Pular para o conteúdo
Significado Bíblico
Fora da BíbliaDocumento antigointermediária

Perdoar setenta vezes sete, ou só uma vez depois do batismo?

O Pastor de Hermas contradiz o ensino de Jesus sobre perdoar setenta vezes sete?

Resposta curta

Em , Pedro pergunta a Jesus quantas vezes deve perdoar um irmão que peca contra ele, sugerindo sete como número generoso; Jesus responde que o perdão vai muito além de qualquer contagem, até "setenta vezes sete" — um eco invertido da vingança ilimitada que Lameque prometia em .

O Pastor de Hermas, obra cristã de exortação escrita em Roma no século II, discute uma questão diferente no Mandamento 4.3: se existe arrependimento para pecados graves cometidos depois do batismo. O anjo revelador corrige quem ensinava que não havia nenhum, mas também não promete perdão sem limite — concede apenas uma oportunidade adicional, um teto que contrasta com a insistência de Jesus em não contar.

O que diz Pastor de Hermas

Pastor de Hermas, Mandamento 4.3

está inserido num bloco de ensino sobre a vida em comunidade (), logo depois das instruções de Jesus sobre como lidar com um irmão que peca — falar em particular, depois diante de testemunhas, depois diante da igreja. É nesse contexto disciplinar que Pedro pergunta quantas vezes deve perdoar; sete já soava generoso diante de tradições judaicas que, em geral, discutiam limites bem menores para o perdão reiterado de uma mesma ofensa. Jesus responde com "setenta vezes sete", número que ecoa , onde Lameque se gaba de que será vingado "setenta e sete vezes" — Jesus inverte a lógica da vingança ilimitada de Lameque em perdão ilimitado. Na sequência imediata (18:23-35), a parábola do servo que não perdoa mostra que esse perdão sem limite se ancora no perdão que o próprio Deus já concedeu, uma dívida impagável quitada por pura misericórdia.

O Pastor de Hermas nasce num contexto bem diferente: a igreja de Roma do século II, período em que comunidades cristãs enfrentavam a pergunta prática de como lidar com membros batizados que cometiam pecados graves — apostasia, adultério, negação da fé sob pressão. Tradicionalmente atribuído a um cristão chamado Hermas (o Cânon Muratoriano diz que era irmão do bispo Pio de Roma, o que situaria a obra em meados do século II, embora partes do texto possam ser mais antigas), o livro se apresenta como uma série de visões, mandamentos e parábolas reveladas por mensageiros celestiais, entre eles o "Pastor", anjo do arrependimento que dá nome à obra. O Mandamento 4, capítulo 3, responde a uma dúvida real da comunidade: alguns mestres ensinavam que só havia arrependimento uma vez, no próprio batismo, e depois disso não haveria mais chance para quem pecasse. O Pastor corrige esse rigor, mas também não abre a porta para arrependimentos indefinidos — fixa uma única concessão extra, ligada à urgência de uma igreja que ainda está sendo edificada.

Ler mais sobre Pastor de Hermas

O que diz a Bíblia

Então Pedro aproximou-se dele, e perguntou: Senhor, até quantas vezes meu irmão pecará contra mim, e eu lhe perdoarei? Até sete? Jesus lhe respondeu: Eu não te digo até sete, mas sim até setenta vezes sete.

Onde coincidem e onde divergem

Onde coincidem

  • Os dois textos tratam do limite (ou ausência de limite) da misericórdia diante do pecado repetido, corrigindo uma expectativa de limite estrito sugerida por um interlocutor ou por 'mestres' anteriores.
  • Ambos nascem de uma pergunta direta sobre quantas vezes o perdão ou o arrependimento pode se repetir: Pedro pergunta a Jesus 'até quantas vezes'; em Hermas, o narrador relata ter ouvido de 'alguns mestres' que só existe um arrependimento, e busca esclarecimento junto ao Pastor.
  • Nos dois casos a resposta da autoridade (Jesus; o anjo Pastor) amplia a misericórdia além do que a pergunta original supunha, ainda que em graus e sentidos diferentes.

Onde divergem

  • Mateus 18:21-22 trata de perdão interpessoal e cotidiano entre 'irmãos' na comunidade, uma prática contínua e sem contagem; Hermas, Mandamento 4.3, trata de uma categoria teológico-disciplinar distinta: quantas vezes Deus concede arrependimento formal para pecado grave cometido depois do batismo.
  • Jesus recusa qualquer teto numérico ('não te digo até sete, mas até setenta vezes sete'); Hermas estabelece um teto numérico explícito e único — exatamente uma oportunidade adicional de arrependimento pós-batismal, não repetições indefinidas.
  • A instrução de Jesus é discurso direto de mestre para discípulo dentro de uma narrativa evangélica; a instrução de Hermas vem por meio de uma figura reveladora angelical (o Pastor, 'anjo do arrependimento') num texto de gênero apocalíptico-alegórico.
  • Em Hermas, a concessão de um segundo arrependimento vem com o aviso de que abusar repetidamente dessa graça 'dificilmente aproveitará' ao pecador; Mateus não impõe nenhuma advertência equivalente ao perdão repetido entre irmãos.

