
Zamzumins, avins e caftorins: os povos gigantes que desapareceram da história
Quem eram os zamzumins e os avins mencionados em Deuteronômio 2?
(Por terra de gigantes foi também ela tida: habitaram nela gigantes em outro tempo, aos quais os amonitas chamavam zanzumins; Povo grande, e numeroso, e alto, como os anaquins; aos quais o SENHOR destruiu de diante dos amonitas, os quais lhes sucederam, e habitaram em seu lugar: Como fez com os filhos de Esaú, que habitavam em Seir, de diante dos quais destruiu aos horeus; e eles lhes sucederam, e habitaram em seu lugar até hoje. E aos aveus que habitavam em vilas até Gaza, os caftoreus que saíram de Caftor os destruíram, e habitaram em seu lugar.)
Resposta curta
Dentro do discurso de Moisés recapitulando a jornada de Israel, um parêntese etnográfico curioso menciona nações inteiras que já não existiam quando Israel chegou: os zamzumins, exterminados pelos amonitas, e os avins, expulsos pelos caftorins que vieram de Creta (). Ambos os povos são associados aos refains, uma categoria bíblica ampla de habitantes pré-israelitas de estatura excepcional, lembrados também como emins e horeus em versículos vizinhos.
Esses povos só existem, para a história, porque a Bíblia os registrou de passagem — não há inscrições egípcias, ugaríticas ou mesopotâmicas que os mencionem por esses nomes exatos. O texto os usa como argumento teológico concreto: se Deus já exterminou nações fortes e gigantescas antes, para dar terra a outros povos, ele fará o mesmo por Israel diante dos habitantes de Canaã.
Como isso aponta para Jesus
Ligação indiretaEsse catálogo etnográfico não tem ligação direta com Cristo, e forçar uma conexão cristológica aqui seria especulativo demais. O elo teológico mais honesto é indireto: assim como Deus já havia deslocado povos poderosos para cumprir seus propósitos históricos, ele continua conduzindo a história rumo ao cumprimento definitivo em Cristo, sem que este texto específico aponte para isso de forma explícita.
Em palavras simples
No meio do discurso de Moisés contando a história da jornada de Israel, aparece uma menção rápida a povos antigos que já não existiam mais quando Israel chegou: os zamzumins, destruídos pelos amonitas, e os avins, expulsos pelos caftorins, que vieram de Creta. Esses povos eram lembrados como gigantes, parte de um grupo maior chamado refains. Eles só são conhecidos hoje porque a Bíblia os menciona de passagem — não há nenhum outro registro histórico deles.
Contexto histórico
faz parte da recapitulação histórica de Moisés sobre a jornada dos quarenta anos no deserto, especificamente a fase final antes da travessia do Jordão, quando Israel contorna os territórios de Edom, Moabe e Amom sem entrar em conflito direto com esses povos, por instrução explícita de Deus (2:4-5,9,19). Dentro desse relato de trânsito diplomático cuidadoso, o texto insere três notas etnográficas entre parênteses (2:10-12, 2:20-23) explicando quem habitava essas terras antes dos atuais ocupantes — moabitas, amonitas — e como esses habitantes anteriores foram exterminados ou expulsos.
Os emins, associados aos refains e comparados em estatura aos anaquins (gigantes bem conhecidos de outras passagens bíblicas, como ), habitavam originalmente o território que se tornou Moabe; os zamzumins, também chamados refains pelos amonitas, ocupavam o que se tornou território amonita antes de serem exterminados por esse povo (2:20-21); e os avins, habitantes originais de Gaza e da região costeira, foram expulsos pelos caftorins, geralmente identificados com povos vindos de Creta ou do Egeu, ancestrais prováveis dos filisteus que a Bíblia menciona depois com mais frequência (2:23). Essas notas formam um argumento retórico implícito: assim como Deus permitiu que amonitas e caftorins tomassem terras de povos anteriores mais antigos e talvez mais poderosos fisicamente, ele fará o mesmo por Israel diante dos habitantes atuais de Canaã, incluindo outros grupos de refains como os basanitas do rei Ogue ().
A categoria refains (רְפָאִים) aparece em outros textos bíblicos e também em textos ugaríticos da cidade de Ugarit, na Síria, onde rapiu designa espíritos de ancestrais ou heróis mortos venerados no culto cananeu — uma conexão que sugere que o termo bíblico carrega, além do sentido de estatura física excepcional, uma camada semântica ligada a memória de povos ancestrais lendários, quase mitológicos na imaginação popular da região, embora o texto bíblico os trate como historicamente reais e geograficamente localizáveis.
