Choshek
O que significa choshek (trevas) na Bíblia hebraica?
A palavra no original
חֹשֶׁךְ
choshekh · Strong H2822
Escuridão, trevas; ausência de luz.
Tudo isto ao mesmo tempo
- escuridão física (noite, ausência de luz solar)
- caos e vazio pré-criacional
- calamidade e juízo divino
- ignorância e maldade moral
- mistério sagrado da presença de Deus
Resposta curta
Choshekh (חֹשֶׁךְ) é o substantivo hebraico comum para "trevas" ou "escuridão", ligado à raiz verbal chashak, "escurecer". A palavra abre a Bíblia hebraica: em , trevas cobrem a face do abismo antes de Deus dizer "haja luz", e em e 1:18 ele separa a luz das trevas, chamando esta última de noite.
No Êxodo, choshekh nomeia a nona praga sobre o Egito, uma escuridão descrita como palpável (). Em textos poéticos e proféticos, o termo passa a designar também calamidade, morte, ignorância e juízo moral, como em e , sem perder o sentido físico original, presente até na nuvem espessa que envolve o Sinai ().
Onde a palavra aparece
Como isso aponta para Jesus
Cumprimento diretoA profecia de declara que o povo que andava em trevas (choshekh) viu uma grande luz, um oráculo dirigido à Galileia dos gentios em tempo de opressão assíria. O Evangelho de Mateus (4:14-16) cita esse texto de forma explícita para descrever o início do ministério público de Jesus na Galileia, aplicando a imagem profética das trevas dissipadas diretamente à sua pessoa. Assim, a trajetória da palavra hebraica choshekh — usada para o caos primordial, o juízo do Egito e a angústia moral dos profetas — encontra no Novo Testamento uma leitura de cumprimento: a luz que rompe as trevas historicamente anunciada é identificada com a chegada de Cristo.
Respaldo no Novo Testamento: (citando )
Em palavras simples
Choshekh é a palavra hebraica para escuridão ou trevas. Ela aparece logo no começo da Bíblia, em Gênesis, descrevendo o mundo antes de Deus criar a luz. A mesma palavra nomeia a praga de escuridão total que caiu sobre o Egito, no livro de Êxodo. Mais tarde, profetas e poetas usam esse termo também para falar de tristeza, perigo e maldade, comparando uma vida sem direção a uma noite sem estrelas. Curiosamente, a Bíblia também usa trevas para descrever o mistério da própria presença de Deus.
De onde vem a palavra
Choshekh (חֹשֶׁךְ, Strong's H2822) é um dos substantivos mais frequentes do vocabulário hebraico bíblico para descrever a ausência de luz, derivado da raiz verbal chashak (H2821), "ser ou tornar-se escuro". A palavra tem cognatos em outras línguas semíticas do Antigo Oriente Próximo, o que indica um vocabulário comum para a experiência elementar da noite e da falta de visibilidade, muito antes de ganhar as camadas simbólicas que a Bíblia lhe atribui.
No plano da narrativa, choshekh ocupa lugar de destaque logo em , descrevendo a condição da terra "sem forma e vazia", com trevas sobre a face do abismo, antes da primeira palavra criadora de Deus. O verso seguinte separa luz e trevas como duas realidades distintas e nomeadas (), um padrão de contraste — luz e trevas, ordem e caos — que atravessa todo o Antigo Testamento.
O uso mais dramático da palavra fora do relato da criação está em , a nona praga do Egito: uma escuridão tão densa que o texto hebraico diz que "se pode apalpar", isolando os egípcios por três dias enquanto os israelitas tinham luz em suas moradas. Esse episódio consolidou choshekh como imagem de juízo divino contra poderes opressores.
Ao mesmo tempo, o termo aparece em contexto muito diferente: a "densa nuvem" onde Deus se revela no Sinai também é chamada de choshekh (; ; 5:22), sugerindo que trevas, no vocabulário bíblico, também podem significar mistério sagrado inacessível aos sentidos humanos, e não apenas ausência do bem.
Na poesia e na profecia, choshekh se torna metáfora recorrente para sofrimento, morte e ignorância moral (; Salmo 88:12; ), além de compor a linguagem apocalíptica do "Dia do Senhor" como dia de trevas e não de luz (; ). Esse amplo espectro de sentidos — físico, cosmológico, judicial e místico — é o que um leitor precisa ter em mente ao encontrar a palavra em português como "trevas" ou "escuridão".
Aprofundamento
A raiz consonantal ḥ-š-k, da qual vem o substantivo choshekh, aparece em diversas línguas semíticas afins ao hebraico, o que sugere um termo antigo e estável para descrever a escuridão física antes de qualquer desenvolvimento teológico. No hebraico bíblico, o Brown-Driver-Briggs Lexicon (BDB) registra o substantivo choshekh (חֹשֶׁךְ) cerca de 80 vezes no Antigo Testamento, cobrindo desde o sentido mais concreto — a noite, a ausência de luz solar — até usos figurados de peso considerável.
O primeiro uso, em , situa choshekh antes da separação da luz, como parte da descrição do estado pré-criacional da terra, ao lado de tohu vabohu ("sem forma e vazio") e tehom ("abismo"). Keil e Delitzsch, em seu comentário clássico sobre o Pentateuco, observam que o texto não apresenta as trevas como um poder rival de Deus — como em alguns mitos cosmogônicos vizinhos — mas simplesmente como a condição da matéria não ordenada, sobre a qual o Espírito de Deus paira em seguida.
