-escravo cristão que viveu em Roma, foi liberto e se tornou comerciante. O Fragmento Muratoriano o identifica como irmão do bispo de Roma Pio I, o que ajuda a datar a forma final da obra em meados do séc. II, embora estudiosos modernos debatam se é obra de um único autor ou de uma composição em camadas.
O que é a 'segunda penitência' ensinada no livro?
É a ideia de que existe uma única oportunidade extra de arrependimento para quem pecou gravemente depois do batismo, antes do fim dos tempos. Isso respondia a uma pergunta pastoral real das igrejas do séc. II, que discutiam se o batismo era a única e irrepetível fonte de perdão.
Por que ele foi excluído do cânon, se era tão respeitado?
Principalmente pela data: o Fragmento Muratoriano explica que foi escrito 'recentemente', muito depois do tempo dos apóstolos, e por isso não podia ter o mesmo status dos escritos apostólicos, ainda que fosse útil e edificante. Não há registro de que tenha sido rejeitado por erro doutrinário grave.
O texto sobrevive completo até hoje?
Sim, embora não em grego completo. A obra inteira sobrevive graças a uma antiga tradução latina, a 'Vulgata do Pastor', e a uma versão etiópica; em grego restam trechos extensos no Codex Sinaiticus e no Codex Athous, além de fragmentos em papiro.
Documentos próximos
Temas
- #pastor-de-hermas
- #hermas
- #padres-apostolicos
- #canon-do-novo-testamento
- #codex-sinaiticus
- #fragmento-muratoriano
- #arrependimento
- #cristianismo-primitivo
- #roma-antiga
- #apocrifos-cristaos