Kaleo (Chamar)
O que significa "chamado" na Bíblia — a palavra kaleo/kaléo em grego
A palavra no original
καλέω
kaléō · Strong G2564
Chamar, chamar pelo nome, convidar, convocar.
Tudo isto ao mesmo tempo
- chamar pelo nome / nomear
- convidar (a uma festa, um banquete)
- convocar, mandar chamar para comparecer
- chamar/eleger para uma função ou vocação divina
Resposta curta
Kaléo é um dos verbos mais comuns do grego do Novo Testamento: significa simplesmente "chamar". Chamar alguém pelo nome, dar nome a uma criança, convidar para uma refeição, convocar alguém para comparecer. É essa palavra do dia a dia que Mateus usa quando manda que José "chame" o menino de Jesus, e que aparece na parábola em que os convidados para o banquete são "chamados". Nada nisso, sozinho, tem peso religioso especial.
O que muda é o sujeito. Quando é Deus quem chama, kaléo ganha densidade teológica. Paulo fala do chamado que produz santos, do chamado eficaz que conduz à glorificação e da comunhão para a qual fomos chamados em Cristo. Desse verbo nasce o substantivo klesis, "vocação", e o adjetivo kletos, "chamado", peças centrais no vocabulário paulino sobre eleição e vida cristã.
Onde a palavra aparece
Como isso aponta para Jesus
Trajetória do textoO tema do "chamado" de Deus atravessa toda a Escritura: Deus chama Abraão para sair de sua terra, chama Israel para si dentre as nações e, segundo Mateus, chama até o próprio Filho "do Egito" (, citando ). Em Paulo, essa trajetória converge em Cristo: o chamado de Deus agora reúne judeus e gentios numa só comunhão "com seu Filho, Jesus Cristo" (), e a cadeia de liga esse chamado à conformação da pessoa "à imagem de seu Filho". O verbo comum que servia para nomear uma criança ou convidar para um jantar torna-se, em Cristo, a palavra que descreve a própria iniciativa de Deus para reunir um povo em seu Filho.
Respaldo no Novo Testamento: ; ;
Em palavras simples
Kaléo é a palavra grega comum para "chamar" — chamar alguém pelo nome, convidar para uma festa, mandar chamar. É usada centenas de vezes na Bíblia grega sem nenhum sentido religioso especial. Mas quando quem chama é Deus, a mesma palavra ganha um peso maior: é o "chamado" que Paulo descreve, o convite de Deus que leva à fé e à vida nova em Cristo. A palavra não muda; muda quem fala.
De onde vem a palavra
Kaléo (καλέω) é um verbo comum do grego clássico e koiné, sem etimologia teológica: os léxicos (BDAG, Liddell-Scott) o registram desde Homero com o sentido básico de "chamar", "chamar pelo nome" ou "convocar". No grego do Novo Testamento, ele aparece em contextos totalmente comuns: dar nome a um filho (, "chamarás o seu nome Jesus"; , sobre João Batista), convidar pessoas para uma festa (a parábola do banquete de núpcias em , onde os "convidados" são literalmente os kletoi, "os chamados") ou simplesmente mandar chamar alguém para vir. Esse uso ordinário é a base de tudo o que a palavra passa a carregar depois.
O ponto de virada está no vocabulário paulino. Paulo usa kaléo e seu substantivo derivado, klesis ("chamado", "vocação"), para descrever a iniciativa de Deus que convoca pessoas à fé e à comunhão com Cristo — não um convite qualquer, mas o ato pelo qual Deus separa um povo para si (, citando Oseias, sobre chamar "os que não eram meu povo"). Em , o chamado aparece como um elo entre a predestinação e a justificação, dentro da chamada "cadeia da salvação". Em , os cristãos foram "chamados para a comunhão de seu Filho, Jesus Cristo". Em e , o chamado é descrito como santo e como algo que exige uma vida à altura.
No texto bíblico, portanto, kaléo cobre dois registros que não deveriam ser confundidos: o uso corriqueiro de "chamar" (nomear, convidar, convocar) e o uso teológico específico de Paulo, no qual o mesmo verbo descreve a ação soberana de Deus ao trazer pessoas à fé. É esse segundo uso que deu origem à palavra "vocação" nas línguas ocidentais e a discussões duradouras sobre como esse chamado se relaciona com a resposta humana. Também é desse verbo que vem o substantivo klesis, presente sobretudo nas cartas paulinas, e o adjetivo kletos, usado tanto para os cristãos em geral quanto para o próprio apóstolo, que se apresenta como "chamado" para o apostolado.
Aprofundamento
A forma καλέω pertence a uma família de palavras bem documentada no grego antigo: o substantivo klesis ("chamado", Strong G2821) e o adjetivo verbal kletos ("chamado", "convocado", G2822) compartilham a mesma raiz. BDAG (A Greek-English Lexicon of the New Testament) organiza os sentidos de kaléo em quatro blocos: (1) chamar/dar nome a alguém ou algo; (2) convidar, como para uma refeição ou festa; (3) convocar, mandar vir; (4) designar ou chamar de determinado modo. Nenhum desses sentidos é, em si, religioso — e é justamente por isso que o uso teológico chama atenção: Paulo pega um verbo do vocabulário social mais comum e o aplica à iniciativa de Deus.