O contraste luz/trevas se torna, a partir daí, um dos eixos estruturais do pensamento bíblico. Isaías explora essa tensão de modo particularmente denso: em , Deus declara "formo a luz e crio as trevas", afirmando soberania até sobre o que o antigo Oriente Próximo associava a divindades caóticas rivais; em , o profeta condena quem "transforma as trevas em luz" — um uso moral em que choshekh já não descreve apenas ausência de fótons, mas engano e inversão de valores.
Um dos usos mais citados é ("o povo que andava em trevas viu grande luz"), texto profético sobre a região da Galileia que o Novo Testamento () aplica diretamente ao início do ministério de Jesus. Esse é um dos raros casos em que a trajetória semântica de uma palavra hebraica de trevas recebe uma citação direta e explícita no Novo Testamento, e não apenas uma alusão temática.
No grego da Septuaginta e do Novo Testamento, choshekh é normalmente traduzido por skotos, o que permite rastrear a continuidade do tema entre os dois Testamentos, embora skotos desenvolva, no vocabulário paulino e joanino, nuances próprias (por exemplo, "trevas" como esfera moral oposta à luz de Cristo em e ). Vine's Expository Dictionary observa que o campo semântico de skotos herda, mas também amplia, o de choshekh, aplicando-o com mais insistência à condição espiritual humana do que ao fenômeno cósmico ou climático que domina o uso hebraico do Antigo Testamento.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:Trevas na Bíblia significa sempre mal moral ou presença demoníaca.
Choshekh é usada com sentido puramente físico e neutro em vários textos — a noite comum de , a praga do Egito, e até a nuvem em que Deus mesmo se revela no Sinai () — de modo que o sentido moral é apenas uma das camadas da palavra, não a única.
Dizem que:Isaías 45:7 prova que Deus criou o mal moral do mesmo jeito que criou a luz.
No hebraico, o verso usa um paralelismo poético (luz/trevas, paz/mal) para afirmar que nenhum poder rival controla os acontecimentos históricos; a maioria dos léxicos e comentaristas entende 'mal' ali como calamidade ou desgraça, categoria diferente de pecado moral, e não como uma declaração sobre a origem metafísica do mal.
Como diferentes tradições cristãs leem4 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Reformada/calvinista
Lê ('crio as trevas... crio o mal') como afirmação da soberania absoluta de Deus sobre toda a realidade, incluindo calamidade e juízo, sem tornar Deus autor do pecado moral — 'trevas' ali é desgraça e adversidade, categoria distinta de culpa moral.
Católica/tomista
Aplica a doutrina da privação (privatio boni) também ao símbolo das trevas: escuridão moral é ausência ou carência do bem, não uma substância positiva que Deus precisaria ter criado, preservando a bondade absoluta do Criador.
Luterana
Situa choshekh na distinção entre lei e evangelho — as trevas descrevem a condição humana sob o juízo da lei antes de receber a luz do evangelho, um estado real, mas superado pela graça revelada em Cristo.
Arminiana/wesleyana
Enfatiza a resposta humana à luz: as trevas morais resultam da rejeição humana da luz oferecida por Deus a todos, e não de um decreto divino que determina quem permanece nas trevas.
O que fazer com isso
Reconhecer os diferentes usos de choshekh ajuda o leitor a não achatar a palavra "trevas" em um único sentido sempre que ela aparece na Bíblia. Em Gênesis, ela descreve um estado da criação; no Êxodo, um juízo histórico; no Sinai, o mistério da presença divina; nos profetas, uma condição moral. Perceber esse espectro evita leituras apressadas e ajuda a ler cada passagem dentro do gênero literário e do contexto em que a palavra aparece.
Passagens relacionadas4
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Fontes consultadas5 obras
- Brown, Francis; Driver, S. R.; Briggs, Charles A.. A Hebrew and English Lexicon of the Old Testament (BDB), 1906.
- Strong, James. Strong's Exhaustive Concordance of the Bible, 1890.
- Botterweck, G. Johannes; Ringgren, Helmer (eds.). Theological Dictionary of the Old Testament (TDOT), verbete ḥāšaḵ, 1986.
- Keil, Carl Friedrich; Delitzsch, Franz. Commentary on the Old Testament, vol. 1 (Genesis), 1866.
- Vine, W. E.. Vine's Complete Expository Dictionary of Old and New Testament Words, 1985.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Choshekh é a mesma palavra usada na praga de escuridão sobre o Egito?
Sim. Em o texto hebraico usa choshekh para descrever a nona praga, uma escuridão tão densa que é chamada de palpável. É a mesma palavra de .
Isaías 45:7 significa que Deus criou o mal moral?
O verso diz que Deus forma a luz e cria as trevas, faz a paz e cria o mal, num contraste poético contra deuses rivais do Oriente Próximo. A maioria dos comentaristas lê 'trevas' e 'mal' ali como calamidade e juízo, não como pecado moral criado por Deus; tradições cristãs divergem sobre como formular essa relação com mais precisão teológica.
Qual a relação entre choshekh e a palavra grega skotos do Novo Testamento?
A Septuaginta e o Novo Testamento normalmente traduzem choshekh por skotos, mantendo o fio temático entre os Testamentos. Skotos, porém, ganha ênfase maior na condição espiritual humana, como em , um desenvolvimento próprio do vocabulário do Novo Testamento.
Trevas na Bíblia é sempre algo negativo?
Não. Em e , a mesma palavra choshekh descreve a nuvem espessa onde Deus se revela no Sinai, um uso que aponta para mistério sagrado, não para maldade.
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