Ciro, o Ungido, e o Cilindro que Leva seu Nome
O Cilindro de Ciro prova que a profecia de Isaías sobre Ciro se cumpriu?
Resposta curta
chama Ciro, rei persa, de "ungido" do SENHOR, tomado pela mão direita para abrir portas e abater nações diante dele — um título e um gesto reservados, no resto da Bíblia, a reis e sacerdotes de Israel, agora aplicados a um governante estrangeiro que nem conhece esse Deus. Décadas depois de proferido o oráculo, na leitura tradicional do livro, Ciro conquistou a Babilônia em 539 a.C. e mandou gravar um cilindro de argila em acádio contando sua própria versão da conquista.
No cilindro, é o deus babilônico Marduque quem "toma a mão" de Ciro e proclama seu nome para governar — a mesma fórmula real do antigo Oriente Próximo, mas dentro de uma teologia politeísta, centrada em Babilônia, que não menciona Israel, Jerusalém ou o povo exilado em nenhuma linha.
O que diz Cilindro de Ciro
Cilindro de Ciro, linha 20
Ciro II, fundador do império persa aquemênida, derrotou o rei medo Astíages por volta de 550 a.C. e, em outubro de 539 a.C., tomou a Babilônia sem grande resistência, encerrando o império neobabilônico e o reinado de Nabonidus. Para o povo de Judá, deportado à Babilônia desde 586 a.C., essa mudança de poder abriu caminho para o retorno à terra e a reconstrução do templo, narrados em e .
é o bloco do livro que se dirige aos exilados prometendo libertação por meio de Ciro, chamado nominalmente já em e 45:1. Na leitura tradicional, que atribui todo o livro ao profeta do século VIII a.C., isso significa que o nome de um rei foi anunciado cerca de 150 anos antes de seu nascimento. Parte da erudição bíblica moderna — inclusive teólogos de tradições cristãs distintas — lê esses capítulos como obra de um profeta anônimo do próprio período do exílio, escrevendo já com Ciro em ascensão; a diferença entre essas leituras está detalhada em interpretacoes, mas não afeta o fato histórico de que o cilindro é uma fonte independente da Bíblia.
O Cilindro de Ciro é um objeto de argila cozida, com cerca de 23 cm, coberto de escrita cuneiforme em língua acádia. Foi encontrado em 1879 pelo arqueólogo assírio-britânico Hormuzd Rassam nas ruínas do templo de Esagila, em Babilônia, e está hoje no Museu Britânico, em Londres. O texto segue o gênero das inscrições reais mesopotâmicas de fundação e restauração de templos — um estilo já usado por reis babilônios e assírios anteriores, incluindo o próprio Nabonidus. Nele, Ciro credita sua vitória ao deus Marduque, descreve a entrada pacífica em Babilônia, condena a impiedade do rei anterior e anuncia a devolução de estátuas de deuses e de povos deportados a seus lugares de origem — uma política mais ampla, da qual o retorno judeu é, para os historiadores, um caso entre vários, embora o cilindro não cite judeus, Jerusalém ou Judá em nenhuma passagem preservada.
O que diz a Bíblia
Assim diz o SENHOR a seu ungido, Ciro, ao qual tomou pela sua mão direita, para abater as nações diante dele, e tirar a proteção dos lombos dos reis; para abrir diante de sua presença as portas, e as portas não se fecharão:
Onde coincidem e onde divergem
Onde coincidem
- Ambos os textos usam a mesma fórmula real do antigo Oriente Próximo — uma divindade que "toma a mão" do rei escolhido como sinal de legitimação para governar; Isaías atribui o gesto ao SENHOR, o cilindro atribui a Marduque.
- Ambos descrevem a conquista de Ciro como praticamente isenta de violência: o cilindro afirma que Ciro entrou em Babilônia sem batalha, e Isaías 45:1 fala de portas que se abrem diante dele e não se fecham — imagem compatível com a mesma tomada pacífica da cidade em 539 a.C., também registrada na Crônica de Nabonidus.
- Os dois textos atribuem a ascensão de Ciro à ação direta de uma divindade, e não apenas à força militar ou à sorte política — Isaías fala do SENHOR que o chama pelo nome, o cilindro fala de Marduque que pronuncia seu nome para o governo do mundo.
Onde divergem
- Isaías 45 usa a escolha de Ciro para afirmar que não há nenhum outro deus além do SENHOR (v. 5-6); o cilindro é um texto politeísta, no qual Ciro credita sua vitória a Marduque mas também invoca genericamente "todos os deuses" que restaurou em seus templos, sem negar a existência de outros.
- Isaías chama Ciro de "ungido" (mashiach), termo hebraico normalmente reservado a reis e sacerdotes israelitas; o próprio Ciro, no cilindro, nunca usa um título religioso equivalente para si — sua autodescrição é política e militar ("grande rei, rei poderoso, rei da Babilônia, rei da Suméria e Acádia, rei das quatro regiões do mundo").