Essa dupla vida da palavra aparece dentro do próprio Novo Testamento. Em , no fim da parábola do banquete de núpcias, Jesus resume a história dizendo "muitos são chamados, mas poucos escolhidos" — usando kletoi ("os chamados") lado a lado com eklektoi ("os escolhidos"), numa distinção que gerou séculos de discussão sobre chamado geral e chamado eficaz. Já em , Paulo se descreve como "chamado para apóstolo" (kletos apostolos), um uso mais próximo de vocação pessoal e específica.
O peso doutrinário maior recai sobre a cadeia de verbos em : "aos que predestinou, a esses também chamou; aos que chamou, a esses também justificou". O verbo kaléo aqui funciona como a dobradiça entre o plano eterno de Deus e a experiência histórica da pessoa que crê — por isso tradições reformadas distinguem um "chamado geral" (o evangelho anunciado a todos) de um "chamado eficaz" (a ação interna que efetivamente traz à fé). TDNT (Kittel), no verbete de Karl Ludwig Schmidt sobre kaléo, observa que esse uso paulino radicaliza um padrão já presente no Antigo Testamento grego (LXX), onde Deus "chama" Abraão, Israel e, através dos profetas, um povo que ainda não é seu povo (citado em ).
Vale notar que klesis, o substantivo, nunca significa "profissão" ou "carreira" no Novo Testamento — sentido que a palavra portuguesa "vocação" adquiriu depois, sobretudo a partir de usos posteriores na tradição cristã. Em Paulo, klesis é sempre o chamado de Deus para a salvação e para a vida em Cristo (; 4:1,4; ; ), não uma ocupação terrena. Essa diferença é importante para não ler de volta no texto grego um sentido que só surgiu séculos depois. Vine's Expository Dictionary registra o mesmo padrão: kaléo, na linguagem comum, cobre desde nomear alguém até convidar para um banquete, e é essa base semântica ordinária que os escritores do Novo Testamento reaproveitam ao falar do convite de Deus.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:"Chamado", na Bíblia, sempre significa um chamado especial para o ministério ou uma missão específica, como "sentir um chamado para pregar".
Kaléo e klesis descrevem, no Novo Testamento, principalmente o convite de Deus à fé e à salvação em Cristo (1Co 1:9; 2Tm 1:9), não uma vocação profissional ou ministerial. O próprio verbo kaléo, fora desse uso teológico, é usado para coisas tão comuns quanto dar nome a um bebê (Mt 1:21) ou convidar alguém para jantar (Lc 14:12-13).
Dizem que:Kaléo é uma palavra exclusivamente religiosa, cunhada para descrever a ação de Deus.
É um verbo grego comum, presente na literatura grega desde Homero e usado no dia a dia para "chamar" no sentido mais simples. Seu peso teológico vem do sujeito da ação — Deus chamando — e não da palavra em si, que os léxicos registram como vocabulário corrente.
Como diferentes tradições cristãs leem4 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Reformada/Calvinista
Distingue um chamado geral (o evangelho anunciado a todos, que pode ser recusado) de um chamado eficaz ou interno (a obra do Espírito que efetivamente traz o eleito à fé, ligada à predestinação de ).
Arminiana/Wesleyana
Entende o chamado de Deus como um convite genuíno e universal, habilitado pela graça preveniente, que a pessoa pode aceitar ou resistir livremente — sem um chamado interno irresistível separado do convite do evangelho.
Católica
Lê o chamado como vocação universal à santidade e à salvação, que se realiza em cooperação sinérgica entre a graça de Deus e a resposta livre da pessoa, incluindo depois vocações específicas (sacerdotal, religiosa, matrimonial).
Ortodoxa
Entende o chamado como convite ao caminho da theosis (comunhão com Deus), realizado em sinergia entre a graça divina e o esforço humano ascético e sacramental de resposta.
O que fazer com isso
Entender kaléo ajuda a ler com mais precisão passagens que falam de "chamado" e "vocação". Antes de perguntar "qual é o meu chamado", vale notar que, no Novo Testamento, esse vocabulário descreve sobretudo o convite de Deus à fé e à comunhão com Cristo — não uma carreira ou tarefa específica. Isso não anula buscas pessoais de sentido e serviço, mas evita transportar para o texto bíblico um sentido que a palavra só ganhou mais tarde.
Passagens relacionadas9
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Fontes consultadas4 obras
- Walter Bauer, Frederick W. Danker. A Greek-English Lexicon of the New Testament (BDAG), 2000.
- Gerhard Kittel (org.), verbete de Karl Ludwig Schmidt. Theological Dictionary of the New Testament (TDNT), vol. III, 1965.
- Henry George Liddell, Robert Scott. A Greek-English Lexicon, 1940.
- W. E. Vine. Vine's Expository Dictionary of New Testament Words, 1940.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Kaléo e klesis são a mesma palavra?
Não exatamente: kaléo é o verbo ("chamar") e klesis é o substantivo derivado dele ("chamado", "vocação"). Kletos é o adjetivo verbal ("chamado", "convocado"). Os três compartilham a mesma raiz e aparecem juntos em textos como e .
"Vocação" na Bíblia significa profissão ou carreira?
Não no Novo Testamento. Klesis, ali, designa o chamado de Deus para a fé e a vida em Cristo, nunca uma ocupação terrena. O sentido de "vocação" como profissão é um desenvolvimento posterior da língua portuguesa e de outras línguas ocidentais.
Por que Mateus 22:14 fala de "muitos chamados, poucos escolhidos"?
O versículo usa kletoi ("os chamados") e eklektoi ("os escolhidos") lado a lado, distinguindo o convite amplo do evangelho da resposta efetiva de quem o aceita. É um dos textos mais discutidos entre as tradições cristãs sobre chamado e eleição.