O que só existe fora do cânon

Nada do que segue está em nenhum livro da Bíblia.

  • A figura do Pastor — um anjo do arrependimento que aparece a Hermas disfarçado de pastor de ovelhas — como mecanismo literário de revelação, sem paralelo direto nos evangelhos canônicos.
  • A imagem da Igreja como uma torre ainda em construção, desenvolvida sobretudo nas Similitudes do Pastor de Hermas, usada para justificar por que Deus concede mais uma chance de arrependimento antes que essa obra esteja terminada.
  • A menção explícita a 'alguns mestres' que já ensinavam, na comunidade cristã de Roma do século II, que não havia nenhum arrependimento possível depois do batismo — um debate interno sobre disciplina penitencial que não aparece nos evangelhos.
Em palavras simples

Pedro pergunta a Jesus quantas vezes deve perdoar alguém que erra com ele; Jesus responde que não dá para contar — o perdão não tem limite. Já um livro cristão antigo chamado Pastor de Hermas, escrito cerca de cem anos depois, trata de outro problema: se uma pessoa batizada que cometeu um pecado grave pode se arrepender de novo. A resposta ali é mais rígida — só mais uma chance, não infinitas vezes. São perguntas parecidas na superfície, mas sobre situações diferentes: perdoar no dia a dia e reconstruir a confiança depois de um erro sério.

Aprofundamento

A expressão grega de , hebdomēkontakis hepta, é ambígua mesmo no original — pode ser lida como "70x7" (490) ou como "70 e 7" (77), ecoando diretamente a jactância de Lameque em ("se Caim será vingado sete vezes, Lameque o será setenta e sete vezes"). Em qualquer leitura, o efeito retórico é o mesmo: Jesus está dizendo a Pedro para parar de contar. O ponto não é fixar um novo teto maior, mas abolir a lógica da contagem como critério de perdão entre irmãos na comunidade.

O Pastor de Hermas, Mandamento 4, capítulo 3, trata de uma pergunta distinta, levantada dentro do próprio texto: o narrador diz ter ouvido "de alguns mestres" que não existe arrependimento além daquele que acontece no batismo, quando os pecados anteriores são perdoados nas águas. O Pastor confirma que essa era, em certo sentido, a regra original — mas revela uma concessão: por misericórdia, e porque conhece o coração dos homens e sabe que o diabo tenta os servos de Deus, o Senhor concedeu mais uma oportunidade de arrependimento para quem pecou gravemente depois do batismo. O texto é explícito quanto ao limite: essa é uma chance única; a quem continua pecando e se arrependendo repetidamente, o Pastor adverte que isso dificilmente aproveitará, pois tal prática esvazia o próprio sentido do arrependimento. Em outras partes da obra, sobretudo nas Similitudes — especialmente a parábola da torre em construção —, essa urgência é associada à ideia de que a Igreja ainda está sendo edificada e o tempo para essa concessão extraordinária é limitado.

A diferença de gênero importa tanto quanto a de conteúdo: Mateus registra um ensino direto de Jesus em resposta a uma pergunta de discípulo, dentro de uma narrativa evangélica; Hermas comunica sua doutrina por meio de uma revelação alegórico-apocalíptica, mediada por um anjo que se apresenta fisicamente como pastor de ovelhas. São gêneros literários diferentes tratando de perguntas pastorais diferentes — perdão cotidiano entre pessoas versus disciplina eclesiástica para pecado grave pós-batismal.

Essa distinção teve consequências históricas reais. No século III, a controvérsia sobre os "lapsos" — cristãos que haviam negado a fé sob perseguição e depois queriam voltar à igreja — dividiu a cristandade entre rigoristas, como os seguidores de Novaciano, que negavam qualquer possibilidade de readmissão, e uma posição mais branda que se apoiava, entre outros argumentos, no precedente de uma segunda chance descrito em textos como o Pastor de Hermas. Lido com cuidado, portanto, o Mandamento 4.3 não é um comentário sobre , mas um testemunho independente de como uma comunidade cristã do século II tentava equilibrar misericórdia e disciplina — um problema que o texto bíblico, voltado ao perdão interpessoal, não trata diretamente.