- O propósito de cada texto é oposto: o cilindro justifica o governo de Ciro sobre a Babilônia perante os próprios babilônios, condenando a impiedade de Nabonidus; Isaías escreve para os exilados judeus, e o papel de Ciro ali só interessa por servir à restauração de Israel (v. 4) — um horizonte ausente do cilindro.
- Isaías 45:1 é, na leitura tradicional do livro, um oráculo proferido cerca de 150 anos antes do nascimento de Ciro; o cilindro é uma inscrição composta pelos próprios escribas de Ciro logo depois da conquista de 539 a.C., uma descrição retrospectiva, não uma previsão.
O que só existe fora do cânon
Nada do que segue está em nenhum livro da Bíblia.
- A genealogia e a titulatura completa de Ciro no cilindro — filho de Cambises, neto de Ciro I, descendente de Teispes, de "linhagem eterna de realeza" — não têm qualquer paralelo bíblico, que nunca detalha a ascendência de Ciro.
- A condenação explícita de Nabonidus como rei ímpio, que teria imposto trabalhos forçados à população da Babilônia e alterado os ritos religiosos tradicionais — essa disputa de política interna babilônica é matéria só do cilindro; a Bíblia nunca menciona Nabonidus pelo nome.
- A lista de obras de restauração que Ciro atribui a si mesmo no cilindro — reparo de muralhas, achado de uma inscrição de fundação de um rei assírio anterior, restauração do Imgur-Enlil — é detalhe administrativo e arquitetônico ausente de qualquer texto bíblico.
- A afirmação de que "todos os reis do mundo inteiro" levaram tributo pesado à Babilônia e beijaram os pés de Ciro é um detalhe de autoglorificação típico da propaganda real mesopotâmica, sem equivalente em Isaías.
Em palavras simples
Isaías chama o rei persa Ciro de "escolhido" de Deus, dizendo que o SENHOR segurou sua mão direita para abrir caminho diante dele. Tempos depois, ao conquistar a Babilônia, Ciro mandou gravar um cilindro de argila contando essa mesma cena — só que ali é o deus babilônico Marduque quem toma sua mão e o escolhe para governar. São duas religiões diferentes contando, cada uma à sua maneira, a ascensão do mesmo rei ao poder.
Aprofundamento
O ponto de contato mais preciso entre e o Cilindro de Ciro não é um tema geral, mas uma fórmula específica. Isaías diz que o SENHOR tomou Ciro "pela sua mão direita". No cilindro, próximo da passagem em que o texto narra a escolha de Ciro para marchar contra a Babilônia, é Marduque quem "toma a mão" do rei e pronuncia seu nome para o governo do mundo — um gesto que, na erudição sobre o antigo Oriente Próximo (ver Amélie Kuhrt, 1983), era fórmula corrente de legitimação real: um deus patrono "toma a mão" do rei que escolhe, conferindo-lhe autoridade sobre um território. A mesma imagem aparece em inscrições reais anteriores, associadas a Bel-Marduque no festival do Akitu babilônico. usa, portanto, uma linguagem de investidura real que qualquer ouvinte do Oriente Próximo antigo reconheceria — mas a atribui exclusivamente ao Deus de Israel, e a um rei que, segundo o próprio oráculo (v. 4-5), "não conhece" esse Deus.
A diferença central não está na imagem, mas na moldura teológica. O cilindro é um texto politeísta: Ciro nele credita sua vitória a Marduque, mas também invoca "todos os deuses" que devolveu a seus templos, sem hierarquia exclusiva. , ao contrário, usa a escolha de Ciro precisamente para negar a existência de qualquer outro deus (v. 5-6, fora do recorte deste verbete, mas parte do mesmo oráculo) — o monoteísmo mais explícito de todo o Antigo Testamento aparece justamente no capítulo que enaltece um rei pagão. Isso inverte a lógica do próprio cilindro: onde Ciro se apresenta como instrumento fiel de Marduque, Isaías o apresenta como instrumento involuntário de um Deus que ele nem reconhece.
Outra diferença é de propósito narrativo. O cilindro justifica o governo de Ciro sobre a Babilônia perante os próprios babilônios, condenando Nabonidus por negligenciar os ritos de Marduque e impor trabalhos forçados — uma disputa de política interna babilônica que não tem qualquer paralelo bíblico. Isaías, por sua vez, escreve para os exilados judeus, e o papel de Ciro ali só importa na medida em que serve à restauração de Israel (v. 4, "por amor do meu servo Jacó") — um horizonte totalmente ausente do cilindro, que não cita Judá, Jerusalém ou o exílio em nenhuma linha preservada.
