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Significado Bíblico
Ilustração da categoria Personagens obscuros

Quem é 'Tamuz', chorado por mulheres dentro do templo?

quem é tamuz na bíblia

E me levou à entrada da porta da casa do SENHOR, que está ao lado norte; e eis ali mulheres que estavam sentadas, chorando a Tamuz.

· Bíblia Livre (Textus Receptus)

Resposta curta

Em uma série de visões, Deus transporta Ezequiel a Jerusalém e vai mostrando ao profeta, uma a uma, práticas que profanavam o templo antes da sua destruição pelos babilônios. Em , ele chega à entrada do lado norte da casa do SENHOR e encontra mulheres sentadas, chorando a Tamuz — nome de um deus estrangeiro. A cena é a terceira de quatro abominações reveladas no capítulo, cada uma descrita como pior que a anterior.

Tamuz era uma divindade da fertilidade cultuada na Mesopotâmia havia séculos, ligada à morte e ao suposto retorno sazonal da vegetação; um ritual anual de lamento marcava sua "morte", normalmente no calor do verão. O choque do texto não está apenas em Israel importar um culto estrangeiro, mas em praticá-lo dentro do próprio templo do SENHOR, no ponto mais sagrado da vida religiosa do povo.

Contexto histórico

Ezequiel profetizava em meio aos exilados na Babilônia, junto ao rio Quebar, cerca de seis anos antes da queda definitiva de Jerusalém em 586 a.C. Em , o texto data essa visão no sexto ano do exílio, no sexto mês — provavelmente 592 a.C. Sentado com os anciãos de Judá, o profeta é arrebatado em visões de Deus e transportado até o templo de Jerusalém, onde recebe um tour guiado por quatro cenas de idolatria, cada uma introduzida pela expressão sobre abominações ainda maiores (v. 6, 13, 15). A cena de é a terceira: mulheres sentadas à entrada do portão norte do templo, chorando a Tamuz.

Tamuz corresponde ao deus sumério Dumuzi, pastor divino e consorte da deusa Inana/Istar, cujo mito de morte e descida ao mundo dos mortos era lamentado anualmente pelas mulheres da Mesopotâmia — um rito ligado ao ciclo agrícola, em que o murchar da vegetação sob o calor do verão era interpretado como a morte do deus. Os babilônios batizaram o quarto mês do seu calendário com o nome dessa divindade, e esse nome foi posteriormente incorporado ao calendário hebraico usado após o exílio — é a origem do mês judaico de Tamuz, ainda hoje observado no calendário judaico. Comentaristas como Keil e Delitzsch e, mais recentemente, Daniel Block, identificam essa origem mesopotâmica do culto descrito por Ezequiel.

O detalhe geográfico importa: a cena acontece à entrada da porta que está ao lado norte da própria casa do SENHOR — não em um santuário pagão fora da cidade, mas dentro do complexo do templo de Jerusalém. Isso reforça o ponto central da visão: o povo da aliança misturava, sem constrangimento, culto ao SENHOR com rituais estrangeiros, dentro do espaço reservado exclusivamente a ele. O texto não detalha se as mulheres eram israelitas, esposas estrangeiras ou pessoas contratadas para o luto — ponto sobre o qual os comentaristas apenas especulam.

Aprofundamento

A visão de funciona como um inventário de corrupção que justifica o julgamento anunciado nos capítulos seguintes: a glória do SENHOR, que havia enchido o templo desde os dias de Salomão, começa a se retirar dele exatamente por causa do que é revelado aqui, culminando na cena de . Cada uma das quatro cenas aprofunda o alcance da apostasia: primeiro uma imagem genérica de ciúme no portão (v. 3-5), depois os próprios anciãos de Israel oferecendo incenso a ídolos em salas escondidas (v. 7-12), em seguida as mulheres chorando a Tamuz (v. 14), e por fim homens virando as costas para o templo para adorar o sol (v. 16). A progressão sugere que a idolatria havia contaminado diferentes setores do povo, da liderança mais velha às mulheres e a um grupo ainda maior de homens, não apenas alguns líderes isolados.

O culto a Tamuz ilustra bem como a idolatria raramente chega como substituição total — ela chega como mistura. Ninguém ali declarava ter abandonado o SENHOR; a lamentação por Tamuz acontecia dentro do próprio templo, ao lado da adoração legítima, como se fosse apenas mais uma prática religiosa entre outras. Esse é precisamente o padrão que os profetas de Israel mais combatem: não a rejeição aberta de Deus, mas a tentativa de servi-lo ao lado de outros deuses, tratando devoção como algo cumulativo, e não exclusivo. Jeremias, contemporâneo de Ezequiel, descreve um padrão semelhante entre exilados no Egito, quando mulheres e famílias inteiras insistiam em queimar incenso e oferecer bolos à "rainha dos céus" mesmo depois de avisadas do julgamento que isso atrairia () — sinal de que esse tipo de mistura religiosa era generalizado, não um episódio isolado.

Vale notar que rituais de luto por divindades da fertilidade eram comuns em toda a região do Antigo Oriente Próximo — o mito grego de Adônis, que estudiosos da religião comparada costumam ligar à mesma tradição de Tamuz/Dumuzi, é um paralelo conhecido e mais tardio. O próprio Jerônimo, já no século IV, registrou que um bosque dedicado a Adônis existia junto a Belém, o que sugere a persistência desses cultos de fertilidade na região por muitos séculos depois de Ezequiel.