O que costumam dizer errado2 afirmações
  • Dizem que:O Pastor de Hermas ensina que um cristão só pode pecar uma vez depois de ser batizado.

    O texto não fala de pecados cotidianos e comuns, mas de uma categoria específica levantada por 'alguns mestres': se existe arrependimento formal para pecado grave (como apostasia ou adultério) cometido depois do batismo. A resposta do Pastor é sobre essa segunda chance institucional, não sobre proibir qualquer falta após o batismo.

  • Dizem que:'Setenta vezes sete', em Mateus 18:22, é uma conta matemática exata que autoriza parar de perdoar na ofensa 491.

    É uma expressão idiomática semítica de número redondo e exagerado, que ecoa a vingança 'setenta e sete vezes' de Lameque em ; o sentido é abolir a contagem, não fixar um novo teto maior.

Como diferentes tradições leem3 leituras

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • Patrística inicial (séculos II-III, ex.: Irineu, Clemente de Alexandria)

    Tratava o Pastor de Hermas com grande estima, por vezes citando-o como texto inspirado e útil para a instrução moral da igreja, e por isso circulou ao lado de escritos que viriam a compor o Novo Testamento, como no Codex Sinaiticus.

  • Catolicismo e Ortodoxia contemporâneos

    Reconhecem o Pastor de Hermas como obra valiosa dos Padres Apostólicos e testemunho histórico da vida da igreja primitiva, mas não canônica — útil para entender a disciplina penitencial antiga, sem autoridade normativa equivalente às Escrituras.

  • Protestantismo evangélico contemporâneo

    Costuma enfatizar que o cânon bíblico está fechado e que textos como o Pastor de Hermas, embora historicamente informativos, refletem uma tendência legalista de contar e limitar a graça que o próprio evangelho, centrado na graça em Cristo, supera.

O que fazer com isso

Ao ler um documento como o Pastor de Hermas ao lado de um ensino de Jesus, vale resistir a duas tentações: tratar a diferença como prova de que a igreja antiga "corrompeu" o evangelho, ou ignorar a diferença fingindo que os dois textos respondem à mesma pergunta. fala de perdão entre pessoas; Hermas fala de disciplina eclesiástica para pecado grave. Comparar bem significa notar que perguntas parecidas podem exigir respostas de naturezas diferentes, sem que uma desminta a outra.

Fontes consultadas3 obras
  • Carolyn Osiek. Shepherd of Hermas: A Commentary (Hermeneia), 1999.
  • Bart D. Ehrman (ed. e trad.). The Apostolic Fathers, vol. II (Loeb Classical Library), 2003.
  • J. N. D. Kelly. Early Christian Doctrines, 1978.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

O Pastor de Hermas está na Bíblia?

Não. Apesar de ter sido muito lido e valorizado por alguns cristãos dos séculos II e III, e de aparecer ao lado de livros do Novo Testamento no Codex Sinaiticus, ele nunca entrou no cânon bíblico de nenhuma tradição cristã majoritária.

Hermas contradiz o ensino de Jesus sobre perdoar setenta vezes sete?

Não exatamente — os dois textos respondem perguntas diferentes. Jesus fala de perdão interpessoal e cotidiano entre irmãos na comunidade; Hermas discute uma questão disciplinar específica, quantas vezes a igreja concede arrependimento formal a quem cometeu pecado grave depois do batismo.

De onde vem a expressão 'setenta vezes sete'?

Ela ecoa , onde Lameque se gaba de que será vingado setenta e sete vezes mais que Caim. Jesus inverte essa lógica: em vez de vingança sem limite, propõe perdão sem limite.

Por que o Pastor de Hermas foi importante na história da igreja?

Sua discussão sobre uma segunda chance de arrependimento após o batismo ecoou no século III na controvérsia sobre os 'lapsos', cristãos que negaram a fé sob perseguição, disputa que dividiu rigoristas e moderados e ajudou a gerar o cisma novacianista.

Passagens relacionadas

Temas

  • Perdão
  • #pastor-de-hermas
  • #mateus-18
  • #arrependimento
  • #padres-apostolicos
  • #canon-do-novo-testamento
  • #fora-da-biblia
  • #disciplina-eclesiastica

Publicado em 13/09/2026

Construído sobre fontes em domínio público, listadas acima. Como produzimos. Encontrou um erro? Escreva para a redação.

O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 3 obras citadas, com autor e ano
  • 2 afirmações populares checadas e refutadas
  • 3 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

Uma explicação nova por semana

Sem devocional, sem corrente e sem promoção. Só o verbete da semana, com o contexto que normalmente fica de fora. Todo e-mail leva um link para sair, e sair é imediato.