Ainda assim, um detalhe histórico cruza os dois textos sem contradição: o final do versículo 1 fala de portas que se abrem e não se fecham diante de Ciro. A tomada de Babilônia em 539 a.C. é registrada, tanto pelo cilindro quanto pela Crônica de Nabonidus (outro documento babilônico independente), como uma entrada sem batalha — as tropas persas teriam ocupado a cidade com pouca ou nenhuma resistência. Nesse ponto pontual, a imagem profética de portas abertas coincide com o quadro que os próprios registros babilônicos, de origem e teologia diferentes, também preservam.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:O Cilindro de Ciro é a primeira declaração de direitos humanos da história
É uma leitura moderna, popularizada a partir de 1971, que não corresponde ao gênero do texto: o cilindro é uma inscrição real mesopotâmica de fundação e restauração de templos, seguindo um modelo já usado por reis babilônios e assírios anteriores (inclusive Nabonidus, o rei que Ciro está desqualificando). Especialistas como Irving Finkel, curador do Museu Britânico, notam que o texto não formula direitos universais nem se dirige a indivíduos comuns — é propaganda política e religiosa dirigida à elite sacerdotal e política da Babilônia.
Dizem que:O Cilindro de Ciro cita os judeus e a permissão para reconstruir o templo de Jerusalém
Em nenhuma das linhas preservadas do cilindro aparecem os termos judeus, Judá, Jerusalém ou Israel. O texto fala, de forma genérica, em devolver estátuas de deuses e povos deportados a seus lugares de origem; a ligação com o retorno judeu contado em é uma inferência histórica sobre a política geral de Ciro, não uma citação direta do documento.
Como diferentes tradições leem4 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Evangélica conservadora
Sustenta a autoria única do livro de Isaías pelo profeta do século VIII a.C.; o nome de Ciro teria sido anunciado cerca de 150 anos antes de seu nascimento, como evidência de profecia preditiva genuína e do conhecimento antecipado de Deus sobre a história.
Católica
Reconhece a possibilidade de uma redação ou edição de parte do livro de Isaías (os capítulos 40-55, às vezes chamados de Dêutero-Isaías) mais próxima do período do exílio, sem que isso diminua a inspiração e a autoridade canônica do texto; o valor profético está na mensagem sobre a soberania de Deus sobre a história das nações, não apenas na exatidão cronológica da previsão do nome.
Ortodoxa
Segue a leitura patrística tradicional de autoria una do profeta Isaías, entendendo a passagem como demonstração da providência divina agindo por meio de governantes pagãos para cumprir os propósitos de Deus para com seu povo, sem necessidade de resolver a questão pela crítica histórica moderna.
Protestante histórico-crítica
Aceita a hipótese, comum na erudição bíblica desde o século XIX, de que reflete um profeta anônimo do próprio período do exílio babilônico, contemporâneo da ascensão de Ciro; o milagre teológico do texto não estaria em nomear um rei à distância de séculos, mas no discernimento profético da ação de Deus na história em curso.
O que fazer com isso
Comparar ao Cilindro de Ciro não é procurar uma "prova" de que a profecia se cumpriu, nem descartar o texto bíblico como cópia de um discurso real comum na época. É reconhecer que Ciro, como qualquer governante antigo, foi descrito por mais de uma tradição religiosa como escolhido por uma divindade — e que ler bem uma fonte extrabíblica significa notar tanto a linguagem que ela compartilha com a Bíblia quanto o propósito bem diferente que cada uma persegue.
Fontes consultadas4 obras
- Irving Finkel (ed.). The Cyrus Cylinder: The King of Persia's Proclamation from Ancient Babylon, 2013.
- Amélie Kuhrt. The Cyrus Cylinder and Achaemenid Imperial Policy, Journal for the Study of the Old Testament, 1983.
- John Goldingay. Isaiah (New International Biblical Commentary), 2001.
- Claus Westermann. Isaiah 40-66: A Commentary, 1969.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
O Cilindro de Ciro prova que a profecia de Isaías se cumpriu?
Não da forma como às vezes se afirma. O cilindro confirma, de forma independente, que Ciro conquistou a Babilônia e se apresentou como escolhido por uma divindade para governar — mas é Marduque, não o Deus de Israel, o protagonista religioso do texto. Ele não faz referência a Isaías nem à profecia bíblica.
O cilindro menciona os judeus ou Jerusalém?
Não. Em nenhuma das linhas preservadas aparecem os termos judeus, Judá ou Jerusalém. A conexão com o retorno judeu narrado em vem da política mais geral de repatriação de povos e deuses que o cilindro descreve, não de uma citação direta.
É verdade que o Cilindro de Ciro é a primeira declaração de direitos humanos?
Não, segundo a maioria dos historiadores e assiriólogos. Trata-se de uma inscrição real mesopotâmica dentro de um gênero literário já praticado por reis anteriores, incluindo o próprio Nabonidus, e não de uma carta de direitos universais no sentido moderno.
Quando e onde o Cilindro de Ciro foi encontrado?
Foi descoberto em 1879 pelo arqueólogo Hormuzd Rassam nas ruínas do templo de Esagila, em Babilônia (atual Iraque), e está hoje em exposição no Museu Britânico, em Londres.
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