Para o leitor de hoje, o episódio soa exótico porque o nome Tamuz não sobreviveu na cultura popular como sobreviveram Baal ou Astarote. Mas o mecanismo que o texto denuncia — importar práticas de devoção do ambiente cultural ao redor e misturá-las, sem perceber, com a adoração que se pensa estar dirigindo a Deus — é o mesmo mecanismo que os profetas identificam por trás de quase toda a apostasia de Judá antes do exílio, e é por isso que Ezequiel recebe ordem de registrar cada detalhe do que vê.

O que costumam dizer errado2 afirmações
  • Dizem que:Tamuz era apenas um apelido de Baal, o mesmo deus cananeu combatido em outras partes da Bíblia.

    Tamuz e Baal são divindades distintas, de origem diferente: Tamuz vem da tradição suméria/babilônica (o pastor-deus Dumuzi), enquanto Baal é um deus cananeu da tempestade e da fertilidade agrícola local. Os dois cultos coexistiam na região, mas os textos antigos os tratam como figuras separadas.

  • Dizem que:As mulheres estavam chorando pela morte real e recente de uma criança ou parente chamado Tamuz.

    O choro descrito era um rito religioso anual e coletivo, praticado havia séculos em honra a uma divindade mitológica, e não um luto espontâneo por alguém que tivesse acabado de morrer.

Como diferentes tradições cristãs leem4 leituras

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • Reformada

    Vê o episódio como evidência de que a corrupção idólatra alcançou até o povo da aliança e seus espaços mais sagrados, ilustrando que nenhum ser humano está imune à tentação de substituir a adoração exclusiva a Deus por práticas misturadas.

  • Católica

    Destaca a continuidade histórica do problema: autores como Jerônimo notaram, séculos depois, vestígios de cultos de fertilidade semelhantes ainda praticados na própria região da Judeia, usando o texto para alertar sobre a persistência do sincretismo ao longo do tempo.

  • Luterana

    Liga o episódio diretamente à violação do primeiro mandamento, entendendo que o problema central não é o método do culto em si, mas a divisão do coração entre o SENHOR e outro objeto de devoção.

  • Pentecostal

    Tende a interpretar a idolatria descrita como abertura espiritual real, e não apenas simbólica, entendendo que práticas rituais dedicadas a outras divindades tinham consequências espirituais concretas sobre o povo e o espaço do templo.

No original2 termos
  • תַּמּוּזTammûzH8542

    Nome próprio de uma divindade mesopotâmica da fertilidade, associada à morte e ao suposto retorno sazonal da vegetação; deu nome ao quarto mês do calendário babilônico e, mais tarde, do calendário hebraico.

  • מְבַכּוֹתmevakkôt

    Particípio feminino plural do verbo bakah ('chorar'); descreve as mulheres no ato de lamentar ritualmente.

O que fazer com isso

O episódio lembra que a idolatria raramente se apresenta como abandono declarado da fé — ela costuma entrar disfarçada de acréscimo, como mais uma prática ao lado da adoração já existente. Vale perguntar, sem alarmismo, que costumes, símbolos ou rituais absorvemos do ambiente à nossa volta sem examinar se combinam com o que professamos crer. Não se trata de suspeitar de tudo que é cultural, mas de manter clareza sobre quem, de fato, ocupa o centro da devoção.

Passagens relacionadas4

Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.

Fontes consultadas5 obras
  • Keil, C. F. e Delitzsch, F.. Commentary on the Old Testament: Ezekiel, 1876.
  • Block, Daniel I.. The Book of Ezekiel, Chapters 1-24 (NICOT), 1997.
  • Zimmerli, Walther. Ezekiel 1: A Commentary on the Book of the Prophet Ezekiel, Chapters 1-24 (Hermeneia), 1979.
  • Jerônimo. Epístola 58, a Paulino, 395.
  • Koehler, Ludwig e Baumgartner, Walter. The Hebrew and Aramaic Lexicon of the Old Testament (HALOT), 1994.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

Tamuz é o mesmo deus que Baal ou Astarote?

Não. Tamuz é uma divindade de origem suméria/babilônica, associada ao pastor-deus Dumuzi, enquanto Baal e Astarote pertencem à tradição cananeia local. Eram cultos distintos, embora coexistissem na região na época de Ezequiel.

O mês judaico de Tamuz, ainda usado hoje, tem relação com esse deus?

Sim. O nome do quarto mês do calendário hebraico veio do calendário babilônico, adotado pelos judeus durante e depois do exílio, e mantém o nome dessa antiga divindade mesopotâmica.

Por que só mulheres aparecem chorando por Tamuz nesse versículo?

O luto ritual por Tamuz era tradicionalmente conduzido por mulheres em toda a Mesopotâmia, um padrão também citado em outros textos do Antigo Oriente Próximo. Ezequiel apenas registra essa prática como era conhecida na época.

Essa cena aconteceu de fato em Jerusalém ou foi só uma visão simbólica?

Ezequiel estava fisicamente na Babilônia quando recebeu essa visão (), mas os comentaristas entendem que ela revelava práticas reais que estavam de fato acontecendo no templo de Jerusalém naquele período, não apenas uma imagem simbólica sem correspondência histórica.

Temas

  • #Ezequiel
  • #Idolatria
  • #Antigo Testamento
  • #Cultos pagãos
  • #Exílio babilônico

Publicado em 23/08/2026

Construído sobre fontes em domínio público, listadas acima. Como produzimos. Encontrou um erro? Escreva para a redação.

O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 5 obras citadas, com autor e ano
  • 2 afirmações populares checadas e refutadas
  • 4 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

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