Aprofundamento
O termo refains (רְפָאִים) é notoriamente difícil de traduzir com precisão: em contextos como e , designa povos de estatura excepcionalmente alta, quase lendária; em outros contextos bíblicos, como e , a mesma palavra designa "os mortos" ou habitantes do submundo — uma ambiguidade que os textos ugaríticos de Ras Shamra ajudam a esclarecer parcialmente, mostrando que rapiu, cognato semítico, tinha sentido próximo de "ancestrais heroicos" venerados como semidivinos no panteão cananeu popular. Michael Heiser, em seus estudos sobre o Antigo Testamento e o mundo divino cananeu, argumenta que essa dupla camada de sentido não é coincidência: os refains bíblicos seriam lembrados, na memória popular da região, como uma linhagem de guerreiros de estatura excepcional cuja morte os associava, depois, a um culto ancestral de heróis mortos — o texto bíblico preservaria o dado histórico e etnográfico, mas rejeitaria implicitamente qualquer veneração religiosa dessas figuras.
Peter Craigie observa que a menção detalhada a zamzumins, avins e caftorins serve a um propósito teológico claro dentro do argumento de Moisés: demonstrar, com exemplos concretos e verificáveis pela própria geografia que Israel estava atravessando, que a substituição de povos antigos e poderosos por povos posteriores mais fracos, sob o controle providencial de Deus, já era padrão histórico bem estabelecido — não uma promessa nova e improvável, mas confirmação de um mecanismo que a própria história recente da região já demonstrava. Eugene Merrill nota que a referência aos caftorins, geralmente ligados a Creta ou ao mundo egeu (compare e , que ligam os filisteus a Caftor), é um dos poucos pontos de contato explícito entre a geografia bíblica do Levante e o mundo do Mediterrâneo mais amplo, sugerindo consciência bíblica de movimentos populacionais em escala regional muito além das fronteiras imediatas de Canaã.
Esses povos não deixaram registros próprios que sobreviveram — nenhuma inscrição zamzumita ou avim foi encontrada até hoje —, o que torna a menção bíblica praticamente a única fonte textual conhecida sobre sua existência específica, ainda que sua desaparição e substituição por outros grupos seja consistente com padrões amplamente documentados de migração, conquista e substituição populacional no Levante e na costa mediterrânea durante o fim da Idade do Bronze.
É significativo, ainda, que o próprio texto trate essas mudanças étnicas como parte do governo providencial de Deus sobre todas as nações, não apenas sobre Israel: os versículos deixam claro que Deus deu terra a Esaú, Moabe e Amom da mesma forma como daria terra a Israel, um detalhe que amplia o escopo da soberania divina descrita em Deuteronômio muito além das fronteiras da própria aliança israelita.
O que costumam dizer errado1 afirmação
Dizem que:Os zamzumins e avins são povos inventados ou puramente mitológicos, sem qualquer base histórica real.
Embora não existam inscrições externas que os confirmem por esses nomes exatos, o padrão de substituição populacional que o texto descreve é consistente com processos amplamente documentados de migração e conquista no Levante durante o período, tornando a explicação mitológica desnecessária.
Como diferentes tradições cristãs leem1 leitura
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Estudos comparativos do Antigo Oriente Próximo
Estudiosos como Michael Heiser conectam o termo refains a rapiu, figura ugarítica de ancestrais heroicos venerados, sugerindo que a memória bíblica desses povos carrega, além do dado histórico, uma camada cultural ligada a lendas regionais de guerreiros gigantes.
No original1 termo
רְפָאִיםrefaim7497
Categoria de povos pré-israelitas de estatura excepcional; em outros textos bíblicos, a mesma palavra pode designar "os mortos", conexão possivelmente ligada a cultos ancestrais cananeus da região.
O que fazer com isso
Esse pequeno catálogo de povos esquecidos lembra que impérios e nações que parecem permanentes e intimidadores aos olhos de quem os enfrenta já foram, no passado, substituídos por outros igualmente temporários — nenhum poder humano é tão fixo quanto parece no momento do medo. Para quem lê hoje enfrentando obstáculos que parecem gigantescos, o texto convida a lembrar que a história de Deus com seu povo já inclui precedentes concretos de superação de forças aparentemente superiores, sem prometer que isso venha sem processo ou tempo de espera.
Passagens relacionadas4
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Fontes consultadas3 obras
- Peter C. Craigie. The Book of Deuteronomy (NICOT), 1976.
- Eugene H. Merrill. Deuteronomy (The New American Commentary), 1994.
- Michael S. Heiser. The Unseen Realm, 2015.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Quem eram os zamzumins?
Um povo de estatura excepcional, associado aos refains, que habitava o território que depois se tornou terra dos amonitas, até ser exterminado por eles antes da chegada de Israel.
De onde vieram os caftorins?
A tradição bíblica os associa a Caftor, geralmente identificado com Creta ou o mundo egeu, e os liga à origem dos filisteus, que expulsaram os avins da região costeira de Gaza.
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