
O herem: por que Deus mandou não deixar ninguém com vida nas cidades cananeias
por que deus mandou exterminar os cananeus na bíblia
Porém das cidades destes povos que o SENHOR teu Deus te dá por herança, nenhuma pessoa deixarás com vida; Antes por completo os destruirás: aos heteus, e aos amorreus, e aos cananeus, e aos perizeus, e aos heveus, e aos jebuseus; como o SENHOR teu Deus te mandou: Para que não vos ensinem a fazer segundo todas suas abominações, que eles fazem a seus deuses, e pequeis contra o SENHOR vosso Deus.
Resposta curta
organiza as regras de guerra de Israel em duas categorias. Para cidades distantes, fora do território prometido como herança, a ordem era oferecer paz antes de atacar, poupando mulheres, crianças e animais. Já para as cidades das nações que habitavam Canaã — heteus, amorreus, cananeus, perizeus, heveus e jebuseus —, a lei era outra: "nenhuma pessoa deixarás com vida". É essa regra geral que está por trás de episódios como a conquista de Jericó.
O motivo aparece no próprio texto: impedir que essas nações ensinassem a Israel suas práticas religiosas e arrastassem o povo para a idolatria e o pecado contra o Senhor. Não se trata, portanto, de uma ordem baseada em etnia, mas de um juízo ligado à corrupção religiosa de povos específicos, num momento histórico delimitado da entrada de Israel na terra prometida.
Como isso aponta para Jesus
Contrastedescreve um instrumento de juízo temporal e geograficamente limitado, executado pela espada contra nações específicas, dentro da economia teocrática de Israel como nação-estado ocupando uma terra. O Novo Testamento não repete esse padrão para o povo de Deus: diante de Pilatos, Jesus declara que seu Reino "não é deste mundo", pois, se fosse, seus servos lutariam para impedir sua prisão (); e ele repreende Pedro por usar a espada em sua defesa (). O contraste não nega a seriedade do juízo divino sobre o pecado — o Novo Testamento mantém essa seriedade, inclusive escatologicamente —, mas mostra que o avanço do povo de Deus, depois de Cristo, não se dá mais por conquista militar de território, e sim pelo anúncio do evangelho e por armas que Paulo chama de "não carnais" (2Coríntios 10:3-4).
Respaldo no Novo Testamento:
Contexto histórico
é um discurso de Moisés que regula a conduta militar de Israel antes da entrada em Canaã. O capítulo distingue duas situações de guerra. A primeira (versículos 10 a 15) trata de cidades muito distantes, fora da área que Deus estava entregando a Israel como herança: nelas, Israel deveria propor paz antes de atacar e, mesmo vencendo pela força, preservar mulheres, crianças, animais e bens. A segunda situação, em , trata especificamente das cidades das nações que já viviam dentro da terra prometida — heteus, amorreus, cananeus, perizeus, heveus e jebuseus, a lista clássica dos povos de Canaã que aparece repetidamente no Pentateuco (cf. ). Para essas, a ordem é o herem, o banimento ou consagração à destruição: nenhuma pessoa deveria ser deixada viva.
O texto dá a razão de forma explícita no versículo 18: evitar que essas nações ensinassem a Israel segundo todas as suas abominações — um termo hebraico (to'evah) usado no Pentateuco especificamente para práticas cúlticas cananeias como sacrifício de crianças e certos rituais sexuais associados aos seus deuses (cf. ; ). O objetivo declarado da lei é, portanto, teológico e preventivo: proteger a fidelidade de Israel ao Senhor, não eliminar um grupo étnico como tal.
Essa distinção entre cidades distantes e cidades desta terra também está ligada à teologia da herança: a terra de Canaã era, na visão do texto, propriedade do Senhor sendo dada a Israel como cumprimento de promessa (), e o juízo sobre seus habitantes é apresentado alhures como resposta a uma iniquidade acumulada ao longo de séculos, não a uma culpa recente (, a medida da iniquidade dos amorreus ainda não se completou). Comentaristas como Peter Craigie observam que o herem, nesse sentido, funciona como instituição judicial vinculada a essa terra e a esse momento específico da história de Israel, e não como norma militar de aplicação geral.
Aprofundamento
Duas questões dominam a discussão erudita sobre : o conceito de herem como instituição, e o gênero literário da linguagem de destruição total na guerra antiga.
O herem (de um verbo que significa banir, consagrar à destruição) era uma categoria conhecida em Israel e em outras culturas do Oriente Médio antigo: certos bens ou pessoas eram retirados do uso comum e entregues integralmente à divindade, seja para destruição, seja para o tesouro do templo. Em , o episódio de Acã mostra a lógica por trás disso: quando ele se apropria de despojos consagrados ao herem em Jericó, toda a comunidade sofre as consequências, porque a transgressão contamina o povo como um todo — um raciocínio de solidariedade corporativa comum ao pensamento bíblico e do antigo Oriente Médio, em que grupos (famílias, cidades, nações) são tratados como unidades morais e não apenas como somas de indivíduos.
Esse mesmo raciocínio corporativo aparece por trás do julgamento das nações cananeias: o texto não afirma culpa individual de cada pessoa, mas um juízo sobre povos inteiros por sua corrupção religiosa coletiva e prolongada (cf. ; , que atribui a conquista à maldade dessas nações, não ao mérito de Israel).
