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Significado Bíblico
Ilustração da categoria Teologia densa

'Um será tomado, o outro deixado': é sobre o arrebatamento?

Lucas 17:34-36 fala do arrebatamento da igreja?

Digo-vos que naquela noite, dois estarão em uma cama; um será tomado, e o outro será deixado. Duas estarão juntas moendo; uma será tomada, e a outra será deixada. Dois estarão no campo; um será tomado, e o outro será deixado.

· Bíblia Livre (Textus Receptus)

Resposta curta

Jesus responde aos fariseus e depois aos discípulos sobre a vinda do Reino de Deus e o "dia do Filho do Homem". Ele avisa que esse dia chegará de repente, como um relâmpago, e compara ao tempo de Noé: as pessoas seguiam a rotina normal até a enchente "levar a todos". Nesse cenário diz: numa cama, um será tomado e o outro deixado; num moinho, uma será tomada e a outra deixada; num campo, um será tomado e o outro deixado.

Hoje o versículo é associado ao "arrebatamento" pré-tribulacionista, como se cristãos somem repentinamente e incrédulos ficassem para trás. Mas o pano de fundo do dilúvio sugere o inverso: quem foi "levado" pela enchente foi arrastado à destruição, e quem "ficou" sobreviveu na arca. O texto fala de separação súbita no julgamento, não de resgate secreto de parte da humanidade.

Como isso aponta para Jesus

Trajetória do texto

Jesus fala aqui em primeira pessoa velada, como o "Filho do Homem" — título que remete a , onde uma figura celestial recebe domínio eterno de Deus. Toda a Escritura caminha para o dia em que esse Filho do Homem voltará de modo público e visível para separar definitivamente o que estava misturado — o mesmo tema que atravessa o dilúvio de Noé, o juízo sobre Sodoma e, no Novo Testamento, a segunda vinda de Cristo anunciada em , e . O texto não é uma alegoria sobre Cristo: é o próprio Cristo anunciando, com autoridade, o dia em que ele mesmo voltará como juiz e Senhor da história — o ponto para o qual toda a expectativa bíblica de julgamento e restauração converge.

Respaldo no Novo Testamento:

Contexto histórico

A passagem está no fim de um discurso de Jesus que começa quando fariseus perguntam quando viria o Reino de Deus (). Ele responde que o Reino não vem "com observação", isto é, não chega por sinais calculáveis, porque já está presente entre eles na pessoa do próprio Jesus. Em seguida, virando-se aos discípulos, ele muda de assunto para os "dias do Filho do Homem": um tempo futuro, público e repentino, comparado a um relâmpago que ilumina o céu de um lado a outro (v.24) — imagem que já afasta a ideia de uma vinda secreta ou perceptível só por alguns.

Para descrever essa surpresa, Jesus usa dois exemplos do Antigo Testamento: os dias de Noé () e os dias de Ló (). Em ambos os casos, a vida cotidiana seguia normalmente — comer, beber, casar, comprar, vender, plantar, construir — até que o julgamento chegou e "os destruiu a todos" (v.27, 29). É só depois dessa dupla comparação que vêm os versículos 34 a 36: à noite, numa cama, dois estarão deitados; de dia, num moinho, duas mulheres estarão trabalhando; no campo, dois homens estarão lidando com a terra. A mistura de cenas noturnas e diurnas provavelmente reflete o fato de que, num evento que atinge o mundo inteiro, será noite numa região e dia em outra ao mesmo tempo — reforçando que o dia do Filho do Homem não é um evento local.

O verbo grego por trás de "será tomado" (paralambánetai) é o mesmo usado para alguém ser levado, recolhido ou conduzido; e "será deixado" (aphethésetai) carrega a ideia de ser deixado para trás ou abandonado. Isoladamente, o verbo "tomado" não define se quem é levado está sendo salvo ou julgado — isso só se decide pelo contexto imediato. E o contexto imediato é o dilúvio, no qual os "tomados" pela água foram os que morreram, enquanto Noé e sua família "ficaram" — foram preservados. Os discípulos perguntam, na sequência, "onde, Senhor?" (v.37), e Jesus responde com um provérbio sobre abutres se ajuntando onde há um corpo — outra imagem de julgamento, não de resgate.