A segunda questão é literária: a fórmula não deixarás com vida nenhuma pessoa e expressões paralelas como destruir tudo que respira eram convenções retóricas comuns em relatos de guerra do antigo Oriente Médio, usadas para descrever vitórias decisivas — não necessariamente contagens literais de mortos. A estela de Mesa, rei de Moabe (século IX a.C.), usa linguagem quase idêntica (herem) ao se gabar de ter exterminado Israel, um exagero retórico evidente diante da história posterior. De modo semelhante, estudiosos como Kenneth Kitchen e Paul Copan argumentam que os relatos de conquista em Josué e Deuteronômio empregam esse mesmo idioma hiperbólico de vitória total, o que ajudaria a explicar por que textos posteriores (; ) descrevem cananeus continuando a viver na terra muito depois da suposta destruição completa. Outros comentaristas, como Eugene Merrill, preferem uma leitura mais direta do texto como julgamento histórico real, ainda que reconheçam seu caráter único e não repetível, restrito a essa conquista específica.
Nenhuma dessas leituras resolve completamente a tensão moral do texto para o leitor contemporâneo, e é importante não fingir que resolve. O que o texto deixa claro, em sua própria lógica interna, é que a medida era motivada pelo risco de contaminação religiosa (v.18) e limitada geograficamente às nações de Canaã (v.15-16) — não uma política permanente de guerra santa.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:A ordem era motivada por ódio étnico ou racial de Israel contra os cananeus.
O texto liga o mandamento explicitamente à corrupção religiosa dessas nações (v.18), não à etnia. Estrangeiros que se uniam à fé de Israel, como Raabe ( e 6:25) e os gibeonitas (), foram poupados, o que mostra que o critério declarado era religioso, não de sangue.
Dizem que:O texto prova que todos os cananeus foram fisicamente exterminados na conquista.
Livros posteriores, como e , descrevem populações cananeias remanescentes convivendo com Israel muito depois da conquista, o que alimenta o debate acadêmico sobre linguagem hiperbólica de guerra antiga nesses relatos, em vez de confirmar um extermínio total e literal.
Como diferentes tradições cristãs leem4 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
reformada
Lê o herem como juízo direto e soberano de Deus sobre nações moralmente corrompidas, decretado dentro do plano providencial da história da redenção; a dificuldade moral é real, mas resolvida pela confiança na justiça e nos direitos do Criador sobre a vida, sem necessidade de reinterpretar o relato como não histórico.
católica
Retomando uma linha de leitura patrística associada a Orígenes, parte da tradição católica lê esses relatos de conquista também num sentido espiritual: as nações cananeias representam vícios e afeições desordenadas que o crente é chamado a extirpar de si mesmo, sem que isso torne o extermínio físico um modelo moral a ser imitado.
evangélica conservadora
Apoiada em paralelos do antigo Oriente Médio, como a estela de Mesa, argumenta que a linguagem de destruição total era uma convenção retórica de relatos de guerra na época, não uma contagem literal de mortos — o que explicaria por que textos posteriores mostram cananeus remanescentes na terra.
luterana
Situa o herem dentro da distinção entre a economia teocrática única de Israel, com sua vocação política e territorial, e o reino da graça inaugurado por Cristo; o mandamento pertenceria a essa fase específica da história da redenção, não sendo transponível como norma para a igreja ou para nações depois dela.
No original3 termos
חרם (הַחֲרֵם תַּחֲרִימֵם)hacharem tacharimemH2763
banir, consagrar à destruição total; a forma verbal repetida no versículo 17 dá ênfase — "destruir completamente, sem exceção".
נְשָׁמָהneshamahH5397
fôlego de vida, ser vivente com respiração — usado no versículo 16 para "nenhuma pessoa" (literalmente, nenhum sopro de vida).
תּוֹעֵבָהto'evahH8441
abominação — prática religiosa ou ritual considerada repugnante; termo usado no Pentateuco para os cultos cananeus condenados no versículo 18.
O que fazer com isso
O texto não autoriza guerra religiosa hoje — ele descreve uma medida judicial única, ligada a um momento e a um território específicos. O que permanece relevante é o diagnóstico por trás da lei: influências constantes e não confrontadas mudam lentamente aquilo em que uma pessoa ou comunidade crê. Vale perguntar, sem alarmismo, que vozes e práticas moldam hoje convicções e prioridades sem que isso seja percebido — e se essa influência está sendo levada a sério ou ignorada por comodidade.
Passagens relacionadas7
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Fontes consultadas4 obras
- Peter C. Craigie. The Book of Deuteronomy (NICOT), 1976.
- Eugene H. Merrill. Deuteronomy (The New American Commentary), 1994.
- Paul Copan. Is God a Moral Monster? Making Sense of the Old Testament God, 2011.
- Kenneth A. Kitchen. On the Reliability of the Old Testament, 2003.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Isso significa que Deus mandou um genocídio étnico?
O próprio texto liga o mandamento à corrupção religiosa dessas nações (v.18), não à etnia — estrangeiros que se uniam à fé de Israel, como Raabe e os gibeonitas, foram poupados. Ainda assim é um texto moralmente pesado, e tradições cristãs discordam sobre como lidar com essa tensão, sem que isso mude o que o texto afirma.
Os cananeus foram realmente todos exterminados?
Livros posteriores, como e , descrevem populações cananeias continuando a viver na terra muito depois da conquista, o que alimenta o debate entre leitura literal e leitura hiperbólica da linguagem de destruição total.
Essa lei vale como modelo de guerra santa hoje?
Não, segundo o próprio texto: a instrução era restrita geograficamente às cidades de Canaã e historicamente ao momento da conquista, distinta da regra geral dada para outras cidades (v.15). Nenhuma tradição cristã séria a lê como mandato permanente.
Por que cidades distantes recebiam oferta de paz e as de Canaã não?
O texto conecta essa diferença ao risco específico de contaminação religiosa representado pelas nações que já viviam dentro da terra prometida a Israel, cujas práticas cúlticas o texto chama de abominações (v.18).
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