Aprofundamento

A leitura mais difundida hoje no imaginário evangélico popular — reforçada por livros e filmes de ficção como a série "Deixados para Trás" — inverte o sentido que o próprio Lucas constrói: nela, "ser tomado" é ser arrebatado ao céu e escapar da tribulação, e "ser deixado" é a situação ruim, de quem permanece na terra para sofrer o julgamento. Essa leitura ganhou forma no século 19, com o pregador John Nelson Darby e depois com a Bíblia de referência de C. I. Scofield, que sistematizaram a doutrina do arrebatamento pré-tribulacional combinando este texto com .

O problema é que Lucas já forneceu a chave de leitura dois versículos antes: no dilúvio, quem foi "levado" (retirado, arrastado) pela água foi quem morreu; quem "ficou" foi quem sobreviveu na arca com Noé. Comentaristas como Joel B. Green (The Gospel of Luke, NICNT) e Darrell Bock (Luke, Baker Exegetical Commentary) observam que a estrutura da passagem — vindo logo depois da dupla comparação com Noé e Ló — pesa a favor de "tomado" significar removido em julgamento, e "deixado" significar poupado, o oposto da leitura popular. I. Howard Marshall, em seu comentário sobre Lucas (NIGTC), reconhece que o verbo grego permite as duas leituras isoladamente, mas defende que o peso do contexto favorece a leitura de julgamento, não de resgate. Matthew Henry, em sua exposição clássica do texto, já apontava séculos antes que o ponto central é a separação repentina e imprevisível entre pessoas até então indistinguíveis em sua rotina, sem necessariamente definir qual lado é o desejável — o alerta está na surpresa, não num roteiro de fim dos tempos.

Vale registrar ainda uma questão textual relevante para quem lê diferentes traduções: o versículo 36 ("dois estarão no campo...") não aparece nos manuscritos gregos mais antigos da tradição alexandrina, como os códices Sinaítico e Vaticano, mas está presente na tradição bizantina e no Textus Receptus — por isso aparece nesta tradução e na King James, mas costuma ficar ausente ou em nota de rodapé em versões baseadas no texto crítico moderno, como a NVI e a NAA. Boa parte dos estudiosos do texto bíblico considera provável que o versículo tenha sido copiado para Lucas a partir do paralelo em , num processo comum de harmonização entre evangelhos sinóticos durante a transmissão manuscrita.

O ponto que atravessa tradições diferentes é que Jesus descreve um evento futuro, público e repentino de julgamento e separação final — não um cronograma detalhado dos eventos do fim dos tempos.

O que costumam dizer errado2 afirmações
  • Dizem que:O versículo descreve o arrebatamento: crentes desaparecem repentinamente da Terra e vão para o céu, enquanto incrédulos ficam para trás e enfrentam a tribulação.

    O próprio contexto, dois versículos antes, usa o dilúvio como parâmetro: ali, quem foi "levado" pela enchente foi quem morreu, e quem "ficou" foi quem sobreviveu na arca. Isso sugere o sentido oposto ao popular. Além disso, a doutrina do arrebatamento pré-tribulacional, como sistema teológico organizado, só apareceu no século 19, com John Nelson Darby, não sendo a leitura predominante da igreja antiga.

  • Dizem que:A passagem descreve uma vinda secreta e invisível de Cristo, perceptível só por quem está "em sintonia espiritual".

    O próprio Jesus, alguns versículos antes (v.24), compara sua vinda a um relâmpago que ilumina o céu inteiro de um lado a outro — uma imagem de evento público, visível e impossível de ignorar, não de um acontecimento discreto ou oculto.

Como diferentes tradições cristãs leem4 leituras

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • Dispensacionalista / pré-tribulacionista (corrente comum em setores evangélicos e pentecostais)

    Lê a passagem como descrição do arrebatamento da igreja: os crentes são retirados subitamente do mundo antes de um período de tribulação, e os que ficam enfrentam o julgamento que se segue.

  • Reformada / amilenista

    Rejeita a ideia de um arrebatamento secreto separado do juízo final; entende a passagem como uma descrição da única e definitiva vinda pública de Cristo, quando crentes e incrédulos são separados de uma vez por todas para seus destinos eternos, em paralelo com o juízo das ovelhas e dos bodes de .

  • Católica

    Situa o texto dentro da doutrina tradicional do Juízo Final, sem um conceito distinto de arrebatamento pré-tribulacional; a separação súbita ilustra a imprevisibilidade da hora da morte e do retorno de Cristo, convocando à vigilância permanente.

  • Preterista parcial (presente em alguns setores reformados e anglicanos)

    Associa parte da linguagem de julgamento repentino também à queda de Jerusalém em 70 d.C., mencionada por Jesus em , entendendo que há uma camada de cumprimento histórico próximo somada à expectativa da vinda final e definitiva.

No original5 termos
  • παραλαμβάνεταιparalambánetaiG3880

    é tomado, é levado consigo, é recebido — o mesmo verbo usado para alguém ser conduzido junto a outro.

  • ἀφεθήσεταιaphethésetaiG863

    será deixado, será abandonado, será liberado — verbo comum também traduzido como "perdoar" em outros contextos.

  • κλίνηςklínēsG2825

    cama, leito — mobília de dormir, cenário noturno da primeira ilustração.

  • ἀλήθουσαιalḗthousaiG229

    moendo — particípio referente ao trabalho manual de moer grãos, tarefa tipicamente feminina na época.

  • ἀγρῷagrṓG68

    campo, terreno de cultivo — cenário da terceira ilustração, ligada ao trabalho agrícola diurno.

O que fazer com isso

O texto não foi dado para alimentar cronogramas ou identificar quem será "tomado" e quem será "deixado" antes da hora. Seu alvo é a vida comum: a cama, o trabalho, o campo — os lugares onde as pessoas realmente vivem. A vigilância que Jesus pede não é ansiedade com datas, mas fidelidade sustentada no dia a dia, porque o momento decisivo chega sem aviso, no meio da rotina mais previsível.

Passagens relacionadas6

Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.

Fontes consultadas4 obras
  • Matthew Henry. Commentary on the Whole Bible, 1710.
  • I. Howard Marshall. The Gospel of Luke: A Commentary on the Greek Text (NIGTC), 1978.
  • Joel B. Green. The Gospel of Luke (NICNT), 1997.
  • Darrell L. Bock. Luke (Baker Exegetical Commentary on the New Testament), 1996.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

Esse texto está falando do arrebatamento da igreja?

Não com certeza. A doutrina de um arrebatamento secreto que retira os crentes antes de uma tribulação é uma sistematização teológica do século 19, e o contexto imediato deste texto (o dilúvio de Noé) sugere que "ser tomado" descreve quem é levado pelo julgamento, não quem é resgatado dele.

"Tomado" é bom ou ruim, então?

O peso do contexto — a comparação direta com o dilúvio, em que os "levados" pela água morreram e quem "ficou" sobreviveu na arca — favorece a leitura de que ser "tomado" é a situação de julgamento, e ser "deixado" é a de quem permanece a salvo. Ainda assim, alguns comentaristas reconhecem que o verbo grego isolado permite mais de uma leitura.

Por que algumas Bíblias não trazem o versículo 36?

Porque ele está ausente dos manuscritos gregos mais antigos da tradição alexandrina e presente apenas na tradição bizantina e no Textus Receptus. Traduções baseadas no texto crítico moderno, como a NVI, costumam omiti-lo ou trazê-lo só em nota de rodapé.

Temas

  • Últimos dias
  • #Lucas
  • #arrebatamento
  • #segunda vinda de Cristo
  • #dilúvio de Noé
  • #juízo final

Publicado em 24/08/2026

Construído sobre fontes em domínio público, listadas acima. Como produzimos. Encontrou um erro? Escreva para a redação.

O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 4 obras citadas, com autor e ano
  • 2 afirmações populares checadas e refutadas
  • 4 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

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